Errar num Piscar de Olhos


O cérebro precisa aprender a enxergar. Se isso ocorre lentamente, a criança pode ter legastenia, distúrbio próximo da dislexia, que leva a dificuldades de aprendizagem.

Revista Scientific Americam - por Burkhart Fischer 

Kevin era considerado um garoto inteligente. No entanto, desde que começou a frequentar a escola, apresentou dificuldades de leitura e escrita, e seus pais passaram a ter dúvidas sobre sua capacidade intelectual. Uma suspeita se impôs; o diagnóstico de legastenia. O transtorno de leitura e escrita, considerado por muitos pesquisadores como sinônimo de dislexia, faz com que as crianças afetadas não consigam ler palavras, troquem letras ao escrever ou não compreendam frases inteiras de seus livros didáticos.

Cerca de 5% dos alunos de uma mesma série têm esse distúrbio de leitura e escrita. Entre meninos, a frequência e quatro vezes maior que entre meninas. Apesar de aulas intensivas e, muitas vezes, de uma inteligência acima da média, parte dessas crianças tem grande dificuldade em aprender uma lígua escrita.

Mesmo que as causas exatas ainda sejam desconhecidas, especialistas concordam em um ponto: os distúrbios de leitura e escrita devem ser de origem neurobiológica eI em muitos casos, podem ser também geneticamente determinados. Provavelmente o problema tem sua base na forma como os afetados enxergam letras, palavras  e frases. Nossas pesquisas no laboratório óptico em Freiburg mostram que vários dislexicos não conseguem controlar certos movimentos oculares com precisão, ou seja, sofrem de um distúrbio do direcionamento do olhar. Quando treinam esse controle com exercícios específicos, a aprendizagem da leitura se torna mais fácil.

Apesar de não termos consciência disso, nossos olhos raramente descansam sobre um ponto por um período muito longo. A cada segundo, eles realizam de três a cinco deslocamentos do olhar, os chamados movimentos sacádicos. Por exemplo: se estudamos um detalhe de um retrato, partimos do princípio que nossos olhos não se movem, mas, na verdade, nosso foco visual se desloca de um lado para outro do rosto retratado e focaliza partes diferentes uma após a outra, como nariz, olhos, queixo, orelha direita - tudo isso no decorrer de poucos segundos. Os movimentos sacádicos ligam todas as fixações oculares entre si. A partir da sequência de cenas registradas, o cérebro constrói uma imagem completa e estável - o que não é uma tarefa fácil, pois, para tanto, ele precisa cobrir as lacunas entre cada fragmento visual.

Mas como são direcionados esses movimentos oculares? Afinal, de alguma forma é preciso tomar a decisão sobre quando o olhar deve se dirigir para determinado ponto. A fim de responder a tal pergunta, examinamos voluntários com a ajuda de dois testes simples. Durante a chamada atividade de movimentos pró-sacádicos cruzados, pode-se ver, no início, apenas um ponto de fixação. Após aproximadamente um segundo, surge outro estímulo óptico à esquerda ou à direita do ponto. Os voluntários devem fixar o primeiro ponto com ambos os olhos e olhar na direção do novo estímulo assim que ele surgir - em outras palavras: devem executar um movimento pró-sacádico.

Normalmente, reagimos a um novo objeto em nosso campo de visão com um reflexo optomotor, um rápido movimento ocular. Esses "movimentos sacádicos expressos" ocorrem aproximadamente 100 milissegundos após o surgimento de um estímulo e são, portanto, pró-sacádicos. Mas esse reflexo tem um oponente: as regiões do lobo parietal no córtex cerebral responsáveis pela concentração cuidam para que o olhar não se desvie tão rapidamente. Pois, afinal, nós queremos olhar durante um período mais longo aquilo que nos interessa. Essas regiões do cérebro, portanto, reforçam a capacidade de fixação e, assim, têm efeito contrário ao reflexo optomotor. O jogo conjunto dos dois rivais permite visualizar aquilo que chama a nossa atenção com um movimento ocular e, em seguida, manter o olhar ali durante o tempo necessário para que todos os detalhes importantes sejam assimilados.

• O cérebro orienta a visão 

As estruturas do córtex cerebral que participam do direcionamento dos movimentos sacádicos estão espalhadas pelo cérebro, não há um "centro do olhar". Grande parte das informações visuais, primeiramente, é enviad para trás, para o córtex visual primário, e de lá se encaminha aos poucos para a frente, primeiro para as regiões do córtex cerebral localizadas no parietal. Elas são responsáveis pela concentração e desempenham um importante papel para a visão e orientação espacial, regulando a função de fixação do olhar. As informações visuais são então levadas para o lobo frontal, o centro de planejamento de ações e de procedimentos mentais. Ali também ocorre o controle voluntário do direcionamento do olhar. O que hão se vê são os camInhos tomados pelo reflexo optomotor. Eles ficam abaixo do córtex cerebral, em regiões cerebrais mais profundas.

A atividade de movimentos pró-sacádicos cruzados testa a força da fixação ocular - ou seja, quão bem as áreas da concentração no lobo parietal conseguem manter o olhar fixo. O primeiro ponto, sempre visível, auxilia essa fun&c ccedil;ão de manutenção do olhar. Quando o segundo estímulo surge, passa-se certo tempo até que os olhos se desprendam do primeiro. Quanto mais curto o tempo da reação, mais fraca a fixação - e vice-versa.

No entanto, podemos controlar nossos movimentos oculares voluntária e conscientemente, e é possível até mesmo dirigir o olhar no sentido oposto ao do reflexo optomotor. Isso ocorre graças ao lobo frontal, onde, entre ouutros procedimentos mentais, são planejadas as ações. Essa área do cérebro permite os movimentos sacádicos, principalmente quando eles são necessários para um processo óptico. Mas, justamente para ler, precisamos direcionar o olhar de forma específica para que nossos olhos se desloquem corretamente pelo texto, correndo de palavra em palavra. Quando há longas fileiras de letras, fixamos partes individuais das palavras ou sílabas, uma após a outra.

• Na direção oposta

Percebemos esse controle voluntário do olhar por meio da atividade de movimentos contrários, chamados antissacádicos com lacuna. Também nessa atividade, o que se vê no início é apenas um único ponto de fixação. Mas ele desaparece um segundo mais tarde e, após uma pausa, surge um novo estímulo à esquerda ou à direita. A fixação não tem apoio óptico e, por isso, o reflexo optomotor se impõe, preparando um movimento prosacádico. Só então se inicia a atividade realmennte: os voluntários devem reprimir o movimento prosacádico e olhar na direção oposta à do estímulo, realizando um movimento antissacádico. O lobo frontal é ativado durante tal atividade.

Estudamos quase 40 pessoas saudáveis com idade entre 7 e 70 anos usando esse processo. O resultado: quase todas as crianças de primeira e segunda séries não conseguiram realizar a atividade de movimentos antissacádicos com lacuna. Elas falham em cerca de 80% das atividades, ou seja, realizam movimentos pró-sacádicos. A quota de acertos aumenta com a idade, mas mesmo adultos saudáveis nem sempre realizam a atividade de movimentos antissacádiicos com lacuna de forma perfeita. Em 15% a 20% das tentativas, aproximadamente, eles se submetem ao reflexo optomotor e seus olhos saltam, contra sua vontade, na direção do estímulo - e muitas vezes eles nem o percebem.

Assim, podemos com certeza dar adeus à teoria vigente até então de que, com o início da vida escolar, as funções básicas de audição, visão e controle do olhar se tornariam totalmente maduras. A teoria deixa de valer especialmente para o direcionamento dos movimentos sacádicos, principalmente para o controle voluntário pelo lobo frontal. Essa capacidade falta em grande extensão para quase todas as crianças entre 6 e 7 anos. Nessa idade, elas ainda estão no início de um desenvolvimento que deve se estender pelos próximos dez anos.

Isso quer dizer que as crianças aprendem a ler e a escrever em uma idade em que praticamente ainda não conseguem controlar voluntariamente seus movimentos ópticos. A maioria dos alunos desenvolve tal capacidade aos poucos, paralelamente ao nível crescente de exigência escolar. Mas o que acontece quando o controle do direcionamento do olhar não acompanha as crescentes exigências escolares ou não recebe o suporte adequado à idade do aluno? Provavelmente surgem nesses casos os distúrbios de aprendizagem como a legastenia.

A fim de testar a veracidade de tal ideia, nós registramos no laboratório óptico da Universidade de Freiburg, desde 1991, os dados ópticos de aproximadamente 2 mil crianças e adolescentes com idade entre 7 e 17 anos. O resultado mostrou que cerca da metade dos legastênicos apresenta pior domínio das atividades de movimentos antissacádicos com lacuna com o passar dos anos, em comparação com outras crianças da mesma idade sem nenhum distúrbio de aprendizagem. Para eles também é mais difícil fixar alguma coisa estável: movimentos sacádicos desnecessários e lentos movimentos de olhos em sentidos opostos fazem com que seu olhar frequentemente não se fixe tão bem num ponto. Por outro lado, pessoas com distúrbios de leitura e aquelas do grupo de controle reagiram com velocidade semelhante durante a atividade de movimentos pró-sacádicos cruzados.

Até então, os estudos sobre as causas das dificuldades de leitura não adentravam o campo da visão, já que o exame oftalmológico de uma pessoa com dislexia quase nunca apresenta resultado positivo. No entanto, o que se mostra aqui é apenas uma falha de abordagem diagnóstica dos exames oftalmológicos: eles não examinam o processo visual cronologicamente nem o direcionamento do olhar a partir da adequação dos movimentos dos olhos. Talvez essa seja uma consequência da ideia ainda hoje aceita de que, para uma boa visão, basta o bom funcionamento dos olhos - e isso ocorre tanto em crianças e jovens com transtornos de leitura quando em seus colegas da mesma idade que não apresentam o problema.

A capacidade dos músculos oculares também não costuma ter relação com a dificuldade de leitura. Legastênicos movimentam seus olhos com a mesma velocidade que pessoas saudáveis, e os músculos que participam de tal atividade tampouco se cansam com maior rapidez. O problema está no fato de que o lobo frontal controla a motricidade ocular de forma pouco confiável. Em outras palavras, não é o carro que está com defeito, mas é o motorista que não sabe dirigi-Io suficientemente bem.

A fim de melhorar o direcionamento do olhar nos disléxicos e assim Ihes dar a chance de recuperar a defasagem de anos em seu desenvolvimento, elaboramos um programa de treinamento que consiste em três exercícios simples. Durante tais atividades, a letra T surge em uma pequena tela sucessivamente em diferentes posições: de pé, de ponta-cabeça ou virada de lado. Os participantes devem então indicar a última posição apresentada. Para não perder o final da sequência, eles precisam fixar permanentemente o ponto da tela no qual as letras surgem.

• Diminuindo erros

O segundo exercício é igual ao primeiro, só que os Ts aparecem na tela às vezes à direita, às vezes à esquerda. Assim, os olhos precisam saltar de um lado para o outro, o que treina o reflexo optomotor. Por fim, em uma terceira variante, deve-se, ao mesmo tempo, resistir a um segundo forte estímulo. Aqui, o controle voluntário por meio do lobo frontal é necessário ma de treinamento que consiste em três exercícios simples. Durante tais atividades, a letra T surge em uma pequena tela sucessivamente em diferentes posições: de pé, de ponta-cabeça ou virada de lado. Os participantes devem então indicar a última posição apresentada. Para não perder o final da sequência, eles precisam fixar permanentemente o ponto da tela no qual as letras surgem.

• Diminuindo erros

O segundo exercício é igual ao primeiro, só que os Ts aparecem na tela às vezes à direita, às vezes à esquerda. Assim, os olhos precisam saltar de um lado para o outro, o que treina o reflexo optomotor. Por fim, em uma terceira variante, deve-se, ao mesmo tempo, resistir a um segundo forte estímulo. Aqui, o controle voluntário por meio do lobo frontal é necessário para que o participante se concentre nos Ts, visíveis apenas por pouco tempo, e não olhe na direção do estímulo distrativo.

Até agora, já conseguimos testar o programa em 177 crianças. Os jovens participantes realizam todos os dias um dos três exercícios 200 vezes, por um período de dez minutos. No total, eles precisam de três a seis semanas, de acordo com o seu programa de treinamento individual. Para descobrir se cada treino é realmente efetivo, submetemos os participantes à atividade de movimentos antissacádicos antes e depois dos exercícios. Registramos os seguintes pontos: quantos erros eles cometem; quantos desses erros corrigem; quanto tempo levam para corrigir um erro e para resolver uma atividade corretamente já na primeira tentativa.

O programa de exercícios revelou-se extremamente eficiente - cerca de 85% das crianças obtiveram melhora em pelo menos três dos quatro pontos acima. Além disso, cerca de um terço dos participantes teve desempenho claramente melhor em um teste de leitura realizado imediatamente após os exercícios. No entanto, consideramos também de grande importância a descoberta que as que foram treinadas do olhar aproveitam muito mais um programa de estímulo à leitura que crianças sem treinamento. Após seis semanas de programa, os participantes do treinamento do olhar cometem, em média, apenas metade dos erros registrados antes. Aqueles que não receberam o treinamento reduzem seus erros em apenas 20%.

Outros problemas escolares, como dificuldades com cálculos, também podem estar baseados em um distúrbio do direcionamento do olhar e de outras funções visuais. Aparentemente, várias das crianças que sofrem desse distúrbio têm dificuldade em apreender, à primeira vista, uma determinada quantidade de coisas. Por exemplo, elas não reconhecem imediatamente se há dois ou quatro pratos sobre uma mesa. Essa capacidade visual espacial, a apreensão simultânea, também é falha em aproximadamente metade dos legastênicos. Hoje, porém, ela já pode ser treinada - assim como o controle do olhar durante os movimentos sacádicos - por meio de exercícios diários.

Por fim, também examinamos crianças que sofrem de déficit de atenção. Elas não só lutam com sua capacidade de concentração, mas também têm grande dificuldade em aprender a ler e a escrever - e quase metade delas tem problemas com o direcionamento do olhar pelo lobo frontal. A fim de diminuir os distúrbios comportamentais, frequentemente é receitada a ritalina (metilfenidato). Segundo nossos estudos, esse medicamento também melhora o controle do olhar - porém, diferentemente do que ocorre no treinamento prático do olhar, os resultados são apenas temporários.

• Melhor prevenir

Como todas as outras capacidades, crianças também precisam aprender gradualmente as funções da percepção e da visão - além de treiná-Ias. O significado disso para as aulas escolares e para outras formas de aquisição de conhecimento sempre foi subestimado, pois faltavam procedimenntos diagnósticos adequados. E ainda pior: infelizmente legastênicos são, ainda hoje, considerados pessoas sem inteligência ou até mesmo com deficiência mental, sendo que em muitos casos, eles apenas sofrem de problemas de percepção ou simplesmente precisam de apoio para controlar o direcionamento de seu olhar.

Mas nem sempre o problema está no aparelho visual. Frequentemente, a dificuldade de leitura e escrita deve-se a uma deficiência auditiva, principalmente da capacidade de diferenciar os fonemas. Esse desempenho auditivo, que não requer nenhum trabalho linguístico, pode ser aprendido e treinado mais tarde. E tal treinamento já consegue melhorar sensivelmente a ortografia nos ditados, como comprovaram alguns experimentos em nosso laboratório.

Não importa se o problema está no controle do olhar, na apreensão simultânea ou na diferenciação de fonemas - tais capacidades podem ser hoje melhoradas com ajuda de exercícios simples. Mas o melhor seria prevenir tais déficits de percepção e, com isso, prevenir também, possivelmente, dificuldades de aprendizagem. Em muitos casos, seria suficiente se as crianças treinassem seus sentidos logo cedo por meio de brincadeiras, esportes, educação musical, leitura em voz alta ou trabalhos manuais. De qualquer forma, elas se divertiriam - e talvez, assim como seus pais e proofessores, fossem poupadas de algumas preocupações.

Saiba Mais

Dificuldades na aprendizagem da leitura: teoria e prática. Teerezinha Nunes, Lair Buarque, Peter Bryant. Cortez, 2000.
Dislexia: ultrapassando as barreiras do preconceito. James J. Bauer. Casa do Psicólogo,1997.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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