Enxergue seu Valor e Construa a Autoestima


Acreditar em si mesmo é uma necessidade vital para a vida equilibrada. Com dedicação, dizem os especialistas, todos podem chegar lá.

Revista Istoé - por Suzane G. Frutuoso

Antes de ler esta reportagem pare diante do espelho e faça um exercício sincero com você mesmo. Diga dez qualidades suas. Aponte também pelo menos cinco partes do corpo que lhe agradam. Observe ainda se é capaz de contabilizar mais pontos positivos do que negativos durante seu dia. Lembre o nome de cinco amigos que não são colegas de trabalho. E, com honestidade, assuma seus erros mais recentes. Não conseguiu? Sinal de que a autoestima vai mal - e isso pode prejudicar muito a vida de alguém. A falta de amor-próprio é um problema histórico do brasileiro, dono de uma autoimagem derrotista. Estudo da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR) aponta que 59% das pessoas no País têm pouca confiança em si. Quem tem baixa autoestima acaba atropelado pelo dinamismo do mundo, ou reage com violência às frustrações, ou mascara a insegurança com símbolos de status. O resultado vai de um simples incômodo a distúrbios mentais graves. Por isso, estimar-se é uma necessidade vital, que não tem nada a ver com arrogância, como se acreditava até 15 anos atrás.

Olhar-se no espelho disposto a fazer uma auto análise é o primeiro passo para resgatar a autoestima. "Observar-se e perguntar "o que há de melhor em mim" é um caminho para mudar o ponto de vista sobre quem você é, iniciando o processo de conhecimento interior", diz o consultor Sergio Savian, diretor da Escola de Relacionamento Mudança de Hábito, em São Paulo. Hoje, aprender a dizer "eu me amo" é compreendido como uma atitude saudável e indispensável para se sentir pleno. Por causa desta crença, estima-se que tenha aumentado em até 20% a procura por cursos e terapias com a finalidade de trabalhar a autoestima desde meados da década passada. Enaltecer em excesso a humildade e tachar pessoas seguras de metidas está em desuso. Uma série de pesquisas indicando as evidências positivas da autoconfiança reforça essa tese. A mais recente é da Universidade da Califórnia, publicada no mês passado no "Journal of Personality and Social Psychology", na qual os pesquisadores comprovam que pessoas com baixa autoestima estão mais sujeitas à depressão.

Há empresas que já entenderam a importância de reforçar a confiança dos funcionários. Perceberam que o assédio moral - quando há ameaças e humilhações - só resulta em queda de rendimento e pessoas infelizes. Uma equipe em equilíbrio gera melhores resultados, é comprometida e responsável. "As novas gerações não querem o stress que consumiu seus pais. Ou as empresas mudam, ou não conseguirão recrutar os bons profissionais", afirma o headhunter Ivan Witt, sócio-diretor da Steer Recursos Humanos. Um ambiente sadio, motivador e flexível, que permita ao funcionário se sentir especial, provocará uma revolução no mundo corporativo. Antenada com a tendência, a siderúrgica ArcelorMittal Tubarão, no Espírito Santo, desenvollveu programas pensando na saúde global dos empregados, com foco na autoestima deles e de suas famílias. Em encontros periódicos orientados por psicólogos, questões ligadas ao bem-estar são tratadas de maneira integral. Saúde física, emocional, relações afetivas e até sugestões de como lidar com dinheiro estão na pauta das reuniões.

"Incluímos os familiares ao percebermos que os problemas do funcionário não são isolados", diz a assistente social Sandra Sabadini, coordenadora dos programas. Mais de 80% da equipe já participou. A pressão e a cobrança do mercado existem. Porém, eles reagem melhor a esses desafios por estarem serenos. Nas avaliações internas, dão média 9 aos projetos. Segundo um estudo da Case Western Reserve University, quando são demitidos, indivíduos com boa autoestima culpam menos a crise e não sentem tanta raiva e pânico.

A confiança em si não excluirá tristezas e erros. Ajuda, porém, a lidar melhor com as adversidades, analisar os problemas, aprender com eles e seguir em frente. Sem drama, sabendo ouvir e sem culpar os demais - atitudes inerentes a quem tem baixa autoestima. A arquiteta Daniela Assunção, 34 anos, aprendeu isso, duramente, na prática. Ela viu um furacão passar em sua vida com o fim de um relacionamento de 11 anos. "Não sabia dizer não, me mesclei demais ao outro", conta. No final, nem identificava mais quais eram os seus reais desejos. A situação-limite aconteceu há cinco anos, quando descobriu que o ex tinha outra há meses. Além do amor, Daniela perdia o emprego na loja dele. Ainda assim, chegou a pedir para reatar. Comentários como "você é linda, nem precisa ficar triste" a deixavam pior. "Como se ser bonita me impedisse de sofrer", diz. Por três meses, não saiu de casa. Quando tomou coragem, viu que não sabia nem mais conversar. Foi o alerta de que uma mudança era urgente.

Daniela passou a escrever sobre seus sentimentos e a conversar na internet com pessoas na mesma situação. Deu início à sua autocura. Fez terapia, viajou pela Europa, aprendeu a meditar. "Me dei conta de que não preciso temer o erro", diz. Agora, se dedica à consultoria em feng shui (técnica oriental de harmonização dos ambie entes). Está solteira e feliz. "Pretendente não falta", brinca. Não ter medo de errar, como percebeu Daniela, é uma das principais características daqueles que têm autoestima. "Todos nós fracassamos em algum momento", disse à ISTOÉ o psiquiatra francês Christophe André, autor do livro "Imperfeitos, Livres e Felizes". "É preciso aprender a se perdoar e seguir em frente." Saber estimar-se verdadeiramente inclui não ter vergonha de desistir, de dizer "não sei", admitir que está com medo, que precisa de ajuda, tirar lições dos erros e deixar para trás as feridas.

Terapia em grupo é uma saída para quem precisa dar o primeiro passo da reconstrução pessoal. Foi o caminho que a escritora Gisela Rao, 44 anos, escolheu, para ajudar uma amiga. Em 2000 ela fundou um grupo no prédio onde morava para trabalhar a autoestima de mulheres em relações que ela chama de tóxicas. "Eu mesma venho de uma família com baixa autoestima", diz. "Por isso, repeti um padrão, me interessando por homens rejeitadores e que me faziam mal." Auxiliar o próximo eleva a crença na própria capacidade - como fez GiseIa. "O egoísta nunca está feliz", diz o consultor Savian. A escritora gostou tanto da experiência que a desengavetou este ano, criando o divertido blog Vigilantes da Autoestima. O desafio de Gisela é vigiar a segurança dela mesma durante 365 dias e servir de exemplo para as seguidoras do seu blog. "Minha auto estima triplicou", diz. Ela retomou os encontros com outras mulheres para discutir segurança, otimismo, autoaceitação. Em clima descontraído e com o respaldo de psicólogas, as reuniões acontecem uma vez por mês em São Paulo. Ao final dos 365 dias, lançará o livro com o nome do blog.

Vulnerabilidade à opinião de terceiros é outro traço marcante de quem não se sente seguro o suficiente. Foi a pressão externa que atrapalhou a carreira do produtor de eventos Gabriel de Ia Rosa, 25 anos. Durante a faculdade de hotelaria, conseguiu estágio na área de eventos e gostou da experiência. Mas era questionado, pois esse é um setor no qual se ganha menos e se trabalha muito. "Diziam que eu era bem preparado e estava me apaixonando por um trabalho menor", conta. As críticas geraram dúvida. Ele largou o trabalho por outro mais convencional e com um bom salário. Em nove meses estava arrependido. Saiu de lá com gastrite. Culpado por dar ouvidos aos outros, Gabriel passou dois meses em casa, com barba por fazer, até uma amiga o chamar de volta para o mercado. Com um salário menor, mas acreditando no novo emprego que lhe agradava, o produtor começou o resgate da autoestima. Hoje, cursa pós-graduação, há três meses faz terapia e está prestes a abrir a própria empresa.

Não gostar de si pode virar algo insuportável, e é característico da baixa auto estima. Um sinal de que o problema existe na nossa sociedade é o fato de boa parte das pessoas se sentir impedida de dizer apenas "obrigado" quando recebe um elogio ou um presente. Agradecer acompanhado de um "não precisava" ou "ah, essa blusa é velhinha" também é sinal de autoestima em desequilíbrio. Atitude comum da fonoaudióloga Vanessa Macedo, 29 anos. Bonita, simpática, formada em uma das melhores universidades do País, bem colocada em um acirrado concurso público, Vanessa não consegue acreditar quando a família e os amigos dizem que ela é capaz. "Admiro gente confiante, mas me falta estímulo para ser assim", diz. Ela ainda não tem certeza se deve fazer terapia, mas percebe que a falta de confiança prejudica suas relações.

Aqueles que conseguem construir a autoestima tão almejada não devem ter medo de expor essa conquista, dizem os especialistas. O empresário Eduardo Assunção, 40 anos, chegou lá. O processo foi sofrido. Dono de restaurante durante 15 anos, entrava em pânico quando precisava falar com mais de dois subordinados em uma reunião ou com clientes. Não sentia que era capaz de passar uma mensagem. Com taquicardia, nervoso, achava-se incompetente. Percebeu que não estava prosperando e precisava mudar. Depois de um curso de PNL, ele trocou de área (trabalha com soluções em web) e hoje dá palestra para auditórios lotados. Diz gostar de passar conhecimento e que aprendeu a ver em todo problema uma oportunidade. Não gosta quando as pessoas acomodadas chamam os bem-sucedidos de arrogantes. "Ninguém vê o que você fez para traçar um caminho de sucesso", diz Eduardo. Ele compreendeu que, querer o melhor para si mesmo, sem receio de vibrar pelas próprias alegrias, não tem nada a ver com prepotência. É direito de cada um.

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