Foi uma Decisão inteligente


Como criar um filho genial? O pai de Bill Gates diz que acertou ao dar a ele liberdade total para ir atrás de seus sonhos na adolescência.

Revista Época - por João Caminhoto

Mesmo antes de nascer, em 1955, Bill Gates já tinha um apelido familiar que o acompanharia até hoje: Trey. A ideia surgiu da necessidade de distingui-Io do pai e do avô - ambos também chamados William (ou Bill, no diminutivo) Henry Gates. E refletia também a paixão da família Gates pelos jogos de cartas - Trey é o nome dado nos Estados Unidos à carta de número 3 do baralho. Desde a adolescência, Trey tinha espírito empreendedor. Aos 17 anos, fez sua estreia no mundo dos negócios. Com Paul Allen - futuro cofundador da Microsoft - e outro amigo, desenvolveu um minicomputador, chamado Traf-O-Data, para auto matizar o sistema de controle de tráfego de veículos. Depois de ensaiar exaustivamente a apresentação do produto com seus pais, Trey convenceu alguns funcionários da prefeitura de Seattle, onde morava, a ir até sua casa. No encontro, o Traf-O-Data falhou. Diante do vexame, Trey correu para a cozinha, gritando: "Mãe! Mãe! Venha aqui na sala e conte para eles que isso funcionou antes".

Esse e outros detalhes inéditos da trajetória do criador da maior empresa de software do mundo, a Microsoft, são narrados por seu pai, Bill Gates Senior, um advogado de 83 anos, num livro recém-lançado nos Estados Unidos (Showing up for Zife: thoughts on the gifts of a lifetime ou Aparecendo para viver: reflexões sobre os dons de uma vida, na tradução do inglês). Aos 11 anos, Trey passou a questionar tudo, de temas internacionais a existenciais. Começou também a enfrentar sua mãe, Mary, professora universitária (que morreu em 1994). Ela ainda tentava controlá-lo.

A solução foi levar Trey ao terapeuta, que aconselhou o casal Gates a dar asas ao filho. Eles seguiram a sugestão. A partir dos 13 anos, Trey passou a ter uma liberdade rara para sua idade. Passava noites fora de casa usando os computadores da Universidade de Washington. E pôde se dedicar ao Traf-Of-Data - que, no final, acabou sendo vendido.

A decisão mais difícil para o casal Gates viria em 1975, quando Trey decidiu largar a Universidade Harvard e se mudar para Albuquerque, onde fundou a Microsoft e começou a criar programas para o primeiro computador pessoal do mundo. Nesta entrevista a ÉPOCA, Gates Senior afirma que o sucesso do filho no mundo dos negócios mostrou que foi uma decisão "muito inteligente".

ÉPOCA - Por que sua família chama seu filho de Trey?

BiII Gates Senior - No jogo de cartas, Trey é a carta de número 3. Como Bill ia ser William Gates Terceiro - eu sou o Segundo e meu pai era o Primeiro -, a avó e a bisavó maternas dele, ambas amavam jogar cartas, acharam que daria menos confusão se o chamássemos Trey.

ÉPOCA - Quando seu filho ainda era criança, o que o senhor imaginava que ele se tornaria quando fosse adulto?

BiII Gates Senior - Por um tempo, pensei que ele poderia se tornar advogado. Mas ele se interessou por programas de computador numa idade tão nova que a mãe dele e eu não gastávamos muito tempo imaginando que outra coisa ele poderia fazer na vida. Imaginávamos que ele completaria a faculdade com 20 e poucos anos. Obviamente, fiquei feliz com o título que Harvard conferiu a meu filho em 1997. Foi uma experiência inesquecível e recompensadora assistir à homenagem a meu filho na universidade.

ÉPOCA - Como seu filho era quando criança?

BiII Gates Senior - Ele sempre foi muito curioso. No livro, comento que Bill era insaciavelmente curioso. Além disso, quando ele tinha cerca de 11 anos, desenvolveu uma sofisticação e um conhecimento muito maduro de como o mundo funcionava, algo que não parecia nada comum para uma criança daquela idade. Ele ficou muito interessado por alguns assuntos a que as crianças raramente prestam atenção. Bill fazia muitas perguntas complexas. Para nós, os pais, era interessante, em muitas maneiras prazeroso, mas às vezes era difícil.

ÉPOCA - Quando o senhor percebeu o potencial de seu filho?

BiII Gates Senior - Percebi que ele tinha uma curiosidade mais intensa que a maioria das crianças. Mas não acho que qualquer pai poderia ter previsto que ele teria o sucesso financeiro que alcançou.

ÉPOCA - O fato de seu filho ter se consultado com um terapeuta aos 12 anos de idade foi importante para o senhor perceber que ele precisava de mais independência?

BiII Gates Senior -Foi uma experiência muito útil. Foi importante para a mãe dele e para mim, mas também foi útil para meu filho, em parte porque ele percebeu que estávamos do mesmo lado. Naquela época, foi ótimo, porque fomos capazes de enviá-Io a uma faculdade em que ele foi capaz de descobrir os computadores e de desenvolver aquele que se tornaria seu interesse de toda a vida.

ÉPOCA - Foi difícil dar mais independência a seu filho?

BiII Gates Senior - Não foi difícil para mim, porque eu mesmo tinha tido uma boa independência durante minha infância, tema, aliás, que abordo no livro.

ÉPOCA - Como era a vida social de seu filho durante a adolescência e como isso contribuiu para delinear seu futuro?

BiII Gates Senior - Como a maioria das crianças, Bill passava muito tempo com amigos que compartilhavam os mesmos interesses. Ele era um leitor insaciável e não prestava atenção ao universo dos adultos. Bill também praticava esportes e fazia coisas que outras crianças gostam de fazer. Mas, é cl laro, seu interesse por software era incomum.

ÉPOCA - Em algum momento o senhor chegou a temer pelo futuro de seu filho? Em particular, como foi quando ele decidiu deixar a universidade?

BiII Gates Senior - A primeira vez que Bill deixou a Universidade Harvard, foi apenas por um semestre. Por isso sua mãe não ficou preocupada demais. Quando ele deixou Harvard pela segunda vez, pouco tempo depois, é que nos preocupamos, de uma maneira similar a qualquer pai que deseja ver seus filhos concluir um curso superior. Mas Bill era apaixonado pela ideia de que uma janela de oportunidade estava se abrindo e que o software seria algo muito importante. Ele acreditava que, se ficasse na faculdade, poderia perder essa janela e, é óbvio, o tempo e as circunstâncias mostram que aquela decisão foi muito inteligente. Mas, é claro, também não sabemos o que teria acontecido se ele tivesse ficado na faculdade e obtido o diploma.

ÉPOCA - O que seu filho disse quando decidiu deixar Harvard?

BiII Gates Senior - Ele foi inteligente. Ele disse que queria tentar trabalhar com Paul Allen, mas, se as coisas não dessem certo, retornaria a Harvard. Na verdade, oficialmente ele nunca abandonou a universidade, estava apenas de licença. Hoje, tenho certeza de que ele não pretendia retornar nunca.

ÉPOCA - A criação que seu filho recebeu explica seu sucesso? Ou há outros fatores que o senhor consegue identificar, como o genético?

BiII Gates Senior - Não acho que exista um fator que possa explicar o sucesso de Bill e tenho certeza de que ele diria a mesma coisa. Ele sempre foi muito trabalhador, curioso. Ele pensa analiticamente e independentemente. Uma coisa que ele nos diria é que ele foi extraordinariamente sortudo, apenas pelo local onde nasceu e pelas oportunidades que estavam disponíveis. Bill é o primeiro a reconhecer que, se tivesse nascido sob circunstâncias diferentes - como no Congo, por exemplo -, nunca teria a oportunidade de ser um sucesso nos negócios. Ele é muito agradecido por todas as vantagens que teve.

ÉPOCA - Que conselhos o senhor daria a alguém educando uma criança que não é BiII Gates III?

BiII Gates Senior - Eu diria a qualquer pai que ele deve encorajar os filhos a continuar aprendendo, estudando e para fazer o que for possível para criar oportunidades e estímulos atraentes para tornar o aprendizado divertido e interessante. Os pais deveriam também fazer o máximo para que um filho tenha o melhor professor. Um grande professor pode inspirá-lo a fazer coisas ótimas. Por isso, é importante se envolver com a educação. Na verdade, mesmo se você não tiver filhos, pode ainda ter um papel importante ajudando as crianças de sua comunidade a ter acesso a bons professores. Envolva-se da maneira que der. É um presente maravilhoso para as gerações futuras.

ÉPOCA - Em sua opinião, quais são os principais ingredientes para o sucesso profissional? Esforço? Talento? Sorte?

BiII Gates Senior - Muita gente bem-sucedida consegue criar sua própria sorte. O que você pode fazer é trabalhar duro em algo de que gosta. Além disso, não é preciso ter um enorme sucesso financeiro para ser um sucesso como pessoa. Fazer algo que você ama e que contribua para a sociedade é maravilhoso. Acabei sendo um advogado que trabalhava principalmente com assuntos comerciais, mas tenho um profundo respeito e admiração por quem ajuda os outros, especialmente médicos, professores e pesquisadores.

ÉPOCA - O senhor acredita que Bill III dá aos três filhos dele a mesma educação que recebeu? Quais as diferenças?

BiII Gates Senior - Tenho certeza de que não é a mesma coisa, porque as crianças dele são diferentes, e os tempos são diferentes. Sei que garantir uma grande educação para as crianças é uma prioridade para todos os meus três filhos - e eles permanecem atentos para garantir que isso aconteça.

ÉPOCA - Era mais fácil educar uma criança no passado, há 40 anos?

BiII Gates Senior - Nunca é fácil educar uma criança. No passado, a família e os vizinhos estavam sempre perto para ajudar. Certamente há mais famílias agora em que ambos os pais trabalham. Mas as crianças hoje também têm oportunidades que não existiam há 40 anos, incluindo a chance de se tornar engajadas em temas globais numa idade muito mais jovem.

ÉPOCA - Como foi a criação de suas duas filhas, Kristi e Libby?

BiII Gates Senior - Falo delas no livro. São pessoas fantásticas, envolvidas com suas comunidades. Elas estão agora criando suas próprias famílias.

ÉPOCA - Quem convenceu seu filho a praticar a filantropia?

BiII Gates Senior - Ele começou a dedicar recursos consideráveis à filantropia quando ainda estava com 40 e poucos anos. Antes, estava muito ocupado na construção da Microsoft. A influência da mãe dele não pode ser esquecida. Ela acreditava firmemente que devemos contribuir com a sociedade. Ela teve uma forte influência sobre Bill e teria ficado muito orgulhosa da pessoa que ele se tornou.

ÉPOCA - Quem ensinou seu filho a jogar pôquer?

BiII Gates Senior - A avó dele era uma jogadora de cartas inveterada. Ela alimentou o interesse dele pelo baralho. Mas Trey aprendeu mesmo a jogar pôquer com seus amigos.

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