Intoxicados de informação


O estresse causado pela hiperconectividade e a sensação de estar sempre desatualizado causam a chamada infoxicação. Saiba quais são os sintomas e como se livrar desse mal.

Revista Istoé - por Patrícia Diguê e João Loes

A publicitária Larissa Meneghini, 24 anos, toma café da manhã com os olhos grudados num livro. No cami­nho para o trabalho, parada no trânsito de São Paulo, aproveita para escutar notícias pelo rádio do carro e ler mais um pouco. Passa o dia co­nectada, respondendo a e-mails, checando re­des sociais e pesquisando sites relacionados ao trabalho. "Chego a ficar tonta com tanta infor­mação, a ponto de ter de sair da frente do com­putador e esperar passar", conta a paulistana, que recentemente abriu mão do celular com internet para tentar reduzir o estresse com a hiperconectividade. Apesar de antenada com tudo, se sente constantemente desatualizada.

"Estou sempre com medo de ficar de fora", lamenta. A angústia de Larissa diante do grande volume de informação é tema que vem gerando manifestações acaloradas desde o início da era digital e agora ganhou nome: infoxicação.

O neologismo, uma mistura das pala­vras "informação" e "intoxicação", foi cunhado por um físico espanhol especialista em tendências da informação, Alfons Cornellá. Segundo ele, uma pessoa está info­xicada quando o volu­me de informação que recebe é muito maior do que o que ela pode processar. "Quando ainda nem terminamos de digerir algo, já chega outra coisa", afirma o especialista. As consequências são a ansiedade diante de tantas opções e a superficialidade.

Na mesma corrente, está o psicólogo britânico David Lewis, que criou o conceito da Síndrome da Fadiga Informativa, que se dá em pessoas que têm de lidar com toneladas de informação e acabam se sentindo paralisadas em sua capacidade analítica, ansiosas e cheias de dúvidas, o que pode resultar em decisões mal toma­das e conclusões erradas. Outros sinto­mas são danos às relações pessoais, baixa satisfação no trabalho e tensão com os colegas. "O excesso é mais prejudicial do que proveitoso", afirma. Se há duas dé­cadas só contávamos com alguns canais de televisão, hoje o volume de dados no mundo equivale à leitura de 174 jornais por dia por pessoa, aponta estudo da USC Annenberg School for Communi­cation & Journalism, publicado em feve­reiro (leia quadro).

Apesar dos perigos do excesso de in­formação, a maioria dos especialistas ainda enxerga mais vantagens do que desvantagens na era digital. Só alertam para a necessidade de as pessoas aprenderem a amenizar os efeitos colate­rais dessa nova realidade. "Não temos como reverter esse processo, então é preciso aprender a lidar com ele", defen­de a psicóloga Rosa Farah, do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "E não podemos subestimar a capacidade de o ser huma­no de adaptar-se a essa realidade."

Para não ser contaminado pelo turbi­lhão de bytes a que está exposto diaria­mente, o engenheiro naval Guilherme Malzoni Rabello, 27 anos, inventou uma dieta da informação. "Eu escolho cuida­dosamente o que merece minha atenção antes de sair atirando para qualquer lado, atentando principalmente para a origem da fonte. "Quanto mais gabaritada e re­conhecida, mais vale a pena consumir", diz. O engenheiro é exemplo de quem conseguiu exercer a escolha criativa, se­gundo o psicanalista Jorge Forbes, que não concorda com a patologização do mundo online. "Será que alguém fica gordo porque vai a um restaurante de bufê e se acha obrigado a comer de tudo para não fazer desfeita?", compara For­bes. A professora Rosa, da PUC, ressalta, porém, que há pessoas mais vulneráveis a essa abundância e, para elas, recomenda escutar os alertas do organismo. "O cor­po dá sinais de que estamos ultrapassan­do limites. Aí é hora de reavaliar priori­dades", ensina. Por enquanto, a quanti­dade de informação no mundo ainda equivale a menos de 1 % da que está arma­zenada nas moléculas de DNA de um ser humano, indício de que a espécie deverá sobreviver a mais esse impacto.

• Bytes estratoféricos

- 295 exabytes é a quantidade de dados armazenada hoje pela humanidade. o que equivale a 1,2 bilhão de discos rígidos ou 315 vezes o número de grãos de areia do mundo.
- A quantidade de informação movimenta­da equivale à leitura de 174 jornais por pessoa por dia.
- Se colocássemos toda essa informação em livros, seria possível fazer uma pilha de três camadas em todo o território dos Estados Unidos ou da China.
- Se essas instruções tivessem sido executadas manualmente. se levaria 2.200 vezes o tempo de existência da Terra desde o Big Bang.
- Em 20 anos. a capacidade de acumular informação no mundo cresceu em média 58% ao ano.

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