Faíscas internas


Especialista em audição e saxofonista, Charles J. Limb diz que o estudo do cérebro durante sessões de improvisação pode trazer uma nova compreensão da criatividade - assim como mais descobertas sobre o gênio musical de John Coltrane.

Revista Scientific American - por Charles J. Limb - Entrevista por Alicia Anstead

Em Síntese

Quem - Charles J. Limb
Vocação/passatempo - Cirurgião; otorrinolaringologista; toca saxofone
Onde - Johns Hopkins Medical Center e bares e teatros em Baltimore
Foco de pesquisa - O que se passa no cérebro quando os músicos improvisam? 
Em síntese - A criatividade é uma atividade do cérebro como um todo, e está profundamente relacionada à consciência de nós mesmos. Convém a nós compreendê-Ia.

Charles J. Limb poderia ter sido um solista no saxofone. Ele cresceu em uma fa­mília musical e mostrou sinais de talento muito cedo. Limb idolatrava John Col­trane e, como aluno em Harvard, dirigiu uma banda de jazz, Apesar de ao final ter estudado medicina, escolheu sua especialização (otorrinolaringologia) em parte pelo seu interesse musical. Como especialista em audição e cirurgião no Johns Hopkins Medical Center, Limb realiza implantes cocleares em pacientes para recuperar a audição e permitir que surdos também apreciem música. Sua sensibilidade e paixão de artista continuam a contribuir para a pesquisa. Pelo menos metade de seus estudos durante os últimos dez anos enfocaram regiões do cérebro ativadas durante momen­tos de profunda criatividade. Como o próprio Limb diz, ele quer compreender o que estava aconte­cendo na mente de Coltrane durante suas improvisações brilhantes ao saxofone, noite após noite.

Allen R Braun, neurologista do National Institutes of Health, e Limb desenvolveram um método para estudar o cérebro de músicos de jazz quando estão criando música. Os indi­víduos tocam em um teclado não magnético deitados em uma máquina de imageamento por ressonância magnética funcional (fMRI), que fotografa o cérebro. Então, os cientistas comparam a atividade neural durante a im­provisação com o que acontece quando tocam uma canção previamente memorizada. Limb também pode interagir com o músico no escâ­ner tocando em um teclado externo.

O trabalho de Limb é estimulado em parte pela determinação para compreender as impli­cações que podem transformar os sistemas educacionais, e encorajar todo mundo a levar uma vida intencionalmente criativa Acompa­nhe a entrevista:

Por que os cientístas deveriam estudar criatividade?

Embora eu ache a criatividade incrivel, não a coloco em um pedestal. Eu a vejo como um pro­cesso biológico normal que algumas pessoas conseguem levar a níveis extremamente profundos, mas que fundamentalmente é um requisito básico da civilização humana e de como seguimos em frente. A criativida­de infiltra-se em cada aspecto da vida. Eu não sei se há um atributo que seja mais responsável que a criatividade pela manei­ra como evoluímos como espécie.

Por uma perspectiva científica: se é um comportamento biológico, se os humanos são seres criativos, realmente precisamos estudá-Ia como estudamos qualquer outro
comportamento biológico complexo. Além disso, como a criatividade parece ser im­portante não apenas para as artes, mas para a vida, é provavelmente algo que de­ veríamos entender melhor.

Por que a improvisação é uma atividade ideal para estudar a criatividade?

Existem muitas formas de criatividade. Para o estudo científico, o que você precisa mesmo é do comportamento, que é um ato criativo prototípico que não representa o comportamento criativo como um todo. Escrever um romance é um ato criativo, mas é difícil fazer isso em um escâner de fMRI, e mais complicado ainda estudar algo que leva mais ou menos um ano para acontecer. A improvisação musical é es­pontânea. Sua duração é relativamente concisa, o que quer dizer que, a cada vez, você consegue restringir a sessão a um pe­ríodo de tempo razoável e esperar resulta­dos artisticamente relevantes. Para um músico, é uma tarefa natural. Assim como essa duração determinada é natural para um experimento científico.

Quais desafios o senhor enfrentou ao tentar incitar a criatividade sob demanda? Músicos geralmente não se sentem muito inspirados em um laboratório?

Os músicos desse grupo escolheram estar lá. Não forcei ninguém a participar. Eles estavam animados com a ideia. A expe­riência é bem estranha nos primeiros minutos, mas depois se torna surpreendente­mente confortável. Você está dentro de um tubo, com tudo escuro, e conta apenas com fones de ouvido - é quase como uma
câmara de privação dos sentidos em que a única coisa que se faz é tocar piano. Trata­-se de um ambiente estranho para tocar piano, mas não há quase nada para distraí-lo. Na verdade, acho que a música é muito reconfortante porque é a única coisa normal nessas circunstâncias. A qualidade de som do piano que usamos não é a melhor. Aquela sala é muito barulhenta. Mas nenhum músico reclamou, e todos conseguiram tocar muito bem. Às vezes os músicos ficavam constrangidos porque não conseguiam tocar como o fazem nor­malmente, mas da minha perspectiva eles tocaram muito bem.

Por favor, fale do teclado usado nos experimentos e de como o adaptou parafuncionar no escâner de fMRI.

As questões princi ipais dessa tarefa são er­gonômicas e magnéticas. Você precisa ter um teclado que funcione quando o músico está deitado de costas em um tubo estrei­to. Eu mesmo entrei no escâner várias vezes para descobrir a melhor maneira de fazer isso funcionar. Decidimos que o te­clado deveria ficar no colo do músico, com
suas mãos em um ângulo normal em frente a ele, mas seus olhos - porque o músico estava deitado - não poderiam apontar para baixo. Então, usamos espe­lhos, para que o músico pudesse olhar para um espelho que aponta para outro espelho que estava apontado para o teclado. Assim, o músico podia ver as próprias mãos mesmo olhando para a frente. Devido às dimensões do tubo, só tínhamos espaço para 35 teclas. Eu queria usar um teclado em tamanho natural para que os músicos se sentissem à vontade. Trabalhei com um engenheiro que cria dispositivos compatí­veis com máquinas de fMRI, e eu e ele pro­vavelmente mandamos esse dispositivo de um lado para o outro do país para fazer ajustes pelo menos umas dez vezes. O pro­cesso levou dois anos. Tivemos de criar um teclado Midi (sigla de interface digital para
instrumento musical, em inglês), para que o piano não emitisse som. Cada vez que você toca uma tecla, ele envia uma mensa­gem digital para um computador informando que determinada tecla foi pressio­nada. Usei um programa chamado Logic Pro, que é um emulador de piano. Quando o músico toca uma determinada nota, o
computador toca essa nota de volta nos fones de ouvido. Assim, parece que você está tocando piano naturalmente.

O que ocorre no cérebro durante uma experiência de criatividade?

Até onde meus estudos revelaram, a criatiidade é uma atividade do cérebro como um todo. Quando está fazendo algo criati­vo, envolve todo o seu cérebro. Durante a improvisação, o córtex pré-frontal do cére­bro sofre uma alteração na atividade, na qual a região pré-frontal basicamente se desliga, e portanto há uma inibição signifi­cativa do córtex pré-frontal. Essas áreas estão envolvidas no automonitoramento consciente, e na avaliação do que é certo ou errado nas ações que você está prestes a colocar em prática. Enquanto isso, obser­vamos outra área do córtex pré-frontal - o córtex pré-frontal medial - ser acionada. Essa é a área de enfoque do cérebro envol­vida na autoexpressão e narrativa autobio­gráfica. É parte do que conhecemos como uma rede padrão. Tem relação com a cons­ciência do "eu":

Quais são as conbtribuições de seu trabalho na educação?

Se conseguirmos compreender o que real­mente muda no cérebro para talvez redu­zir o automonitoramento - o que muitos dos músicos especialistas fazem e músicos amadores não são capazes de fazer -, seria um alvo bem interessante a considerar se alguém quer aprender a improvisar. Eu acho que esse estudo tem implicações na
descrição daquilo que dá origem a uma excelente improvisação e daquilo que os especialistas fazem naturalmente. Como um professor pode usar isso em sala de aula é outra história, mas eu acho que é um assunto para pensar.

Vários pesquisadores estão estudando a criatividade ultimamente. Qual seria a razão dessa convergência de interesses?

Contamos com alguns métodos novos para analisar a atividade e funções do cére­bro que nos permitem fazer perguntas que provavelmente estariam além dos limites para os cientistas. Acho que isso diz muito sobre a maneira como os cientistas são em geral: um grupo bem conservador. Eles não são do tipo que gostaria de responder as perguntas mais arriscadas em termos de arte. Há variáveis demais, é difícil de ex­plicar, e não há muito financiamento dis­ponível - se não for relacionado a doenças etc. Agora vemos que há perguntas legíti­mas a serem feitas, e temos métodos legíti­mos para tentar respondê-Ias. Precisamos aprender como a criatividade afeta o cérebro e como implementar a criatividade nos sistemas de educação, como encorajar as crianças a ser criativas.

Como o senhor reage aos céticos e críticos que chamam a pesquisa de fMRI de frenologia high-tech?

É uma crítica interessante. Mas há uma grande diferença entre dizer que o crânio apresenta um certo formato e dizer que uma área do cérebro é fisiologicamente ativa. O que estamos realmente tentando fazer é vislumbrar o cérebro de um artista enquanto está fazendo algo único. Tenha em mente que o método que usamos para isso - fMRI - é muito inferencial. É impre­ciso, e na melhor das hipóteses você conse­gue deduzir um padrão de atividade asso­ciado a um padrão de comportamento. Cada método tem seus limites intrínsecos, e é assim que deveria ser. No final, o que você espera é que um conjunto de méto­dos diferentes, não apenas o fMRI, sejam aplicados à mesma questão.

No entanto, estamos usando fMRI por uma razão. Esse método mostra uma série de coisas que jamais tivemos a oportuni­dade de observar: o comportamento humano em suas formas mais complexas, e em tempo real. Mas sou muito crítico em relação a qualquer um que pense que o fMRI tenha resposta para tudo. Como eu o utilizei, sei que não tem. Mas também não quer dizer que não deveríamos extrair aquilo que podemos. É um método legal.

Quais são as implicações da sua pesquisa sobre criatividade em seu trabalho como cirurgião e para implames cocleares?

Na verdade, eu quis fazer essa pesquisa porque amo música. É por isso que quis me tornar um especialista em audição. Esse fato me levou a tratar principal­mente transtornos da audição cirurgica­mente. O implante coclear é provavel­mente o melhor tratamento que já exis­tiu para deficiência sensorial profunda; não há mais nenhum sentido que possa ser recuperado hoje como a audição, possível de ser tratada com o implante coclear. Essas coisas são tecnologica­mente incríveis, porque produzem uma linguagem para pessoas que tiveram a audição intacta durante a maior parte da vida, ou para pessoas que nascem surdas e ganham a audição por meio do implante. Mas a música é outra história completamente. Grande parte da minha pesquisa é voltada para tentar entender as limitações da percepção da música por pessoas su isa porque amo música. É por isso que quis me tornar um especialista em audição. Esse fato me levou a tratar principal­mente transtornos da audição cirurgica­mente. O implante coclear é provavel­mente o melhor tratamento que já exis­tiu para deficiência sensorial profunda; não há mais nenhum sentido que possa ser recuperado hoje como a audição, possível de ser tratada com o implante coclear. Essas coisas são tecnologica­mente incríveis, porque produzem uma linguagem para pessoas que tiveram a audição intacta durante a maior parte da vida, ou para pessoas que nascem surdas e ganham a audição por meio do implante. Mas a música é outra história completamente. Grande parte da minha pesquisa é voltada para tentar entender as limitações da percepção da música por pessoas surdas que agora estão ou­vindo com os implantes cocleares. Estou tentando melhorar isso. Então é uma grande parte daquilo que estudo também. Para mim, as duas partes do meu trabalho são motivadas pela mesma ideia de levar aos surdos algo sublime. A ideia de passar da surdez para a Nona Sinfonia de Beethoven é extraordinária. Eu adoraria poder levar alguém até lá.

O que vem por aí na sua pesquisa sobre criatividade?

A pesquisa da "troca dos quatro", na qual tenho uma participação como músico no escâner, ainda continua, assim como os es­tudos sobre rappers de estilo livre que, acredito, é o primeiro estudo neurocientí­fico do hip-hop na história. Depois, vou tentar esclarecer nosso estudo de mecanis­mos de recompensa no cérebro e a relação com a criatividade. Por que gostamos de ser criativos? Por que gostamos de perce­ber a criatividade? E o que acontece em termos de centros de prazer ou recompen­sa? Onde está neurologicamente a gratifi­cação, e como isso muda de acordo com o conteúdo emocional da música? Sempre pensei: por que gostamos de músicas tris­tes? Por que elas nos fazem sentir melhor, e não pior? É uma inversão curiosa que acontece no cérebro. Enquanto tentamos evitar a tristeza na vida, na arte e, especial­mente, na música, quase gravitamos ao redor dela. Geralmente, o efeito é muito positivo. A improvisação provoca uma reação similar: quando você cria música espontaneamente, e a canção é triste, qual é sensação? Felicidade? Prazer? Qual é a base da recompensa? Essa é uma das dire­ções que pretendo seguir.

Qual sua melhor explicação para como Coltrane improvisava cominuameme obra-prima após obra-prima?

Minha melhor explicação, honestamente, é que ele praticava. Ele era obsessivo - pra­ticava obsessivamente, mesmo depois de uma apresentação. Ele fazia um show e depois voltava para seu quarto de hotel para treinar. E ele era, eu acho, obcecado por uma ideia que ia muito além de uma apresentação, muito além daquilo que um crítico ou um ouvinte pensavam. Coltrane estava mesmo à procura de algum tipo de perfeição musical: a capacidade de ter uma ideia que nunca havia tido antes, de essa ser uma ideia profunda e, ao mesmo tempo, ser capaz de executar aquela ideia. Esse é um trio de objetivos extraordiná­rios. Eu acho que ele sabia que a única maneira de chegar perto disso era manter o bocal do saxofone nos lábios.

Para conhecer mais

Uma biografia de Charles J. Limb e uma lista de publicações selecionadas no site do Johns Hopkins Medical Center:
 http://www.hopkinsmedicine.org/otolaryngology/our_team/faculty/limb.html

A célebre apresentação de Limb Your brain on improv (Seu cérebro em improvisação) em uma conferência do TED:

Sobre a entrevistadora

Alicia Anstead é editora-chefe da revista de cir­culação nacional Inside Arts, da Association of Performing Arts Presenters em Washington, D.C., e editora-colaboradora do Harvard Arts Beat, um blog do Departamento de Artes da Harvard University.

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