Epidemia Workaholic


Jornadas diárias de 12 horas, fim de semana com trabalho e falta de tempo para o lazer. Saiba como lidar com essa realidade e conheca as histórias de quem já superou a neura.

Revista Você S/A - por Andrea Giardino, Murilo Ohl e Vanessa Vieira

No último ano, o pu­blicitário baiano Ni­zan Guanaes, de 54 anos, presidente do Grupo ABC e notório workaholic, tomou uma série de medidas para me­lhorar sua qualidade de vida. Começou a correr, pas­sou a se alimentar melhor e restringiu o número de viagens e de eventos sociais noturnos. Animado com os resultados que obteve para a própria saúde, resol­veu estimular os funcionários da Africa, uma das agências do grupo, a fazer o mesmo. Em janeiro deste ano, baixou a seguinte medida: às 8 da noite, as luzes da agência se apa­gam e todo mundo tem de ir embora.

Era de esperar que a medida encon­trasse grande respaldo entre os em­pregados. Mas não foi exatamente o que ocorreu no primeiro instante. "Ninguém achou ruim, mas também ninguém acreditou que fosse pra va­ler", diz um profissional de planeja­mento acostumado ao ritmo frenéti­co de Nizan. As reações à medida foram as mais curiosas. Para concluir um projeto, uma equipe de criação foi parar na casa de um cliente - de acordo com esse pessoal, o desligar das luzes atrapalhava a execução do
trabalho. Outro grupo, que aderiu à saída às 8, passou a chegar às 4 da manhã para dar conta do trabalho. A reação mais estranha foi a de um funcionário que perdeu a noção do tempo que lhe sobrava. "Ele veio à minha sala para perguntar o que fa­zer, como se não tivesse família ou amigos", diz Suzana Almeida, geren­te de recursos humanos da agência.

O caso da Africa ilustra bem duas situações que se tornaram corriquei­ras no mercado de trabalho. De um lado, a empresa impõe um ritmo in­sano aos funcionários. De outro, o profissional assume cada vez mais responsabilidades e atribuições em nome de um crescimento profissional, de um ideal de eficiência e em busca de atualização contínua para acom­panhar o mercado global. Os efeitos dessa dinâmica não têm sido benéfi­cos nem para a organização nem para o profissional. A boa notícia: dá para reverter esse quadro. Algumas em­presas já descobriram isso. Na agência de Nizan, depois de quatro meses sob o novo horário, o clima de trabalho melhorou e o nível de estresse é menor. Há também casos de pessoas que já superaram essa neura, renegociando as prioridades com o chefe ou mudando de emprego.

Do lado do profissional, a mu­dança quase sempre vem depois de um grande baque: pode ser uma doença, a morte de alguém próximo ou qualquer outra coisa que leve a pessoa a fazer uma grande revisão da vida. Durante os últimos 20 anos, o médico Gilberto Ururahy, diretor do laboratório carioca de diagnósticos Med-Rio, examinou a saúde de executivos que lá realizaram mais de 50000 check-ups. Os números obtidos por ele são alarmantes. Hoje, 70% dos gestores brasileiros convivem com altos níveis de estresse, 50% são obe­ sos, sujeitos a doenças cardíacas e diabetes, e 8% sofrem de depressão. Gilberto também resolveu investigar o que há por trás de um quadro tão negativo. Colecionando os relatos de pacientes, ele fez a seleção que está no quadro abaixo:

"Trabalho 60 horas por semana" ; "Estou 24 horas plugado no meu smartphone" ; "Eu preciso sempre conquistar mais" ; "Não basta ser competente, preciso ser eficaz e inovador" ; "Vivo em fadiga permanente."

Diante dessas frases (você pro­vavelmente já disse algumas delas), Gilberto não tem dúvi­das em afirmar: "A forma como se trabalha hoje promo­ve um estilo de vida doente". Para o filósofo francês e consultor empresarial Jean Bartoli, que há mais de 25 anos vive no Brasil, cresceu a percepção de que o dia fi­cou mais curto e a jornada, mais acelerada. "O perfil do workaholic, que nos anos 1990 ainda era exceção, se generali­zou", diz. A compulsão pelo tra­balho virou uma epidemia.

Antes, eram casos isolados, de indivíduos que encontravam no trabalho uma fuga para as frustrações da vida, ou de determinadas pessoas dependentes de adrenalina que usavam o trabalho para obter a carga hormonal neces­sária para satisfazer seu sistema nervoso. Resumindo, o workaholic do passado era uma pessoa que usa­va o trabalho para mascarar um desequilíbrio pessoal. .

Esse quadro continua existindo mas não explica totalmente o que ocorre hoje nos escritórios. Isso por­ que a sensação de trabalho excessivo acomete do estagiário ao presidente da companhia. As pesquisas de clima interno das organizações comprovam isso. No escritório do laboratório far­macêutico Boehringer Ingelheim em Sâo Paulo, por exemplo, os funcio­nários têm a opção de trabalhar de casa uma vez por semana. A carga elevada de trabalho, no entanto, tem impossibilitado que o pessoal usufrua o benefício. Prova disso é a sala de videogame da sede da Boehringer, que vivia vazia e agora foi transfor­mada em sala de reunião. As queixas pela carga elevada de trabalho já che­garam aos ouvidos do RH, que defen­de que os funcionários precisam gerenciar melhor o tempo.

O número de profissionais insatis­feitos com a pressão e a carga de trabalho oscilou na casa dos 40% na última década no Brasil, segundo os dados da consultoria Towers Watson de São Paulo, que aplica pesquisas de clima em grandes companhias brasileiras e em multinaci ionais que atuam no país. Isso sugeriria que a neurose do trabalho está sob contro­le. Mas não é bem assim. Na felici­dade dos profissionais há forças opostas agindo. De um lado, as em­presas melhoram benefícios e proporcionam mais conforto aos funcio­nários, com bons planos de saúde, massagem e academia de ginástica na sede ou horário flexível. Mas essas vantagens apenas mascaram as atuais condições de trabalho: a pres­são por desempenho aumentou, as equipes estão menores e são forma­das por jovens inexperientes, e os salários estão mais baixos, levando em consideração o nível de respon­sabilidade. "O índice permanece constante porque as organizações aprimoram alguns pontos para com­pensar a permanente busca por efi­ciência operacional", diz Cyro Maga­lhães, consultor da Towers Watson. 

• Entrevista: Assuma o controle

Para evitar o trabalho excessivo, é preciso assumir res­ponsabilidade sobre as escolhas de carreira, diz o inglês Nigel Marsh, de 48 anos, presidente de uma empresa do
grupo Young & Rubicam, em Sydney, na Austrália. Em dois livros (inéditos no Brasil), ele relata sua jornada em busca de qualidade de vida a partir do momento em que se viu, aos 40 anos, demitido e obeso.

Como você vêo mundo das empresas hoje? Fico abis­mado com as organiza­ções e seus líderes. Acho que as corporações são abatedouros da alma hu­mana. Ainda temos um longo caminho pela frente até encontrar o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. A natureza das empresas é fazer o profissional trabalhar o máximo possível. Elas querem fazer dinheiro. Eu não sou contra o capitalismo. Trabalhei a vida inteira com publicidade, que é uma das áreas mais competitivas que existem. Mas, em geral, as em­presas me desapontam.

Como resistir à pressão e não aceitar esse sistema? Cada um de nós tem de criar res­ponsabilidade. Saber dizer "não" com educação. Eu também acho que as pessoas têm a obrigação de não reproduzir padrões inadequa­dos de comportamento no traba­lho. Quero crer que, quando um profissional mais novo chega ao cargo de gerente, ele será melhor e não cometerá os mesmos erros do gerente antigo que o liderava.

Falta consciência para mudar de comportamento? As pessoas não têm coragem. Pre­cisam assumir seus atos. Ninguém precisa pedir desculpas por sair na hora certa do tra­balho. Não há nada de errado com isso. Agora, as pessoas têm de lidar com a realidade na qual estão inseridas. Se você tem um chefe carrasco, não tenho nenhuma outra sugestão além de aconselhar mudar de em­prego. Ele não vai melhorar. Se você não tem alternativa, então, faça seu trabalho até criar uma.

Quando você percebeu que as coisas estavam tomando um rumo errado na sua vida? Quando perdi meu emprego. Tinha um cargo bom. Estava trabalhando bastante, fazendo tudo como man­dam as regras, e fui demitido. Obri­guei mulher e quatro filhos a mudar de hemisfério por um trabalho que me deixou na mão. Era hora de repensar os rumos. Em momentos da vida como esses, você precisa parar e pensar, ou quando um ami­go sofre um acidente ou alguém próximo está com uma doença ter­minal. Eu quis dar um tempo de tudo. Fiquei um ano sem trabalhar. Claro, eu tinha recursos para isso, não é um exemplo para todo mun­do. O que você precisa é estar
atento a cada decisão, incluir o fator qualidade de vida nelas.

 "Não tinha maturidade para administrar a pressão"

José Ignácio Villela Júnior, de 40 anos, consultor e diretor do Insti­tuto de Educação Tecnológica de Belo Horizonte, era, há dez anos, diretor de uma multinacional de auto peças. Na época, sua jornada che­gava a 16 horas de trabalho, inclusive aos sábados. "Eu não tinha maturidade pro­fissional para administrar a pressão", diz ele. Alimen­tava-se mal e ganhou pe­so. Um dia foi parar na en­fermaria com pressão altís­ sima. "Disseram que eu es­tava à beira de um infarto". Ele resolveu mudar de car­reira. Preparou-se durante um ano para ser consultor. Feita a transição, inves­tiu na aquisição de qualida­de de vida. Perdeu 25 quilos em nove meses. Hoje, almo­ço e jantar são tratados co­mo compromisso na agenda, assim como buscar os filhos na saída da escola duas vezes por semana. "A rotina deve estar afinada com o nosso propósito de vida", diz José Ignácio.

" O trabalho me custou um casamento"

Ivana Loureiro, de 37 anos, coordenadora de desenvolvimento de ta­lentos da empresa de soft­ware Totvs, em Goiânia, teve um casamento desfei­to por causa dos sete anos de rotina desequilibrada enquanto foi diretora de TI de uma estatal amazonense. Ficou quatro anos sem férias. Matriculava-se em academias de ginás­tica, mas não as frequen­tava. Ingressou num MBA, mas abandonou o curso. "Afastei-me do meu marido e acabamos nos separan­do", diz. Ela só reviu sua vi­da com a morte do pai. Na
época, ela também enfren­tava problemas de saúde. Decidiu deixar o emprego. Hoje, casada novamente, mãe de um filho e num em­prego novo, faz uma refle­xão sobre o passado. "Não era só a empresa, era a mi­nha atitude errada de acei­tar muitas tarefas", diz.

• Negocie com o chefe

Como nada indica que as companhias mudarão essa lógica, cabe ao profis­sional negociar com a chefia e esta­belecer limites saudáveis. Por mais dura que seja a conversa, essa é a única saída. "Existe uma crença entre os executivos brasileiros de que efi­ciência é dizer sempre "sim" para não contrariar o chefe", diz a coach ca­rioca Eliana Dutra. "Mas é preciso saber aprender a questionar e nego­ciar as ordens com argumentos ra­cionais." Para a psicóloga Liliana Schelíga, diretora da Mind Solutions,
clínica especializada em programas de assistência psicossocial, por mais que exista pressão o profissional deve assumir a responsabilidade apenas sobre aquilo que dá conta de fazer. "Cada novo compromisso terá impac­to sobre sua saúde e vida pessoal e é preciso ter uma percepção de nossas limitações, para evitar frustrações", afirma Liliana. "Por mais que nos sin­tamos sob pressão, sempre temos uma opção", diz ela.

Essas escolhas diárias dev l;a entre os executivos brasileiros de que efi­ciência é dizer sempre "sim" para não contrariar o chefe", diz a coach ca­rioca Eliana Dutra. "Mas é preciso saber aprender a questionar e nego­ciar as ordens com argumentos ra­cionais." Para a psicóloga Liliana Schelíga, diretora da Mind Solutions,
clínica especializada em programas de assistência psicossocial, por mais que exista pressão o profissional deve assumir a responsabilidade apenas sobre aquilo que dá conta de fazer. "Cada novo compromisso terá impac­to sobre sua saúde e vida pessoal e é preciso ter uma percepção de nossas limitações, para evitar frustrações", afirma Liliana. "Por mais que nos sin­tamos sob pressão, sempre temos uma opção", diz ela.

Essas escolhas diárias deveriam ser norteadas por uma meta de car­reira. É o que sugere o consultor José Valério Macucci. Para ele, é preciso ter claro qual é seu conceito de sucesso e depois questionar qual é seu ideal de felicidade. Em seguida, deve-se avaliar se esses dois concei­tos estão alinhados. "Só assim o pro­fissional poderá saber se tem assu­mido os compromissos certos para assegurar sua felicidade, ou se está comprometendo sua saúde em prol de um ideal que não é o dele", diz.. Há alguns anos, Valério, que fez car­reira em multinacionais de consul­toria e auditoria e no Banco Itaú, onde foi executivo de recursos humanos, trocou a vida executiva pela carreira acadêmica e a cidade de São Paulo, onde morava, pela pacata Vi­nhedo, no interior paulista. Tudo isso em busca de maior qualidade de vida e tempo para a família.

O movimento de carreira de Valério ensina uma lição importante: para administrar bem o fluxo, a saída é ter clareza de seus objetivos no trabalho e na vida. Valério queria ter mais tem­po livre para a família quando decidiu não retornar ao mundo executivo depois de sair do Itaú. "É preciso ter critérios claros para definir o que é realmente importante", diz o filósofo Mario Sergio Cortella, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Do contrario, é muito fácil ser dirigido pela agenda do chefe ou
por prioridades que não estão alinha­das aos seus planos pessoais.

• O limite da Sanidade

Trabalhar duro faz parte da vida. Ser viciado em trabalho, não. Encontre o limite entre a dedicação saudável e a obsessão.

Trabalhar duro é ...

Ser workaholic é ...

Ver o trabalho como necessidade.

Usar o trabalho para fugir de questões pessoais ou de sentimentos.

Tentar estabelecer limites nas tarefas.

Preencher a vida pessoal com trabalho.

Sofrer por não estar com a família.

Marcar e cancelar compromissos, desapontando familiares e amigos. 

Detestar tarefas impossíveis de serem cumpridas.

Ficar alvoroçado para receber novas missões impossíveis.

Ficar pensando em trabalho durante os momentos de lazer.

Desligar a chavinha do trabalho quando deixa o escritório.

"Chorava a noite toda"

O engenheiro Ricardo Alfeu, de 50 anos, presidente da RKM Engenha­ria, de Belo Horizonte, teve por 17 anos o hábito de trabalhar de 15 a 18 horas por dia na empresa que fundou. O tempo para a família e os amigos era quase zero. Nesse ritmo, des­fez o casamento. "De repente, me vi sozinho. Minha mulher e minha filha mudaram-se e
eu não tinha amigos", diz. O desequilíbrio levou à depres­são. "Chorava a noite toda e, no dia seguinte, levantava e ia para o escritório." Para su­perar o quadro, teve de recorrer a remédios. Durante o tratamento, descobriu o zen­ budismo. "Percebi que exis­tem riquezas muito mais va­liosas que os bens materiais e fui me reconstruindo", diz Ricardo. Agora, ele só che­ga à empresa à tarde. Acor­da cedo para meditar, depois corre ou pedala. Durante a manhã, trabalha de casa. Passou a promover qualida­de de vida na empresa. Instalou uma sala de meditação e mudou o con­trato de todos. "Não há mais cartão de ponto. As pessoas são cobradas por resultados, não pelo horário."

"Sou Workaholic assumida."

A paulistana Patrícia Vasconcellos, de 28 anos, gerente-geral da Levitas, academia e centro de estética, fisiotera­pia e nutrição, em São Pau­lo, é uma workaholic assumida. Mesmo trabalhando num ramo em que saúde é o cartão de visitas, ela conta que já passou do li­mite por causa do trabalho. "Um dia, quase desmaiei na rua", diz. Foi fazer exa­mes e descobriu que tinha labirintite e uma úlcera, re­sultado de gastrite nervosa. Ficou afastada do trabalho duas semanas e, com esfor­ço, conseguiu incluir cor­rida, pilates e uma massa­gem semanal na agenda. Mas não aprendeu direito a lição. "Acordo às 5 e meia, entro às 9 e não tenho hora para sair", diz Patrícia, casada, com um filho e um celular que nunca é desligado. "Tenho uma operação para tocar."

• Isto é com você

Conheça alguns comportamentos de quem pode se tornar um workaholic.

- O ultradetalhista

É a pessoa que quer ou faz tudo perfeitinho, nos mínimos detalhes, ou não faz nada. Quando começa uma tarefa, ela a leva até o limite da exaustão.

- O degustador

Ele fica curtindo um serviço até não poder mais, como um alcoólatra faz com a bebida. Os americanos chamam esse tipo de "saboreador". No fundo, a pessoa é insegura e teme nunca ter feito o trabalho suficientemente bem.

- O incansável

Quer tudo para ontem e preci

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