Globalize-se já! Brasileiro é lento e bairrista


O francês Dominique Turpin dirige, desde o ano passado, uma das mais renomadas escolas de negócios do mundo, o IMD. Segundo ele, o pro­fissional brasileiro é lento, bairrista e pouco curioso.

Revista Você S/A - Tatiana Sendin 

Dominique Turpin assumiu a direção do International Institute for Management Development, mais conhe­cido como IMD, escola de negócios Suíça, em julho de 2010. Natural da França, ele tem nacionalidade Suíça e sotaque de indiano. Reflexo da vida globalizada que leva. Ao lon­go dos anos, Dominique já deu pa­lestras e prestou consultoria na Ásia, na Europa e nas Américas. Passou anos no Japão como responsável pelas operações de uma empresa francesa e como professor de uma faculdade local. Desde os anos 1980, ele vem ao Brasil a trabalho. Nessas ocasiões, costuma visitar empresas, fazer palestras e conversar com lí­deres de diferentes companhias nacionais. Segundo ele, os brasilei­ros não estão prontos para a com­petição global. Isso porque têm bai­xa mobilidade e olham apenas para o próprio umbigo. Confira trechos editados da entrevista de Dominique à repórter Tatiana Sendin, da VOCÊ RH (www.vocerh.com.br).

Você S/A - O que é ter uma mente globalizada?

Dominique Turpin - Os pesquisadores quando falam em mente globalizada citam três dimen­sões: autoconfiança, para lidar com a situação inusitada; flexibilidade, para pensar como os locais para lidar com determinada circunstân­cia; e curiosidade. Se você é um executivo no Brasil baseado em São Paulo e se recusa a se mudar para Recife, você não tem uma mente brasileira, e muito menos uma glo­bal. Você precisa pensar na África, na China ou na América do Norte e ser capaz de lidar com gente de culturas diferentes. Por exemplo, eu vou muito ao Japão. Lá, as pes­soas não cancelam as reuniões. No Brasil, contudo, é comum isso acon­tecer. Você precisa aceitar esse tipo de coisa sem se chatear.

Você S/A - Por que essas competências são tão importantes no mundo atual?

Dominique Turpin - As oportunidades nos mercados tra­dicionais, como Estados Unidos, Europa e Japão, acabaram. As em­presas brasileiras vão enfrentar mais competição das estrangeiras porque americanos, japoneses e europeus precisam encontrar o crescimento em algum lugar. Se vocês brasileiros acreditarem que a competição é ape­nas nacional, vão cometer um gran­de erro. As corporações precisam se tornar um campeão local, depois, um player regional e então atacar o resto do mundo. Por isso, é impor­tante para o Brasil ter companhias fortes. E elas se tornam fortes ao lutar todos os dias contra os estran­geiros. Porque, se vocês não forem fortes, nós assumiremos.

Você S/A - E o senhor acha que as empresas brasileiras estão preparadas para isso?

Dominique Turpin - Quando eu visito as companhias brasileiras, pergunto quantos es­trangeiros há no conselho, na diretoria ou nas altas gerências. Geral­mente são pouquíssimos. O perigo dessa prática é as organizações es­tarem focando muito no mercado doméstico. Hoje, isso pode funcio­nar porque as oportunidades são muitas, mas as empresas têm pen­sado apenas em Brasil, Brasil, Brasil. Aqui, há muitas fontes de recursos naturais e as organizações que estão se tornando globais são focadas em commodities. Os chineses compram seus recursos, levam para a China, transformam, adicionam valor e os vendem no Brasil como produto. Eles ganham dinheiro em cima dos brasileiros. Isso é perigoso. As com­panhias brasileiras precisam adicio­nar valor aos recursos, transformá­-los, senão vão perder. Os brasileiros são um pouco ... não quero dizer lentos, mas não estão prontos para a competição global. O único jeito de o Brasil se tomar economicamen­te independente é ter empresas fortes e dominantes no mundo.

Você S/A - Qual o impacto disso na economia?

Dominique Turpin - O preço das commodities, do ferro, do algodão, da laranja, dobrou nos últimos seis meses porque há sérios problemas de produção na China, na Rússia, na Austrália, em todo lu­gar, por causa das mudanças climá­ticas. Todas essas coisas que estão acontecendo na Líbia, no Egito e na Tunísia têm a ver com isso, não é apenas por fator político ou jeito de viver das pessoas. Há seis meses, na Tunísia e no Egito, a grande recla­mação era o preço da comida. Essa é a grande questão para os próximos dez anos - a escassez de produtos naturais. Um executivo com mente global é capaz de conectar esses pontos: economia, política, mudan­ça climática. Um líder global ajuda a pensar de forma abrangente, ter uma visão holística dos negócios, da indústria e das oportunidades.

Você S/A - E como um profissional pode desenvolver uma mente global?

Dominique Turpin -  Se você fica no Brasil, tudo é previ­sível, tudo é confortável. Mas se você vai para a Finlândia, onde faz menos 37 graus, ou para a China, onde você anda nas ruas e não consegue ler nada naquelas placas, você é confron­tado e precisa de autoconfiança e flexibilidade para lidar com situações inusitadas. Um ex-presidente da Nestlé costumava dizer: não me importa quantos idiomas meus funcionários sabem falar, mas quantos eles estão entusi iasmados a aprender. Na Nestlé, exemplo de corporação globalizada, no alto escalão existem executivos de 13 diferentes países.

• Sobre o IMD

O IMD nasceu há 21 anos de uma parceria entre Nestlé e Harvard Business Group. A escola de negócios fica na pequena cidade de Lausanne (com cerca de 130 000 habi­tantes), na região da Suíça onde o idioma corrente é o francês. Tanto o corpo do­cente quanto seus estudan­tes são estrangeiros. Dos 50 professores, apenas dois são suíços. Os demais são de 20 diferentes nacionalidades. Os alunos são jovens executivos e líderes mais experientes, com idade entre 30 e 50 anos. No ano passado, a escola teve 8 000 candidatos ins­critos de 98 países distintos. Todos os anos ingressam no MBA, em média, 90 jovens, e no Executive MBA, até 70 profissionais com mais tem­po de estrada. As apostilas foram aposentadas em 2010 e atualmente os alunos utili­zam o iPad na escola.

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