Estresse, um cansaço que parece não ter fim


Esse pesadelo ataca homens, nulheres e crianças, causa doenças e intriga especialistas.

Jornal O Estado de São Paulo - por Ruth Helena Bellinghini

O despertador dispara às 7 horas e nossa vítima anônima já está acordada depois de mais uma noite maldormida. A correria começa cedo, antes do café da manhã. A filha do meio levantou com uma cólica daquelas e o caçula, como sempre, dorrmiu demais, não arrumou o quarto e está atrasado para a escola. Antes de sair, um telefonema, o terceiro, para a assistência técnica da máquina de lavar. Quando é que o técnico vai aparecer?

Depois de largar a prole na escola, uma passadinha no banco, encarando, é claro, uma fila monumental. Agora é hora de pegar a Marginal, onde o trânsito está paralisado por causa de um caminhão que tombou quilômetros à frente. No trabalho, uma bronca arrasadora do chefe, reclamando do atraso. Adepto do "funcionário trabalha melhor sob pressão", ao longo do dia ele dispara umas duas ou três críticas, a mais feroz contra aquele detalhezinho que ficou de fora de um relatório.

Fim do expediente, mais trânsito e problemas em casa. Mas aí vem o fim de semana. a sábado é dia de supermercado, lavar carro e tanque - a máquina ainda não voltou do conserto. De noite, nova insônia e mais preocupação porque o filho mais velho só chegou de madrugada. Domingo é dia de almoço na sogra e lanche na casa da mãe, seguidos de duas intermináveis horas de Fantástico, em que os olhos ficam na TV e a cabeça, nas contas a pagar.

O resultado é um cansaço que não passa nem depois de uma noite de sono, nem no fim de semana e, às vezes, nem com férias. As conseqüências para a saúde dariam para encher um calhamaço de termos médicos: rinite, dores de cabeça, enxaqueca, problemas digestivos, herpes, gripes constantes, dores nas costas, hipertensão, diabete, enfarte, depressão, síndrome do pânico e até morte. Esse pesadelo tem um nome: estresse, que ataca homens, mulhres e crianças de todas as raças e não faz distinção entre ricos e pobres, entre moradores de metrópoles agitadas ou de pacatas comunidades rurais.

  • Luta e fuga

    O mais curioso é que, se não fosse por causa do esstresse, nenhum ser humano estaria hoje neste planeta. a estresse é uma reação orgânica desenvolvida pelos animais, ao longo de milhões de anos de evolução, para garantir sua sobreviência diante do perigo. Perigos concretos, como um leão faminto à espreita de um de nossos incautos ancestrais dos tempos das cavernas. Diante desse risco de vida iminente, em sete segundos o corpo se prepara para fugir ou lutar.

    O cérebro acioná as glândulas supra-renais, que começam adespejar adrenalinana sangue. As pupilas dilatam-se para melhorar a visão e os pulmões passam a recolher mais oxigênio. O coração bate mais acelerado e a pressão arterial sobe na expectativa da ação. O fígado transforma o açúcar armazenado sob a forma de glicogênio em glicose para fornecer energia para o organismo. Processos como a digestão passam a ser considerados não essenciais e o sangue flui para o cérebro e músculos. É hora de lutar ou correr.

    Se a ameaça continuar por mais alguns minutos, o organissmo vai precisar de mais energia. O fígado entra novamente em ação mobilizando as reservas de gordura, que serão transformadas em triglicérides e queimadas como combustível. a cérebro aciona as supra-renais que secretam um conjunto de hormônios denominado de glucorticóides - cortisona, cortisol e corticosterona -, todos empenhados em obter mais energia a partir da glicose.

    Livre da ameaça do leão faminto, com as gorduras queimadas e o açúcar consumido, nosso ancestral das cavernas podia respirar aliviado, enquanto seu organismo voltava ao normal.

    Agora imagine tudo isso ocorrrendo no seu corpo todos os dias, mas sem a luta e sem a fuga. No trânsito congestionado não há o que enfrentar nem para onde corrrer. E luta no trabalho é demissão na certa. Nossa vítima anônima nem percebe, mas enquanto passa horas ali no engarrafamento, seu fígado libera gorduras que não são queimadas e ficam passeando pela corrente sanguínea, propiciando a formação das famoosas placas de ateroma- responsáveis pela aterosclerose -, que se depositam nas paredes internas das artérias, aumentando os riscos de hipertensão e enfarte.

    O açúcar liberado no sangue - e não queimado por nenhuma atividade física - aumenta o trabaalho do pâncreas, que produz insulina. Com o tempo, a sobrecarga pode provocar o aparecimento do diabete de tipo 2.

  • Depressão

    O excesso de glucoricóides no organismo por longos períodos também, causa problemas sérios. Um deles, o cortisol, está associado à baixa do sistema imunológico. Por causa disso, vítimas de estresse tendem a sofrer com gripes, rinites, faringites e até úlceras. Esse excesso de adrenalina e glucorticóides também podem comprometer o delicado equilibrio dos neurotransmissores e, em alguns casos, provocar depressão e síndrome do pânico.

    Algumas pessoas têm resistência natural ao estresse, o que não quer dizer que não sofram com ele. Apenas sofrem menos. Além disso, uma série de fatores influenciam a intensidade com que cada pessoa reage à mesma situação. A expectativa diante de uma reforma ministerial ou o anúncio de uma elevação da taxa de juros atinge mais duramente a pessoa bem informada - perceber rapidamente as conseqüências de tal decisão - do que outra me enos antenada, que também vai sentir na pele essas mesmas conseqüências num prazo mais dilatado, quando, por exemplo, perceber que está mais difícil pagar prestações.

    "Os primeiros sofrem por antecipação e isso faz com que, em comparação, tenham um estresse maior", afirma o psiquiatra Ênio Roberto de Andrade, do Insstituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. "Quanto maiores a cultura, o grau de informação, a atividade social e as exigências da sociedade, mais estressada a população".

    Prova disso é o número de estressados que circula por São Paulo. A psicóloga Marilda Lipp, professora da PUC-Campinas avaliou 1.818 pessoas que circulavam pelo Conjunto Nacional e Aeroporto de Cumbica e descobriu que 32% tinham estresse. Marilda também checou os níveis de estresse de algumas atividades profissionais e obteve resultados alarmantes: a incidência do problema entre juízes, policiais, bancários e jornalistas supera os 60%.

    O estresse é um processo cumulativo e os sintomas iniciais do problema podem passar despercebidos. "Na fase inicial, as pessoas costumam apresentar pequenas falhas de memória - esquecem-se de onde deixaram a chave ou a bolsa - e reclamam também de que já acordam cansadas", conta Marilda. Isso ocorre porque o soo"no do estressado não entra nas faa- ses profundas. "Ele não passa muito tempo em delta e sono REM, fases mais profundas, em que, por exemplo, a pessoa sonha", explica o neurologista Sérgio Tufik, do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele lembra que a insônia, um dos sinais do estresse, aumenta com a pobreza.

    No estágio seguinte, em termos emocionais, começam a duvidar da própria competência até na vida pesssoal - e caem num certo desânimo. O problema agrava-se em seguida, quando o estressado pode ter dores de cabeça, azia, queda de cabelos, irritações da pele, gripes fireqüentes e, se for suscetível, manifestações de herpes. Tudo resultado da baixa na resistência imunológica.

    Geralmente, o estressado só vai em busca de ajuda quando não dá mais para ignorar a gastrite, a taquicardia ou a enxaqueca. "A pessoa procura um gastroenterologista que vai pedir uma bateria de exames, receita um antiácido e uma dieta alimentar e mesmo assim ela não melhora", conta Andrade. "Um médico sensível vai perceber que é uma pessoa ansiosa, constantemente preocupada, cujo celular toca duas vezes durante a consulta e vai concluir que é um caso de estresse".

  • Mulheres insones

    A entrada da mulher no mercado de trabaalho - acumulando quase sempre as funções de dona de casa e mãe - colocou-a também na lista dos estressados. Segundo Marilda, elas se queixam principalmente de sensação de desgaste, hipersensibilidade emotiva e tensões musculares. Segundo Tufik, a principal queixa física das mulheeres estressadas é a insônia.

    Nem as crianças ficam de fora. Os sintomas e as causas são as mesmas dos adultos. "Basicamennte, elas sofrem por causa de uma cobrança de desempenho", explica Andrade, que é especialista em psiquiatria da criança e do adolescente. Hoje, elas têm uma agenda sobrecarregada, com escola, inglês, natação, computação e judô, nem sempre por opção delas.

    "O garoto pode adorar jogar bola com os amigos, mas quando o pai o coloca numa escolinha de futebol dizendo que ele vai ser um novo Ronaldinho, a atividade prazerosa vira cobrança e causa estresse; é muito diferente do caso em que a criança pede para ir para uma escolinha e recebe o incentivo dos pais". Há crianças de 7 anos com estresse, um quadro que se agrava ainda mais nos adolescentes perto do vestibular.

  • Alerta na empresa

    Entre adultos, porém, o trabalho ainda é a principal fonte de estresse. A situação é tão grave no mundo todo que recentemente a Organização Internacional do Trabalho (OIT) lançou um alerta, afirmando que só as empresas que conseguirem ajudar seus funcionários a enfrentar o estresse vão sobreviver neste mercado globalizado e cada vez mais competitivo. Segundo a OIT, empregados estressados até podem conseguir manter a produção em termos numéricos, mas a queda da qualidade é sempre acentuada.

    Somente nos Estados Unidos, o estresse repreenta um custo superior a U$ 200 bilhões por ano, cifra dez , vezes maior do que os gastos com todas as folgas somadas. Ou seja: uma empresa ganha mais dando folgas aos funcionários do que impondo um ritmo alucinado de trabalho, que resulta também em faltas ao serviço e acidentes de trabalho.

    Diante da gravidade, muitas empresas, até mesmo no Brasil, resolveram enfrentar o problema. Marilda Lipp, que coordena o Centro Psicológico de Controle do Stress, conta que de três anos para cá muitas empresas têm pedido que faça avaliações completas de seus funcionários, com recomendações personalizadas para cada um. O trabalho inclui campanhas educativas, palestras e até programas de treinamento de chefias, para reduzir o problema. "Chefes indecisos, detalhistas, que fazem exigências absurdas, nunca elogiam o funcionário e privilegiam um ou dois em detrimento dos demais criam uma situação de insegurança que propicia o estresse", explica.

  • Cobranças internas

    No seu centro de estresse, Marilda tem uma clientela formada basicamente por políticos, empresários e executivos que, além dos fatores externos do estresse, sofrem com suas cobranças internas. O estressado é, antes de mais nada, uma pessoa que quer controlar o incontrolável. Uma pesquisa realizada com 199 executivos e empresários estressados revelou que 67% pensam que "é horrível quando as coisas não são exatamente como gostaríamos que fossem" e 60% acreditam que devem ser "absolutamente competentes, inteligentes e merecedores de todo o respeito".

    Marilda ataca o estresse em quatro frentes. "O estressado precisa descobrir seus limites, do contrário vai sobrecarregar-se". O relaxamento é outro aspecto importante, já que no estresse há uma grande tensão muscular. Alimentação é outro fator importannte. "Uma dieta rica em frutas, legumes e verduras também ajuda".

    Por fim, a atividade física. "Bastam 30 minutos de exercício para que o organismo produza endorfinas, substâncias que produzem, uma sensação de bem-estar", garante. O melhor é a caminhada, que não exige muito de um organismo já debilitado.

    Já a Unifesp opta pela terania com o são exatamente como gostaríamos que fossem" e 60% acreditam que devem ser "absolutamente competentes, inteligentes e merecedores de todo o respeito".

    Marilda ataca o estresse em quatro frentes. "O estressado precisa descobrir seus limites, do contrário vai sobrecarregar-se". O relaxamento é outro aspecto importante, já que no estresse há uma grande tensão muscular. Alimentação é outro fator importannte. "Uma dieta rica em frutas, legumes e verduras também ajuda".

    Por fim, a atividade física. "Bastam 30 minutos de exercício para que o organismo produza endorfinas, substâncias que produzem, uma sensação de bem-estar", garante. O melhor é a caminhada, que não exige muito de um organismo já debilitado.

    Já a Unifesp opta pela terania comportamental e biofeedback. Nesse processo, a pessoa é conectada a computador que transforma em imagens e sons suatividaade cerebral, batimento cardíaco, respiração e tensão muscular. "Ensinamos o paciente a controlar sua tensão e a visualizar e ouvir o que está ocorrendo com seu corpo", explica Tufk.

  • Paliativos

    "Interromper a rotina do expediente com um almoço com os amigos é uma boa maneira de dar uma relaxada no meio do trabalho", sugere Ênio Roberto de Andrade. Remédios milagrosos, meditação, massagem e similares não resolvem o problema, funcionando apenas como paliativo. Férias, por exemplo, nem sempre ajudam a aliviar o estresse. Há quem aproveite o período para tocar a reforma da casa ou procurar apartamento para comprar, receita certa para voltar ao trabalho em completa exaustão.

    Além disso, a obrigação de relaxar pode tomar qualquer atividade relaxante numa nova fonte de estresse. "É o caso do sujeito que sai de férias e resolve aproveitar para jogar tênis, futebol, peteca, nadar e dar mais atenção para os filhos". O psiquiatra lembra que relaxar pode ser simplesmente ler um livro, se a pessoa gostar, ouvir uma boa música - mesmo que seja heavy metal -, cuidar de um jarrdim, sair com os amigos. O presidente americano Abrahan Linncoln, por exemplo, relaxava rachando lenha. "Tem gente que relaxa lavando banheiro, arrumando gavetas e até passando roupa", conta Andrade.

    O importante é gostar do que se está fazendo. "Eu, por exemplo, detesto futebol e se você quiser me torturar basta me chamar para assistir a uma partida", confesssa o especialista. Não adianta recomendar a uma pessoa naturalmente agitada que entre para um grupo de meditação. O cinéfilo que transforma a ida ao cinema em obrigação perde todo o prazer dessa atividade. De acordo com Andrade, relaxar significa fazer espontaneamente coisas que a pessoa goste. "É a atividade prazerosa que compensa o estresse".

    Reação Imediata

    Em resposta a uma ameaça, o organismo aloca recursos para ganhar força e velocidade.

    - cérebro: o estresse, para proteção do corpo, reduz sua sensibilidade à dor. Melhora a memória e a agilidade do pensamento.
    - olhos: as pupilas dilatam-se para garantir visão melhor.
    - pulmões: pulmões recebem maior volume de oxigênio.
    - coração: a corrente sanguínea leva suprimementos de oxigênio e gliose - combustíveis para geração de energia. Os batimentos cardíacos aceleram-se e sobe a pressão arterial.
    - fígado: açúcar armazenado sob a forma de glicogênio é transformado em glicose.
    - baço: libera novos glóbulos vermelhos na corrente sanguínea, permitindo que o sangue leve mais oxigênio para os músculos.
    - glândulas supra-renais: secretam hormônios que preparam o corpo para a luta ou a fuga, como a adrenalina.
    - intestinos: a digestão é interrompida, permitindo que o corpo canalize energia para a ação muscular.
    - pêlos: os pêlos eriçam-se, o que torna os animais maiores e aparentemente mais perigosos.

    Reação Posterior

    Minutos depois da reação lutar ou fugir, o organismo passa por alterações para estabilizar-se e recompor-se.

    - cérebro: o hipocampo, centro da memória e aprendizado, é ativado para processar o estresse.
    - sistema imunológico: a capacidade de combater infecções é reduzida, talvez por causa da menor disponibilidade de energia.
    - fígado: gordura - energia armazenada - é convertida em combustível utilizável.
    - glândulas supra-renais: o córtex secreta cortisol, que regula o metabolismo e a imunidade. Ao longo do tempo, porém, ele pode ter ação tóxica.

    Estresse Clássico

    Se ativada com muita freqüência, a reação de estresse pode prejudicar o sistema imunológico, o coração e o cérebro.

    - cérebro: o cortisol passa a ser tóxico para as células cerebrais, o que pode prejudicar a habilidade cognitiva. Fadiga, raiva e depressão aumentam.
    - sistema imunológico: a supressão constante das células do sistema de defesa enfraquece a resistência do organismo às infecções.
    - intestinos: a redução do fluxo sanguíneo deixa a mucosa intestinal vulnerável a úlceras.
    - sistema circulatório: a aceleração dos batimentos cardíacos e a elevação da pressão arterial danificam a elasticidade dos vasos sanguíneos.

    • Administração do Tempo

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