Estimulação magnética: a memória devassada.


Uma nova técnica está aos poucos revolucionando a neurociência: a estimulação magnética transcraniana (EMT). Diferentemente dos instrumentos de imagens usados até hoje, que apenas observam o cérebro em funcionamento, a EMT pode interferir na atividade nervosa - modificando-a, aumentando-a ou até mesmo anulando-a. Com isso, ela tem revelado aspectos da memória humana ainda desconhecidos e reforça a luta contra doenças como a depressão, a esquizofrenia e distúrbios motores.

Revista Planeta: por Eduardo Araia

Brilho eterno de uma mente sem lembranças, um dos filmes mais interessantes que Hollywood produziu nos últimos anos, parte de uma premissa inusitada: ao descobrir que Clementine (Kate Winslet a namorada com quem viveu uma relação turbulenta, mas de intensa paixão, submeteu-se a um tratamento pioneiro para apagar as lembranças do romance, Joel (Jim Carrey) decide recorrer à mesma tática - mas descobre depois que não quer esquecer-se da moça. Enquanto a máquina persegue as memórias de Clementine na mente de Joel, este se esforça para ocultá -las em "esconderij os" cada vez mais inesperados da memória.

Esse ponto de partida e os desdobramentos a que ele conduz são exemplos da inventividade do roteirista Charlie Kaufmann, um talento de resto já consolidado no meio cinematográfico. Mas pelo menos uma idéia do argumento - a do tratamento que elimina lembranças - não é tão original asssim. Em tese, a técnica que possibilita isso - a estimulação magnética transcraniana, ou EMT - existe há anos e, embora ainda esteja no estágio experimental, já mereceu espaço em publicações como a revista inglesa The Economist e a italiana L"Espresso.

O pioneiro nesse terreno é o inglês Anthony Barker, médico do Royal Hospital de Sheffield. Em 1985, ele mostrou a seus colegas do hospital uma experiência surpreendente: aplicou campos magnéticos sobre a testa de um volnntário de tal forma que os dedos deste tamborilaram na mesa sem que ele tivesse a mínima intenção de movê-las. O experimento causou alvoroço no meio científico, e diversos laboratórios espalhados pelo mundo passaram a investir nessa linha de pesquisa e nas máquinas que ela envolve.

  • Uma técnica simples e promissora A revista científica americana Nature deu mais força ao assunto ao publicar, no fim de 2002, o resumo de um estudo em que cientistas dirigiam a distância os movimentos de alguns ratos a partir da estimulação de regiões específicas do cérebro dos animais.

    A EMT está baseada na aplicação de campos magnéticos potentes e de duração bem curta numa região do cérebro próxima ao córtex motor. O campo magnético penetra na testa praticamente sem acarretar alterações nos tecidos da cabeça, e induz correntes elétricas em determinadas zonas do cérebro. "Na prática, os voluntários estão deitados ou mesmo sentados, e o operador tem sobre a zona a ser excitada uma bobina de cobre ligada a um condensador", observa o pesquisador italiano Massimiliano Oliveri, que se especializou na técnica nos Estados Unidos e hoje conduz suas experiências no Hospital Santa Lucia de Roma e na Univerrsidade de Palermo: "Quando a carga elétrica é descarregada, há um barulho muito intenso. O impulso dura um milésimo de segundo, e pode ser repetido 50 vezes no mesmo segundo. Desse modo, se interfere na atividade normal do cérebro ... e depois se observa o que acontece".

    A técnica tem algumas caracteerísticas que a tornam atraente aos pesquisadores e potenciais usuários da área médica: não causa dor, é considerada não invasiva, sua aplicação é simples e represennta baixo risco para pesquisas em seres humanos. Com isso, os estudiosos já vislumbram um variado leque de empregos para ela, que inclui o tratamento de doenças neurológicas e psiquiátricas, a reabilitação após um acidente vasscular cerebral (AVC) e aceleração do aprendizado.

    A estimulação magnética original nasceu com o trabalho de pesquisa. "Os primeiros neurologistas a utilizavam para estudar os meecanismos cerebrais que governam o movimento", observa Oliveri. As técnicas de imagens, que permitem visualizar a ativação das áreas do cérebro a partir das percepções dos estímulos e do desenvolvimento de tarefas, possibilitaram entre os anos 80 e 90 uma compreensão bem mais ampla do funcionamento do sistema nervoso. A EMT representa um avanço nessa linha de pesquisa. A atividade das células nervosas, constatam os estudos, pode ser temporariamente alterada, aumentada ou mesmo anulada. Com isso, os cientistas deixam de ser meros observadores de o que acontece no cérebro e ganham espaço para fazer experiências.

    Alguns experimentos notabilizaram-se por "roubar" capacidades das pessoas testadas, convertendo o melhor dos oradores em alguém incapaz de falar ou transformando um matemático de elite num estúpido que não sabe nem mesmo fazer as quatro operações básicas. Em 2001, por exemplo, o neurocientista Alfonso Caramazza e seus colegas da Universidade Harvard estimularam com repetidos impulsos magnéticos o córtex pré-frontal (zona cerebral envolvida nos processos verbais) de voluntários. Resultado: as pessoas examinadas não conseguiam conjugar os tempos e os modos dos verbos, mas o distúrbio momentâneo não afetou sua capacidade de enunciar os substantivos no singular e no pluural. Portanto, o cérebro usa regiões diferentes para conjugar verbos e flexionar substantivos.

    Experiências semelhantes revelaram que uma pessoa pode ficar incapacitada de identificar as expressões de raiva de seus semelhantes, reconhecer rostos familiares, perceber os movimentos dos objetos ou articular palavras.

    Com esses resultados, pode-se pensar que a EMT é sinônimo de perda de capacidade, mas a conclusão é incorreta - ela também pode ser r utilizada para melhorar a aprendizagem, por exemplo. Jordan Grafman, do Instituto Nacional de Doenças Neurológicas de Bethesda (EUA), aplicou a técnica com o objetivo de aumentar por um breve período a capacidade de alguns voluntários para resolver problemas de geometria. O sucessso veio ao estimular a região do córtex que, de acordo com esudos anteriores, fica mais ativa quando o cérebro se concentra em problemas de palavras cruzadas e jogos de figuras geométricas.

    Na mesma vertente, o psiquiatra Mark George, da Universidade Médica da Carolina do Sul (EUA), conta com o apoio do Departamento de Defesa de seu país na sua pesquisa para verificar se a EMT pode ajudar a melhorar as capacidades mnemônicas. E, de acordo com os especialistas, muito mais notícias boas podem vir dessa técnica.

  • Da experiência à práticaRelacionamos a seguir algumas das áreas de aplicação da estimulaação magnética transcraniana consideradas mais promissoras:

    - Esquizofrenia: Alvaro Pascual-Leone, da Escola de Medicina da Universidade Harvard e um dos pioneiros da EMT, avalia se a técnica pode ser útil para tratar pacientes essquizofrênicos.

    - Distúrbios motores: o emprego de campos magnéticos já está aprovado no tratamento de alguns distúrbios motores.

    - Acidentes vasculares cerebrais: Massimiliano Oliveri, do Hospital Santa Lucia de Roma e da Universidade de Palermo, tem pessquisado a eficácia da EMT para auxiliar a recuperação funcional de pessoas que, depois de um AVC, não conseguiam mais perceber e interagir com o espaço à sua esquerda. Segundo seus estudos, o estímulo de certas áreas melhora a percepção tátil e visual dos pacientes e facilita a recuperação.

    - Depressão: a EMT atua em casos de depressão equilibrando a asssimetria observada entre os lobos pré-frontais esquerdo e direito. Seu emprego pode evitar o tratamento com choques elétricos. O Canadá já aprovou o uso da estimulação magnética para o tratamento dessa doença. Mas a técnica ainda está longe de ser uma unanimidade entre os estudiosos do tema.

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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