Estresse é Fundamental


Revista Vencer - por Paulo Gaudêncio

  • O que é excelência para Você? Existe uma fórmula?

    De novo custou a dormir. Sono leve e interrompido. De madrugada, acorda completamente. Levanta-se muito cedo. Toma só café. O resto não "desce". Quando pensa no dia de trabalho que o espera, sente o coração bater mais depressa. Passara meses apavorado com o desemprego. A privatização, afinal, o premiou com uma promoção.

    De três meses para cá tem diminuído a alegria inicial. Sai para o trabalho e tem a certeza de que naquele dia tudo vai dar errado. Fica irritado com o trânsito. Sente falta do tempo em que não tinha desafios profissionais tão grandes e podia se dar ao luxo de dormi r e acordar satisfeito. A vida em família está cada vez mais difícil, não tem tempo para nada, não sai com os amigos, não faz mais exercícios. Começa a acreditar que está doente. Estará mesmo? Este é o cenário do estresse, já muito conhecido da sociedade moderna. O estresse é um conjunto de reações do organismo em resposta a uma pressão externa. Essa pressão vem em forma de mudanças, mesmo as mudanças que você mesmo decide. Resolve casar, por exemplo, ou divorciar-se, ou ter um filho. Ou mesmo entrar de férias. Imagine a pressão acarretada por mudanças que você não escolheu e são impostas, como a morte do companheiro, a privatização da estatal onde trabalha há 18 anos ou a exigência de um novo perfil gerencial.

  • Mal do ser vivo

    O estresse é comum e está presente no dia-a-dia de todos os seres vivos. O homem que se vê à frente de uma grande decisão experimenta a mesma sensação de um animal cercado por um predator. As reações biológicas são as mesmas. Um exemplo: estou em casa, uma da manhã, quase dormindo. De repente ... um barulho na sala. Automaticamente, sem nenhuma participação do raciocínio, meu corpo se prepara para enfrentar a causa do barulho. Diante deste perigo, posso ter duas reações: lutar ou fugir. Meu corpo se prepara para as duas reações.

    Se eu vou fugir ou lutar, o órgão mais nobre do meu organismo é o que uso para isso: meus músculos. Vou precisar de uma boa quantidade de sangue nos músculos. A adrenalina que caiu no meu sangue vai redistribuí-lo. Para isso vai dilatar os vasos, as artérias e as veias dos músculos, e contrair os vasos de outras partes do corpo onde o sangue não é tão necessário naquela emergência.

    A saída do sangue da pele nos deixa brancos de medo. A saída do sangue do aparelho digestivo nos dá um frio no estômago (por isso se condenam as discussões na hora das refeições). Essa quantidade maior de sangue deverá chegar rapidamente aos músculos. Por isso, temos uma taquicardia, isto é, o coração "dispara". Ao mesmo tempo, deverá ser sangue bem oxigenado. Por isso, temos uma taquipnéia, isto é, respiramos rapidamente. Respiração "curta", feita com os músculos intercostais, e não com o diafragma. Esse sangue deve ter muitos "carregadores", para o transporte da glicose, do O2 e do CO2. O baço, que é um banco de sangue, vai liberar glóbulos vermelhos na corrente sangüínea. Além disso, como eu posso me ferir na luta, o baço libera glóbulos brancos, para diminuir o tempo de coagulação. A intensa movimentação que vai ocorrer na luta ou na fuga vai exigir um enorme gasto de energia. Para isso, o fígado libera glicose, ao mesmo tempo que o baço libera insulina. Esta vai queimar a glicose, a nível muscular dando calor, que vai ser aproveitado na movimentação (ataque ou fuga).

    Outras alterações orgânicas acontecem. A dilatação das pupilas serve para melhorar a visão a distância. Essa é a origem da expressão cego de ódio. O medo descarrega adrenalina, que dilata as pupilas. Segue-se a mobilização pelo impulso agressivo. Mais tarde a pessoa vai dizer: "Nem vi o que estava fazendo". Não viu mesmo, (porque estava com as pupilas dilatadas. Os pêlos se eriçam na busca de um aspecto ameaçador. Há a contração de glândulas sudoríparas, na busca de um cheiro que afaste o inimigo. Normalmente, o homem fica inteiramente preparado. Paralisado, ele mede o tamanho do obstáculo a ser enfrentado e o compara com suas forças. A agressividade vai mobilizá-lo para lutar ou para fugir. A luta ou a fuga raramente ocorrem no caso do homem. Isso vai marcar uma enorme diferença com os outros e vai ser uma das causas da patologia do estresse. O homem moderno, salvo raras exceções, não parte para a agressão ou foge em uma discussão com o seu chefe.

    Toda essa preparação deve levar a uma ação. O estresse é portanto uma reação de adaptação do organismo perfeitamente saudável. Patológica é a sua não existência. Como e porque o estresse se torna uma doença.

    A exemplo do que ocorre no mundo animal, o inimigo do homem pode ser externo e real, como em um assalto, por exemplo, ou numa competição esportiva. Na imensa maioria das vezes, no entanto, ele é interno. Como no medo da perda de "status", felicidade ou poder, que a mudança externa pode desencadear.

    Como conseqüência imediata, vem a segunda diferença, a perpetuação da sensação de estresse. O agente causador do estresse não é mais uma aguda mudança externa, mas uma crônica possibilidade de mudança. E para completar, raramente o homem moderno descarrega essa energia através de uma ação, por motivos sociais e educacionais.

    Um gato acuado por um cachorro tem toda a alteração qu ue descrevemos. Imediatamente salta para cima do muro e sobe no telhado. O que causava o estresse, no caso o cachorro, estava fora dele e fica para trás. Ele gasta a energia no movimento para chegar ao telhado.

    Uma vez lá, relaxa com tranqüilidade. No caso do homem, ele tem, por exemplo, a notícia de que vai haver uma fusão de sua empresa com outra qualquer. Certamente haverá um enxugamento de quadros. Continua indo ao trabalho e, a cada boato, tem novamente a descarga do processo do estresse. E, pior não sobe no telhado, nem se afasta do perigo, porque ele mora dentro da sua cabeça.

  • Os estragos do estresse crônico

    Vários órgãos e sistemas podem adoecer diante do estímulo continuado ou crônico do estresse. O estresse passa, então, de natural e fundamental a ocasionador de doenças. Isso tudo se deve ao fato de a natureza ter preparado o homem, durante milhões de anos, para ter uma reação pronta, que o ajudasse a sobreviver, na hora em que ele saísse da caverna e desse de cara com um tigre com dentes de sabre. Um deles ia virar caça.

    Hoje em dia o tigre mora dentro de sua cabeça. Como diz Goleman em "Inteligência Emocional", com freqüência enfrentamos dilemas pós-modernos, com um repertório talhado para as urgências da era primitiva. Isso ocorre em todas as mudanças. Por falar nisso ...

  • Como vamos de mudanças?

    A globalização ampliou a competição. Hoje, ela se processa em nível internacional. Daí vêm as reengenharias, downsizing, preocupação com a qualidade total, exigência de mão-de-obra ultra-qualificada, novas posturas na liderança, etc. É fácil entender o nível de pressão a que todos estão submetidos. A conclusão imediata é que estamos todos com altíssimos níveis de estresse e, portanto, prestes a adoecer. Certo? Errado.

    Gosto de lembrar uma piada bastante ingênua, de minha infância. O indivíduo chega em casa alcoolizado, vai se deitar retira os sapatos e os joga violentamente no chão. Após dois ou três episódios iguais recebe a visita do vizinho de baixo, que vem protestar contra o ruído. Ele se desculpa envergonhado, pois realmente nunca tinha pensado no incômodo que causava.

    No sábado seguinte, novamente alcoolizado, tira o sapato e joga violentamente no chão. Lembra-se então do vizinho e, delicadamente, coloca o segundo pé do sapato no chão. No dia seguinte a reação do vizinho é de enorme irritação. Fora acordado pela primeira sapatada e passou a noite toda esperando a segunda.

    Essa me parece uma reação que pode adoecer os indivíduos que estão submetidos a um processo de mudanças. Todo o poder está na mão do outro. Ele pode tudo, eu não posso nada. Devemos nos lembrar que minha vida é minha e eu tenho que zelar por ela. Sendo assim devemos, além de alterar a nossa maneira de encarar o inimigo, buscar uma vida mais saudável e equilibrada.

    Marque compromissos com intervalos que permitam acabar com a guerra contra o relógio, evitando a ansiedade. Busque uma vida familiar amorosa e equilibrada, com muita tolerância e compreensão. Altere o nível de competição, buscando atingir a própria alegria e não prejudicar a alegria do outro. Procure trabalhar com algo que realmente o agrade. Busque uma mudança nos valores de vida através de sua fé. Procure a felicidade.

    Buscar a felicidade ... A sensação é de que estamos terminando um artigo que se pretende sério com um conselho piegas. Afinal, o que é ser feliz? Como batalhar por essa quimera? Não acho que o conceito de felicidade seja complicado. Atenção: felicidade e não a perfeição.

    O perfeccionismo é um dos grandes fatores causadores do estresse. Costumo chamar os perfeccionistas de auto-suficientes. Eles não precisam de inimigos. Se bastam. Para o perfeccionista existem duas notas que ele pode se atribuir: dez ou zero. Como qualquer imperfeição inviabiliza o dez, o perfeccionista é alguém que nunca dá recompensa por atingir objetivos.

    Encarar desafios buscando a excelência é a fórmula da felicidade.

    • Administração do Tempo

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