Estressado, Eu?


Falar sobre alcoolismo ou depressão está se tornando comum entre os executivos. Mas admitir que o estresse é um problema continua a ser tabu.

Revista Exame - por Daniela Diniz

Aconteceu há dois anos. Às 11 horas da noite, quando o engenheiro paulista Tito Mesquita Garcia Filho, de 40 anos, sócio da empreiterra Cronograma, estava se preparando para dormir, sua vista direita apagou. "Ficou tudo preto", diz ele. "Eu abria e fechava os olhos, mas o lado direito continuava escuro." Perturbado, Garcia Filho foi para o hospital, onde ficou internado por dois dia". O médico chegou a desconfiar de um tumor no cérebro e submeteu o paciente a vários exames. Os resultados não acusaram nada e a hipótese do tumor foi descartada. Restava o primeiro diagnóstico já exaustivamente repetido para Garcia Filho em anos anteriores, mas que ele sempre ignorava: estresse. "Achava que isso poderia acontecer com qualquer um, menos comigo", diz.

A frase é típica entre executivos que levam a vida abusando dos próprios limites. Eles só costumam perceber que o corpo pede uma pausa quando a produtividade cai ou quando a memória dá sinais de fadiga. A essa altura, já não dá mais para esconder que o estresse existe e que ele - de fato - é um problema.

O episódio envolvendo Garcia Filho é um exemplo de que o estresse continua a ser tratado como algo desejável uma qualidade, uma espécie de vantagem comparativa no ambiente profissional. Falar dos efeitos colaterais - que acabam por minar saúde, relacionamentos e carreira - ainda é um tabu. "Encarar o estresse como algo negativo depois de certo ponto seria como assumir uma fragilidade ou entregar os pontos", diz a psicóloga Marilda Lipp, diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress, com escritórios em Campinas e São Paulo. "A maioria dos executivos chega até o limite do organismo e só pára quando já não dá mais conta do recado."

Nos Estados Unidos, os gastos das empresas com o estresse e suas consequência" são estimados em 300 bilhões de dólares por ano. A gravidade do problema vem sendo comparada ao alcoolismo, à depressão, à dislexia ou à compulsão sexual, questões sobre as quais muitos executivos começam a falar mais abertamente. Exagero?

Embora não classificado como doença (já que é uma reação normal do organismo), se perdurar por muito tempo, o estresse, além de afetar a vida pessoal, pode levar ao sofrimento físico e à morte. "É a porta de entrada para inúmeras doenças", diz Marilda. Enquanto os sintomas são considerados leves, o estresse passa despercebido. "Sempre tive enxaquecas fortes, mas aprendi a administrar a dor", diz Garcia Filho. "Era só andar com comprimidos e tomar quando ela começava a dar sinais." Depois do susto, ele começou a praticar natação para aliviar as tensões do trabalho.

A dor passa a fazer parte da rotina, assim como a gripe ou as insônias. "As pessoa" aprenderam a se adaptar ao estresse", diz a psicóloga Eliana Audi, diretora da Auster, consultoria paulista especializada em comportamento. "O executivo não nota que dorme menos, trabalha mais e reduz o tempo de vida."

Atualmente, homens e mulheres de negócios são o principal alvo de estudos sobre estresse. Um estudo realizado pelo escritório brasileiro da International Stress Management Association (Isma) - uma organização voltada para a prevenção e para o combate ao estresse - revelou que as principais causas do problema entre os executivos são os constantes enxugamenntos das empresas, a ansiedade em relação ao desempenho pessoal e a falta de perspectiva na carreira. "A estrutura horizontal das empresas vem aumentando o nível de estresse do executivo", diz a psicóloga gaúcha Ana Maria Rossi, presidente da Isma no Brasil. "Os departamentos estão mais enxutos, sobrecarregando o trabalho dos profissionais e aumentando a pressão." Segundo Ana Maria, hoje o brasileiro está 30% mais estressado que há uma década. De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional, dos Estados Unidos, mais da metade dos americanos que trabalham considera o estresse como o maior problema de sua vida. O quadro piorou após os atentados de 11 de setembro de 2001 e com a crise por eles gerada.

Embora contribuam significativamente, o trabalho, o mercado difícil, a ameaça de desemprego e o mau humor do chefe não são os únicos culpados pelo aumento da quantidade de estressados. Nem sequer são os mais importantes. Segundo os especialistas em saúde, boa parte da responsabilidade é do próprio profissional, que, na ânsia de subir na carreira, não sabe estabelecer a fronteira entre o chamado estresse positivo e o negativo. "O estresse faz parte da vida de qualquer ser humano", diz o psiquiatra paulista Luiz Antonio Nogueira Martins, da Universidade Federal de São Paulo. "Cabe ao indivíduo conhecer o seu nível de estresse adequado a cada situação."

A maneira mais fácil de identificar a passagem do estresse positivo para o negativo é prestar atenção no próprio desempenho profissional. Quando a rotina frenética deixa de ser uma catalisadora de energia positiva e passa a desgastar o corpo, a mente e até a vida pessoal, é sinal de que alguma coisa está fora do normal. Foi o que aconteceu com o carioca Ronaldo Magalhães, de 44 anos, vice-presidente do grupo Sul América Há quatro anos, Magalhães foi promovido a diretor executivo do grupo e teve de administrar o aumento de responsabilidade, um número maior de subordinados e as longas jornadas de trabalho. "Saía do escritório com a sensação de que poderia ter feito mais", diz Magalhães. "Muitas vezes, achei que não daria conta da posição." Ele já n&at tilde;o lembrava de datas importantes, não tinha paciência com os filhos e perdeu a concentração até para assistir à TV: "Não sabia mais como controlar minha vida", diz.

Foram três meses para que a conscientização do estresse impulsionasse uma mudança no seu estilo de vida. Primeiro, Magalhães adotou a corrida como aliada. Passou também a prestar atenção na alimentação e a administrar melhor o tempo. "Hoje sei recusar cerrtas responsabilidades que estão além da minha capacitação", diz ele. "Aprendi a conhecer meus limites."

O caso de Magalhães é uma exceção dos estressados. A maioria não toma essa atitude sozinha. Como ocorreu com Garcia Filho, muitas vezes é necessário um episódio mais grave ou uma cutucada do próprio chefe para chamar a atenção. "A empresa tomou uma decisão por mim e me fez enxergar que meu lugar não era lá", diz uma executiva mineira ex-gerente de uma consultoria, que também não se sente à vontade para falar sobre o assunto.

Depois de passar quatro anos trabalhando mais de 10 horas por dia, administrando insônias e enxaquecas e galgando posições na empresa, ela chegou a um impasse. "Fui designada a passar dois anos em outro país", diz ela. "A viagem não fazia parte dos meus planos e não aceitei". Nesse caso, não caberia "não" como resposta e ela foi demitida. "Era admirada pelo perfeccionismo e até pelo estresse", diz. "A empresa encarava isso corno sinônimo de produtividade:" Ao ser demitida, a executiva sentiu-se aliviada. "Era uma decisão que não tinha coragem de tomar", diz.

Algumas empresas ainda mantêm a postura de sugar o máximo dos profissionais sem olhar para sua satisfação pessoal - o que só aumenta o receio de falar sobre o tema. Mas isso tem diminuído, principalmente quando o estresse começa a afetar não só a saúde dos funcionários mas também o caixa das empresas. Atualmente, 35% das empresas americanas mantêm programas para a saúde e a qualidade de vida dos funcionários. No Brasil, apenas 5% adotaram essa postura. A consultoria Ernst & Young é urna delas. nA empresa colocou em prática atividades, como massagens e palestras, para chamar a atenção do funcionário. Além disso, proibiu horas extras e obrigou que todos tirassem férias. "Chamo de desorganizado quem diz que não pode tirar férias", diz Júlio Sérgio Cardoso, presidente da Ernst & Young, autodenominado um ex-estressado. "Quero o executivo sempre capaz e não aquele que espera adoecer para reconhecer os limites."

O Citibank decidiu agrupar os projetos sobre qualidade de vida num único programa, chamado No Stress. Por meio dele, o funcionário pode usar 2% do seu salário anual em atividades não previstas no plano de saúde. O banco adotou também horário flexível para boa parte dos funcionários e inaugurou sete salas de relaxamento. "Com essas medidas, metade do pessoal consegue se antecipar ao estresse negativo", diz Délsio Klein, diretor de recursos humanos do Citibank. "Há ainda a outra metade que não admite ou não reconhece o estresse."

As medidas no banco vieram após quedas sucessivas de produtividade dos seus altos executivos no período de 1980 a 1994. "Não podemos valorizar o estresse como foi feito no passado", diz Klein. "Precisamos aprender a administrá-Io e achar o ponto de equilíbrio entre vida e trabalho".

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