Exercícios físicos: mais ativos e mais inteligentes


Exercícios físicos aumentam o volume do cérebro, estimulam a produção de neuro transmissores relacionados à sensação de bem-estar e alteram, para melhor, o modo como pensamos e sentimos.

Revista Scientific American - por John Rateye Eric Hagerman*

A maioria das pessoas se sente bem depois de correr ou mesmo fazer uma caminhada leve. Há várias hipóteses, levantadas pela ciência e pelo senso comum, que explicam esse fato: o exercício físico ajuda a esquecer pequenas frustrações diárias, reduz a tensão muscular e estimula a produção de endorfinas. Mas talvez a maior razão de nos sentirmos tão bem quando o coração bate mais rapida­mente e bombeia sangue por todo o corpo é que isso ativa o cérebro e seus intrincados circuitos - o que, segundo estudos recentes, é o maior benefício do exercício físico. O desenvolvimento de músculos e o condicionamento do coração e dos pulmões podem ser considerados apenas efeitos colaterais diante do potencial que a atividade física tem de nos tornar mais bem-humorados e inteligentes.

Controles remotos, automóveis e outras tec­nologias foram inventados para poupar nosso corpo. Ironicamente, as áreas do cérebro rela­cionadas a capacidades como criar e planejar são as mesmas que governam o movimento. Ao nos adaptarmos a um ambiente em constante transformação ao longo do último meio milhão de anos, o cérebro pensante evoluiu impulsio­nado pela necessidade de aprimorar as habili­dades motoras. Nossos ancestrais dependiam principalmente da destreza física para fugir de predadores e para caçar, mas também tiveram de usar a inteligência para descobrir formas cada vez mais eficientes de obter e armazenar comida. Os circuitos cerebrais associados à busca por alimento, à atividade física e ao aprendizado estão interligados.

O sedentarismo contradiz o imperativo bio­lógico de se movimentar para conseguir comer e se proteger. As consequências são evidentes: 65% dos adultos norte-americanos e 50,1% dos brasileiros estão acima do peso ou são obesos. Segundo pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde em abril apenas 39% dos homens e 22% das mulheres se exercitam regularmente no Brasil. Sobrepeso e falta de atividade física são os principais fatores de risco do diabetes do tipo 2, associado a doenças cardiovasculares, ao agravamento de sintomas de doenças neurode­genertativas e à redução do volume do cérebro. Praticamente restrito a pessoas com mais de 40 anos décadas atrás, o diabetes é cada vez mais diagnosticado em crianças e adolescentes. O aumento da incidência da doença certamente está relacionado às mudanças socioculturais que poupam o esforço físico.

Nos últimos 15 anos, multiplicaram-se as pesquisas que constatam relação biológica entre corpo, cérebro e mente e comprovam a influência da atividade física no desempenho cerebral e no modo como pensamos e sentimos. Em outubro de 2000, pesquisadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte, enviaram ao jornal The New York Times um estudo que mostra que praticar exercícios é mais eficiente que o antidepressivo sertralina (comercializado como Zoloft) no tratamento do transtorno. A descoberta, no entanto, foi anunciada em uma pequena nota no caderno de saúde. A atividade física pode prevenir e ajudar a tratar transtornos depressivos, pois aumenta os níveis de seroto­nina, norepinefrina e dopamina - importantes neurotransmissores relacionados às emoções e à sensação de bem-estar. A indústria farmacêutica e a mídia foram eficientes em divulgar a asso­ciação entre o desequilíbrio na sintetização de serotonina e os sintomas depressivos. Estudos recentes, pouco divulgados, relacionam altos níveis de estresse ao desgaste das conexões entre as células neurais e a depressão crônica ao atrofiamento de áreas do cérebro e sugerem a prática de exercícios não apenas como pre­venção desses problemas, mas como forma de reverter o processo.

O cérebro reage como os músculos: au­menta de volume com o uso e se atrofia com a inatividade. Os neurônios se conectam uns aos outros por meio de ramificações em suas extremidades, que podem ser comparadas a galhos cobertos com folhas. O exercício faz esses ramos crescerem e florescerem - assim, as células neurais tornam-se mais aptas para ligar umas às outras, o que aumenta a fun­ção cerebral de forma significativa.

• Bons motivos

Ainda não se sabe o impacto que o crescimento da população idosa nos países ocidentais terá sobre o sistema de saúde, com o possível au­mento dos casos de demência e complicações relacionadas à longevidade. No entanto, apesar da intimidade com o fast-food e o payper-view, os mais jovens dispõem de mais informação. Ao contrário de gerações anteriores, sabemos que coração e pulmões saudáveis previnem as doenças cardiorrespiratórias. Associadas ao sedentarismo, elas custam caro para os cofres públicos. Governos de vários países já investem em estratégias para estimular a população a buscar um estilo de vida saudável - para viver melhor e de maneira produtiva, não apenas por mais tempo. Alguns benefícios da atividade física para o cérebro: 

1 - Pevine acidente vascular cerebral: o aumento da capacidade cardiorrespiratória reduz a pressão sanguínea do corpo em repouso, o que diminui o risco de acidentes vasculares cerebrais (AVC). A movimentação sintetiza proteínas, como o fator de crescimento endo­telial vascular (VEGF, na sigla em ingl&ec circ;s), que estimula a produção de células endoteliais, que compõem o revestimento interno de vasos san­guíneos, tornando-os mais resistentes. O exer­cício desencadeia também a liberação do gás óxido nítrico, que dilata os vasos para permitir a passagem de um maior volume de sangue.

2 - Reduz risco de demência: pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, acompa­nharam 1.173 pessoas com mais de 75 anos por quase uma década. Nenhuma delas tinha diabetes, mas as que possuíam altos níveis de glicose apresentaram uma probabilidade 77% maior de desenvolver Alzheimer. Con­forme envelhecemos, os níveis de insulina caem e a glicose tem mais dificuldade para chegar às células e abastecê-Ias. O excesso de glicose não absorvida cria resíduos nas células, como os radicais livres, que danificam os vasos sanguíneos, colocando-nos em risco de desenvolver Alzheimer. No organismo em equilíbrio, a insulina age contra o acúmulo de placas amiloides, mas seu excesso contribui para o aumento das placas e a inflamação, danificando os neurônios ao redor.

3 - Melhora o humor: a maior produção de neurotransmissores, como a serotonina, e o aumento do número de sinapses previnem a atrofia do hipocampo, associada à depressão e ansiedade. Vários estudos relacionam a prática de atividade física regular à melhora do humor.
Além disso, exercícios ao ar livre ou mesmo na academia de ginástica são boa oportunidade para interagir socialmente e fazer novos ami­ gos; as relações sociais são importantes para a manutenção do humor e da autoestima, principalmente depois dos 60 anos.

4 - Aumenta a motivação: a atividade física ativa a produção de dopamina, neurotransmissor responsável pelas sensações de prazer e mo­tivação. Iniciar um programa de exercícios, aliás, é um desafio que demanda planejamento e autocontrole.

5 - Promove a neuroplasticidade: atividades aeróbicas fortalecem as conexões neuronais e estimulam as células-tronco recém-nascidas a se dividir e se transformar em neurônios funcionais no hipocampo, o que previne o atrofiamento dessa área do cérebro relacionada à
memória. Um cérebro ativado pelos exercícios favorece a neuroplascidade e a neurogênese, que é a formação de novos neurônios.

• Melhor atividade: aprender

Nos anos 90 o distrito escolar de Naperville, em Chicago, incluiu aulas de ginástica diárias na grade horária de seus quase 20 mil alunos. Exercícios aeróbicos, musculares e de flexibi­lidade tornaram-se exigência curricular. E os resultados foram além da redução das taxas de sobrepeso: em 1999, os alunos de oitava série da instituição ocuparam os primeiros lugares entre cerca de 230 mil estudantes do mundo todo submetidos ao teste Tendências no Estudo Internacional de Matemática e Ciên­cias (TIMSS, na sigla em inglês). Naperville mostra na prática que, quando os músculos do corpo aprendem a economizar energia e a se fortalecer, a mais importante de todas as estruturas ganha muito com isso.

E a relação também é inversa: pesquisas recentes têm mostrado que exercícios cog­nitivos podem conservar a estrutura cerebral e até mesmo reverter efeitos do envelheci­mento. Epidemiologistas da Universidade Johns Hopkins, em Maryland, recrutaram 128 mulheres - a maioria delas afro-arnericanas entre 60 e 86 anos de idade, com baixos níveis de escolaridade - para ter aulas de prática de leitura com crianças da escola fundamental. Tanto elas como os alunos melhoraram suas pontuações em testes padronizados. Mas um resultado, não previsto pelos pesquisadores, surpreendeu-os: a saúde das voluntárias melhorou significativamente - metade das mulheres que usavam bengala a deixou; 44% delas relataram que se sentiam mais fortes; a quantidade de tempo que passavam assistin­do à televisão caiu 4%; e elas relataram um aumento significativo no número de pessoas que acreditavam apoiá-Ias.

Em meados da década de 90, o neuro­logista David Snowdon, da Universidade de Kentucky, analisou o cérebro de 600 freiras que permitiram que fossem examinadas depois que morressem. Uma delas, chamada Berna­dette, chamou sua atenção. Até a sua morte, perto dos 90 anos, ela obteve desempenhos de mais de 90% em testes cognitivos - no entanto, após sua morte, Snowdon constatou que o cérebro estava extremamente danificado pelo Alzheimer, pois o tecido desde o hipo­campo até o córtex estava crivado de placas e novelos neurofibrilares. Uma das explicações de Snewdon para o controle dos sintomas é que a religiosa conseguiu retardar a progres­são dos sintomas da doença mantendo-se mentalmente ágil. Segundo ele, Bernadette lia regularmente, desafiava o cérebro com jogos de números e palavras e mantinha-se ativa participando de trabalhos sociais.

O caso relatado por Snowdon remonta à neurogênese, a teoria de que o cérebro produz células novas ao longo de toda a vida. "Há dez anos essa teoria soava herética", diz o neurologista Scott Small. Foi em seu labo­ratório na Universidade Colúmbia, em 2007, que foram observados pela primeira vez sinais da neurogênese em humanos vivos. Nesse estudo, Small registrou imagens do cérebro de voluntários durante um programa de exer­cícios de três meses de duração. Por meio da técnica de ressonância magnética, seu grupo de pesquisa conseguiu imagens de capilares recém-formados necessários para que os neu­rônios nascentes sobrevivam. Descobriram, por exemplo, que o volume capilar na área da memória do hipocampo aumentou 30%, uma mudança realmente incrível. O verdadeiro avanço aqui talvez tenha sido a capacidade de mapear a neurogênese sem invadir o cérebro, o que poderia mudar o foco da pesquisa dos ratos de laboratório para pessoas. A nova tec­nologia permite aos cientistas testar o impacto de qualquer nova variável sobre a neurogênese, por exemplo, quanto de exercício é necessário. "Basta uma hora por semana," ou apenas um exaustivo treinamento físico maximizará a neurogênese? Simplesmente não sabemos. Agora, com esta ferramenta capaz de medir a neurogênese indiretamente, podemos real­mente tentar criar um programa de exercícios para fortalecer o cérebro", acredita Small, que enxerga o exercício como uma estratégia para acelerar o crescimento de novas células.

"Quando as pessoas me perguntam o quanto devem se exercitar para beneficiar o cérebro", el. O verdadeiro avanço aqui talvez tenha sido a capacidade de mapear a neurogênese sem invadir o cérebro, o que poderia mudar o foco da pesquisa dos ratos de laboratório para pessoas. A nova tec­nologia permite aos cientistas testar o impacto de qualquer nova variável sobre a neurogênese, por exemplo, quanto de exercício é necessário. "Basta uma hora por semana," ou apenas um exaustivo treinamento físico maximizará a neurogênese? Simplesmente não sabemos. Agora, com esta ferramenta capaz de medir a neurogênese indiretamente, podemos real­mente tentar criar um programa de exercícios para fortalecer o cérebro", acredita Small, que enxerga o exercício como uma estratégia para acelerar o crescimento de novas células.

"Quando as pessoas me perguntam o quanto devem se exercitar para beneficiar o cérebro", continua Small, "digo que o melhor conselho é que entrem em forma e depois continuem a se desafiar." A receita de como fazer isso variará de pessoa para pessoa, mas as pesquisas mostram consistentemente que quanto mais fisicamente apto você estiver, mais adaptado a mudanças seu cérebro se tornará e melhor funcionará, cognitiva e psicologica­mente. Isso significa que você precisa ter um desempenho de atleta para que o cérebro se beneficie do exercício? De modo algum. Na ver­dade, muitos dos estudos mais convincentes usam a caminhada como forma de exercício. Mas me concentro no condicionamento porque sabemos com certeza que um índice de massa corporal normal e um sistema cardiovascular saudável sustentam o cérebro. A ciência mostra que corpo e mente estão conectados. Por que não cuidar dos dois?

Para saber mais

Corpo ativo, mente desperta. John Rateye Eric Hagerman. Objetiva, 2011.
Mentes em movimento. Steve Ayan. Mente e Cérebro nº 211, págs. 36-45, agosto de 2010.

*JOHN RATEY é neuropsiquiatra e professor da Universidade Harvard. ERIC HAGERMAN é jornalista, ex-edltor da revista Popular Science. Este artigo foi adaptado de seu livro Corpo ativo, mente desperta (Objetiva, 2011).

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