Ler pode ser muito difícil


Mais que um desconforto a Síndrome de Irlen afeta a capacidade de adaptação à luz e surge quando existe maior demanda de atenção visual, como leitura de texto ou trabalho no computador.

Revista Escola Particular - por Dra. Márcia Guimarães

Todos nós consideramos a leitura como uma habilidade natural e automática porque a realizamos sem esforço algum. Entretanto, para muitas crianças e adultos o ato de ler é um verdadeiro pesadelo e essa é a realidade para 10 a 15% da população.

A leitura é a habilidade mais difícil e complexa que a espécie humana desenvolveu. Embora nos sejam dados muitos anos para aprender a falar, concedemos apenas um ano ou pouco mais para que nossas crianças aprendam a ler. Ler não é intuitivo como falar e apesar de termos uma área cortical para a linguagem, não a temos na leitura.

Sabemos que hoje a pressão na hora do ensino é grande: crianças na pré-escola já são capazes de ver uma letra, associar ao som e reconhecê-Ias em palavras. Não há dúvidas de que estamos pedindo demais e que mui­tas delas não estarão maduras para a complexidade requerida pela leitura.

As dificuldades podem afetar a au­toimagem das crianças e seu interesse pelo aprendizado em geral, tornando a mágica do acesso à escola um ter­rível pesadelo. Por isso, é necessário identificar essa população e resgatá-la antes que a leitura se transforme em dificuldade intransponível.

Excluindo-se os déficits mentais e a cegueira, existem duas causas principais de dificuldades na leitura: a Dislexia de desenvolvimento e a Síndrome de Irlen. A Dislexia vem sendo amplamente discutida e já se tem conhecimento da importância do apoio multidisciplinar, que não raro, será necessário ao longo de toda a vida de seu portador nas formas mais severas de manifestação.

Já o reconhecimento da Síndrome de Irlen no Brasil se iniciou pelo trabalho realizado na Fundação Hospital de Olhos, junto às crianças em idade escolar e voltado para a pre­venção e saúde visual.

O que intrigou os oftalmologistas era o fato de que uma parcela delas, embora apresentassem normalidade em exames detalhados refracionais e de estrabismo, não conseguiam aprender a ler. Eram espertas, inteli­gentes, participativas, expressavam-se bem durante os exames, mas não se saiam bem na leitura. Havia queixas de fotofobia, prurido ocular, ardên­cia, lacrimejamento e cansaço visual crescente, sonolência, perda da con­centração, baixo rendimento escolar e a sensação de que o texto "ia ficando mais claro, que as letras pareciam tremer ou se juntar fazendo com que perdessem a atenção e o local onde tentavam ler".

Curiosamente, essas dificuldades também apareciam ao copiar no computador, ao olhar o quadro ne­gro, praticando esportes e até quando andavam de ônibus ou de carro, levando-as a ter enjoos e quase sem­pre também se queixavam de serem desastrados, de trombar em cadeiras e portas, de deixar cair cadernos, pastas, copos, etc.

Este conjunto de sintomas, que se manifesta de maneira completa ou parcial, foi descrito em 1983 pela psicóloga educacional/familiar Helen Irlen e acabou sendo internacional­mente conhecido como Síndrome de Irlen (SI). Trata-se de uma alteração visuoperceptual causada por um desequilíbrio da capacidade de adap­tação à luz, que produz alterações no córtex visual e déficits na leitura, tendo caráter hereditário e manifestando-se sob maior demanda de atenção vi­sual, como leitura de texto ou trabalho no computador. Por isso, o exame oftalmológico dos suspeitos deve ir além dos problemas nos olhos e da acuidade visual (tabelas com letras de tamanhos decrescentes feitos em condições estáticas).

Para ler movimentamos os olhos de forma rápida e sincronizada, en­volvendo vários processos cognitivos multimodais - em um exemplo, o olho seria o hardware e os déficits no processamento visual uma alteração no software.

A prevalência da SI é maior que a da própria Dislexia (estimada entre 3 a 6% da população). Entre bons leitores, está presente em 14% deles; entre maus leitores e portadores de déficits de aprendizagem, as porcentagens crescem para 17 a 46%. É frequente a coassociação com os Déficits de Atenção e Hiperatividade. Nestes, o diagnóstico diferencial é indispensável.

Na SI, ao contrário da Dislexia, não há alterações auditivas, da fala e linguagem. A prolixidade, impulsivi­dade, falta de autocontrole, agitação e hiperatividade dos DDAs e TDAHs merecerão intervenções médicas e/ou multidisciplinares.

As intervenções identificam e neu­tralizam as faixas de luz mais hipersen­sibilizantes. Através de transparências de cores específicas, eliminam-se as distorções visuoperceptuais, levando de imediato a uma leitura mais fluente e compreensível, caso o portador esteja alfabetizado.

As transparências são um "Recurso Assistivo", não invasivo, de baixo custo e alta resolutividade, que potencializam o efeito das intervenções multidisciplinares mesmo na própria
dislexia, se houver déficits visuais en­volvidos.

É importante ressaltar que os por­tadores da SI não têm consciência de suas distorções, pois estão habituados a percebê-Ias sempre que leem. Daí a frustração e baixa autoestima geradas pela lentidão e esforço na leitura, que para seus pares mostra -se uma atividade prazerosa e natural.

Estudos na população carcerária mostraram ainda uma incidência de 8 82% de portadores de SI, o que demonstra claramente a relação entre a exclusão social e a criminalidade. Os lamentáveis e bem conhecidos efeitos psicossociais dessa realidade são a agressividade, baixa escolaridade, desistência profissional e depressão. A situação é preocupante e
pode incluir milhares de candidatos ao ENEM, sobrecarregados pela demanda de "sustentação da atenção à leitura prolongada", cansaço visual progressivo e perda na compreensão.

O reconhecimento da SI pode ser feito por profissionais da saúde e da educação ca­pacitados pelo Método Irlen, aplicado em mais de 40 países. A dependência da visão na aprendizagem é estimada em 80% e o screening, rastreamento feito após exame oftalmológico, identifica a gravidade das distorções perceptuais quando presentes.

Atualmente, graças ao trabalho da Fundação Hospital de Olhos em Belo Horizonte, já existem 1560 profissionais aptos a identificar a Síndrome de Irlen, distribuídos em 20 estados brasileiros. Através do "Projeto Bom Começo" e em parceria com a UFMG, a Fundação acompanha a saúde visual e auditiva desde a pré-escola, buscando de­tectar e intervir precocemente, prevenindo perdas progressivas e assegurando o futuro escolar.

* Dra. Márcia Guimarães - Doutora em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e diretora do Hospital de Olhos em Minas Gerais

Referências:

1- Irlen H. The Irlen Revolution. New York, Square One Publishers, 2010.
2 - Irlen H. Reading by the colors. New York, The Berkley Publishing Group, 1991.
3 - Guimarães MR, Guimarães JR, Guimarães R et alI. Live spectral fiulters in the treatment of visually induced headaches and migraines: a clinical study of 93 patients. T 29. Headche Medicine, 1 (2): 72,2010.
4- Robinson ,G.L. and Miles,J. The use of colored overlays to improve visual processing - a preliminary survey. The Except.Child. 34, 65-70.1987.
5 - Faria L N. Frequência da Sindrorne de Meares-Irlen entre alunos com dificuldades de leitura observadas no contexto escolar. [Tese Mestrado]. Belo Horizonte:Universidade Federal de Minas Gerais, 2011.
6 - Tallal P. Auditory temporal perception, phonics and reading disabilities in children. Brain Lang, 9(2): 182-98, 1980.
7 - Guimarães MR. Distúrbios de Aprendizado Relacionados à Visão. Rev Fund Guimarães Rosa. 3(4): 16-9, 2009.
8 - Ventura, LO; Travasses, Sê; Da Silva, OA; Dolan, MA. Dislexia e Distúrbios de Aprendizagem. Rio de Janeiro, Cultura Médica, Cap.18 P.159-174,2011.
9 - Whichard JÁ, Feller RW, Kastner R. The incidence of Scotopic sensitivity Syndrorne In Colorado Inmates. Jr.Correctional Education, 51(3): 294-299. 2000.

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus