Inteligências programadas


Especialista em ética argumenta em favor do aprimoramento do cérebro

Revista Scientific American - por Arthur L. Caplan*

A revolução em nossa capacidade de identificar e manipular genes suscitou todos os tipos de debates éticos, mas uma revolução igualmente profunda na ciência do cérebro está, surpreendentemente, atraindo pouca atenção.

O progresso em muitas áreas da neurociência promete não só revelar como o cérebro funciona, mas fornecer dados sobre nossas intenções, pensamentos e sentimentos, assim como sobre as disfunções mentais que afetam tantas pessoas. Sofisticados equipamentos de imageamento estão permitindo a identificação das partes do cérebro em atividade em determinado momento e a análise dos efeitos causados por drogas, temores ou outros estímulos.

Os pesquisadores dispõem, até agora, de uma compreensão limitada do funcionamento do cérebro. Mas isto está mudando. A estrutura e as atividades de nosso cérebro influenciam a nossa saúde mental e o nosso comportamento de forma muito mais direta que a exercida por nossos genes, e, por isto, é bastante provável que os avanços na habilidade de "ler" o cérebro sejam até muito mais explorados que o conhecimento proporcionado pela genética para finalidades como a seleção de candidatos a emprego, o diagnóstico e o tratamento de doenças, a determinação das pessoas que devem receber os benefícios destinados aos incapazes e, finalmente, o aprimoramento do cérebro.

Advogados já estão tentando apresentar imagens escaneadas do cérebro como indício da inocência dos seus clientes. Agências governamentais estão considerando a possibilidade de escanear o cérebro de possíveis líderes militares, astronautas e agentes secretos para determinar quem está predisposto a fazer o quê em situações estressantes ou tentadoras. Os médicos estão implantando dispositivos no cérebro de pacientes que sofrem do mal de Parkinson, para ajudá-los a enfrentar a doença. Fala-se de pílulas que ajudariam os soldados a apagar as lembranças dos horrores da guerra e de implantes para restabelecer, ou até mesmo aprimorar, a memória. E os estudantes que não têm dificuldades óbvias de aprendizado estão tomando Ritalina e outras drogas psicoativas para melhorar o desempenho nos exames escolares. Toda essa atividade deve acionar o nosso radar ético, suscitando ponderações sobre quem pode ser prejudicado e como protegê-las. Por enquanto, as questões excedem as respostas, mas identificar os problemas éticos cruciais é um primeiro passo essencial.

É difícil sustentar que haja algo fundamentalmente errado nas tentativas de diagnosticar e enfrentar os males do cérebro. Esses esforços, porém, suscitam questões sérias, similares às colocadas pela capacidade de realizarmos testes e terapias genéticas. Quem decide, e com base em que fundamentos, se um procedimento arriscado deve ou não ser aplicado a determinada pessoa? E cada um de nós não tem o direito de insistir que nenhum teste ou intervenção seja feito, ou que seus resultados não sejam divulgados, a menos que estejamos de acordo?

Mesmo as pessoas que aceitam a idéia de limitações cerebrais se mostram reticentes quando se discute a possibilidade de aprimoramentos. Os norte-americanos, em particular, acreditam que as pessoas devem fazer por merecer aquilo que possuem. Assim, dispor de um cérebro capaz de realizar mais graças a uma droga, um chip ou um implante seria como obter algo sem dar nada em troca.

Mas seria realmente terrível se as técnicas usadas para tratar o mal de Alzheimer ou o transtorno de déficit de atenção possibilitassem modos de aprimorar a memória normal? Seria mau se alguma inovação - digamos, um chip cerebral implantado no hipocampo - permitisse a uma pessoa aprender francês em minutos ou ler romances em ritmo mais rápido? Deveríamos recusar um implante que aprimora o desenvolvimento do cérebro dos recém-nascidos? Seria imoral alterar o cérebro para aperfeiçoar a sua performance, dotá-lo de mais e melhores capacidades que aquelas possuídas por nossos pais?

  • Contra a natureza

Não vejo maiores problemas na tentativa de aprimorar e otimizar nossos cérebros. Para elucidar por que penso dessa forma, consideremos algumas prováveis objeções. Uma delas sustenta que ajustar neurônios para aprimorar as capacidades do cérebro pode ameaçar a igualdade entre os homens; as pessoas favorecidas por esse tratamento realizariam mais e seriam mais respeitadas. Mas o direito de ser tratado com respeito nunca dependeu da semelhança biológica ou do nivelamento dos comportamentos. Assim como os incapazes e os doentes não deveriam ter menos direito ao tratamento justo, à felicidade e à oportunidade, as pessoas que não recebem intervenções para aprimoramento do cérebro não deveriam ser privadas desses direitos.

Muitos acreditam que esse aprimoramento não seria ético porque alguns teriam cérebro aprimorado, ao contrário de outros, o que seria injusto. É certamente possível - na verdade, é provável - que, se nada for feito para assegurar o acesso às tecnologias que aperfeiçoam o cérebro, surgirão novas desigualdades. Mas o acesso a coisas que aprimoram a mente já é distribuído de forma injusta. Essa situação não torna a desigualdade algo correto. A melhor solução é proporcionar acesso justo e não abandonar a idéia do aprimoramento. Meu filho, por exemplo, é um privilegiado, pois estuda em escola particular. Se eu dissesse às pessoas de um bairro pobre sobre a educação dada a meu filho elas não diriam que eu deveria me envergon nhar por proporcionar-lhe esta vantagem. Tampouco diriam que uma educação melhor é imoral. Diriam apenas: "Gostaria de poder fazer o mesmo pelos meus filhos".

Afastado o problema da igualdade, é verdade que a engenharia do cérebro é contrária à Natureza? Se começamos a nos aprimorar, podemos ser capazes de realizar mais, mas continuamos humanos após termos realizado mais? O principal defeito deste argumento está no fato de que é elaborado por pessoas que usam óculos escuros, insulina, válvulas cardíacas, beneficiam-se de transplantes, viajam de avião, tingem o cabelo, falam ao telefone, usufruem da luz elétrica e tomam vitaminas. O que de fato elas querem dizer? Nós nos tornamos menos humanos se, em vez de caminhar, usamos um meio de transporte para ir ao trabalho? Podemos nos tomar por isso menos saudáveis, mas a confiança na tecnologia de transporte nos torna irreconhecíveis como humanos? Haveria um limite natural além do que a nossa natureza seria claramente corrompida pela transformação? Certamente não. É parte da essência humana tentar aprimorar o mundo e a si mesma.

Por fim, pode-se argumentar que o aperfeiçoamento do cérebro é incorreto porque envolverá, inevitavelmente, coerção. De forma sutil ou não, o governo e a publicidade nos convencerão de que, a menos que tenhamos os melhores cérebros possíveis, estaremos rebaixando nossas famílias e comunidades. As pessoas também poderão se sentir coagidas já que, se não se submeterem ao aprimoramento, serão deixadas para trás na disputa por empregos e êxito social. Mas a resposta para isto não é a proibição do aprimoramento. É preciso, sim, assegurar que o aprimoramento seja feito sempre voluntariamente.

Na realidade, porém, é improvável que a coerção seja necessária para induzir as pessoas a desejar a otimização de seus cérebros. As sociedades reguladas pelo mercado encorajam o aprimoramento. Culturas religiosas e seculares recompensam os que buscam o aperfeiçoamento; todas as religiões consideram o aprimoramento de si e dos filhos como uma obrigação moral. A iminente revolução em nosso conhecimento do cérebro exigirá de nós a formação de instituições legais e morais que permitam o acesso justo a todas as pessoas que escolherem fazer o que consideram correto.

Para conhecer mais

Neuroethics: Mapping the Field. Organizado por S. J. Marcus. Dana Press, 2002. Disponível em www.dana.org/books/press/neuroethics/neuroethics.pdf
Emerging Ethical Issues in Neurology, Psychiatry and the Neurosciences. A. L. Caplan e M. Farah em The Molecular and Genetic Basis of Neurologic and Psychiatric Disease. Terceira edição. Organizado por R. N. Rosenberg et al. Butterworth-Heinemann (no prelo).

*é professor de bioética e diretor do Center for Bioethics da Universit of Pennsylvania desde 1994. Antes disso, lecionou na Columbia Universit. É autor ou editor de 25 livros, incluindo Who Owns Life? (Prometheus, 2002).

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