Filtros da Mente, Lagartos e a capacidade de recordar


Como uma caixa de entrada de e-mails, a mente retém inúmeras informações, mas a habilidade de selcionar esses dados difere de uma pessoa para outra.

Revista Scientific American - por Edward Vogel

Qualquer um que tenha tentado encontrar um e-mail urgente em meio à grande massa de anúncios de oportunidades duvidosas do mercado de ações e de remédios para melhorar o desempenho sexual entende a importância crucial de um bom filtro para descartar as informações irrelevantes. É possível que o e-mail esteja lá, mas perdido em meio a tantos dados descartáveis. E, embora a capacidade da nossa caixa de entrada de e-mails seja limitada apenas pelo espaço em disco, nossa "caixa de entrada mental" de memória de trabalho (aspecto da cognição que permite o armazenamento temporário de informações como números de telefones dos quais precisamos nos lembrar apenas por curtos períodos) é bem mais restritiva.

De fato, várias décadas de pesquisa sugerem que nossa capacidade de reter informações para uso imediato, em geral, é limitada a menos de dez itens. Além do mais, assim como as pessoas variam em altura e cor dos olhos, essa capacidade difere em cada um de nós. Curiosamente, essas diferenças têm um forte poder de favorecer a aptidão para raciocínio abstrato, matemática ou outras formas de resolução de problemas complexos. Essa relação entre capacidade de memória e inteligência fluida motivou muitos neurocientistas a tentar entender por que e como as pessoas diferem nessa importante habilidade cognitiva.

Existem pelo menos duas explicações principais para essa grave limitação da memória de trabalho. Em primeiro lugar, uma possibilidade seria que a capacidade da memória de trabalho é essencialmente determinada por espaço de armazenamento, e algumas pessoas têm "discos rígidos" maiores que outras. A explicação alternativa é que a capacidade depende não da quantidade de espaço de armazenamento, mas da eficiência com que esse espaço é usado. Portanto, indivíduos de alta capacidade fariam melhor se simplesmente mantivessem as informações irrelevantes fora da mente, enquanto os de baixa capacidade podem permitir que mais informações pouco importantes atravancassem a caixa de entrada mental. Os indivíduos com capacidade mais apurada poderiam simplesmente ter filtros mais eficientes contra spam.

Parte do nosso trabalho recente sobre diferenças no controle do acesso à memória de trabalho forneceu evidências a favor dessa idéia de filtragem mental. Em um experimento, a medição de sinais elétricos emitidos pelo cérebro nos permitiu mostrar que pessoas com facilidade de reter dados eram excelentes em controlar quais informações seriam usadas pela memória de trabalho. Elas retiveram as relevantes, mas filtraram e deixaram de lado aquelas com menos importância. Em contraparrtida, indivíduos de baixa capacidade tiveram controle bem menor sobre informações que chegavam à sua "caixa de entrada mental".

Surpreendentemente, esses resultados significam que pessoas com menor habilidade estavam, na verdade, retendo mais informações totais na mente que os indivíduos de alta capacidade - mas parte considerável desses dados era de pouca importânncia para a tarefa.

Acumulam-se evidências de que, basicamente, a eficácia na seleção de conteúdos determina a capacidade da memória de trabalho. Contudo, uma pergunta crucial continua sem resposta. Em que lugar do cérebro fica esse "filtro de spam"? Em um recente estudo publicado na Nature Neuroscience, os pesquisadores Fiona McNab e Torkel Klingberg, do Instituto do Cérebro de Estocolmo, parecem ter encontrado o local. Eles pediram aos participantes do estudo que realizassem uma tarefa de memória de trabalho na qual tinham de lembrar as posições de alguns quadrados vermelhos e amarelos na tela de um computador. Algumas vezes, pedia-se que recordassem todos os itens na tela e, outras, que se lembrassem apenas das figuras vermelhas e deixassem aquelas em amarelo de fora - um ato parecido com filtragem de spam.

Um símbolo no início de cada experimento informava se eles deveriam se concentrar somente nos quadrados vermelhos ou deixar que todas as informações da tela fluísssem. Os pesquisadores registraram a ativação cerebral dos indivíduos durante esse período de instrução para determinar quais partes do cérebro se tornavam ativas quando uma pessoa iniciasse a usar o "filtro de spam". Eles constataram que, quando os participantes eram inforrmados de que precisariam escolher dados no experimento prestes a se iniciar, partes dos gânglios basais (área sabidamente importante no movimento, entre outras coisas) e do córtex pré-frontal (considerada a região cerebral responsável pela racionalização) tornavam-se bem mais ativas que nos experimentos sem filtragem.

Um ponto importante é que McNab e Klingberg descobriram que o salto nos níveis de atividade nessas áreas foi maior em indivíduos de alta capacidade. Ou seja, quando recebiam a informação que precisavam filtrar, pessoas com aptidões mais desenvolvidas apresentavam um grande salto de atividade nessas regiões do cérebro para manter de fora os itens irrelevantes. Em contraste, os voluntários com baixa aptidão exibiram pouca atividade adicional nessas áreas quando instruídos a ignorar itens irrelevantes. Portanto, um candidato importante para o "filtro mental de spam" parece ser um esforço cooperativo entre os gânglios basais e o córtex pré-frontal.

Esse novo trabalho amarra as várias linhas convergentes de evidências que apontam que o potencial de memória de trabalho de uma pessoa está intimamente relacionado com a eficiência com que ela mantém as informações irrelevantes fora de sua caixa de entrada mental. Em particular, sugere que esse mecanismo de filtragem é deter rminado pela atividade coordenada nos gânglios basais (que atuam no bloqueio de informações que não tenham a ver com essas metas) e no córtex pré-frontal (responsável pelo fornecimento de detalhes sobre as metas da tarefa a ser cumprida).

Esse papel dos gânglios de ajudar a controlar o fluxo de informações para a memória de trabalho é bem similar a outra função que também desenvolve: selecionar os movimentos motores a serem utilizados em um dado contexto e suprimir os movimentos que não queremos. É particularmente intrigante que os gânglios basais sejam uma estrutura cerebral evolutivamente antiga, mas altamente conservada entre as espécies. Até mesmo os lagartos a possuem. Conseqüentemente, aquilo que é considerado uma aptidão singularrmente humana de nos empenharmos em raciocínio abstrato e resolução de problemas parece ser dependente das estruturas cerebrais que existem no mundo há muito mais tempo que os seres humanos. A habilidade de filtrar spam sem importância, ao que parece, é crucial tanto para os lagartos quanto para os homens.

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