Gênios por acaso


Quem inventa não sabe o que inventa, como mostram Bill Gates e Thomas Edison. Decisivo é o uso que se faz da intenção original.

Revista Época - por Clemente Nóbrega

A história da inovação é assim: alguém inventa, outro pega e dá um uso estranho à intenção original. Inovação ocorre por meio de seqüência de adaptações, uma puuxando a outra. Na cena de abertura do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, um pré-humano nota que um osso de animal morto poderia ser usado como arma. A cena (inesquecível) - ao som de Assim Falou Zaratustra - mostra o osso lançado ao ar pelo "macaco" se transformando numa nave espacial, milhões de anos depois. Eis aí. Quem inventa não sabe o que inventa. O aparelho de fax foi innventado por americanos, mas foram os japoneses que ganharam dinheiro com ele. Steve Jobs - o inventor do conceito de computação pessoal - achava que sabia como o mercado para PCs iria evoluir. Perdeu para Bill Gates, que estava longe de saber o que o Windows se tornaria.

Décadas antes do fax, uma empresinha japonesa - Tokyo Telecommunications - fabricante de fogões, comprou da americana Western Electric (por quase nada) a patente do transistor. Em 1955, lançou o primeiro rádio "de pilha", mudou a história da comunicação e mudou de nome também: Sony. Se você "rebobinar a fita" vai ver que, da machadinha de pedra lascada ao microchip, raramente crIamos com base em nossas necessidades evidentes.

George Basalla, autor de um livro clássico sobre o tema, diz: "Como todo o reino animal, também poderíamos viver sem fogo ou ferramentas. Cultivar a terra e cozinhar não são precondições para a sobrevivência humana, e só são necessidades porque decidimos definir nosso bem-estar assim. Houve tempos em que "necessidade" levou à construção de pirâmides e templos, em outros significou movimentar-se em veículos autopropulsores. A conquista do supérfluo nos dá mais estímulo que a do necessário, porque os humanos são criação do desejo, não da necessidade". O automóvel não surgiu da necessidade de nos locomovermos com mais praticidade e rapidez. Entre 1895 e 1905, era brinquedo para ricos. A necessidade só surgiu depois que ele já estava lá (há dez anos!). O produto é que inventa a necessidade! Grandes inventores criam por instinto. Curiosidade. Fantasia. Brincadeira. Thomas Edison não sabia o que o fonógrafo iria se torrnar quando o inventou, em 1877. Para ele seu uso seria, por importância: "Registrar ordens sem ajuda de estenógrafo; fornecer "livros falados" para cegos; ensinar a falar em público; reproduzir música; registrar as últimas palavras dos moribundos". Reproduzir música era sua quarta prioridade.

Há sempre um artefato mais primitivo que serve de embrião ao mais complexo. Até a roda surgiu por evolução de um design que já estava lá.

Quer inovar? Não pergunte ao cliente sobre suas necessidades - ele não sabe - e, como você também não sabe, faça o que acha que deve e fique atento à maneira como seu produto é percebido; mude-o, se necessário, mate-o, se não houver esperança. Desejos e necessidades emergem desse processo, não são pré-definidos.

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