Hora de mudar


Em meio ao bom momento da economia, alguns setores da indústria brasileira enfrentam dificuldades. Saiba como agir quando a sua área está em crise.

Revista Você S/A - por Luís Pereira 

A economia brasileira teve um de­sempenho em 2010 que há tem­pos não se via. Estima-se que o Produto Interno Bruto (PIB), soma de todas as riquezas pro­duzidas pelo país, chegue a 7% no ano, o que é um número histórico. O cenário positivo deve estimular as empresas a abrir novos postos de trabalho. Uma pesquisa da Man­power com 800 companhias no Brasil mostra que 40% delas pretendem contratar ainda no primeiro trimestre de 2001. Mas, em meio ao otimismo geral, há setores da indústria que vêm passando por uma fase de retração e os profissionais vivem um momento complica­do na carreira enquanto a maioria do merca­do comemora. "Há uma preocupação, princi­palmente entre as multinacionais, sobre os custos da mão de obra brasileira", diz Axel Werner, diretor da consultoria Kienbaum, que presta serviços na área de recursos humanos para muitas indústrias europeias instaladas no país. "A vida não está fácil para profissio­nais dessas indústrias", afirma.

Durante o semestre passado, discutiu-se no Brasil a hipótese de o país viver um pro­cesso de desindustrialização, no qual a eco­nomia brasileira se voltaria para a produção de bens primários, deixando de lado as in­dústrias de alta tecnologia. A questão está associada à valorização do real, que torna pouco atraente no exterior o preço dos pro­dutos fabricados no Brasil. Para piorar, existe a forte influência mundial dos países asiáti­cos principalmente a China, em franca evo­lução de qualidade e produtividade de seus produtos manufaturados. Um caso exemplar foi o fechamento da fábrica de lâmpa­das automotivas da Philips, localizada em Recife, que ocorreu no mês passado e termi­nou com o corte de 400 funcionários. A com­panhia optou por fabricar as peças na Chi­na, onde os custos são menores.

A questão de carreira, para quem traba­lha em um mercado que vive essa crise, é: insistir numa empresa que vive dificulda­des ou tentar uma vaga num outro setor, já que o cenário é propício para trocar de em­prego. Para Irene Azevedo, da DBM, consul­toria de recursos humanos com escritório em São Paulo, os primeiros sinais de que o ne­gócio não anda bem são as reduções de cus­to, com a diminuição de algumas despesas e, posteriormente, alguns cortes. "Hoje em dia todo mundo deve estar antenado com rumo da economia para, se for o caso, tra­çar uma estratégia para mudar de área", diz Irene. Em meio a um setor em crise, muitos profissionais podem ficar estagnados ou, até mesmo, perder o emprego. Para que isso não aconteça, o primeiro passo deve ser montar um plano de transição. Rafael Souto, dire­tor executivo da Produtive, consultoria es­pecializada em transição de carreira, afirma que existem ao menos três opções para tra­balhadores de qualquer ramo de atuação. A primeira é, obviamente, dentro do próprio setor. A segunda, em mercados análogos, em que o trabalho é parecido. "A terceira é a construção de fontes alternativas de renda, como dar aula, ser consultor ou montar um negócio próprio", diz Rafael.

• Novos conhecimentos

Conhecendo as possibilidades, o profissional deve fazer, então, uma reflexão, avaliando, primeiramente, em quais cenários ele pode ser competitivo, depois qual é o seu merca­do alvo e, por fim, como desenvolver um re­lacionamento para acessar esse mercado. O engenheiro elétrico Nilton Silva, de 45 anos, era gerente de unidade de negócio de lâmpa­das especiais da Philips quando a companhia começou a dar indícios de que fecharia suas operações, no final do ano passado. Ao perce­ber o movimento, ele agiu rapidamente para não ficar desempregado. "Um mês antes do fechamento da fábrica, eu já estava com em­prego novo", diz Nilton, que hoje é diretor co­mercial da Bronze Arte Iluminação, empresa do mesmo setor, mas com uma importante diferença: não é uma fábrica. "Importamos produtos e montamos aqui", diz. Outra me­dida importante para não ser pego por uma crise setorial é a reciclagem contínua dos conhecimentos e competências. É a melhor maneira de prevenção. Para planejar uma atu­alização, é preciso realizar uma autoanálise de quais são as habilidades e características adquiridas ao longo da carreira e quais estão faltando. "Se o profissional já tem uma for­mação forte no seu ramo de atuação, ele deve fazer cursos que dão mais visão de negócio. Se a formação é mais generalista, os cursos devem ser ligados a sua atividade principal", afirma Rafael, da Produtive.

O administrador Leonardo Silva, de 36 anos, gerente executivo de marketing da Icec, empresa de construção civil com escri­tório em São Paulo, é um exemplo de profissional que já fez transições entre setores diferentes. Depois de muitos anos em uma montadora de carros, migrou para um ban­co e agora está no ramo de construção civil. Para ele, tão importante quanto adquirir dife­rentes habilidades, é se tornar referência em sua atividade, independentemente do ramo em que atua. Para isso, investe permanente­mente em aquisição de conhecimento em sua área de trabalho. "Quando você faz transição, mudam os setores, mas a forma de fazer é praticamente a mesma", diz Leonardo.

Marcelo Mariaca, headhunter e especialis­ta em transição de carreira, adverte, no en­tanto, que as pesso oas não devem alimentar a ilusão de que podem trabalhar em qualquer lugar. Mesmo com a economia aqueci­da, as organizações seguem muito seletivas na hora de contratar. "É importante criar um plano de ação considerando os segmentos em que você tem maior competitividade", diz. O profissional também não deve aceitar qual­quer trabalho. Ao receber uma oferta de em­prego, é preciso analisar três fatores: remu­neração, projeto e empresa. Ou seja, quanto vai ganhar, se o projeto é desafiador e se a companhia tem visibilidade. "É importan­te que haja vantagem clara em pelo menos dois aspectos", diz Rafael Souto.

• Como ter sucesso na mudança

- 1 Acompanhe o noticiário so­bre seu setor e sobre sua empre­sa e analise as informações e as perspectivas.

- 2 Fique liga­do, para co­meçar a se mo­vimentar antes que a crise em sua empresa se acentue. É mais fácil se recolocar enquanto está empregado.

- 3 Trace uma estratégia de transição, verificando quais são as competências nas quais você é forte.

- 4 Direcione seus esfor­ços para empre­sas que preci­sem de profissio­nais com atribu­tos semelhantes aos seus.

- 5 Invista sem­pre em de­senvolver suas competências. A melhor forma de manter a em­pregabilidade é ter habilidades diferenciadas.

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