Eternamente jovem: a conquista da longevidade


Conheça os tratamentos já encontrados pela medicina e os métodos experimentais que prometem prologar a juventude.

Revista Istoé - por Cilene Pereira, Mônica Tarantino e Monique Oliveira

Neste momento há dezenasde centros de estudos espalhados pelo mundo buscando entender por que envelhecemos e como retardar este processo. O que se quer é encontrar formas de nos deixar jovens por mais tempo, adiando o tempo em que o corpo vai perdendo gradativamente o vigor e a saúde. Na última semana, dois importantes grupos de pesquisa anunciaram passos decisivos nessa direção. Cada um a seu modo, eles conseguiram promover uma espácie de rejuvenecimento celular, feito fascinante que contribuirá para ajudar a atenuar os desgastes promovidos no organismo pela passagem do tempo.

O primeiro trabalho foi realizado por cientistas da Clínica Mayo, dos Estados Unidos. O foco dos pesquisa­dores foram as chamadas células se­nescentes. Uma célula jovem apresen­ta grande capacidade de se multiplicar. Com o correr dos anos, porém, ela vai perdendo essa habilidade até entrar em uma fase na qual consegue fazer apenas um número limitado de divi­sões. É uma espécie de limbo, quando ela nem se replica normalmente nem morre. Quando entra nesse período, é batizada de senescente. A etapa ante­cede a última do ciclo de uma célula, quando ela perde completamente o poder de se dividir e morre.

Há anos a ciência já sabia que essas células estavam envolvidas no surgi­mento de doenças associadas ao enve­lhecimento, mesmo estando presentes em pequena quantidade no organismo - estima-se que somem entre 10% e 15% do total de células de um idoso. O que ninguém tinha conseguido até agora era neutralizar seus efeitos. E foi exatamente o que os cientistas ameri­canos fizeram, em cobaias, realizando uma espécie de "limpeza".

Primeiro, eles criaram camundon­gos nos quais as células senescentes possuíam uma molécula específica, a caspase 8. Em seguida, desenvolve­ram uma droga capaz de ativá-Ia. Quando acionada, a molécula iniciou um processo de destruição das célu­las senescentes, formando orifícios nas membranas que as envolvem.

O resultado dessa operação foi impressionante. As cobaias tiveram reduzida a velocidade do envelhecimen­to. Por isso, demoraram mais a apresen­tar enfermidades típicas dessa fase da vida, como catarata, e outras caracte­rísticas, como perda de músculos. Até a quantidade de camada de gordura sob a pele se manteve, ao contrário
do que acontece quando se envelhece. "Nosso estudo demonstra que remo­ver as células senescentes pode au­mentar a longevidade", disse à ISTOÉ o pesquisador James Kirkland, diretor do Centro de Envelhecimento Robert and Arlene Kogod, da Clínica Mayo, e um dos autores do trabalho. A pró­xima etapa é aprofundar as experiências, ainda em animais, antes de pas­sar para os estudos em humanos.

A segunda pesquisa também uti­lizou células senescentes. Os autores foram os pesquisadores da Univer­sidade de Montpellier, na França. Ao contrário dos colegas america­nos, seu objetivo não era destruir essas células, mas rejuvenescê-Ias. Deixá-Ias tão jovens a ponto de apresentarem as mesmas caracterís­ticas de uma célula-tronco embrio­nária, a mais versátil de todas, capaz de gerar qualquer tecido do corpo. A façanha, inédita, foi realizada.

A primeira tentativa usou células senescentes extraídas de um homem de 74 anos. À amostra foi adicionado uma espécie de coquetel com seis fato­res genéticos (substâncias capazes de interferir na expressão do DNA). O que eles viram foi fascinante. Subme­tidas a esses compostos, as células senescentes regrediram até o estágio em que readquiriram as características de uma célula-tronco embrionária: recuperaram sua capacidade de reno­vação e de se diferenciar em diversos tecidos. Ou seja, não apresentaram qualquer vestígio de envelhecimento. A experiência prosseguiu usando co­mo voluntários indivíduos ainda mais velhos - de 92, 94, 96 e de 101 anos. O sucesso do tratamento rejuvenesce­dor foi o mesmo. "Agora, esperamos que nossa descoberta ajude a retardar o surgimento de doenças associadas ao envelhecimento", disse à ISTOÉ o pesquisador Jean-Marc Lemaitre, co­ordenador da experiência.

Todo o investimento feito até hoje para desvendar o processo do envelhe­cimento já deixou claro que ele é muito mais complexo do que se ima­ginava. Contempla uma plêiade de fatores que atuam sozinhos ou em combinação a outros. Por isso, a ci­ência é obrigada a olhar em várias direções em busca de respostas. Hoje, além das células senescentes, outro alvo de grande atenção são os telô­meros. Eles consistem na parte final dos cromossomos (conjunto de ge­nes), O problema é que, a cada divi­são celular, eles vão perdendo um pedaço. Com o correr dos anos, esse encurtamento pode ser tão importan­te que prejudica o funcionamento dos genes - fato que contribui para o de­sencadeamento de várias doenças.

Diversos esforços estão sendo feitos para descobrir for­mas de impedir o encurtamento. O médico russo Vladi­mir Khavinson, da Academia Médica de São Petesburgo, na Rússia, apre­goa ter encontrado uma maneira. Há pelo menos 15 anos ele coordena no país europeu um experimento no qual utiliza peptídeos (proteínas for­madas por menos de dez aminoáci­dos) extraídos da glândula pineal (envolvida no controle de ciclos vitais do nosso corpo, como o sono). "Em um grupo de idosos, que receberam o remédio durante 12 anos, a morta­lidade foi reduzida em 30%", contou ele à ISTOÉ. Recentemente, o médi­co esteve no Brasil apresentando re­sultados como o esse. Porém, suas conclusões passam longe do consen­so científico. "Muitos pesquisadores são céticos em relação aos estudos dele", disse à ISTOÉ Helen Skold, chefe do Departamento de Ecologia Marinha da Universidade de Gotem­burgo, na Suécia. Lá, ela estuda os telômeros de corais capazes de viver uma centena de anos.

Nos consultórios, uma estratégia chama atenção também pela polêmica que desperta - e pelo número de pes­soas que a estão ado­tando para tentar atrasar o relógio do tempo. Trata-se da modulação hormo­nal. Aqui, ao contrá­rio da reposição, que administra hormô­nios quando sua queda já provocou efeitos visíveis na forma de fadiga, mal-estar e outras disfunções, o intuito é estabelecer vigilância para que esses desconfortos nem cheguem a aparecer ou cheguem mais brandos. Por isso, a qualquer sinal de queda, os médicos adeptos desta terapia agem.

De fato, está claro para a medicina que ao longo dos anos há uma acentu­ada mudança nos padrões hormonais. Isso ocorre tanto com os hormônios sexuais (os femininos estrógeno e pro­gesterona e o masculino testosterona) quanto com outros hormônios. O desequilíbrio nesse sistema fundamen­tal para o bom funcionamento do corpo resulta no aparecimento de vá­rios sintomas. Pode haver mais cansa­ço, perda de força muscular ou outros desconfortos mais característicos do avanço da idade, além de deixar o in­divíduo mais vulnerável a doenças associadas ao envelhecimento.

Um exemplo são as consequências provocadas pelos desequilíbrios na produção da insulina, hormônio que permite a entrada da glicose nas célu­las. Com a passagem do tempo, pode­-se começar a apresentar resistência ao seu funcionamento. Ou seja, a insulina está no organísmo, mas as células tornam-se menos vulneráveis à sua ação. Como resultado, o pâncreas, responsável por sua produção, aumen­ta sua fabricação, numa tentativa de superar esse obstáculo. Porém, o resultado pode ser desastroso: pâncreas sobrecarregado e insulina - sem efici­ência - sobrando no sangue. "Essa concentração pode aumentar o proces­so inflamatório em nível intracelular", afirma o endrocrinologista Fernando Almeida, do Recife, especializado em medicina antienvelhecimento. "As inflamações desgastam a parede de vasos sanguíneos e podem possibilitar o surgimento da maior parte das do­enças crônico-degenerativas do envelhecimento como a doença de Parkin­son e de Alzheimer" diz.

Baseados nessa premissa, muitos es­pecialistas defendem a aplicação da modulação hormonal. São vários os hormônios utilizados. O do cresci­mento, para impedir a redução de massa muscular. A testosterona ­tanto em homens quanto em mulhe­res - para aumentar força e vitalida­de. O T3, produzido pela tireoide, cuja queda está associada ao aumen­to do risco de infarto. Usam ainda o dehidroepiandrosteron a (DHEA) para o fortalecimento do sistema imunológico e reparo celular, e a pregnenolona, associada ao correto desempenho das funções cerebrais.

Outra integrante da lista é a me­latonina, fabricada pela glândula pineal e envolvida na regulação do sono. Estudos mostraram que o hor­mônio também pode ser produzido em outros pontos do organismo, fortalecendo o sistema imunológico. Isso ficou demonstrado, por exemplo, em um trabalho feito pela Uni­versidade de São Paulo e o Instituto Nacional de Câncer. Publicada no "Journal of Immunology", a pesquisa mostrou o mecanismo bioquímico pelo qual o hormônio pode modular a morte de células T, glóbulos bran­cos que atacam células infectadas. Essa morte é importante para o equilíbrio autoimune. Outro artigo, publicado no "Journal of Pineal Research", fez uma revisão de dez estu­dos clínicos sobre a melatonina. Con­clui-se que o hormônio se mostrou capaz de reduzir em 34% o risco de morte no período de um ano em pa­cientes com vários tipos de tumores. "A ação da melatonina foi consistente em todos os estudos", diz Dugald Se­ely, um dos autores do estudo. No Brasil, a comercialização da melatoni­na não é liberada. Mas é possível usá­Ia desde que seja importada.

A evidência da relação entre o desequilíbrio hormonal e o surgimento de doenças associadas ao envelheci­mento não é suficiente para convencer toda a comunidade médica da neces­sidade de interferir nesse processo. Afinal, paira sobre estratégias como a reposição ou modulação hormonal uma série de suspeitas, entre elas a de estar por trás dos chamados tumores hormônio-dependentes, como o cân­cer de mama, alimentado pelo aumen­to de estrogênio e progesterona.

Para tentar escapar das controvér­sias, os médicos defensores da modu­lação voltam-se para o uso dos chama­dos hormônios bioidênticos. Eles têm estrutura molecular idêntica aos hor­mônios humanos embora alguns deles sejam sintetizados em laboratório. "O uso desses hormônios reduz, em vez de aumentar, os riscos de câncer", diz Italo Rachid, ginecologista especiali­zado em medicina anti-aging. Nem todos, no entanto, concordam. "Eles visivelmente apresentam menos riscos e mais efeitos benéficos", afirma o endocrinologista Wilmar Accursio, presidente da Sociedade Brasileira para Estudos do Envelhecimento. "Mas são hormônios como os outros. E, como se sabe, podem alimentar células tumorais", completa.

O que se pode afirmar com segu­rança é que esses hormônios não po­dem ser usados sem que haja pleno controle de suas reações. Também sua metabolização precisa ser monitorada. "Qualquer hormônio pode sobrecar­regar os rins e o fígado", afirma o médico Félix Magalhães, do Ambula­tório de Geriatria da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo.

Nesse intricado campo, também ganha corpo uma vertente que se propõe a tratar os efeitos provocados pela presença, no organismo, de substâncias que atrapa­lham a recepção, a produção e a supres­são dos hormônios. "Na prática, elas sobrecarregam nosso corpo, já que também são entendidas como horrnô­nios", explica o endocrinologista Fer­nando Almeida, do Recife.

Entre as toxinas, estão pesticidas, compostos presentes na poluição e substâncias como Bisfenol-A. De com­posi&ccedi lde;es. Também sua metabolização precisa ser monitorada. "Qualquer hormônio pode sobrecar­regar os rins e o fígado", afirma o médico Félix Magalhães, do Ambula­tório de Geriatria da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo.

Nesse intricado campo, também ganha corpo uma vertente que se propõe a tratar os efeitos provocados pela presença, no organismo, de substâncias que atrapa­lham a recepção, a produção e a supres­são dos hormônios. "Na prática, elas sobrecarregam nosso corpo, já que também são entendidas como horrnô­nios", explica o endocrinologista Fer­nando Almeida, do Recife.

Entre as toxinas, estão pesticidas, compostos presentes na poluição e substâncias como Bisfenol-A. De com­posição química instável, ele se des­prende facilmente do plástico quando em contato com o calor. Por essa razão, por exemplo, vários países do mundo, inclusive o Brasil, proibiram a fabrica­ção de mamadeiras de plástico.

Infelizmente, ainda não há meca­nismos capazes de eliminar essas substâncias do corpo. O tratamento proposto tem apenas a função de mi­nimizar o efeito dessas toxinas. Para isso, os médicos indicam o recurso da detoxificação. Consiste na ingestão de uma série de compostos. Entre eles, o ômega 3, encontrado na sardinha, no
atum, no salmão e nos óleos vegetais, e medicamentos como dietilindola­mina, indol-3-carbinol e silimarina.

Também há a indicação de vitami­nas que interferem diretamente na produção de hormônios, contrabalan­çando o ataque feito pelas toxinas. Nesse sentido, a descoberta mais recen­te diz respeito à ação da vitamina D. "Ela tem uma estrutura molecular bas­tante parecida com alguns hormônios", diz o médico Fernando Almeida. 

• As novas estratégias para retardar o envelhecimento

A ciência já conhece alguns mecanismos envolvidos no processo de envelhecimento e aponta caminhos para atrasá-Io.

- O que leva ao envelhecimento 

Com o passar do tempo, as células vão perdendo a capacidade de se multiplicar corretamente. O resultado é um aumento no risco de as células se replicarem apresentando erros em seu DNA.

Alguns fatores relacionados ao progresso e os que a ciência conseguiu fazer

A - Telômero

1 - É o nome dado ao pedaço final de cada cromossomo (conjunto de genes)
2 - Todas as vezes em que as células se replicam, uma parte do telômero é perdida
3 - Com o passar dos anos, o encurtamento é tão grande que começa a prejudicar o funcionamento dos genes, o que está intimamente associado ao envelhecimento

O que há em pesquisa?

Há diversas tentativas de impedir o encuratmento dos telômeros. Uma das propostas é a do cientista russo Vladimir Khavinson. Ele alega ter criado um tratamento à base de peptídeos (pedaços de proteínas) que teria obtido bons resultados.

B - Células senscentes

1 - Os cientistasdescobriram que, com o tempo, as células começam a enfrentar um período em que fazem um número limitado de divisões. Nessa fase, elas são chamadas de senescentes. Esse período antecede a etapa em que param completamente de se dividir e morrem.
2 - As células senscentes produzem substâncias que prejudicam o fuincionamento de várias outras células e também causam inflamação nos tecidos.
3 - O sistema imunológico consegue desativar a ação dessas células quando o organismo é jovem. Porém, também vai perdendo essa habilidade ao longo dos anos.
4 - A consequência é o acúmulo dessas células no corpo om o avanço da idade. Isso leva à aceleração do envelhecimento.

O que há em pesquisa?

A experiência americana

Pesquisadores da Clínica Mayo criaram camundongos nos quais as células senescentes continham uma molécula chamada caspas e 8. Ela só é ativada na presença de uma droga, desenvolvida por eles, que não tem efeito nas células normais.

Quando as cobaias receberam a droga, a molécula entrou em ação: provocou buracos nas membranas que envolvem as células, levando-as à morte.

Resultado

A eliminação das células senescentes retardou o aparecimento de problemas associados ao envelhecimento, como catarata, perda muscular e fraqueza.

As cobaias também mantiveram os mesmo níveis de camada de grodura na pele (com o onvelehciemnto , há uma redução nessa camada, o que acaba contribuindo para a formação de rugas)

Tão importante quanto isso, observpu-se que a remoção dessas células, mesmo na velhice, reduziu a progressão de doenças já estabelecidas.

A experiência francesa

Cientistas da Universidade de Montpellier extraíram células da pele de um homem de 74 anos e delas retiraram as células senescentes. O objetivo era tentar induzi-Ias a se transformar em células­ tronco pluripotentes e, depois, em células-tronco embrionárias, células "jovens" capazes de gerar qualquer tipo de tecido.

Antes, acreditava­ se que as células senescentes não apresentavam mais essa possibilidade. Para mudar essa realidade, os pesquisadores criaram um "coquetel" com seis compostos que atuam sobre seis fatores genéticos. Experiências anteriores haviam tentado a transformação, mas usaram apenas quatro substâncias.

Resultado

A adição de mais dois fatores deu certo: as células senescentes foram reprogramadas até o estágio em que adquiriram as características de células-tronco embrionárias:

Recuperaram a capacidade de renovação e de se diferenciar em diversos tecidos.

Não apresentaram nenhum traço de envelhecimento.

Animados, os cientistas testaram o "coquetel" em células extraídas de indivíduos mais velhos (92, 94, 96, e até outro com 101 anos). Em todos, os resultados foram os mesmos.

• Os hormônios e o envelhecimento

Uma das estratégias em uso para retardar o envelhecimento é a chamada modulação hormonal. Confira algumas transformações

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