Equipes de alta performance


Pedro Mandelli fala sobre a diferença que os profissionais multi fazem para as empresas.

Revista liderança - por Cristiane Dias

Uma jaula com um urso dentro. Um urso grande e babão acostumado a viver naquela jaula há três anos, com seus costumes, hábitos e cultura própria. De repente, chega uma "ursinha", calma, bonita e toda mimosa. Ao chegar à jaula do "ursão", fica assustada por não saber como agir diante dele. Inexpe­riente, ela quer fazer tudo com calma, da forma como foi criada, mas ele já age diferente, é impulsivo.

É como se a ursinha transparecesse o comportamento de novos profissionais entrando no mercado e o ursão fosse o próprio mercado, a empresa competitiva que, ao contratar alguém, quer "experimentar" algo diferente. Essa analogia foi apresentada por Pedro Mandelli, palestrante e consultor na área de mudança organizacional e sócio-diretor da Mandelli Consultores Associa­dos. Considerado um dos melhores professores de MBA do Brasil e autor do livro Muito além da hierarquia, ele esteve em Curitiba para uma palestra sobre carreira e crescimento profissional. Aproveitamos a passagem dele pela capital paranaense, acompanhamos sua palestra e também o entrevistamos com exclusividade para a revista Liderança.

• A palestra

Com o tema Empresas buscam profissio­nais que tenham postura organizacional e vontade de vencer, Mandelli começa explicando a todos os presentes algumas características do cenário organizacional de hoje. Atualmente, as empresas estão mais competitivas e querendo profissionais igualmen­te competitivos. Se a organização
cresce, você também deve crescer ou vai perder o andar da carruagem e ser devolvido para o seu habitat natural.

Em seguida, ele alerta sobre a competitividade. Para Mandelli, as empresas competitivas exigem que você faça escolhas e, nelas, talvez não encontre o famoso equilíbrio entre vida pessoal e profissional, pois vão demandar mais tempo, trabalho e dedicação. E você terá nas mãos a oportunidade de escolher se quer ou não fazer parte delas. Outro fator que contribui para a carreira é não esperar estabilidade nas organizações. Mandelli conta que, um dia, perguntou para um executivo qual tinha sido a última vez que recebera uma proposta pa­ra mudar de emprego. O executivo respondeu que fora há nove anos e Mandelli, incisivo, disse a ele: "Era exatamente naquele momento que você deveria ter saído de lá".

O palestrante aproveitou o momento para classificar esse tipo de funcioná­rio que passa anos e anos na mesma empresa e função como profissional mono. Aconselhou que todos busquem experiências novas, pois as empresas competitivas não querem profissionais mono, mas multi. Confira, agora, a entrevista exclusiva que fizemos com Pedro Mandelli!

Liderança - Como você define o começo de uma carreira?

Pedro Mandelli - O começo de carreira historicamente é um pouco complexo. Há 20 anos, você conhecia a empresa pela base, aprendia sobre ela estando lá dentro. Hoje a empresa pede que você tenha alguma profissão antes de estar nela. Tem que estudar e se preparar muito mais, ou seja, deve preparar suas competências técnicas para se candidatar a uma organização. Eu costumo até brincar que, se você pegar o teste que é feito para trainees na sua empresa e aplicar nos líderes; eles não passam, justamente porque essa cultura mudou.

Liderança - Considerando que a maioria dos jovens universitários entrará nas empresas e que fazem parte da geração Y, você acha que eles estão mais preparados para esse ingresso no mercado?

Pedro Mandelli - A característica dos jovens é a inquietude, mas não é só dessa geração Y, não. Na minha época, eu também era assim. Nós sempre tivemos a inquietude dos jovens, a iniciativa e a vontade de fazer as coisas. O que diferencia tudo é a questão da opressão. Os chefes mudaram - antes eram rigorosos, tinham carreira garantida; a sala deles era separada das demais, se alguém quisesse falar, tinha que marcar hora; eles chegavam mais tarde e saíam cedo, etc. E quem é o líder de hoje? É aquele que faz e mostra resultado ou está defi­nitivamente fora. As coisas foram mudando e não teve jeito. Hoje os profissionais podem se capacitar a todo instante, as empresas redu­ziram a opressão e aumentaram a liberdade. Quando se faz isso, se tem a sensação de um comportamento diferente dos jovens, mas eles con­tinuam sendo os mesmos de antes, só que com mais liberdade, o que faz toda a diferença.

Liderança - Como você vê essa questão de liberdade e a relação dela com o desenvolvimento dos profissionais dentro da empresa?

Pedro Mandelli - Com muito bons olhos. Acho im­portante que as organizações deem essa liberdade aos profissionais e os capacitem. Todas as empresas com visão estão fazendo investimen­tos para desenvolver um grande conjunto de pessoas, para que elas façam diferença nas organizações, nos seus projetos e contribuam pa­ra o crescimento do negócio. Uma empresa precisa de desafios para desenvolver suas lideranças. Sem eles, isso não acontece.

Liderança - Você acha que só empresas grandes têm estrutura para fazer isso?

Pedro Mandelli - A companhia grande compete com outras grandes, então ela precisa de gente grande. Já uma empresa pequena geralmente é aquela em que o dono fica preocupado apenas com o caixa, se vai dar lucro. Entre­tanto, digo que desenvolver pessoas é uma prerrogativa de instituições inteligentes. Há empresa as grandes que são burras e outras que são pequenas e conseguem fazer ações extraordinárias.

Liderança - Como você considera que esse desenvolvimento de pessoas pode acontecer?

Pedro Mandelli - Você consegue desenvolver as pes­soas usando o máximo de cada uma. Se eu sou o seu chefe, quero o máximo de você e o único jeito de isso acontecer é fazer com que você queira me dar o máximo. Isso já basta! Agora, se um líder diz que você tem que fazer tal coisa ditando exatamente como tem que ser feito, na verdade, ele acha que você não é capaz. Por isso, o gestor deve dar a tarefa e as orientações básicas, mas deixar o funcionário trabalhar por si. Para ir além, é importante que o colaborador deseje isso.

Liderança - Essa vontade própria dos fun­ cionários de crescer e melhorar ajuda a criar um ambiente de alta performance?

Pedro Mandelli - Sim! Um ambiente de alta perfor­mance é onde as pessoas querem fazer os trabalhos. Elas fazem não porque são mandadas, mas porque realmente querem. E os profissionais só desejam fazer as coisas de maneira voluntária quando são desafiados no seu lado intelectual, e não operacional. O desafio operacional tem que levar as recompensas monetárias ­portanto, se extinguem como fatores motivacionais no médio prazo.

Liderança - Quais são os desafios para criar um ambiente de alta performance?

Pedro Mandelli - Primeiramente, preparar os líderes para serem exemplos na empresa. Depois, deixar de controlar o com­portamento das pessoas e passar a avaliar a performance, criar um ambiente de confiança, descontraído, com celebrações e recompensas, onde se reconheça efetivamente as pessoas que fazem a diferença.

Liderança - Para finalizar, quais são as suas dicas para os líderes atingirem um. ambiente de alta performance?

Pedro Mandelli - Eles precisam ser preparados e certifi­cados pela "escola" da própria empresa. Boa parte deles não tem a competência de lidar com pessoas. Lida bem com problemas, mas esquece ou não sabe colocar a busca pela melhor performance humana dentro de outro paradigma que não seja o "manda quem pode, obedece quem tem juízo".

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