Falo ou não com o chefe


Quando situações como morte na família, endividamento e separação podem ser divididas com seu superior.

Revista você S/A - por Andrea Giardino

Há dois anos, Daniela Ber­tuco de Souza, de 34 anos, coordenadora de treina­mento da multinacional de tecnologia SAS Institu­te, com escritório em São Paulo, en­frentou uma das piores fases de sua vida. Apesar do bom momento na car­reira, o lado pessoal passava por tur­bulências. Com a separação do mari­do, mal conseguia se concentrar no trabalho. "Tinha vontade de chorar a todo instante", lembra. Daniela sabia que a falta de foco era inevitável e uma hora ou outra a situação atrapalharia seu desempenho profissional.

Foi, então, que resolveu abrir o jogo com o chefe. "Havia abertura e prefe­ri que ele ficasse ciente antes de algo acontecer lá na frente", diz. Em para­lelo, pediu ajuda ao programa que a empresa oferece de apoio ao funcio­nário. Ela pôde contar com um psicó­logo, com um assessor jurídico, para resolver aspectos legais do divórcio, e com um consultor financeiro, que a ensinou a reorganizar seu orçamen­to familiar. "Tudo isso foi importan­te porque precisava aprender a lidar com a perda e evitar maiores proble­mas de dinheiro, já que minha situ­ação se complicou com a venda do apartamento", diz.

Ê inegável que problemas pessoais afetam o dia a dia no trabalho. Seja por causa de uma separação, por mor­te na família, seja por causa das dívi­das que se acumulam, sobretudo no início do ano, quando os gastos triplicam com IPVA, IPTU e a matrícu­la da escola dos filhos. A cabeça fica longe, a produtividade cai e o desempenho profissional é afetado.

Muitas empresas, a exemplo de Johnson & Johnson, SAS, Bradesco, Nextel e Henkel, criaram programas de apoio aos funcionários para aju­dar aqueles que passam por situa­ções difíceis. Dados da consultoria Towers Watson mostram que essa é uma prática que vem se firmando nos últimos anos. De 168 companhias ou­vidas no país, 27% têm programas co­mo esse. A ideia é preservar a identida­de de quem não se sente confortável em falar com o chefe e evitar a perda de produtividade no trabalho, claro.

• Avalie a situação

O que fazer se não existe uma polí­tica definida que permita contar os problemas pessoais? Será que vale a pena levá-Ias para a mesa do chefe? Na opinião do headhunter Marcelo Cuellar, da Michael Page do Rio de Janeiro, o primeiro passo é desco­brir qual o perfil do chefe, se há es­paço para contar, ou não. Vale a pena fazer uma rápida avaliação de como seu chefe trata esse tipo de assunto. Teve sinal verde? A recomendação é ser o mais transparente e franco pos­sível na conversa.

Abrir uma questão pessoal ao su­perior pode expor uma fragilidade sua. Por outro lado, mostra que você tem maturidade para entender que o problema acaba, eventualmente, atrapalhando seu trabalho ou até a relação com seus pares e com o pró­prio chefe. Proponha uma solução na hora de falar com o gestor, como pedir para sair mais cedo com a pro­messa de resolver o que precisa. Uma alternativa é apontar as consequên­cias no caso de um descuido. Qual­quer desatenção de quem lida com a contabilidade da companhia, por exemplo, acarretará perdas irrecuperáveis. "Mostrar-se preocupado com prejuízos antes do estrago é atitude de profissionais responsável", diz o coach Silvio Celestino.

E se o chefe não der espaço? "Aí, a melhor saída é procurar a área de re­cursos humanos para fazer o meio de campo", diz Ednalva Costa, diretora de RH da SAS. Acostumada a receber funcionários com problemas em sua sala, ela acredita que em alguns casos é arriscado ir direto falar com o chefe. "A forma como abordar seu superior pode dar a impressão de estar trans­ferindo o problema", ressalta.

• Sinal vermelho

Mesmo quando houver liberdade pa­ra falar com o chefe, alguns cuidados devem ser tomados. "Jamais entre em detalhes sobre o que está acontecen­do", diz José Eduardo Vaz Guimarães, vice-presidente da Icatu Seguros. O executivo lembra de uma situação constrangedora que viveu há 20 anos. Um funcionário disse a queima-rou­pa que estava com aids, numa época em que ninguém sabia direito como lidar com a situação. "Conduzi com naturalidade a questão, mas confes­so que levei um susto por ter recebi­ do a notícia na lata", conta.

Expor demais a situação pode provocar uma reação adversa. Mos­trar que as dívidas foram contraí­das por falta controle acaba dan­do a impressão de que o profissio­nal é desorganizado. "O chefe vai questionar se essa irresponsabili­da de também não se reflete no tra­balho", diz Silvio Celestino. Brigou com o namorado? Evite pedir para sair mais cedo ou não justifique su­as faltas porque está sem cabeça pa­ra administrar a situação. "Vai pare­cer que a pessoa não possui maturi­dade para lidar com pequenos pro­blemas cotidianos", diz o coach.

• Fique atento

O que considerar quando for levar uma questão ao chefe

- 1) Avalie primeiro se há espaço para falar com seu superior e qual o momento.
- 2) Seja transparente em qualquer situação, mas não entre em detalhes sobre o teor do problema.
- 3) Não leve apenas o problema, sugira soluções ou alternativas para lidar com a situação, evitando comprometer a produtividade.
- 4) Não deixe para justificar apenas quando chegar a hora de sua avaliação p pessoal e for constatado queda em seu desempenho.
- 5) Quando sentirque não há abertura com o gestor, procure o RH para intermediar a questão e encontrar saídas.

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