Equilíbrio Essencial


Psique e sistema imunológico estão estreitamente ligados; o balanço dessa complexa relação repercute na saúde.

Revista Scientific American - por Karl Bechter e Katja Gaschler

É claro que sei que o stress debilita as defesas do corpo", escreve um internauta em um fórum sobre saúde. "Mas ouvi dizer que o stress também pode estimular o sistema imunológico. Como explicar esses efeitos contrários?"

É exatamente essa a pergunta que os cientistas se fazem há anos. Que a irritação e o tumulto do dia-a-dia influenciam o sistema imunológico "de alguma maneira", isso já se sabe há muito tempo. Só que de fato os resultados pareciam contraditórios. Em alguumas experiências, a concentração de certas células de defesa diminuía, e em outras acontecia o contrário. Ou seja: se o stress enfraquece o sistema imunológico, por que então no caso das doenças auto-imunes ele é capaz de piorar as reações "extravagantes" desse mesmo sistema?

A confusão deve-se a diversas razões. Por um lado, o sistema imunológico representa uma complexa rede de inúmeros componentes, cujos efeitos correlatos ainda não foram plenamente entendidos. E, por outro, stress não quer dizer sempre stress: se um jovem universitário está pendurado por uma corda de bungeejumping e olha para o precipício, ou se sente medo das provas, em cada uma dessas situações o stress é diferente.

Em julho de 2004, os pesquisadores americanos Suzanne Segerstrom e Gregory Miller publicaram uma avaliação sistemática de mais de 300 estudos sobre o tema ao longo dos últimos 30 anos de pesquisa sobre o stress. Com isso, mostraram que está cada vez mais clara a maneira como cargas psíquicas diversas atuam sobre o sistema imunológico. Além disso, estudos mais recentes fornecem indícios de como podemos influir mentalmente sobre as defesas de nosso organismo.

Antes, porém, cabe voltar às origens da pesquisa sobre o stress. Nos anos 70 o endocrinologista vienense Hans Selye formulou a hipótese de que o stress reprime a resposta imunológica. Duas décadas depois, chegou-se a postular que as sobrecargas psíquicas persistentes de fato predispunham a um número razoável de doenças. Naquela época estava em alta a idéia de que as características naturais de cada pessoa eram decisivas nessa questão. Apesar de todos os esforços, não foi possível provar a existência de algo semelhante a uma "personalidade amedrontada com tendência ao câncer".

Durante algum tempo, supervalorizou-se o papel do stress no surgimento das doenças. Ainda assim, não se discute mais o fato de que sobrecargas psíquicas realmente influem no surgimento e desenvolvimento de muitos prooblemas de saúde porque alteram o quadro imunológico. Há mais de dez anos, o psicólogo Sheldon Cohen, da Universidade Carnegie Mellon, publicou um estudo no renomado New England Journal of Medicine, revelando o efeito negativo do stress sobre infecções das vias respiratórias. Cohen agrupou diversos voluntários com vírus causadores de resfriados e constatou uma correlação clara entre a intensidade dos sintomas e o nível de stress dos atingidos. Além disso, diversas pesquisas sugerem a influência do stress na ocorrência de esclerose múltipla, asma, artrite reumatóide e alergias.

  • Defesa em dois tempos

Para entender as interações entre psique e sistema imunológico devemos considerar mais atentamente o modo pelo qual ambos se relacionam. O corpo dispõe de múltiplas possibilidades de rechaçar invasores externos. Se um agressor, a despeito das barreiras anatômicas oferecidas pela pele e mucosas, consegue invadir o organismo, o corpo põe em ação todo um arsenal.

Para os especialistas em stress, só faz sentido distinguir as duas principais estratégias de defesa do sistema imunológico. A imunidade inata (ou inespecífica) reage com rapidez: dentro de minutos ou horas. Grosso modo, ela estimula diferentes tipos de células polivalentes a combater os agressores, sejam quais forem, até mesmo quando completamente estranhos. Essas células emitem moléculas mensageiras com funções regulativas - as citocinas -, que, entre outras coisas, ocasionam febre e inflamações. Também são parte das defesas inatas as chamadas células assassinas (linfócitos NK, do inglês natural killer) , que se ligam a células infectadas ou degeneradas e as induzem a adotar um programa "suicida" de auto-eliminação.

Em compensação, para consstituir sua segunda frente de defesa o corpo precisa de alguns dias. Diversas espécies de linfócitos assumem aqui a função de destruidores específicos, mas a cada vez se multiplicam apenas as células especializadas em reconhecer uma característica peculiar do agressor que invadiu o organismo: o antígeno. Os linfócitos-T, por exemplo, atacam células contaminadas que apresentam o antígeno do agressor na própria superfície. Linfócitos-B, por sua vez, produzem anticorpos que se ligam a causadores de doenças, a fim de que estes sejam reconhecidos com mais facilidade pelos macrófagos.

Há ainda dois outros tipos de linfócitos-T que participam da defesa imunológica: células- Th1 produzem a citocina que estimuIa a resposta imune e com isso apóiam a destruição de células contaminadas, enquanto as célulassTh2 liberam citocinas que tratam sobretudo de reforçar a defesa já adquirida e, ao mesmo tempo, pôr fim às reações inflamatórias.

Como pode a psique - por meio do c& érebro - influenciar as funções imunológicas? Entre os principais agentes está o sistema simpático, parte do sistema nervoso autônomo que tem efeito "estimulador" sobre o organismo. As fibras nervosas do simpático comunicam-se com órgãos importantes do sistema imunológico: medula óssea, timo, baço e nodos linfáticos. Além disso, o sistema simpático dispõe de uma ligação direta com a medula supra-renal que, ativada por ele, lança no sangue grande quantidade de adrenalina e noradrenalina. Muitas células de defesa possuem receptores especiais aos quais esses dois hormônios do stress irão se ligar. Por meio de uma cadeia de sinais essas substâncias impedem ou estimulam a leitura de determinados genes, controlando assim, por exemplo, quais citocinas serão produzidas e em que quantidade. Em seguida, outra estrutura cerebral, o hipotálamo, estimula por meio da hipófise as glândulas supra-renais a liberar cortisol, hormônio que inibe a inflamação e está ligado ao stress. Também essa substância encontra receptores especiais em células imunitárias, como nos macrófagos e linfócitos-T.

A estratégia de defesa em duas fases explica por que o stress pode tanto fomentar quanto reprimir o sistema imunológico. Para exemplificar, vamos fazer uma viagem à pré-história: imagine que você tenha roubado a mulher de Léo, um homem muito forte da tribo vizinha. Ao se encontrarem, ele agita a clava, furioso. Essa visão desencadeia em você a "reação de luta ou fuga": os pêlos se arrepiam, o coração dispara, o sangue irriga os músculos e assim por diante. O sistema imunológico, porém, já está se precavendo contra as infecções dos ferimentos que seu oponente enfurecido poderá lhe impor.

O exemplo não é dos mais atuais, mas, como explicam Segerstrom e Miller em seu estudo, situações de stress de curta duração realmente intensificam a resposta imunitária inata. Quando, por exemplo, num experimento científico, pede-se a uma pessoa que faça um discurso de improviso ou resolva tarefas de cálculo de cabeça, o número de linfócitos NK aumenta rapidamente. Isso não significa que houve um recrutamento de tropas novas, mas antes uma reorganizaação do exército já disponível. As células de defesa inespecíficas são deslocadas através da corrente sanguínea e posicionam -se no front mais avançado para tratar o quanto antes de mordidas, arranhões e cortes na pele e nos músculos. Ao mesmo tempo - sugere o estudo - são reprimidos alguns aspectos da resposta imunitária específica, por exemplo a multiplicação de células-T.

Um efeito muito diferente é ocasionado pelo stress de longa duração, que surge quando a pessoa atingida precisa redefinir sua identidade ou seu papel social: um acidente com sequelas graves, uma doença crônica ou mesmo a perda do emprego. Pesquisas revelam efeitos negativos muito claros, seja sobre a imunidade inata, seja sobre a imunidade adquirida.

Mas como explicar a influência do stress nas doenças auto-imunes? Ao contrário da noção corriqueira, nelas o sistema imunológico não fica simplesmente "hiperativo". Observa-se uma redução do número de linfócitos. O problema é que determinadas células-T agridem células inócuas do corpo por engano. Em abril de 2004, Cecile King e sua equipe da Universidade da Califórnia demonstraram em animais como essa população de células se multiplica intensamennte quando as defesas imunitárias estão enfraquecidas. Trata-se provavelmente da tentativa de compensar danos causados por infecções ou por stress.

As mudanças do sistema imunológico pelo stress são compreendidas como adaptações evolutivas que na verdade estão a serviço da saúde. Mas quando a sobrecarga dura muito tempo, o cérebro e as células imunitárias acostumam-se aos quadros hormonais característicos do stress e perdem com isso a capacidade de reagir a eles. Ao se tomar insensível, o sistema de stress acaba tornando seu portador mais suscetível a doenças. E, em casos extremos, as defesas entram totalmente em colapso e começam a se comportar de forma estranha. Um fator decisivo de risco é a idade: quanto mais primaveras de vida, maior a dificuldade do sistema imunológico de dar conta do stress.

O que podemos apreender desses resultados para lidar com as sobrecargas psíquicas do dia-a-dia? É praticamente impossível evitar por completo o stress cotidiano.

Na luta contra infecções importa saber se estamos entre os otimistas ou entre os realistas. Quanto a isso, chamou a atenção o estudo concebido em 2003 pela psicóloga Melissa Rosenkranz, da Universidade de Wisconsin. Ela pediu a seus voluntários que evocassem lembranças de momentos alegres e tristes e então acompanhou seus impulsos elétricos cerebrais. Com isso, identificou atividade assimétrica no córtex pré-frontal em alguns voluntários. E de fato, estados de espírito negativos e até mesmo depressões, segundo alguns estudos, estão correlacionados com a ativação excessiva do lado direito, ao passo que pessoas com mais "alegria de viver" apresentam o córtex pré-frontal esquerdo comparativamente mais ativo. Os participantes tomaram injeção contra gripe para que seu sistema imunológico fosse analisado. Geraram mais anticorpos os que tinham atividade maior no lado esquerdo do cérebro. O estado emocional teve efeito mensurável sobre a função do sistema de defesas próprio a cada corpo. "Tornar-se mais sereno" certamente é um projeto em que a maioria das pessoas de nosso tempo precisaria investir muito esforço.

Psique e sistema imunológico estão imbricados um no outro como em uma filigrana. Quando se puxa um dos fios dessa delicada trama, todo o conjunto se movimenta. Todavia, nem sempre está claro o que é causa e o que é efeito. Sabe-se que infecções causadas por vírus e bactérias influenciam o cérebro, de maneira direta ou por meio da resposta imunológica, e podem desencadear doenças psíquicas. Para superar a visão dualista de corpo e espírito, precisamos compreender a atuação do sistema imunológico sobre a psique.

  • Os animais de Borna

É ó ano de 1894. Na cidadezinha de Borna, a 30 km de Leipzig, tudo parece normal à primeira vista: as pessoas cuidam de seus afazeres, e o gado pasta no campo. Mas os cavalos não estariam apáticos demais? Assim como as vacas e ov unológico estão imbricados um no outro como em uma filigrana. Quando se puxa um dos fios dessa delicada trama, todo o conjunto se movimenta. Todavia, nem sempre está claro o que é causa e o que é efeito. Sabe-se que infecções causadas por vírus e bactérias influenciam o cérebro, de maneira direta ou por meio da resposta imunológica, e podem desencadear doenças psíquicas. Para superar a visão dualista de corpo e espírito, precisamos compreender a atuação do sistema imunológico sobre a psique.

  • Os animais de Borna

É ó ano de 1894. Na cidadezinha de Borna, a 30 km de Leipzig, tudo parece normal à primeira vista: as pessoas cuidam de seus afazeres, e o gado pasta no campo. Mas os cavalos não estariam apáticos demais? Assim como as vacas e ovelhas? Os animais parecem depressivos, recusam alimento, estão febris e têm dificuldades de movimentação. Para a maioria deles, esse estado termina em uma ou duas semanas, com a morte.

Só 30 anos mais tarde, o virologista Wilhelm Zwick (1871-1941) descobre que a misteriosa doença era provocada por um vírus que designou de acordo com a cidade em que se fazia sua primeira descrição: o borna-vÍrus. o agressor fixa-se no sistema Iímbico de mamíferos, centro da afetividade no cérebro. E é provável que também humanos possam infectar-se - ao menos o sangue de alguns de nós apresenta anticorpos contra ele.

Vírus não são considerados seres autônomos, pois para multiplicar-se dependem das células de outro organismo. Depois da contaminação, essas células passam a multiplicar o genoma do agressor e com isso produzem uma nova geração de vírus. Para combater esses piratas celulares, é normal que o sistema imunológico aja de maneira arrasadora: células contaminadas são simplesmente aniquiladas, e com elas todo seu conteúdo.

No cérebro, ou na medula espinhal, uma defesa do gênero acarretaria danos irreparáveis. Essses tecidos têm uma grande peculiaridade: no organismo adulto as células nervosas novas se formam em quantidades pequenas demais para reconstruir estruturas. Para os vírus que acometem o sistema nervoso central, esse fato constitui uma vantagem tática sem igual. Isso obriga nossas tropas de defesa a escolher aqui uma estratégia diferente. Em vez de simplesmente destruir as células contaminadas, precisam agir de maneira muito mais cuidadosa. Para tanto, adotam uma série de mecanismos complicados e altamente especializados, por meio de anticorpos e células imunes especiais em condições de controlar a multiplicação e disseminação do agressor. Quando o tecido nervoso é acometido, muitas vezes os vírus não são mais afastados dali por completo. Com isso, vamos acumulando ao longo da vida um número cada vez maior de agressores no cérebro e na coluna espinhal.

Uma boa notícia: normalmente não se notam os danos que os vírus ocasionam no cérebro. Em alguns casos, porém, os vírus - assim como as bactérias - causam uma resposta auto-imune. O sistema defensivo começa de repente a atacar tecidos do próprio corpo que vê como "estranhos", levando-o a uma espécie de inflamação crônica.

Uma razão possível desse equívoco seria a chamada mimetização molecular. Alguns causadores de doenças possuem moléculas protéicas muito semelhantes a proteínas do corpo. Quando, depois de uma contaminação, células imunitárias dirigidas especificamente contra o invasor se multiplicam em massa para combater o inimigo, pode ocorrer que elas ataquem uma molécula do próprio corpo, por confundi-Ia com uma estrutura estranha.

E o borna-vÍrus? É provável que os animais da cidadezinha estivessem sofrendo reações imunitárias extravangantes desencadeadas pelo agressor. O vírus era conhecido havia bastante tempo em cavalos, ovelhas, bovinos e lebres. Em 1980 SybilIe Herzog e Rudolf Rott, do Instituto de Virologia da Universidade de Giessen, foram os primeiros a comprovar a presença de anticorpos contra o borna-vÍrus em seres humanos.

Nossa equipe de trabalho na Universidade de Ulm, em cooperação com o Instituto de Virologia de Giessen ocupou-se por mais de 20 anos com a atuação do borna-vírus no ser humano. Buscamos a presença de anticorpos contra o vírus no sangue e no liquor de mais de 10 mil pessoas, regisstrando suas alterações cerebrais com técnicas de imageamento. O resultado foi que cerca de 6% dos pacientes psiquiátricos tinham anticorpos específicos contra o borna-vÍrus. Assim, é muitíssimo provável que o borna-vÍrus possa não apenas contaminar seres humanos, mas desencadear neles sintomas psiquiátricos.

Segundo nossas pesquisas, somente cerca de 10% das pessoas com o vírus chegam a adoecer. O desencadeamento da doença parece depender principalmente de fatores hereditários e do estado de seu sistema imunológico. Em humanos os quadros clínicos variam consideravelmente, indo de leves distúrbios de personalidade e de estado de espírito até depressões profundas ou psicoses esquizofrênicas.

A descoberta de novos agressores capazes de ocasionar esquizofrenia ou depressão é apenas questão de tempo. Cresce o número de pesquisadores que começam a considerar os microrganismos ao investigar a origem de diversas doenças neurológicas e psiquiátricas. Por isso, procedimentos terapêuticos futuros deveriam levar em conta as interações entre os causadores das doenças, o sistema imunológico e os distúrbios psíquicos e neurológicos.

Saiba Mais

The end of stress as we know it. B. McEwen e E. Norton-Lasley. Joseph Henry Press,2003.
Psychological stress and the human immune system: a meta-analytic study of 30 years of inquiry. S.C. Segerstrom e G. E. Miller, em Psychological Bulletin, vol. 130, nº 4, págs. 601-630, 2004.

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