Jornada sem-fim


Efeito da tecnologia: o tempo dedicado às atividades profissionais avança sobre a vida pessoal.

Revista Carta Capital - por André Siqueira

Quarta-feira, nove e meia da noite, quando o presiden­te do Instituto de Pesquisa Econômiica Aplicada (Ipea), Mareio Pochmann, fala a CartaCapital, pelo celular. O vozerio ao fundo, pontuado por avisos de horários de voos, denuncia sua localização. Enquanto aguarda o embarque no aeroporto de Brasilia. O sociólogo comenta os resultados de uma pesquisa realizada na Inglaterra, que lhe chamou a atenção por apontar a redução do tempo de descanso dos trabalhadores no fim de semana, de 48 para 27 horas.

Não é difícil. como se vê, constatar em­piricamente o avanço do tempo dedicado à atividade profissional sobre as horas li­vres da população economicamente ativa. Conforme a natureza do trabalho ou ser­viço prestado, basta ter em mãos um celu­lar ou um dispositivo com acesso à internet para realizar as tarefas exigidas pelo cargo a partir de praticamente qualquer lugar, e a qualquer momento do dia ou da noite.

O site norte-americano Magnify, espe­cializado no tratamento e arrnazenamen­to on-line de vídeos, divulgou em abril os resultados de uma pesquisa feita anual­mente sobre os hábitos dos inrernautas. Do total de entrevistados, 76,7% respon­deram que Ieem e-mails e os respondem à noite ou no fim de semana, enquanto 57,4% disseram nunca desligar os telefones celu­lares. Para 43,2% dos entrevistados, é nor­mal escrever mensagens de texto e e-mails em ocasiões sociais ou encontros amoro­sos. E outros 35,2% costumam respon­der a demandas do trabalho quando estão com os filhos. Uma das conclusões dos au­tores é que "o tempo pessoaI e o período de trabalho se misturaram, tanto que nem o meio da noite ficou de fora dos limites".

Ainda são raros, segundo Pochmann, os estudos científicos a abordar essa no­va realidade do mundo do trabalho com maior propriedade. Inspirado pelos ingle­ses, o especialista conta que o lpea traba­lha em uma pesquisa nos mesmos moldes a ser realizada entre trabalhadores brasi­leiros. Sobretudo, aqueles do setor de servi­ços, responsável por cerca de 70% da gera­ção de novos empregos no País e justamen­te a área em que é mais comum o chamado trabalho imaterial, ou intclectual, que pode ser realizado fora do ambiente da empresa.

"A revolução da informação e da comu­nicação, ao contrário de sua antecessora, a revolução urbano-industrial, não teve as contradições e tensões medidas pela ci­ência aplicada. Daí a ausência de identifi­cação do aumento da carga de trabalho", analisa o presidente do Ipea. "O funcio­nário que recebe da empresa um celular, ou um notebook, vê o objeto como um si­nal de status, e não percebe que tudo isso é trabalho, gera um valor que muitas ve­zes é repartido. O Estado não tributa, os sindicatos tampouco se dão conta dessa situação, o que favorece a concentração de riqueza e poder nas mãos das empresas."

A falta de estudos acadêmicos sobre a nova realidade das jornadas de trabalho é uma lacuna que o Departamento Intersin­dical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) pretende cobrir. Cursos na área de ciências do trabalho serão o desta­que da escola de ensino superior que a en­tidade espera inaugurar ainda neste ano. "O tempo de trabalho será um dos nossos temas prioritários", diz o diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio.

De acordo com o especialista, o estu­do da jornada de trabalho surgiu em mea­dos do século XIX, teve grande importân­cia nas décadas de 1930 e 1940, com a linha de produção fordista. Mas perdeu relevân­cia acadêmica no Brasil nos anos de 1980 e 1990, sob a influência do neoliberalismo. "Agora, com a volta do crescimento econômico, o trabalho volta a ter importân­cia", afirma. Lúcio não vê, a priori, as novas tecnologias como inimigas do trabalhador. "Tenho um amigo arquiteto que mora no interior, à beira de uma lagoa, e raramente precisa sair de lá por razões profissionais."

Embora também reconheça que a tecno­logia pode representar alguns benefícios para os profissionais liberais, Pochmann se preocupa com os assalariados, que, além de não colher integralmente os fru­tos do próprio esforço, assumem os ônus da carga horária excessiva, como as doen­ças ocupacionais. "As novas formas de ten­são se manifestam pela desintegração fa­miliar, o estresse, o chamado burnout."

A maioria dos problemas apontados pelo presidente do Ipea não se manifesta imediatamente, mas os sinais de alerta es­tão evidentes em algumas características da atual geração de trabalhadores. Como as apresentadas pelo analista de softwares Evaristo de Goes Neto, de 27 anos. O jo­vem profissional é um dos responsáveis pelo bom funcionamento de programas que gerenciam milhões de transações bancárias, cuja paralisação, mesmo que por alguns minutos, pode causar prejuí­zos em escala igualmente superlativa.

Tamanha responsabilidade exige que Neto esteja sempre disponível ao celular, a ponto de já ter interrompido almoço de sábado com a namorada, ou sair de casa às pressas no domingo à tarde para resol­ver problemas de trabalho. Como contra­partida, o programador tem os horários mais flexíveis, e procura chegar ao escri­tó ;rio depois do almoço, para sair apenas após as 23 horas. "Como tenho hábitos noturnos e os clientes deixam para apre­sentar as demandas sempre no fim do dia, tento fazer horários que me permi­tam fugir dos picos de trânsito", diz.

A falta de regularidade nos horários, so­mada à ansiedade pela obtenção de bons resultados profissionais, é a principal ex­plicação de Neto para os 25 quilos que acrescentou à balança desde que come­çou a trabalhar, há oito anos. "Ainda jogo futebol quando posso, mas desisti de ten­tar frequentar uma academia." Cheio de planos para a carreira, o programador não faz ideia do melhor momento para se casar. "Tenho conhecidos que têm filhos e prati­camente precisam marcar hora na agenda para ficar com as crianças. Acho que ainda vou ter uma família, mas preciso me poli­ciar, senão trabalho sete dias por semana."

Frida Marina Fischer, presidente da Comissão Técnica de Organização do Trabalho da Associação Nacional de Me­dicina do Trabalho (Anamt), alerta para os riscos a que estão expostos os profis­sionais que se sujeitam a jornadas extras não reconhecidas pela empresa. Em tese, desde que seja possível comprovar o ne­xo causal entre a atividade profissional e a doença, o trabalhador está coberto pelo sistema público de saúde e pode ser inde­nizado pela organização. "Quem enfar­ta após muitos anos de má alimentação, falta de atividade física e falta de regualridade nos horários tem mais dificuldade de comprovar essa relação."

Uma pesquisa realizada pela Univer­sidade de Uppsala, na Suécia, mostra que só 24% dos trabalhadores dos 15 maio­ res países da União Europeia cumpriam jornadas regulares, ou seja, fora de horá­rios noturnos, nos fins de semana ou em regime temporário. "O estudo também mostra que os profissionais autônomos são os que têm as jornadas mais irregu­lares", assinala Frida Fischer. "O proble­ma é que quem trabalha demais fica fati­gado, atrasa as atividades e, por isso, acu­mula mais tarefas, num círculo vicioso."

O último levantamento da Fundação Europeia para a Melhora das Condições de Vida e Trabalho mostrou que é maior, entre os trabalhadores sujeitos a longas jornadas (acima de 48 horas semanais), a sensação de que o tempo não é suficien­te para concluir as tarefas. Mais da meta­de desses profissionais têm a percepção de que sua saúde é negativamente afeta­ da pelo trabalho, uma impressão compar­tilhada por menos de um terço dos que cumprem jornadas menores.

A pesquisa ilustra bem os dois lados da moeda: dois terços dos trabalhado­res expostos a longas jornadas têm fle­xibilidade nos horários de entrada e sa­ída, ante um terço dos que trabalham menos. Entretanto, a falta de tempo pa­ra compromissos sociais e familiares é um problema que atinge três vezes mais profissionais que passam mais tempo em atividade do que os demais.

Embora a pesquisa europeia ainda não leve em conta as atividades não remune­radas realizadas fora do expediente, a fundação acrescentou uma questão sobre a "contatabilidade" do funcionário, ou se­ ja, a possibilidade de ele receber um tele­fonema por razões profissionais. "Em vez de representar uma proteção contra o con­tato fora do horário, as longas jornadas são associadas a maiores níveis de "contata­bilidade" fora do trabalho", indica o rela­tório. Cerca de metade dos trabalhadores que cumprem jornadas acima de 40 horas semanais recebem ligações fora do expe­diente, ante menos de 30% dos que cum­prem até 35 horas por semana.

A única saída, segundo Frida Fischer, é estabelecer limites claros e rígidos entre os horários dedicados às atividades profis­sionais e às sociais. O problema é que essas fronteiras são rompidas sem que o pró­prio trabalhador se dê conta dos prejuízos. Bianca Rodrigues Madaschi, de 33 anos, gerente do departamento de estatísticas de uma grande empresa de pesquisas, diz ter contado com apoio externo para dar a devida atenção à filha recém-nascida, sete meses atrás. "Minha chefe me proibiu de responder aos e-mails profissionais e meu marido me tomou o (celular) BlackBer­ry durante a licença-maternidade", conta. "Do contrário, eu teria continuado a moni­torar o que acontecia no escritório."

Depois de encarar durante os primeiros anos da vida profissional jornadas diá­rias de 12 horas, Bianca garante que ago­ra se limita a resolver os assuntos mais urgentes quando não está no escritório. Mas não chega a convencer: ela conta que há pouco tempo teve de deixar o be­bê por conta do marido no fim de sema­na, enquanto resolvia assuntos profis­sionais. "Antes eu era workaholic, agora procuro maximizar meu tempo. Como na maior parte do tempo das reuniões não se discutem assuntos técnicos, apro­veito para responder a alguns e-mails. A relação da sociedade moderna com o tempo é a matéria-prima das pesquisas da psicóloga Maria José Tonelli, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV). ""A acele­ração no cotidiano do trabalho com a en­trada das novas tecnologias foi maior des­de a década de 1990, mas não é um tema novo. Preocupa o homem desde a virada do século XIX, e em especial após a invenção do automóvel. As manchetes dos jornais do início do século passado perguntavam: "Aonde vai nos levar essa velocidade?""

Se em séculos o homem não foi capaz de estender seu olhar para além de um raio de 20 quilômetros durante a vida, prossegue a pesquisadora, um efeito óbvio das con­quistas da humanidade é a impaciência. "Ficamos irritados se não recebemos de imediato a resposta de um e-mail enviado a alguém do outro lado do mundo. E a nova geração cresce nessa era de mobilidade."

Segundo a acadêmica, a aceleração não é percebida de forma homogênea pelos trabalhadores. "Há pesquisas indicando uma pressão mais forte entre os profissio­nais de média gerência, oprimidos entre as demandas de cima e os limites dos funcio­nários hierarquicamente inferiores. Isso dá um sentido de aceleração diferente." Outro aspecto da atual organização do trabalho destacado por Maria Tonelli é a possibilidade de realizar as atividades a qualquer momento, mas não necessaria­mente em todos os lugares. Essa conclusão faz parte da tese de doutorado Trabalho Móvel: Em trâ mpaciência. "Ficamos irritados se não recebemos de imediato a resposta de um e-mail enviado a alguém do outro lado do mundo. E a nova geração cresce nessa era de mobilidade."

Segundo a acadêmica, a aceleração não é percebida de forma homogênea pelos trabalhadores. "Há pesquisas indicando uma pressão mais forte entre os profissio­nais de média gerência, oprimidos entre as demandas de cima e os limites dos funcio­nários hierarquicamente inferiores. Isso dá um sentido de aceleração diferente." Outro aspecto da atual organização do trabalho destacado por Maria Tonelli é a possibilidade de realizar as atividades a qualquer momento, mas não necessaria­mente em todos os lugares. Essa conclusão faz parte da tese de doutorado Trabalho Móvel: Em trânsito por aeroportos e avi­ões, apresentada no início deste ano por Heloísa Mônaco, sob sua orientação.

"Há uma interferência do local que per­mite efetuar apenas tarefas de curta dura­ção, até porque é preciso se movimentar com certa frequência e buscar áreas me­nos sujeitas a ruídos e movimentação de pessoas", diz Heloísa, após um total de 250 horas de observação do comportamento de profissionais nos terminais aeroportuários e em 36 voos domésticos. Ao longo do estudo, a pesquisadora se habituou a ouvir frases como "minha vida é móvel" ou "es­tar sem celular é ficar fora do ar".

O depoimento de um dos 25 entrevis­tados da tese ilustra um dilema vivido por muitos profissionais: "Na empresa, você tem trabalho 24 horas por dia. Então, eu procuro estabelecer limites. Já houve tem­pos em que eu procurava resolver tudo, mas é um engano. Em uma empresa que trabalha essencialmente com projetos, não existe "não ter problemas" para solucionar, e as 24 horas do dia são insuficientes".

A pesquisadora diz ter percebido tam­bém que os trabalhadores dispostos a ex­ceder a jornada diária não são apenas os executivos, embora estes sejam maioria. "Com as facilidades da tecnologia, pro­fissionais da área de vendas enviam pedi­dos, gestores de projetos tecnológicos pre­param relatórios, mesmo que estejam em um nível gerencial intermediário."

O livro Infoproletários: Degradação real do trabalho virtual traz uma série de ar­tigos que relacionam a nova classe de tra­balhadores da era tecnológica à mão de obra fabril do século passado. O professor da USP Ruy Braga, um dos organizadores, cita em especial o caso dos atendentes de call centers, uma das áreas que mais geram
empregos no Brasil. "São empregos de remuneração bastante baixa e com altíssimo nível de pressão e estresse, ocupados prioritariamente pelas parcelas da população mais excluídas do mercado profissional, ou sujeitas ao subemprego, o que inclui muIheres negras, travestis e outras minorias."

Segundo Braga, embora a maioria dos contratados veja poucas chances de as­censão profissional no teleatendimen­to, a chance de formalização é vista como uma porta de entrada no mercado. Situa­ção diversa da enfrentada pelos profissio­nais mais qualificados, como programa­dores e analistas de sistemas. "Nesse caso, o grande problema é a frouxidão dos vín­culos trabalhistas, que cria a ilusão de em­preendedorismo e os leva a acumular ati­vidades para elevar os ganhos ou se preve­nir dos períodos de vacas magras."

Thomaz Wood, professor da FGV e co­lunista da área de gestão de CartaCapital, faz uma ressalva e cita a contribuição da falta de organização nos escritórios para o acúmulo de tarefas além do expedien­te. "A tecnologia é só um facilitador para os exageros, mas a baixa eficiência pode obrigar alguém a levar trabalho para ca­sa", afirma. "Numa linha de montagem, o operário é disciplinado pelo ritmo da tec­nologia, mas hoje o trabalho impõe pres­sões que não são acompanhadas pela ca­pacidade do trabalhador de organizar-se e resolver tudo no horário definido."

Crítico contumaz do excesso de reuniões, nas quais são "vendidos" projetos que ja­mais sairão do papel, Wood afirma que pesquisas comprovaram que esses são problemas tipicamente nacionais. "Esse rit­mo frenético, que inclui reuniões sem pau­ta e gerentes batendo cabeça, faz com que a produtividade do trabalho no Brasil seja
quatro vezes inferior à americana. A desor­ganização é cativante, mas tem seu preço."

Por isso mesmo, o professor da FGV alerta para a possibilidade de reduzir o rit­mo de trabalho apenas por meio da orga­nização das atividades diárias. O que não o impede de defender limites legais aos casos em que os funcionários se veem coagidos a fazer mais do que o possível no tempo re­gulamentado. "Não sou a favor de uma le­gislação que amarre as possibilidades de trabalho abertas pelas novas tecnologias, mas é importante que haja salvaguardas para impedir abusos das empresas."

• Dono de si

Jon Messenger, da OIT defende que o trabalhador controle seu própno tempo.

Pesquisador responsável pelo Programa de Condições de Trabalho e Emprego da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, na Suíça, Jon Messenger é especialista no estudo da carga horária e novas formas de organização no ambiente profissional. Em resposta às perguntas enviadas via e-rnail por CartaCapital, Messenger defende que a tecnologia seja usada para dar ao trabalhador mais controle sobre o seu próprio tempo.

CartaCapital: Estamos trabalhando mais do que os nossos pais?

Jon Messenger: A jornada de trabalho média declinou gradualmente no último século. Entretanto, nas décadas recentes, o horário dos regimes de tempo integral se estabilizou em muitos países, enquanto uma crescente proporção de trabalhadores, principalmente mulheres, está trabalhando em tempo parcial (especialmente nos países desenvolvidos). Esta é parte da tendência de diversificação das jornadas, com parte substancial dos empregados trabalhando por períodos que podem ser tanto mais longos quanto mais curtos do que as horas regulamentares de cada país.

CartaCapital: Esse fenômeno

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