Feitos para Crer


Maior fenômeno editorial da história, O Segredo mal chegou ao Brasil e já é sucesso.

Revista Veja - por Lizia Bydlowski

Você é o que pensa. Até aqui nenhuma novidade. A premissa vem sendo veiculada, com maior ou menor sustentação e apuro intelectual, desde o alvorecer de um estranho tipo de primata capaz de analisar fatos, estabelecer relações entre eles e projetar expectativas no tempo. Avançando algumas centenas de milhares de anos na história humana: pelo individualismo que traz embutido, o conceito da força do pensamento proliferou nos Estados Unidos, a terra por excelência da meritocracia e da valorização do esforço de cada um, e tende a ressurgir em sociedades em que as mudanças coletivas parecem empenadas. Sendo este justamente um desses momentos, espalha-se pelo mundo - começou nos Estados Unidos, claro, e já está batendo no Brasil - um fenômeno que arrebanha fiéis com impeto impressionante: o passo-a-passo para o sucesso revelado em O Segredo, um DVD transformado em livro que prega a força do pensamento positivo (e negativo também) em sua versão mais popular, simplista e atraente. O DVD, que custa cerca de 35 dólares, já vendeu 1,5 milhão de cópias; o livro, lançado há três meses, está em primeiro lugar na lista de auto-ajuda do The New York Times e teve a primeira edição de 1,75 milhão de cópias esgotada. Outra, de 2 milhões, está a caminho, o que faz dele, possivelmente, o maior sucesso de vendas do gênero na história. No Brasil, onde O Segredo só existe em inglês mas já é tema de quatro comunidades no site de relacionamentos Orkut, a maior delas com 1.2000 membros, o filme estreou em cinemas de oito cidades na sexta-feira, e a Ediouro corre para lançar o livro no dia 5 de maio.

Como é regra no campo da auto-ajuda, a maior beneficiária até agora de O Segredo é a australiana Rhonda Byrne, 55 anos, a dona da idéia. Que idéia é essa? Simples: pense muito, pense forte, pense certo, pense com sentimento, e o que você quer cairá na sua mão(ou no seu pescoço, se for um colar de diamantes, situação efetivamente encenada no filme). Nas palavras de Rhonda: "Se você visualizar na mente aquilo que deseja e fizer disso seu pensamento dominante, atrairá o que quer para a sua vida". Palavras do livro, porque em pessoa Rhonda anda reclusa na casa nova em Malibu, a praia chíque da Calífórnia, não dá entrevistas e não pode ser incomodada - prepara, acertou, O Segredo, Parte II.

A base teórica do segredo - se é que se pode chamar de base algo tão fluido e assentado no senso comum(é o que a autora chama pomposamente de lei da atração. Nada mais do que a ancestral noção de que as pessoas são capazes de atrair para si mesmas coisas boas ou ruins dependendo de sua disposição mental. São Marcos, o evangelista: "Por isso vos digo: tudo o que pedirdes na oração, crede que o haveis de conseguir e que o obtereis". Rhonda: "Tudo o que acontece na sua vida é você quem atrai. E a atração se dá pelas imagens que você carrega na mente. É o que você está pensando. Aquilo que está na sua mente é o que você atrai para si".

Funciona? A resposta não é simples nem rasteira como O Segredo. Ninguém obviamente pode "atrair" um câncer ou se curar de um tumor apenas pela força do pensamento negativo ou positivo, conforme o caso. Todas as pesquisas criteriosas mostram isso com clareza aritmética. Mas as mesmas pesquisas mostram que pessoas que rezam pela própria cura e que se mentalizam com saúde ainda que presas a uma cama de hospital têm maiores chances de se livrar da doença do que as que se entregam ao desespero e ao derrotismo. A explicação científica óbvia é a de que os otimistas acreditam na própria cura e, por essa razão, tendem a se cuidar mais, a seguir o tratamento médico com maior afinco e disciplina. Ocorre que se vive hoje um ambiente de adelgaçamento civilizatório em que um número maior de pessoas acredita em anjos do que em antibióticos. Nesse ambiente, a cura dos otimistas, dos que acreditam, dos que rezam, é quase sempre atribuída a fatores sobrenaturais, e não aos remédios e às cirurgias. É nesse desvão que prosperam os criadores de O Segredo.

Em 2004, a vida de Rhonda era uma imagem espelhada da de tantas mulheres que formam o público ideal para o pensamento mágico implícito em O Segredo: na casa dos 50, sem marido, as filhas crescidas e seu negócio (produzir séries para a TV australiana) afundado em dívidas. Leu por acaso um livrinho de 1910, intitulado A Ciência de Enriquecer; e fez-se a luz. "Incrédula, me perguntei: como é possível que isso não esteja ao alcance de todas as pessoas? Fui consumida por um premente desejo de dividir O Segredo com o mundo", relata. Mergulhou num curso intensivo de vinte dias em que, pelas suas contas, leu "centenas" de livros e artigos. Planos e título primoroso quem não quer ficar por dentro de um Segredo, com S maiúsculo, embalado em capa medieval com lacre e tudo? Hipotecou a casa e partiu para um congresso de técnicas motivacionais nos Estados Unidos. Lá arrebanhou 24 luminares da área do "melhore já a sua vida", uns mais, outros menos conhecidos, para dar seu depoimento num vídeo sobre a lei da atração, dando-lhe tinturas de "ciência quântica", o ramo da física que, por navegar em campo altamente especulativo, vive sendo invocado por leigos de pendores esotéricos. O DVD tem noventa minutos de depoimentos de certos sujeitos chamados de "mestres", intercalados com elaborações na voz de Rhonda. Principalmente faz a encenação de pessoas alcançando seus desejos de modo mágico, como nos desenhos animados. Em março do ano passado, Rhonda encontrou um site na internet para vender s sua obra. As vendas foram crescendo. Uma editora sugeriu que ela escrevesse um livro para acompanhar o DVD. Finalmennte, O Segredo chamou a atenção da sacerdotisa da opinião pública americana, a apresentadora Oprah Winfrey. Ela abraçou a causa e bingo! Como acontece com quase tudo a que Oprah dá sua carismática chancela, a carreira de O Segredo decolou no mercado americano de classe média, uma máquina de consumo de 150 milhões de pessoas sempre ávidas por novidades que prometam felicidade sem a contrapartida do sacrifício. "Tenho aplicado a lei da atração a vida inteira, sem saber", sentenciou Oprah.

Negra, gordota, abusada sexualmente na infância. Oprah Winfrey tornou-se bilíonária e a mais poderosa mulher dos Estados Unidos apenas por ter "aplicado a lei da atração"? Seu trauma sexual foi causado por algum "pensamento negativo"? Os recordes de audiência e o toque de Midas que concede a qualquer produto de massa que ela toca foram produzidos pelo "pensamento positivo"? Certamente, seria uma simplificação absurda acreditar nisso. Mas crédito se dê ao fato de os autores de O Segredo terem capturado com sua baboseira teórica dois dos mais sólidos sobreviventes arquétipos do processo de civilização: a vontade de acreditar e a existência de um mundo perfeito do qual nós, mortais, somos apenas cópias imperfeitas.

Um capítulo do livro da australiana é chamado de "O Segredo e Seu Corpo". Ele dá a receita de como emagrecer comendo de tudo. Está-se diante aqui de uma moderna e talvez inconsciente redição da "caverna de Platão" - a poderosa metáfora que o filósofo grego usou para explicar as fraquezas humanas. Nas paredes da caverna de Platão são refletidas as sombras cambaleantes do mundo perfeito existente do lado de fora. Com a palavra. Rhonda: ""Tenha pensamentos perfeitos, e o resultado será um peso perfeito. Se você se concentrar em perder peso, vai atrair mais necessidade de perder peso, portanto tire o "tenho de perder peso" da cabeça". Outro ensinamento: "Estar acima do peso é resultado de "pensamentos gordos".

Especialistas ouvidos por VEJA viram no novo fenômeno de auto-ajuda a pregação de uma forma positiva de encarar a vida. Essa disposição confere vantagens indiscutíveis. Pessoas dotadas naturalmente de um perfil psicológico energizado tendem a ser bem sucedidas na vida profissional, social e familiar. "O pensamento positivo associado a uma ação ensejará muito mais sucesso do que o negativo. Sabemos, por uma série de estudos, que pensar positivamente estimula o cérebro a buscar mais saídas", diz o psiquiatra Sergio Nick, secretário da Associação Brasileira de Psicanálise. Segundo, a própria simploriedade da fórmula permite aplicações flexíveis. Um caso exemplar é o de Luiza Helena Trajano, muitíssimo bem-sucedida superintendente da terceira maior rede de varejo do país, o Magazine Luiza, e pioneira no emprego das táticas de O Segredo entre seus funcionários. Antes da chegada do DVD e do filme ao Brasil, Luiza já estava mandando dublar e legendar cópias do filme e da entrevista de Rhonda para Oprah, para mostrar aos 11.000 funcionários de suas 352 lojas. "Com as fusões dos últimos dois anos, incorporamos 4.000 novos funcionários. Eu procurava um mecanismo para transmitir a essas pessoas a alma do Magazine Luiza quando a psicóloga da empresa me apresentou o documentário. No mesmo dia, cheguei em casa e vi o programa da Oprah. Gostei mais ainda", conta Luiza, que é naturalmennte entusiasmada e positiva - além de trabalhar como um trator e ter capacidade de visão a longo prazo, entre seus segredos nada secretos. O DVD já foi apresentado em "encontrões" de funcionários e a grupos menores de diretores e gerentes. "Fiz uma edição, para explorar mais a parte que ajuda a combater o papel de vítima que as pessoas costumam assumir na vida. O importante é fazer com que cada pessoa acredite nela mesma", diz a empresária.

O paulista Aldo Novak, que tem uma empresa de treinamento de executivos, também assistiu ao DVD, achou ótimo e pretende aproveitar trechos para ilustrar suas palestras. "Não há nada de esotérico na lei da atracão. É uma técnica através da qual, com o cliente, estabelecemos metas e planejamos como atingi-las", afirma, em outra demonstração de uso pragmático dos métodos do pensamento positivo. Faz uma ressalva aos ensinamentos dos "mestres": a aplicação da lei da atração na saúde. "Ela deve ser utilizada como coadjuvante dos tratamentos convencioonais." Ufa! Aqui se chega ao cerne da razão de sucesso do atual e de todos os demais fenômenos de auto-ajuda que fizeram carreira desde que o pastor americano Norman Vincent Peale lançou seu O Poder do Pensamento Positivo, em 1952: o ser humano estará sempre pronto a acreditar!

A ciência e a cartomante

A elegante disposição dos astros e seu balé preciso no céu definido por fórmulas limpas e exatas. Essa é a astronomia de sir Isaac Newton (1643-1727). Não há lugar para crendices. A ebulição da física do século XX produziu um céu bem diferente do newtoniano: um espetáculo cósmico de fogueiras atômicas, estrelas canibais, buracos negros onde o átomo e a galáxia têm o mesmo peso. E o universo onde tudo é relativo, em que se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo ou chegar antes de sair.

Essa revolução da física produziria, sem querer, o caldo de cultura para o moderno charlatanismo "quântíco" ou "holístico". O Segredo, da australiana Rhonda Byrne, faz uso livre de conceitos da física quântica para justificar os miraculosos resultados que seu método proporcionaria. A culpa é de gênios como o austríaco Erwin Schrodinger (1887-1961), que para tomar suas equações mais palatáveis criou o famoso experimento do gato preso na caixa junto com um frasco de veneno. Uma partícula subatômica disparada contra a caixa poderia ao mesmo tempo atingir e não atingir o frasco de veneno, produzindo como resultado um gato morto e vivo. Era tudo que um charlatão poderia esperar de um cientista premiado com o Nobel.

Outro gênio alemão ganhador do Nobel, Werner Heisenberg (1901-1976), pai do projeto nuclear nazista, formulou o Princípio da Incerteza. Segundo esse princípio, não se pode ter total certeza, ao mesmo tempo, da posição e da velocidade de um elétron. Festejam as cartomantes, videntes quânticos e holísticos de todo tipo: se a ciência tem dúvidas, então vivam as nossas certezas!

ões mais palatáveis criou o famoso experimento do gato preso na caixa junto com um frasco de veneno. Uma partícula subatômica disparada contra a caixa poderia ao mesmo tempo atingir e não atingir o frasco de veneno, produzindo como resultado um gato morto e vivo. Era tudo que um charlatão poderia esperar de um cientista premiado com o Nobel.

Outro gênio alemão ganhador do Nobel, Werner Heisenberg (1901-1976), pai do projeto nuclear nazista, formulou o Princípio da Incerteza. Segundo esse princípio, não se pode ter total certeza, ao mesmo tempo, da posição e da velocidade de um elétron. Festejam as cartomantes, videntes quânticos e holísticos de todo tipo: se a ciência tem dúvidas, então vivam as nossas certezas!

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