Internet é perigosa para a memória?


Revista Veja

O americano Nicholas Carr, 52 anos, é formado em inglês e fez mestra­do em literatura americana. Com uma prosa extremamente eficiente, Carr tomou-se escritor de não ficção. Es­creve livros sobre cultura, economia e, especialmente, tecnologia. Quando a maioria das pessoas só via os benefí­cios da internet e as maravilhas do Google, Carr publicou um artigo na revista The Atlantic dizendo que, tal­vez, a rede mundial estivesse nos idio­tizando. Ele contava que, como usuá­rio intensivo da internet, vinha obser­vando que sua capacidade de concen­tração e contemplação já não era a mesma. Ler um livro estava virando um sacriffcio. Hoje, três anos depois, o escritor acha que melhorou um pouco, mas à custa da redução do seu tempo on-line. "Mudei alguns hábitos", diz. "Fechei minha conta no Twitter e no Facebook. Os dois prestam um serviço útil, mas provocam muita distração, mandando mensagens o dia inteiro." Agora, com a pesquisa que mostra que o Google pode estar afetando o modo como a memória humana funciona, Carr sente-se como se já soubesse dis­so. Do estado do Colorado, ele falou a VEJA por telefone e disse que seu li­vro mais recente, The Shallows, que trata dos efeitos da internet sobre o cé­rebro humano, deve ser lançado no Brasil neste ano. Quando quis saber o nome da editora brasileira, Carr deu uma resposta que vale a leitura da en­trevista a seguir.

Veja - O que o senhor achou da pesqui­sa que mostra que o cérebro ten­de a esquecer o que pode ser achado facilmente na internet?

Nicholas Carr - A pesquisa é fascinante. Ela mostra a enorme plasticidade do cérebro. Claro que a memó­ria humana já passou por mu­danças com o advento de outras tecnologias de comunicação e informação, mas nunca tivemos à nossa disposição um estoque tão vasto e tão fácil de acessar como a internet. Talvez estejamos entrando numa era em que teremos cada vez menos memórias guardadas dentro do cérebro.

Veja - Quando descarta a memória fácil de recu­perar e armazena a memória que pode su­mir, o cérebro está sendo inteligente?

Nicholas Carr - Não. Acho isso perigoso. A perda de motivação para memorizar informações pode degradar nossa capacidade cogni­tiva. Na história humana, sempre guar­damos memórias em lugares externos, fora do cérebro. A diferença, agora, é que a internet é imensa. O cérebro pode descartar um enorme volume de infor­mações. Ou seja: no passado, tínhamos lugares externos para complementar nossa memória; agora, a internet pode substituir nossa memória. E um perigo. A memória fora do cérebro não é igual à memória dentro do cérebro. O que guardamos na cabeça nos permite fazer associações, conexões, aprofundar o conhecimento, elaborar, reelaborar. É isso que nos torna únicos.

Veja - Sócrates, o filósofo grego, reclamava do advento da escrita dizendo que era um estímulo ao esquecimento. A internet não é a mesma coisa, em nova escala?

Nicholas Carr - Há uma diferença importante. Sócrates reclamava do ato de escrever antes de a forma do livro ter sido inventada. Ele estava certo no estímulo ao esqueci­mento proporcionado pela escrita, mas a chegada do livro ajudou a ampliar a memória humana ao contribuir com o aumento da nossa atenção, da nossa capacidade de concentração. É possí­vel que a internet, em algum momento no futuro, também seja complementa­da por outra invenção ou comece a ser usada de um jeito diferente, de modo a passar a exercer um papel semelhante ao que o livro teve para a escrita. Mas, examinando-se a história da internet nos últimos vinte anos, o que se vê vai na direção contrária. Cada vez mais, a  maioria das pessoas usa a internet para ter acesso a informações rápi­das, curtas.

Veja - O senhor acha que a internet está mu­dando nosso modo de pensar?

Nicholas Carr - Sem dú­vida A internet estimula certos modos de pensar e desestimula outros. O pen­samento atento, focado, concentrado é algo que ela claramente desencoraja. A internet estimula o usuário a folhear, passar os olhos, não a mergulhar com profundidade. Com a rede, nosso conhecimento está mais amplo, mas mais superficial.

Veja - Ao mudar seus hábitos on-line, o se­nhor conseguiu recuperar a c0ncentra­ção necessária para ler um livro como Guerra e Paz?

Nicholas Carr - Consigo ler, mas é mais difícil do que antes. Tenho de fa­zer um esforço. Posso sentir minha cabeça resistindo contra ficar focada num conjunto de páginas por determi­nado período. Acho que, ao usar tanto meu computador para navegar na re­de, acabei treinando meu cérebro para se distrair, mudar o foco, dividir a atenção rapidamente. Para ler um livro, tenho de combater esse novo instinto.

Veja - Seu artigo publicado na revista The Atlantic indagava se o Google estava nos tornando idiotas. O senhor chegou a uma resposta?

Nicholas Carr - Escrevi o artigo, mas o titulo quem deu foi um editor da revista. Eu não usaria a palavra "idiotas". No fim das contas, acho que o Google, ou a internet de modo mais geral, es stá nos tornando superfi­ciais como pensadores. Trato disso no meu último livro. Em algum momento deste ano, deve ser publicado no Brasil, inclusive.

Veja - Qual a editora?

Nicholas Carr - Espere um momento ... Só um momento ...

Veja - O senhor está consultando a internet?

Nicholas Carr - Pois é, estou conferindo no site do meu livro.

Veja - Ainda bem que a intemet existe, não?

Nicholas Carr - Mas acho que se eu estivesse sem acesso à internet eu conseguiria me lembrar. Está aqui, é Ediouro

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