Estresse Engorda


A ciência descobre que as mudanças no organismo causadas pela tensão diária levam ao ganho de peso.

Revista Istoé - por Cilene Pereira e Mônica Tarantino

Por mais de uma década pairou sobre o estresse a suspeita de influenciar diretamente o ga­nho de peso. Ela estava basea­da principalmente na observação coti­diana de especialistas como o endocri­nologista paulista Alfredo Halpern, chefe do Serviço de Obesidade do Hos­pital das Clínicas de São Paulo (HC/SP) e um dos mais experientes da área. "Sempre percebi que ele é um fator muito importante para a maioria dos pacientes que atendo", diz. Mas não havia provas científicas disso. Agora há. Elas emergem de diversos estudos mun­diais financiados por entidades como o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), um dos mais importantes do planeta em matéria de pesquisas e desenvolvimento de políticas de prevenção de doenças. Só no ano passado, o NIH destinou US$ 37 milhões para as investigações sobre comportamentos associados ao aumen­to de peso com a finalidade de encontrar intervenções efetivas contra a epidemia de obesidade - um problema que atinge, atualmente, cerca de 400 milhões de pessoas no mundo. A estimativa é ainda mais preocupante se forem contabiliza­dos os indivíduos com sobrepeso. "O número sobe para cerca de 1,5 bilhão", diz o endocrinologista Walmir Couti­nho, recém-eleito presidente da Asso­ciação Internacional para o Estudo da Obesidade (Iaso).

Nos trabalhos, o estresse tem surgido como um dos mais fortes responsáveis pela subida dos ponteiros da balança. Um exemplo é o estudo realizado por Diana Fernandez, da área de medicina preventiva da Universidade de Roches­ter, nos EUA. Ela observou 2.782 em­pregados de uma fábrica de Nova York e constatou que o estresse vivenciado em uma fase de demissões aumentou muito a procura por comidas ricas em gorduras e calorias - elas desapareciam rapidamente das máquinas onde eram vendidas. Mas as complicações causa­das pelo estresse foram além. Os traba­lhadores disseram não ter tempo para comer bem ou fazer atividade física na hora do almoço porque tinham medo de sair de suas mesas de trabalho por muito tempo. Cansados física e emocionalmente, à noite a maioria se dedicava a ver televisão. "Os que assistiram a quatro horas por dia ou mais tiveram 150% mais chances de se tornar obesos", disse a especialista à ISTOÉ.

O mesmo fenômeno foi verificado em outro experimento, desta vez feito com animais. O cientista Mark Wilson, da Universidade Emory (EUA), queria também saber se viver em ambiente estressante levava ao consumo de comi­das ricas em calorias. Para isso, ele ob­servou o comportamento alimentar de fêmeas do macaco rhesus. Entre esses animais, algumas dominam as outras. As que são submetidas geralmente aca­bam vitimas de agressão constante, o que as deixa em situação de estresse
crônico. Após o experimento, Wilson constatou que a tensão fez com que os animais engordassem. "As fêmeas su­bordinadas comeram maiores quantida­des e várias vezes por dia. Também preferiram os alimentos mais calóricos. Por isso, ganharam peso em ritmo ace­lerado", disse Wilson à ISTOÉ.

Por causa de achados como esses, muitos especialistas começam a defen­der mudanças nos relacionamentos pessoais e profissionais - visando à di­minuição do estresse - também com o objetivo de conter o avanço da obesida­de. "Os resultados devem ser levados em conta na formulação de estratégias contra o problema", diz Carol Shively, da Wake Forest Baptist Medical Center. Uma das propostas é que os programas de bem-estar no trabalho examinem a estrutura organizacional e forneçam
meios práticos para minimizar o estres­se. Além disso, é necessário dar condi­ções para romper o sedentarismo. Uma delas, praticada por poucas empresas no Brasil, é ter uma área equipada para as pessoas se exercitarem antes, duran­te ou depois do expediente.

Comprovada a conexão estresse-obesidade, a pergunta que surge é: por quais mecanismos ele resulta em ganho de peso? À luz das recentes descobertas, é possível depreender que ele modifica as respostas do corpo à comida de uma forma extremamente intensa. "Está fi­cando claro que o estresse crônico altera as respostas do organismo e leva à obe­sidade", afirma a endocrinologista Maria Fernanda Barca, do Grupo de Tireoide do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Os estudos estão mostrando que as transformações impostas pelo estresse e que resultarão nos quilos a mais ocorrem em diversas frentes. A mais importante, com repercussões bastan­te amplas, está relacionada aos níveis de cortisol. O hormônio está associado ao estado de prontidão do organismo. Seus níveis sobem algumas horas antes de acordarmos por ordem do hipo­tálamo, uma estrutura localizada na base do cérebro que recebe informações do corpo e regu­la as nossas reações. Ele instrui, por exem­plo, as glândulas su­prarrenais a liberar o cortisol para que, nesse momento, ele atue como uma espé­cie de despertador.

De ação prolonga­da, sua qu uantidade no sangue cai gradativamente ao longo do dia, chegando a taxas mínimas no final da tarde, numa preparação para o rela­xamento da noite. Ou pelo menos deve­ria ser assim. "Condições como a insônia, a depressão e o estresse crônico mantêm o cortisol alto o dia todo, induzindo o corpo ao alerta constante", diz a psicólo­ga Ana Maria Rossi, de Porto Alegre, presidente da Isma-BR, entidade inter­nacional voltada para o estudo do geren­ciamento do estresse. Um dos resultados dessa exposição sem descanso é que in­divíduos em estresse prolongado produ­zem duas a três vezes mais cortisol do que o normal.

No que se refere aos mecanismos de controle ou ganho de peso, isso é um desastre. O cortisol excessivo represen­ta um sinal de perigo que o corpo tra­duz como uma ordem para poupar energia diante de uma iminente situa­ção de emergência. Para que a operação seja executada, desencadeia-se uma série de fenômenos. Um deles foi reve­lado por cientistas do Garvan Institute of Medical Research, da Austrália. Em trabalho com cobaias, eles constataram que, sob estresse crônico, o corpo libe­ra a molécula Y (também chamada de neuropeptídeo NPY). Ela desbloqueia alguns receptores - uma espécie de fechadura química - das células de gordura. O que acontece depois? Co­mo se tivessem recebido uma dose de fermento, as células crescem em tama­nho e número.

Mas os pesquisadores verificaram ainda algo tão ruim quanto esse meca­nismo. Os animais estressados não só criaram mais gordura corporal como apresentaram diferenças significativas na forma como ela foi armazenada: a maior concentração foi na barriga. "O cortisol favorece o acúmulo de gordura na região abdominal", explicou Herbert Herzog, coordenador do trabalho. É justamente esse tipo de obesidade que mais preocupa os médicos. É sabido que ela torna os indivíduos mais suscetíveis ao depósito de placas de gordura nas artérias, à doença cardíaca e à diabetes. Existem algumas teorias que explicariam a razão do acúmulo no abdome em si­tuação de estresse. "Estudos mostram que o tecido gorduroso na região da barriga tem receptores para o cortisol", diz o médico Coutinho, da Iaso.

A ciência descobriu que as alterações hormonais agem também sobre outro mecanismo do corpo: o sistema endo­canabinoide, com receptores nervosos no cérebro, fígado, nos músculos e na gordura. Ele desempenha um papel importante no controle do gasto e do acúmulo energético e no metabolismo de gorduras e açúcares. "Uma vez liga­do, determina que o corpo guarde mais reservas. E é exatamente isso o que acontece na presença do estresse", diz o endocrinologista Halpern.

Para piorar, este mesmo sistema está vinculado ao processamento da com­pensação, quando o corpo, de alguma maneira, procura algo que lhe dê prazer para compensar algum sofrimento. Dessa maneira, submetido a uma tensão diária, ele vai trabalhar de forma a forçar o indivíduo a achar algo que o alivie. Uma das saídas mais efetivas disso, pelo menos do ponto de vista cerebral, é aumentar o consumo de comidas sabo­rosas, ricas em gorduras e açúcares. E lá vão pacotes de biscoitos, barras de cho­colates e pães. Isso ocorre porque esses alimentos, indiretamente, provocam o aumento da produção da serotonina, conhecida como o hormônio do bem­estar. Ela relaxa, alivia as sensações do­lorosas e até induz ao sono. Portanto, inconscientemente, ingerimos guloseimas quando estamos estressados para responder a um pedido do corpo por mais bem-estar. O problema - e a gran­de armadilha - é que os alimentos desta categoria são os mais engordativos.

Passa pelo mesmo sistema outro processo recentemente revelado vincu­lado ao ciclo estresse-obesidade. Cien­tistas do Scripps Research Institute, na Califórnia, descobriram que, se o orga­nismo for privado subitamente de um alimento que lhe dava conforto - em geral os fatídicos doces e massas -, res­ponde da pior maneira possível. "Ocor­re um estresse cerebral e o desencadea­mento de uma reação exagerada", expli­ca Eric Zorrila, coordenador da pesqui­sa. Na verdade, a pessoa torna-se vítima de uma crise de abstinência, semelhante à que acontece em casos de dependência de drogas. "O cérebro procura voltar ao seu padrão, ao vício de comer alimentos saborosos", diz Zorrila. Sua conclusão baseia-se em estudo que fez usando ratos. Ele observou que o mecanismo registrado nos animais que tiveram sua dieta alterada segue um roteiro igual, no que se refere à ativação de vias molecu­lares, ao que é deflagrado na dependên­cia química de álcool e drogas. Em ambos os casos, está envolvida a amíg­dala, uma estrutura do cérebro relacio­nada às emoções. "Acreditamos ter re­velado uma das bases neuroquímicas que podem resultar no efeito ioió. Vi­mos que mudar radicamente de dieta, tirando de uma hora para outra os ali­mentos a que se está acostumado não é uma boa estratégia", diz Zorrilla.

Esses novos conceitos vão ao encon­tro do raciocínio da psicóloga Ana Rossi, de Porto Alegre. Ela trata seus pacientes estressados e obesos com uma técnica que reforça as atitudes positivas em vez de simplesmente enchê-los de restrições. "O cérebro não consegue converter ordens negativas em positivas e mudar comportamentos. Por isso, em vez de privar, é melhor dar instruções positivas", diz ela. Como seria isso? "É mais eficiente para mudar um hábito eu me imaginar saciada com salada e ape­nas um pedaço de filé do que tentar colocar na mente que não posso comer carnes gordurosas", explica a psicóloga.

Mais uma frente que começa a ser decifrada são as relações e as conse­quências da dobradinha estresse e ansiedade. Algumas respostas come­çam a vir à superfície. Um estudo rea­lizado pela Universidade de Vale (EUA) acaba de revelar, por exemplo, que a in­sônia - sintoma evidente da presença das duas condições - contribui de forma ex­pressiva para o ganho de peso. De acor­do com o trabalho, ela hiperestimula neurônios do hipotálamo. "Essas célu­las nerv vas", diz ela. Como seria isso? "É mais eficiente para mudar um hábito eu me imaginar saciada com salada e ape­nas um pedaço de filé do que tentar colocar na mente que não posso comer carnes gordurosas", explica a psicóloga.

Mais uma frente que começa a ser decifrada são as relações e as conse­quências da dobradinha estresse e ansiedade. Algumas respostas come­çam a vir à superfície. Um estudo rea­lizado pela Universidade de Vale (EUA) acaba de revelar, por exemplo, que a in­sônia - sintoma evidente da presença das duas condições - contribui de forma ex­pressiva para o ganho de peso. De acor­do com o trabalho, ela hiperestimula neurônios do hipotálamo. "Essas célu­las nervosas são muito sensíveis ao estresse. Se forem excessivamente ati­vadas, podem levar a reações exagera­das, como comer demais", diz o pes­quisador Tamas Horvarth, um dos autores do trabalho.

A informação já está servindo para nortear o trabalho dos especialistas. "Peço às pessoas com problemas de peso e sono para adotarem medidas para regularizar as duas coisas, em vez de tratar apenas um ou outro", diz a nutricionista Noádia Lobão, de Niterói, no Rio de Janeiro. Nas suas consultas, a especialista faz um levantamento aprofundado da qualidade do sono antes de estabelecer uma dieta e costu­ma indicar chás de camomila ou erva-cidreira e doses de fitoterápicos à base de maracujá para ajudar os pacientes a relaxar na hora de ir para a cama. No consultório do cirurgião plástico Ro­drigo Frederico, de São Paulo, pacientes nitidamente ansiosos também recebem orientação específica. "Oriento para que façam sessões de terapia antes de operar. O estresse pode dar um efeito rebote e levar a pessoa a recuperar o que perdeu", diz ele.

Embora os pesquisadores saibam que ainda há muito a entender sobre a questão estresse e ganho de peso, a maioria já está feliz com as descobertas realizadas até agora. "Conseguimos identificar uma parte do caminho, da cadeia de eventos moleculares que liga a obesidade e o estresse crônico", diz o pesquisador Herbert Herzog, da Aus­trália. Portanto, a partir de agora, se o médico sentar-se à sua frente na próxi­ma consulta e disser simplesmente que o problema é que você come mais ca­lorias do que gasta, desconfie. Ele não está errado, é verdade. Mas, antes de iniciar o tratamento, é preciso saber exatamente o que está levando você a cair nesse ciclo. Pode ser o estresse. E ele deve ser tratado também.

• Por que o estresse causa acúmulo de gordura 

As pesquisas revelam o desenvolvimento de três processos

1 - Cascata hormonal

O cérebro não distingue ameaças reais ou imaginárias e reage a elas da mesma forma: manda aumentar a produção de diversos hormônios que deixam o corpo em estado de alerta para se defender.

O que acontece:

São liberadas doses maiores dos seguintes hormônios:

Cortisol
Adrenalina
Noradrenalina (produzidos pela glândula suprarrenal, localizada acima dos rins)
gH (o hormônio do crescimento, feito pela glândula hipófise)

O que eles fazem

Diminuem a queima calórica para poupar energia para enfrentar algum perigo

A ação especial do cortisol

É o mais envolvido no aumento de peso porque:

Age sobre o hipotálamo, estrutura do cére­bro envolvida no controle do apetite.
Ativa enzimas que aceleram a multiplica­ção das células de gordura.
Incentiva o depósito de gordura na região abdominal.
Promove a produção, pelos neurônios, do neuropeptídeo Y, que estimula a fabri­cação de mais tecido gorduroso.

2 - Ativação do sistema de recompensa

É um sistema envolvido em atividades como a regulação das sensações de recompensa e prazer. Possui receptores no cérebro, nos músculos, no fígado e no tecido adiposo e também entra em ação quando há estresse. Por isso:

Atua no controle do gasto e do acúmulo energético e no metabolismo de açúcares e gordura.
Se for constantemente estimulado, como ocorre quando há estresse crônico, leva ao aumento exagerado do apetite e a alterações que facilitam o armazenamento da gordura.

3 - Mudanças no paladar

As pessoas estressadas tendem a buscar conforto em alimentos calóricos e sabo­rosos. São comidas ricas em carboidratos e gordura, como bolos, doces, massas e biscoitos. Há duas explicações para isso:

Os carboidratos se transformam rapida­mente em energia no organismo e elevam a quantidade de serotonina circulante no sangue, uma substância associada à sensação de bem-estar.
Além de dar mais sabor aos alimentos, a gordura é armazenada mais facilmente para ser usada em situações de perigo.

• Ele também engorda as crianças

Criança reage ao estresse de modo parecido ao dos adultos. A pesquisa­dora Elizabeth Susman, da Universidade Penn State (EUA), comprovou a ligação entre o excesso de cortisol e de peso, notadamente nas garotas. Ela avaliou 111 meninos e meninas com idades entre 8 e 13 anos à procura de sintomas de depressão e mediu os níveis do hormônio em amostras de saliva após atividades estressantes, como fazer contas mentais. "Houve grande aumento de cortisol em todos, porém nas meninas isso pareceu diretamente associado ao ganho de peso", disse Elizabeth à ISTOÉ. Uma das hipóteses é a interação entre as mudanças bioquímicas patrocinadas pelo estresse sobre o hormônio feminino estrogênio.

O pesquisador Steve Garasky, da Universidade do lowa (EUA), observou que o casamento entre a obesidade e o estresse começa cedo. Ele analisou crianças de 7 anos até jovens de 15 e verificou que, entre aqueles que sofriam algum tipo de estresse, 56% ti­nham sobrepeso ou estavam obesos. Garasky constatou que o ambiente e o humor materno têm papel importante. "Quando a mãe é estressada e as crianças vivem em uma casa com comida adequada

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