Lembrar é viver


A memória de um acontecimento não é sua reconstituição literal, e sim uma reconstrução determinada pela identidade atual da pessoa.

Revista Scientific American - Pascale Piolino, Béatrice Desgranes e Francis Eustache

O final do século 19 foi um período fecundo no que se refere ao desenvolvimento de métodos e teorias sobre o funcionamento da memó­ria e às influências físicas e ambientais que atuam sobre ela. Foi em 1885 que Hermann Ebbinghaus, então professor de psicologia da Universidade de Berlim, publicou os resultados de seu trabalho, no qual defendia que a única maneira de avaliar objetivamente as características da memória era controlar, de modo sistemático, as condições experimentais (aquisição, retenção, recuperação) e o material a ser memorizado. Para tanto, ele usava sílabas sem significado, compostas de três letras. Como participante, ele mesmo, da experiência, Ebbinghaus media, num primeiro momento, a velocidade de memorização das listas de sílabas (pelo número de apresentações necessárias de cada lista) até atingir o nível de domínio perfeito. Numa segunda fase, passado um tempo de retenção variável, ele media o tempo necessário para reme­morar a lista de sílabas.

Com esse método de "economia na rememoração" (ganho de tempo no momento da memorização ulterior da mesma lista de sílabas), Ebbinghaus descreveu detalhadamente a evolução da memória com o passar do tempo reestudando a lista de sílabas com diferentes intervalos de retenção (que vão de alguns minutos a um mês): um primeiro momento, o esquecimento é rápido; depois se o a mais lento. Com base nesses experimentos ele propôs uma concepção inovadora de memória: ela não deveria ser reduzida às lembranças conscien­tes; ela integra igualmente, e muitas vezes sem que o saibamos, as modificações de nosso comportamento resultantes de diferentes experiências.

Na mesma época (1879), o britânico sir Francis Galton se interessava pela modificação das lembranças pessoais ao longo do tempo, estudando-as com a ajuda de um método de associação de ideias a partir de palavras-índice: evoca-se a primeira lembrança que vem à mente diante de uma palavra apresentada, e depois a data dessa lembrança. Assim, concluiu que o esquecimento é resultado de um mecanismo dinâmico que se deve à interferência das lembranças da idade adulta sobre aquelas dos primeiros anos de vida.

Em 1881, Théodule Ribot insistiu na importância do método patológico para compreender os mecanismos da memória. Ele propôs que se levassem em conta várias observações da amnésia, considerando uma lei de regressão segundo a qual a destruição progressiva da me­mória começa pelos fatos recentes e se estende "às ideias, depois aos sentimentos e aos afetos e, finalmente, aos atos". É uma regressão que vai do novo em direção ao antigo, do instável ao estável, do menos organizado para o mais organizado. Estudos neuropsicológicos de pacientes amnési­cos revelaram a existência de diferentes formas de memória, sendo algumas preservadas (memória procedural ou dos hábitos) e outras afetadas (memória declarativa). O papel do lobo temporal medial, incluindo o hipocampo, na memória declarativa (memória dos fatos e episódios aces­síveis à consciência) foi claramente demonstrado. Pacientes amnésicos geralmente apresentam uma amnésia anterógrada (dificuldade de formar novas lembranças) e uma amnésia retrógrada (dificuldade de acessar informações anteriores ao aparecimento da amnésia). O estudo dessas amnésias retrógradas alimenta o debate sobre o papel do lobo temporal na formação de memórias e, além disso, no mecanismo da consolidação.

A amnésia retrógrada de pacientes com sín­drome amnésica causada por lesões no lobo tem­poral medial é caracterizada por uma cronologia análoga à descrita por Ribot (em detrimento das lembranças recentes). Sua extensão dependerá da localização e da gravidade da lesão. Segundo a teoria da consolidação proposta por Larry Squire e Pablo Alvarez, pesquisadores do Departamento de Psiquiatria e Neurociências da Universidade da Califórnia, o hipocampo participaria tanto da codificação das informações declarativas como de sua recuperação durante um período de vários anos (veja ilustração abaixo).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apesar de seu interesse, este modelo é muito genérico para dar conta da complexidade da me­mória antiga no ser humano e de sua perturbação decorrente de diferentes situações patológicas. Ele repousa numa concepção da memória declarativa que não distingue os componentes episódicos (memória dos acontecimentos vividos pesso­almente, situados em seu contexto espaçotem­poral de aquisição) e semânticos (memória das ideias e conceitos, independentes do contexto de aquisição). A memó e;ria episódica é única, pois nos permite tomar consciência de nossa própria identidade e viajar mentalmente no tempo. Essa distinção é crucial para entender a organização da memória do passado distante.

Um acontecimento público de grande rele­vância (que faz parte de nossa memória semân­tica) - por exemplo, a eleição do presidente da República - pode permanecer associado à lem­brança de nossas condições particulares quando soubemos do fato (a lembrança episódica desse acontecimento). Aliás, a memória autobiográfica compreende informações particulares de caráter geral (a profissão exercida em tal período, o nome dos colegas etc.) , o que corresponde à semântica pessoal, mas também à lembrança episódica de fatos específicos, situados no tempo e no espaço, e recuperados com uma grande quantidade de de­talhes, inclusive a emoção e o humor associados ao acontecimento. Análises consagradas a certas lembranças episódicas particularmente vivazes e resistentes ao esquecimento, as chamadas "memórias flashes ou flash-bulb" (lembrar-se com cla­reza das circunstâncias em que ficamos sabendo da eleição do presidente), reforçam a ideia de que a emoção, a repetição da lembrança e a veiculação de imagens visuais são fatores que facilitam a formação e a retenção dessas memórias.

Uma das concepções mais elaboradas da memória autobiográfica é a de Martin Conway, da Universidade de Bristol. Para ele, a memória é reconstruída de maneira dinâmica com base em três tipos de representação, uma dentro da outra, do mais geral para o mais específico: os períodos da vida, os acontecimentos gerais e os detalhes específicos (veja ilustração abaixo). Os períodos da vida contêm conhecimentos muito genéricos divididos em longos segmentos da vida medidos em anos ou decênios (o primeiro emprego); os acontecimentos gerais comportam conhecimen­tos genéricos que se estendem por dias ou meses e referem-se aos eventos repetitivos ou extensos (por exemplo, reuniões de trabalho às segundas­ feiras de manhã); os detalhes específicos têm correspondência com os dados perceptivos e sensoriais (imagens, sentimentos, cheiros etc.) de eventos que são avaliados em segundos, mi­nutos, ou, no máximo, horas (como o momento da apresentação de um projeto).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mecanismo de recuperação de uma re­cordação autobiográfica geralmente demanda grande esforço e depende da memória de trabalho - aquela que serve para o tratamento imediato das informações. Ele se decompõe em três fases: "encontrar uma dica ou pista", "investigar" e "ve­rificar" o conteúdo. Em certos casos o processo de
recuperação é automático e o acesso aos detalhes específicos se dá de modo involuntário, muitas vezes em resposta a pistas muito particulares. Contudo, em nenhum caso a memória de um acontecimento vivido é a restituição literal do acontecimento original. Trata-se de uma recons­trução que se opera em função do sentimento de identidade atual do sujeito (seus desejos, crenças e metas), de seus conhecimentos e dos detalhes específicos disponíveis.

Outros estudiosos da memória autobiográ­fica se interessam pelo fenômeno da retenção em função da antiguidade das informações. A capacidade de reter conhecimentos semânticos pessoais, como o nome dos colegas de classe, vai diminuindo nos cinco primeiros anos e depois se estabiliza, constituindo a memória permanente.

A distribuição temporal das lembranças episó­dicas, ao contrário, comporta três fases: a função de retenção, a amnésia infantil e, a partir dos 40 anos, o pico de reminiscência (veja ilustração).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A função de retenção corresponde à curva do esquecimento ao longo do tempo, descrita nos estudos clássicos sobre a memória com o nome de curva de Ebbinghaus. A amnésia infantil diz respeito à ausência quase total de lembranças antes dos 3 anos. Os trabalhos atuais sobre o assunto sugerem que antes dos 5 ou 6 anos as lembranças não são efetivamente episódicas. O pico de reminiscência corresponde às lembranças da adolescência e do período de jovem adulto em maior evidência que as de outros períodos do pas­sado antigo. Para alguns psicólogos cognitivistas isso se deve a um mecanismo de codiflcação específico das lembranças; outros pesquisadores acreditam num mecanismo particular de recupe­ração, visto que esse período da vida fornece dicas particularmente eficazes: o começo da vida adulta, o casamento, o nascimento do primeiro filho, o primeiro emprego.

Além disso, há uma "semantização" das lem­branças episódicas, que se dá com o tempo, com as repetições, e explicaria a estabilidade dessas memórias relativamente antigas: a repetição de acontecimentos similares modela a representação de um acontecimento genérico ou "semantizado". Por vezes, só o rastro mnemônico comum a dife­rentes acontecimentos (acontecimento genérico: cafés da manhã) é conservado; outras vezes o rastro mnemônico de um evento particular é igual­mente conservado, normalmente o mais recente (acontecimento episódico: o café da manhã de hoje). Esse fenômeno assegura a uma transição da memória episódica para a semântica. A memória, aliás, está sujeita a mecanismos de deformação, o que pode condu so, há uma "semantização" das lem­branças episódicas, que se dá com o tempo, com as repetições, e explicaria a estabilidade dessas memórias relativamente antigas: a repetição de acontecimentos similares modela a representação de um acontecimento genérico ou "semantizado". Por vezes, só o rastro mnemônico comum a dife­rentes acontecimentos (acontecimento genérico: cafés da manhã) é conservado; outras vezes o rastro mnemônico de um evento particular é igual­mente conservado, normalmente o mais recente (acontecimento episódico: o café da manhã de hoje). Esse fenômeno assegura a uma transição da memória episódica para a semântica. A memória, aliás, está sujeita a mecanismos de deformação, o que pode conduzir a falsas lembranças.

Estudos neuropsicológicos recentes reafir­maram a pertinência da distinção entre memória episódica e semântica. A episódica se refere a um sistema neurocognitivo único, que implica a viagem mental no tempo, a tomada de consciência da identidade própria do indivíduo e da experiência subjetiva da lembrança (reviver o acontecimento). Um sistema que depende essencialmente dos lobos temporal e frontal estaria seletivamente perturbado na amnésia.

Em nosso laboratório, elaboramos um teste episódico de memória antiga autobiográfica, o TEMPau (Test Épisodique de Mémoire du Passé Lointain Autobiografique), para avaliar, de maneira controlada, a capacidade de recuperação de lem­branças episódicas em função de cinco períodos de codificação: infância e adolescência, até os 17 anos; o jovem adulto, até os 30; o adulto mais ve­lho; os cinco últimos anos; e os 12 últimos meses. Cada lembrança restituída é anotada segundo uma "escala de episodicidade", que permite classificar sua natureza (levando em conta a especificidade, o nível de detalhamento e a localização no tempo e no espaço) e controlá-Ia, quando for feito um segundo teste. São estabelecidas duas tabelas principais com os resultados de acordo com o período da vida: uma contabilizando todas as memórias evocadas e outra apenas com lembranças estritamente episódicas.

Com o teste, demonstramos que, na síndro­me amnésica, a amnésia retrógrada episódica pode ser muito extensa ou até total. Neste caso, pacientes podem, com frequência, responder a questões sobre seu passado utilizando conhe­cimentos semânticos pessoais concernentes a certos períodos de suas vidas ou a acontecimentos genéricos. Por outro lado, são geralmente incapazes de evocar acontecimentos específicos com detalhes. Mesmo quando contam fatos de sua juventude confirmados por outras pessoas, existe uma ausência de emoção e detalhes que comprovem que eles se projetam mentalmente no tempo e revivem o acontecimento. Esses resulta­dos confirmam a dicotomia episódico/semântlco na amnésia retrógrada e sugerem que o gradiente temporal de Ribot corresponde a uma preservação da memória antiga semântica e não da episódica.

A demência semântica é uma doença dege­nerativa que se manifesta essencialmente por um distúrbio neste tipo de memória e em pacientes cujo lobo temporal externo está atrofiado, mas sem apresentar nenhuma alteração no lobo tem­poral interno, pelo menos no primeiro estágio da doença. Nessa síndrome, o perfil cognitivo e neuroanatômico é oposto ao da síndrome amnésica (perturbação da memória episódica consecutiva a uma lesão do lobo temporal interno). O estudo desse distúrbio contribui para que se compreen­da melhor o papel do lobo temporal interno na consolidação das lembranças episódicas. Com a ajuda de nosso teste autobiográfico, observamos que, nesse tipo de demência, a memória autobio­gráfica é mais afetada quanto mais antigas forem as lembranças. Além disso, percebemos que as lembranças estritamente episódicas limitam-se principalmente aos últimos cinco anos. A síndro­me também se opõe à síndrome amnésica no que concerne ao perfil da amnésia retrógrada, já que o gradiente temporal é invertido, em benefício das lembranças recentes.

Esses dados consolidam o modelo de Squire e Alvarez e sugerem que, no neocórtex, o lobo temporal externo é um "depositário" privilegiado do passado antigo. Todavia, existe uma heteroge­neidade, pois alguns pacientes têm as lembranças estritamente episódicas perturbadas, qualquer que seja o período da vida examinado, e outros contam certas lembranças antigas específicas (algumas não detalhadas, talvez por conta de seus distúrbios semânticos). A persistência dessas lembranças episódicas antigas concorreria para afirmar o papel permanente do lobo temporal interno na recuperação das lembranças.

O modelo clássico da consolidação ainda não dá conta do papel desempenhado pelo lobo fron­tal, que, entretanto, também participa da memória episódica. O estudo das amnésias retrógradas autobiográficas isoladas, observadas em pacientes cuja disfunção compreende as regiões neocorti­cais frontais, pode nos ajudar a entender melhor os mecanismos de evocação das memórias.

O pesquisador Brian Levine, da Universidade de Toronto, seus colegas relataram o caso de um paciente com uma disfunção do lobo frontal direi­to (que provoca uma desconexão na rede cerebral frontotemporal) que apresentava uma amnésia retrógrada autobiográfica isolada, traduzida na incapacidade de reviver acontecimentos pessoais, independentemente de quão antigos eram. A junção frontotemporal seria assim determinante para a recuperação das memórias antigas e teria, além disso, uma especialização hemisférica. O hemisfério direito estaria mais envolvido na recu­peração das informações episódicas e o esquerdo com as informações semânticas, como os rostos e os acontecimentos famosos. Esses resultados corroboram de maneira notável o modelo de as­simetria funcional do lobo frontal na recuperação das informações (lobo frontal direito para as in­formações episódicas e o esquerdo para os dados semânticos), baseado em estudos realizados em pessoas sãs com técnicas de neuroimagem.

Modelos distintos compartilham a ideia de que o lobo frontal tem um papel importante na memória autobiográfica. Os modelos "descone­xionistas

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