Fantasias Insensatas


Quando se trata de calorias, o cérebro é uma influência terrível para a cintura.

Revista Scientific American - por Steve Mirsky

A literatura iídiche contém várias histórias sobre o vilarejo míti­co de Chelrn, cheio de pessoas que - digamos assim - provavel­mente não seriam as mais brilhantes de sua turma de Yeshivá [instituição judaica para o estudo da Torá]. Um desses contos narra o caso de confusos carpinteiros que, por mais que cortas­sem as extremidades de uma tábua, não faziam ideia do porquê de a madeira estar sempre curta. Vejam só!

Recentemente, uma pesquisa demonstrou que, quando se trata de alimentação, a maioria das pessoas é cidadã honorária de Chelm. O pesquisador Alexander Chernev, por exemplo, des­cobriu que muitos acreditam na possibilidade de reduzir o valor calórico de uma refeição por meio de um simples método: acrescentando mais comida. Imaginem!

Chernev, que investiga o comportamento do consumidor na Escola Kellog (lembram dos duendes na caixinha do Rice Kris­pies?) de Administração da Northwestern University despende uma quantidade de tempo enorme com hambúrgueres para um sujeito que não gerencia um McDonald"s. Em artigo publicado na Journal of Consumer Psychology, ele explica que as pessoas agem como se os alimentos saudáveis tivessem "halos" - sua salubridade se expandiria para o resto dos ingredientes. Vegetais e frutas têm halos grandes; confeitos, halos nulos. Vá entender!

É nesse momento que o cérebro aplica cálculos insanos à comida. Os comilões julgam que a salubridade de um alimento está relacionada ao seu potencial de engordar. "Como consideram os alimentos saudáveis menos relacionados ao ganho de peso", es­creve Chernev, "as pessoas erroneamente assumem que, ao acrescentarem um item saudável à refeição, diminui-se a possibili­dade de ganhar peso". Mais é menos, mais ou menos.

O pesquisador pediu a mais de 900 pessoas que verificas­sem quatro preparações diferentes e estimassem seu conteúdo calórico. Esses pratos eram um hambúrguer; um sanduíche de bacon e queijo, feito com massa de waffle; chili com carne; e um sanduíche de queijo, almôndega e pepperoni - nenhuma dessas quatro iguarias ganhará qualquer prêmio da Associação Cardíaca Americana e, nesse momento, todas me parecem muito apetitosas (acabei de me lembrar de uma pizza sobrando na geladeira. Volto em um segundo).

Onde estávamos? Ah, sim, alimentos insalubres, maus. À metade dos participantes também se mostrou uma guarnição ob­viamente saudável, como três talos de aipo. É claro que a única razão para qualquer um querer três talos de aipo é fazer um ""A" passível de ser usado no planeta Krypton por Hester Prynne, pro­tagonista de A letra escarlate, ou fazer uma imitação surpreenden­temente boa de uma morsa regendo uma orquestra. Mas só estou divagando enquanto digiro minha pizza.

Os sujeitos que tiveram contato somente com a preparação principal estimaram para ela uma média de 691 calorias. Os que foram apresentados ao mesmo prato, mas servido com os inúteis talos de aipo ou outros acompanhamentos saudáveis, avaliaram a refeição completa em apenas 648 calorias. São 43 calorias a menos. Para uma pessoa muito imaginativa, isso poderia ser pre­texto para adicionar, digamos, um cookie ao final de uma refeição com hambúrguer e aipo, só para que a contagem calórica voltasse a ser apenas a do sanduíche.

Essa espécie de raciocínio engordativo foi comprovada por um estudo conduzido por Brian Wansink - especialista em comportamento alimentar da Cornell University -, apresenta­do, em outubro último, na conferência da Associação para Pes­quisa do Consumidor. Wansink descobriu que os frequentado­res de restaurantes supostamente saudáveis estimavam a con­tagem calórica da refeição em 56% de seu valor real. As pessoas que cometiam esse equívoco ainda o aumentavam ao achar que sua refeição, teoricamente de baixa caloria, as liberava para comer mais porcaria, como batatas fritas e cookies. Esse tipo de lógica compromete o seu quadril.

Para os defensores da saúde pública, a mensagem que fica, ou melhor, que deve ser levada para casa, é que, por si só, a promoção do consumo de alimentos saudáveis pode, na verdade, ser ineficaz, em termos de ingestão calórica, Pois uma maçã no café mantém o paradoxo em pé.

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