Felicidade: construa a sua


A ciência nunca soube tanto a respeito dos mecanismos que regem nosso bem-estar. Galileu reuniu todo esse conhecimento, eliminou algumas fórmulas mágicas do caminho e apresenta dicas que você pode aplicar seu dia-a-dia para ser cada vez mais feliz.

Revista Galileu - Juliana Tiraboschi

Nesses tempos em que fórmulas para ser feliz são encontradas aos montes na baixa literatura de auto-ajuda, há quem acredite que o conceito de felicidade não vai muito além do que propõe aquela campanha publicitária de uma rede de supermercados. Se, para você, há algo maior por trás de um "pãozinho quentinho, com manteiga derretendo", eis uma boa notícia: nunca a ciência reuniu tantas pistas capazes de apontar caminhos para ajudar você.

A banalização da felicidade chegou a dificultar a aceitação do seu estudo na arena científica. "Basta ir a qualquer livraria para verificar a quantidade de títulos que sugerem uma abordagem "rápida e eficaz para ser feliz"", diz o psicólogo Christian Kristensen, da PUC-RS. Ele acredita que, para o consumidor, ainda é difícil diferenciar as abordagens cientificamente fundamentadas das que aproveitam um filão editorial.

E o que fazer, então? Não responda agora. GALILEU ouviu alguns dos maiores especialistas do mundo para reunir informações precisas, além de mergulhar nos livros sérios sobre o tema. As páginas a seguir trazem um resumo aplicável daquilo chamam de ciência da felicidade.

A principal linha que estuda essa emoção é a chamada psicologia positiva. Ela vem crescendo desde os anos 1980 e tem como pioneiros os psicólogos Ed Diener, professor da Universidade de Illinois, e Martin Seligman, diretor de um centro na Universidade da Pensilvânia (ambas nos EUA). Eles e outros pesquisadores começaram a trilhar um rumo diferente da psicologia tradicional ao mudar o foco dos estudos e terapias. Sai a doença e entram os traços de personalidade construtivos.

No início, a seriedade da psicologia positiva foi muito questionada. "Há resistência por parte de colegas médicos, voltados para pesquisar causas de doenças. Mas é legítimo estudar o que promove os estados emocionais positivos", diz Hermano Tavares, psiquiatra do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas de São Paulo. A ciência da felicidade ganhou novo status com o desenvolvimento das tecnologias de imageamento cerebral. Graças a elas, neurocientistas juntaram-se a psicólogos e psiquiatras na tentativa de compreender até onde vai nossa capacidade de ser feliz.

Eles já descobriam indícios importantes. Um exemplo é a teoria que diz que mudanças nas circunstâncias de vida não teriam efeito permanente no nosso nível de felicidade. Tanto alguém que ganha uma fortuna na loteria quanto os que passam por uma doença grave teriam seus níveis de bem-estar alterados - para mais ou para menos -, mas eventualmente voltariam a seu normal.

Cada um é cada um

Nesse caso, o velho chavão é verdade cada um reage de um jeito aos acontecimentos. Parte da explicação para isso pode estar inscrita em nossos genes, conforme pesquisas vêm demonstrando há duas décadas. Uma das mais recentes, realizada pela Universidade de Edimburgo (Escócia), estudou mais de 900 pares de gêmeos para inferir a influência da genética em nosso "bem -estar subjetivo" - termo técnico para felicidade. Para os autores, os genes que agem sobre nossa satisfação são os mesmos que atuam sobre nossa personalidade.

"Quanto mais extrovertida, estável e consciente - o oposto de neurótica - uma pessoa é, maior tende a ser o seu bem-estar", diz Alexander Weiss, professor de psicologia e líder do estudo. E vai além. "Cerca de 50% das diferenças do nível de felicidade entre os indivíduos se deve a variações genéticas:" A americana Sonja Lyubomirsky, professora de psicologia da Universidade da Califórnia (EUA), concorda e afirma que, além da porção genética, 40% da satisfação seria explicada por nosso comportamento. Os 10% restantes seriam fruto das circunstâncias: se somos homens ou mulheres, bonitos ou feios, brasileiros ou dinamarqueses, por exemplo.

Isso mostraria que mudanças não são fáceis. Porém são possíveis. "Nossas personalidades são estáveis. Contudo, pesquisas sugerem um aumento modesto na estabilidade emocional e consciência na idade adulta. Então algumas mudanças ocorrem naturalmente", diz. Segundo o professor, um alto grau de bem-estar não é caracterizado pela felicidade constante, mas pela atitude positiva permanente.

A maioria dos especialistas concorda que há um ponto de saturação no bem-estar de cada um de nós. "Precisamos voltar a um estado normal porque a felicidade precisa ser buscada", diz a neurocientista Silvia Helena Cardoso, fundadora do Instituto da Ciência da Felicidade, vinculado ao Instituto de Teleneurociência de Campinas (SP). Após um evento muito prazeroso, como uma promoção no emprego, chega a hora em que a satisfação acaba e nos sentimos motivados a buscá-la novamente. "Aristóteles já dizia que a felicidade é conseqüência de ações", diz Silvia.

Mas, segundo a neurocientista, a felicidade possui um diferencial em relação a outros objetivos de vida: é o único que tem valor em si mesmo. Os outros, como saúde, poder, dinheiro, beleza e sucesso, fazem sentido apenas como um meio de alcançar o bem-estar.

Caminhos errados

E nós o buscamos. Mas, muitas vezes, nos lugares errados, como nos bens materiais. Em geral, os cientistas concordam que há limitações para a quantidade (e qualidade) de felicidade que eles podem proporci ionar. "Um vestido novo ou uma casa enorme podem fazer você feliz, mas por um período de tempo curto", diz o físico Stefan Klein, ex-editor de ciência da revista alemã "Der Spiegel" e autor dos livros "A Fórmula da Felicidade" e "The Science of Happiness - How Our Brains Make Us Happy" (A Ciência da Felicidade - Como Nossos Cérebros nos Fazem Felizes, inédito no Brasil).

Esse mecanismo é chamado pelos pesquisadores de "adaptação hedonista", É a calmaria que se segue a um evento alegre, como a compra de um carro. Isso pode acontecer também com uma promoção, uma cirurgia plástica, uma mudança para outro país ou novos relacionamentos.

A advogada e escritora americana Gretchen Rubin estudou tudo isso e pôs em prática seu "Projeto Felicidade". Sua meta é "passar um ano testando todas as dicas, teorias e estudos científicos que puder encontrar, seja de Aristóteles, Martin Seligman ou Oprah Winfrey".

Para Richard Davidson, professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Harvard, a felicidade é uma habilidade que se aprende. "Não é diferente de tocar um instrumento musical ou praticar um esporte. Se treinar, você vai melhorar", afirma. Vamos saber como começar seu treino.

  • Um olhar positivo

Pesquisas comprovam que ser otimista e agradecer por tudo o que acontece à sua volta é fundamental.

O modo como encaramos a vida varia de pessoa para pessoa. E muito. Vejamos os relatos a seguir. O norte-americano Randy tinha tudo para ser infeliz. Duas pessoas muito próximas a ele cometeram suicídio: seu pai, quando Randy tinha 12 anos, e seu melhor amigo, cinco anos depois. Após viver sob o mesmo teto com um padrastro com quem não se dava bem, Randy casou cedo e teve uma separação traumática, pois descobriu que estava sendo traído. Mas ele deu a volta por cima, casou-se de novo, adora seus três enteados e se considera realizado.

Já Shannon tinha tudo que podia querer. Aos 27 anos, está prestes a receber o diploma universitário de professora de língua inglesa, tem um namorado com quem planeja morar, uma família estável e muitos amigos. Ainda assim, ela sente-se infeliz. Sofre de falta de auto-confiança, é oprimida pela sensação de que deveria ter escolhido outra carreira e sente-se sozinha e dependente do namorado para tomar decisões.

Terapia do otimismo

Essas histórias são contadas por Sonja Lyubomirsky, psicóloga da Universidade da Califórnia no livro " A ciência da felicidade". Elas levam a uma conclusão: por mais piegas que essa afirmação possa soar, nossa felicidade vem da maneira como encaramos a vida. Ela é, em boa parte, determinada pelo fato de sermos otimistas ou não.

O ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, por exemplo, parece saber disso muito bem. Frases de autoria do homem, como "uma boa cabeça e um bom coração são sempre uma boa combinação"; "sempre parece impossível até que seja feito" e "no meu país nós vamos para a prisão primeiro e depois nos tornamos presidentes", demonstram uma atitude positiva, otimista e bem-humorada em relação às adversidades pelas quais passou, incluindo aí quase 20 anos de cadeia.

A terapia pode ajudar na busca pela positividade. Na psicoterapia cognitivo-comportamental, por exemplo, terapeuta e paciente examinam os fundamentos irracionais que podem levar alguém a encarar certos acontecimentos de forma negativa. "Ao modificar a maneira de interpretar as situações, é possível alterar as emoções e os comportamentos que decorrem disso", diz o psicólogo Christian Kristensen. "A terapia cognitiva pode até provocar alterações na rede neuronal, por exemplo, quando se trabalha para evitar pensamentos negativos", afirma a neurocientista Silvia Cardoso.

Além disso, segundo Sonja Lyubomirsky, a atitude de gratidão estimula o gosto por experiências positivas e favorece o auto-merecimento e a auto-estima. A própria psicóloga aplica suas teorias na prática. Ela conta que, quando se mudou para a Califórnia, vivia empolgada com a bela paisagem do lugar, até o dia em que se acostumou com o visual da nova morada. Ao perceber isso, passou a reservar momentos do dia para admirar a praia e as montanhas, trazendo de volta à sua vida o bem-estar que esse hábito de gratidão lhe proporcionava.

Ok, a essa altura você deve estar pensando que abriu um livro de auto-ajuda por engano, em vez da GALILEU. Daqueles cheios de chavões corno "dinheiro não traz felicidade", "a grama do vizinho é mais verde", "o que importa é a beleza interior" e por aí vai. Mas acredite: todas essas afirmações e orientações são baseadas em estudos científicos, realizados por especialistas.

Não se obrigue a ser feliz

Vale ressaltar: ser otimista não significa forçar a barra para estar alegre o tempo todo. Afinal, a tristeza tem seu papel. "Quando melancólicos, encontramos poderes que não descobriríamos se continuássemos contentes, queremos encontrar novas maneiras de ser felizes", diz Jerome Wakefield, professor de serviço social da Universidade de Nova York e co-autor do livro "The Loss of Saddness: How Psychiatry Transformed Normal Sorrow into Depressive Disorder" (A Perda da Tristeza: Corno a Psiquiatria Transformou a Tristeza Normal em Desordem Depressiva, inédito no Brasil).

Na ânsia de ser feliz (e por diagnósticos malfeitos), muitos acabam recorrendo a remédios, sobretudo antidepressivos, que só possuem eficácia quando tratam distúrbios. "Esses medicamentos reduzem o afeto negativo patológico, mas não aumentam o afeto positivo", diz o psiquiatra Hermano Tavares.

Conclusão: busque ver o lado positivo, mas não ignore suas melancolias - aceite-as como parte da sua personalidade e do momento que você está vivendo.

  • Uma vida em sociedade

Saia do casulo: a espécie humana é social e foi moldada para viver em bando. Encontre o seu.

Talvez não haja nada que melhore imediatamente o humor de qualquer pessoa como um bom papo com um amigo, de preferência cheio de risadas. "Somos seres sociáveis. Uma pessoa tem que ter amigos, entes queridos, estar com pessoas próximas", afirma a neurocientista Silvia Cardoso. Segundo a pesquisadora, nosso cérebro foi moldado para isso. É só reparar que geralmente uma pessoa que está da mas não aumentam o afeto positivo", diz o psiquiatra Hermano Tavares.

Conclusão: busque ver o lado positivo, mas não ignore suas melancolias - aceite-as como parte da sua personalidade e do momento que você está vivendo.

  • Uma vida em sociedade

Saia do casulo: a espécie humana é social e foi moldada para viver em bando. Encontre o seu.

Talvez não haja nada que melhore imediatamente o humor de qualquer pessoa como um bom papo com um amigo, de preferência cheio de risadas. "Somos seres sociáveis. Uma pessoa tem que ter amigos, entes queridos, estar com pessoas próximas", afirma a neurocientista Silvia Cardoso. Segundo a pesquisadora, nosso cérebro foi moldado para isso. É só reparar que geralmente uma pessoa que está dando risada ou sorrindo está acompanhada de outra.

As boas relações, com amigos ou familiares, dizem os especialistas, atendem a muitas de nossas necessidades básicas. E isso é fruto da evolução da espécie humana. "Não teríamos sido capazes de sobreviver sem essa motivação", diz a psicóloga Sonja Lyubomirsky. Basta lembrar que, desde os primórdios, grupos sociais repartiam o alimento e uniam-se para combater o inimigo.

A psicóloga divide esse amparo social em três tipos: palpáveis (por exemplo, dar uma carona ao hospital ou consertar um eletrodoméstico de um amigo); emocional (escutar os problemas dos outros, ajudar a achar soluções) e informativo (dar conselhos financeiros). A junção desses três tipos forma uma rede de segurança em torno das aflições do dia-a-dia.

Outra chave para não deixar a satisfação cair nos nossos relacionamentos é sempre incorporar novos elementos à rotina. Isso serve para amizades, relações familiares e, principalmente, para o casamento. É por isso que as uniões mais bem-sucedidas são aquelas nas quais os cônjuges demonstram carinho um pelo outro, fazem planos juntos e têm interesse pelos desafios, sucessos e sentimentos do companheiro.

Apesar de tudo isso, quem quer melhorar sua satisfação com a vida precisa sair do seu mundinho particular. "É preciso interagir com a comunidade", sugere o professor Alexander Weiss. Claro que ninguém precisa ser uma Angelina ]olie, que roda o mundo como embaixadora da ONU, levando apoio e atenção a lugares destroçados pela guerra e pela miséria. Mas, partindo do exemplo da atriz, é possível fazer coisas para melhorar as condições de vida na sua cidade, no seu bairro ou na sua rua.

Até porque pesquisas mostram que nosso nível de satisfação não depende apenas de nós, mas do ambiente que nos cerca. Apesar de, como dissemos anteriormente, estudos apontarem que cerca de 50% das diferenças do nível de felicidade entre os indivíduos se deve a variações genéticas, tal estatística é variável. "O cérebro é muito complexo. Acho que é muito circunstancial, tem gente que possui uma grande capacidade de ser feliz, mas vive em um ambiente ruim", diz Silvia Cardoso.

O físico Stefan Klein também é cauteloso. "Sempre acho questionável estabelecer números sobre a influência do ambiente em nosso comportamento." Para o pesquisador, porém, está claro que, se as necessidades básicas são satisfeitas, a influência de fatores externos no bem-estar subjetivo é pequena.

Qualidade de vida

Apesar disso, fatores externos como distribuição de renda, expectativa de vida, ausência de corrupção e respeito aos direitos humanos são computados por especialistas para inferir o nível de satisfação de uma nação. "Em cima desses fatores vêm a cultura e a visão de mundo em relação à vida. os latino-americanos tendem a ser mais felizes do que esperaríamos se analisássemos apenas o lado financeiro", diz o psicólogo Ed Diener, autor do recém-lançado "Happiness - Unlocking the Mysteries of Psychological Wealth"(Felicidade - Desvendando os Mistérios da Riqueza Psicológica, inédito no Brasil). Para o pesquisador, nós latinos pontuamos alto em emoções positivas graças à forma como nos relacionamos. Na maioria dos casos, somos pouco críticos, buscamos o lado mais divertido das situações e tendemos a apoiar quem está mal.

Para o psicólogo Christian Kristensen, o processo é um ciclo. "A partir da nossa base biológica e ao longo de experiências ambientais, desenvolvemos nossa personalidade. Por sua vez, ela influencia decisivamente a capacidade de sermos felizes", diz.

Se o nível de bem-estar varia entre países e culturas, como determinar quais são as nações mais felizes do mundo? Um dos rankings mais abrangentes é o "World Database of Happiness" ("Banco de Dados Mundial sobre a Felicidade"), compilado pelo sociólogo Ruut Veenhoven, da Universidade Erasmus de Roterdã (Holanda). Não por acaso, os cinco primeiros colocados são países que oferecem excelente qualidade de vida: na ordem, Dinamarca, Suíça, Áustria, Islândia e Finlândia.

Sem culpas

Ou seja, mesmo que nossa capacidade individual seja decisiva, as circunstâncias de vida têm importância fundamental. " O movimento pela felicidade enfatiza que as pessoas têm capacidade para serem felizes o tempo todo, enquanto há um declínio na noção de que as sociedades devem prover os indivíduos com as oportunidades para alcançar o sucesso. Quando não conseguem, alguns indivíduos acabam sentindo-se culpados", diz Allan Horwitz, professor da Universidade de Rutgers (EUA), e co-autor do livro "The Loss of Sadness: How Psychiatry Transformed Normal Sorrow into Depressive Disorder".

Então, se as suas circunstâncias não são favoráveis para o seu sucesso, não aceite ser apontado como culpado. Tente mudá-las, além de transformar a si mesmo.

  • Uma janela para a fé

O desenvolvimento da espiritualidade pode alterar a forma como você vê o mundo e até mesmo mudar a sua vida.

Com a palavra, Ed Diener, professor de psicologia da Universidade de Illinois: "A religião, em certo sentido, age como um manual para a vida". É só procurar em qualquer livro sagrado, como a Bíblia ou o Talmud (compilação de escritos judaicos), para encontrar lições sobre generosidad

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