Lembrando quando tudo aconteceu


Várias estruturas cerebrais contribuem para o "tempo mental", organizando nossas experiências em cronologias de eventos recordados.

Revista Scientific American - por Antonio Damasio

Em síntese

Pesquisadores sabem como o corpo tem noção do tempo através dos ritmos circadianos, mas não como a mente é capaz de agrupar eventos na sequência cronológica correta. Estudos recentes sugerem que várias es­truturas do cérebro, induindo o hipo­campo, o prosencéfalo basal e o lobo temporal, desempenham um papel na manutenção do "tempo mental".

Acordamos em tempo graças as despertador e passamos o dia presos a horários: da reunião, dos visitantes, da chamada por teleconferência, do almoço, todos marca­dos para início a determinada hora. Podemos coordenar nossas atividades com as de outras pessoas porque todos, implicitamente, concordamos em seguir um único padrão para medir o tempo, baseado no inexorável raiar e pôr do sol. No de­correr da evolução, os seres humanos desenvolveram um relógio biológico ajustado a este ritmo alternado de luz e escuridão. Esse relógio, localizado no hipotálamo, governa o que eu chamo de "tempo corporal".

Mas existe, de modo geral, outro tipo de tempo. O "tempo mental" está ligado a como percebemos a passagem do tempo e organi­zamos tudo cronologicamente. Apesar do constante tique-taque do relógio a duração parece mais rápida ou vagarosa, mais longa ou curta. Essa variabilidade pode ocorrer em diferentes.escalas, de décadas, épocas, sema­nas e horas, até o menor intervalo da música: a duração de uma nota ou o momento de si­lêncio entre duas notas. Dispomos os even­tos no tempo, decidindo quando ocorreram, em que ordem e em que escala, de uma vida inteira ou de alguns segundos.

Desconhecemos como o tempo mental se re­laciona com o relógio biológico do tempo corpo­ral. Tampouco é claro se o tempo mental depende de um só instrumento para seguir o tempo, ou se a duração de nossas experiências e a ordem temporal dependem essencialmente, ex­clusivamente até, do processamento das infor­mações. Se esta última alternativa for verdade, o tempo mental deve ser determinado pela aten­ção que damos aos eventos e às emoções que sentimos quando eles ocorrem. Deve ainda ser influenciado pela maneira como registramos esses eventos e pelas inferências que fazemos conforme os percebemos e os relembramos.

Fui atraído pela primeira vez para os problemas de processamento de tempo devido ao meu trabalho com pacientes neurológicos. Pessoas com traumas em regiões cerebrais relacionadas ao aprendizado e à lembrança de fatos novos desenvolvem sérias perturbações na capacidade de organizar eventos passados na época e em sequência corretas. Além disso, esses amnésicos perdem a capacidade de estimar precisamente a passagem do tempo em escala de horas, meses, anos e décadas. Mas seu relógio biológico muita vezes permanece intacto, assim como as habilidades de perceber periodos breves que duram um minuto ou menos para ordená-Io corretamente. No mínimo, as experiências desses pacientes sugerem que o processamento do tempo e de certos tipos de memória devem compartilhar certas vias neurológicas comuns.

A associação entre a amnésia e o tempo pode ser vista de forma dramática em casos de lesões cerebrais permanentes no hipocampo, região do cérebro importante para a memória, e no lobo temporal, que lhe é próximo, através da qual o hipocampo mantém uma comunicação de duas vias com o resto do córtex cerebral. Lesões no hipocampo evitam a criação de novas memórias factuais. A capacidade de formar memórias é parte indispensável da construção da sensação de cronologia. Formamos a linha de tempo evento a evento, conectamos acontecimentos pessoais aos que ocorrem ao nosso redor. Quando o hipocampo é lesionado os pacientes são incapazes de reter memórias factuais por mais que um minuto e diz-se que têm amnésia anterógrada.

É curioso que o hipocampo ajuda a criar memórias, mas não a armazena; são distribuídas pelas redes neurais em partes do córtex cerebral (incluindo o lobo temporal), relacionadas ao material lembrado: áreas dedicadas às impressões visuais, sons, informações tácteis etc. Essas redes devem ser ativadas tanto para armazenar quanto para recordar a memória; quando são destruídas, o pacientes não conseguem recuperar memórias de longo prazo problema conhecido como amnésia retrógrada, marcada pela perda de memórias com cunho temporal: recordações de evento únicos que aconteceram em um contexto específico, em uma ocasião em particular. A memória do casamento, por exemplo, tem cunho temporal. Uma recordação relacionada, mas diferente como, digamos, o conceito de casamento, não tem essa marca. O córtex do lobo temporal que envolve o hipocampo é essencial para produzir e recordar essas memórias.

Em pacientes que sofrem traumas no córtex do lobo temporal, anos e até décadas de memória autobiográfica podem ser eliminados para sempre. Encefalite viral, derrame e mal de Alzheimer estão entre os danos neurológicos responsáveis pelos prejuízos mais profundos.

Em um paciente que meus colegas e eu estudamos por 25 anos o intervalo de tempo se estendia até quase o berço. Aos 46 anos ele sofreu um trauma no hipocampo e em partes do lobo temporal. Assim, sofria de amnésia anterógrada e retrógrada, não conseguia formar memórias factuais novas nem recordar as antigas. O pacien­te se encontrava num eterno presente, incapaz de lembrar o que aconteceu um minuto ou 20 anos antes.

De fato, ele não tinha qualquer percepção de tempo; não sabia dizer a data e, ao tentar adivinhar, dizia algo incoerente, como 1942 ou 2013. Se tinha acesso a uma janela, conseguia ser mais preciso, observando a luz e sombras. Mas sem relógio ou janela, a manhã não diferia da tarde, nem a noite do dia; o reló­gio corporal não ajudava. Esse paciente tampouco sabia sua idade. Ao adivinhar, errava.

Dois fatos específicos que sabia ao certo era que era casado e tinha dois filhos. Mas quando se casou? Não conseguia se lembrar. Quando as crianças nasceram? Não sabia. Ele não conse­guia se colocar na linha do tempo familiar. Realmente, fora casado, mas a esposa se divorciara há mais de duas décadas. Os filhos já haviam se casado e tiveram filhos.

• Marca temporal

Como o cérebro atribui um evento a um momento específico e depois o coloca em sequência cronológica - ou, no caso de meu paciente, não consegue fazê-lo - ainda é um mistério. Sabemos apenas que tanto a memória factual quanto a de relação espacial e temporal entre esses eventos estão envolvidas. Assim, quando eu estava na Universíty of Iowa, meus colegas Daniel Tranel e Robert Jones e eu decidimos investigar como se estabelece uma linha temporal autobiográfica. Observando pessoas com diferen­tes tipos de diminuição de memória, esperávamos identificar qual região, ou regiões, do cérebro são necessárias para colocar as memórias na época correta.

Selecionamos quatro grupos de partici­pantes, 20 pessoas no total. O primeiro grupo era formado por pacientes com amnésia pro­vocada por lesão no lobo temporal. Portado­res de amnésia provocada por lesão no pro­sencéfalo basal, outra área relevante para a memória, estavam no segundo grupo. O ter­ceiro grupo era de pacientes sem amnésia, com traumas em outras regiões que não o lobo temporal ou o prosencéfalo basal. Escolhemos como sujei­tos de controle indivíduos sem problemas neurológicos, com memórias normais e equiparáveis aos pacientes em termos de idade e nível educacional.

Cada participante completou um questionário detalhado sobre eventos essenciais da vida. Nós lhes perguntamos sobre pais, irmãos e diversos parentes, escolas, amizades e atividades profissionais. Confrontamos as respostas com parentes e regis­tros. Estabelecemos também o que os participantes lembravam de eventos públicos importantes, como eleições, guerras e desas­tres naturais e ações culturais relevantes. Pedimos que cada par­ticipante pusesse um cartão específico que descrevia um evento específico pessoal ou público sobre um quadro que continha uma linha do tempo ano a ano e década a década para os anos 1900. Para os participantes, a atividade parecia um jogo de tabuleiro. Para os estudiosos, o experimento permitiu medir a eficiência do posicionamento temporal.

Como era de esperar os portadores de amnésia diferiram do grupo de controle. Pessoas normais foram bastante precisas na co­locação temporal: em média, erraram por 1,9 ano. Os amnésicos erraram muito mais, especialmente os com lesão no prosencéfalo basal. Embora recordassem exatamente o evento, o colocaram em média a 5,2 anos da marca. Mas sua memória dos eventos era melhor que a dos amnésicos de lobo temporal que, por sua vez, foram mais precisos em relação à marcação temporal - ficaram distantes em média só 2,9 anos.

Os resultados sugerem que a marca temporal e a recordação de eventos são processos que podem ser separados. O mais in­trigante, o resultado indica que o prosencéfalo basal pode ser essencial para ajudar a estabelecer o contexto que nos faculta colocar as memórias na época certa. Esta noção coincide com a observação clínica de pacientes de prosencéfalo basal. Diferen­te das contrapartes, portadores de lesões do lobo temporal, esses pacientes aprendem novos fatos. Mas, muitas vezes, recor­dam de fatos que acabaram de aprender na ordem incorreta, re­construindo sequências de eventos em uma narrativa de ficção que pode mudar de vez em quando.

• Tarde para a consciência

A maioria de nós não precisa lutar com as grandes lacunas de memória ou a confusão cronológica de muitos pacientes meus. Mas compartilhamos um estranho atraso temporal, fenômeno discutido nos anos 70 pelo falecido neurofisiólogo Benjamin Libet, da University of California em São Francisco. Em um teste, Libet documentou um hiato entre o momento em que uma pessoa tinha consciência da decisão de flexionar o dedo (e recordava o momento exato da consciência) e o momento em que suas ondas cerebrais indicavam que a flexão era iminente. A atividade cerebral ocorria um terço de segundo antes de a pessoa conscientemente decidir mover o dedo. Em outro expe­rimento, Libet testou se um estímulo aplicado diretamente ao cérebro provocava qualquer sensação em alguns pacientes que passavam por cirurgia cerebral, que estavam acordados, como a maioria dos pacientes fica nessas operações. Ele descobriu que uma leve carga elétrica aplicada ao córtex produzia formigamento na mão do paciente - exato meio segundo após o estímulo ser aplicado.

Embora a interpretação desses experimentos e de outros na área de estudos de consciência seja controvertida, um fato geral emergiu do trabalho de Libet. Ficou evidente que existe um atraso entre o início dos eventos neurais que levam à consciência, e o momento em que alguém realmente experimenta a consequência desses eventos.

Essa descoberta pode chocar, à primeira vista, mas as razões para o atraso são muito evidentes. Leva tempo para as mudanças físicas que constituem o evento serem impingidas ao corpo e modificarem os detectores sensoriais de um órgão como a retina. Leva tempo para as modificações eletroquímicas resultantes serem transmitidas como sinais ao sistema nervoso central. Leva tempo para gerar um padrão neural nos mapas sensoriais cerebrais. Finalmente, leva tempo para relacionar o mapa neural ao evento e à imagem mental que surge dele para o mapa neural e à imagem do eu - isto é, a noção de quem somos -, o último e crítico passo sem o que o evento jamais se tornará consciente.

Estamos falando sobre nada mais que meros milíssegundo. Mas, mesmo assim, um atraso. Esta situação é tão estranha que pode levar o leitor a se perguntar por que não percebemos esse atraso. Uma explicação atraente é que temos cérebros similares e como eles trabalham de modo similar, estamos todos desesperadamente atrasad rem os detectores sensoriais de um órgão como a retina. Leva tempo para as modificações eletroquímicas resultantes serem transmitidas como sinais ao sistema nervoso central. Leva tempo para gerar um padrão neural nos mapas sensoriais cerebrais. Finalmente, leva tempo para relacionar o mapa neural ao evento e à imagem mental que surge dele para o mapa neural e à imagem do eu - isto é, a noção de quem somos -, o último e crítico passo sem o que o evento jamais se tornará consciente.

Estamos falando sobre nada mais que meros milíssegundo. Mas, mesmo assim, um atraso. Esta situação é tão estranha que pode levar o leitor a se perguntar por que não percebemos esse atraso. Uma explicação atraente é que temos cérebros similares e como eles trabalham de modo similar, estamos todos desesperadamente atrasados para a consciência e ninguém nota. Mas talvez haja outras razões. Em escala microtemporal, o cérebro consegue "antedatar" alguns eventos, assim o processo atrasado pode parecer menos atrasado e processos atrasados de modo diferente podem parecer ter atrasos semelhantes.

Essa possibilidade que Libet contemplou pode explicar por que mantemos a ilusão de continuidade de tempo e espaço quando nossos olhos se movem rapidamente de um alvo para outro. Não percebemos nem o borrão que segue o movimento dos olhos nem o tempo que os olhos levam para se mover de um local para outro. Patrick Haggard e John C. Rothwell, da University College London sugerem que o cérebro predata a percepção do alvo em até 120 rnilissegundos, portanto nos dá a percepção de visão sem emendas.

A habilidade cerebral de editar experiências visuais e transmitir uma sensação de vontade após os neurônios já terem agido é uma indicação de sua requintada sensibilidade ao tempo. Embora nosso entendimento do tempo mental seja incompleto, gradualmente estamos aprendendo mais sobre porque percebemos o tempo de modo tão variável e sobre o que o cérebro precisa para criar uma linha de tempo.

• Como o Festim Diabólico de Hitchcock Alonga o Tempo

A elasticidade do tempo talvez seja mais bem apreciada quando somos espectadores de uma apresentação, um filme, uma peça, concerto ou palestra. A duração real da apresentação e a percepção mental dela são diversas. Para ilustrar os fatores que contribuem para esta expe­riência diferente de tempo, tomemos o exemplo do filme Festim diabólico, de Hitchcock, de 1948. Este trabalho técnico notável foi filmado continua­mente, em tomadas ininterrup­tas de dez minutos cada. Poucas obras foram produzidas inteira­mente usando esta técnica. Orson Wells em A Marca da Maldade, Robert Altman em O jogador e Martin Scorcese em Os bons companheiros, empre­garam tomadas longas e contí­nuas, mas não tão consistente­mente como em Festim diabóli­co. (Apesar dos muitos aplausos ao diretor pela inovação, todos os envolvidos a odiaram e Hitchcock usou o método nova­mente apenas em parte do filme seguinte, Sob o signo de Capricómio.)

Hitchcock inventou esta técnica por um motivo sensato. Tentava retratar uma história contada em uma peça teatral, acontecendo em tempo contí­nuo, mas foi limitado pelo tanto de filme que conseguia carregar na câmera, que rendia cerca de dez minutos de ação.

Vamos considerar a percep­ção do tempo real do filme pelo cérebro. Em uma entrevista de 1966 com François Truffaut, Hitchcock afirmou que a história começa às 19:30 e termina às 21:15,105 minutos depois. Mas o filme consiste em oito rolos de 10 minutos, um total de 80 minutos, incluindo os créditos no início e no fim. Onde vão parar os 25 minutos faltantes? Senti­mos que o filme é mais curto que 105 minutos? Na verdade, não. O filme não parece mais curto que deveria e a plateia não tem noção de pressa e velocida­de. Pelo contrário, para muitos, o filme parece mais longo que o tempo de projeção.

Suspeito que vários aspectos são responsáveis por esta alte­ração de percepção temporal. Primeiro, a maior parte da ação se passa na sala de uma cober­tura no verão e o horizonte nova-iorquino é visível pela janela panorâmica. No início do filme, a luz sugere que seja final da tarde; ao final, a noite caiu. Nossa experiência diária com o cair da noite nos faz perceber a ação em tempo real, cobrindo as horas do anoitecer, mas, na verdade, estas mudanças de luz são artificialmente aceleradas por Hitchcock.

Da mesma forma, a nature­za e o contexto das ações expli­cam outros julgamentos auto­máticos sobre duração. Após o notório assassinato hitchcockia­no, que ocorre bem no início do primeiro rolo do filme, a história se concentra em um elegante jantar patrocinado pelos dois assassinos repugnantes e que conta com os parentes e amigos da vítima. O período real duran­te o qual a comida é servida dura cerca de dois rolos. Mas o público atribui mais tempo a essa sequência, pois sabemos que nem os anfitriões, nem os convidados, que estão calmos, educados e sem pressa, engoli­riam o jantar numa velocidade tão grande. Quando mais tarde a ação se divide - alguns convi­dados tagarelam na sala, diante da câmera, e outros vão à sala de jantar para ver alguns livros raros - sabiamente nossa razão atribui maior duração para esse episódio oculto que os poucos minutos que leva no filme em si.

Outro fator pode contribuir ainda para a desaceleração do tempo. Não há cortes rápidos a cada dez minutos do rolo; a câmera se aproxima e se afasta suavemente de cada persona­gem. Porém, para juntar cada segmento com o próximo, Hitchcock acabou a maioria das tomadas com um close em um objeto: a câmera se move para traz de um ator com terno escuro e a tela fica preta por alguns segundos. A próxima tomada começa com a câmera se afastando das costas do ator.

Embora a interrupção seja breve e não visa sinalizar um intervalo de tempo, pode con­tribuir para alongar o tempo, pois costumamos interpretar intervalos na continuidade da percepção visual como um lapso na continuidade de tempo. Dispositivos de edição de filmes como a dissolução e o enfraquecimento da luz muitas vezes levam o espectador a inferir que o tempo passou entre a tomada anterior e a seguinte. Em Festim diabólico, cada um dos sete intervalos atrasa o tempo por frações de segundo. Mas, cumulativamen­te para alguns espectadores, os intervalos podem sugerir que mais tempo transcorreu. O conteúdo emociona

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