Levanta-te e Anda


A estimulação da medula espinhal pode trazer novas possibilidades de tratamento para pacientes com doença de Parkinson.

Revista Scientific American - por Sidarta Ribeiro

Mover-se livremente permite buscar o que se quer e evitar o que não se quer. Por abalar intimamente a autonomia do sujeito, a perda da mobilidade corporal é uma das mais difíceis experiências humanas. Em 1817, o médico inglês James Parkinson (1755-1824) descreveu uma enfermidade caracterizada por déficit motor progressivo, chegando, em casos extremos, à completa cessação dos movimentos. Os sintomas da doença de Parkinson, tais como tremores, alterações da fala e redução da velocidade dos gestos, são causados pela morte de neurônios dopaminérgicos na substância negra. A consequente desregulação do circuito neural dedicado ao movimento, que compreende os gânglios da base, o tálamo e o córtex cerebral, tem como assinatura neurofisiológica o aparecimento de oscilações aberrantes de baixa frequência.

A doença de Parkinson propriamente dita tem origem endógena, mas infecções, intoxicações e traumas podem levar a uma síndrome semelhante. Três vezes campeão mundial de boxe peso pesado, Muhammad Ali se tornou céleebre pela inteligência provocadora, destreza das esquivas, potência dos golpes e capacidade de suportar estoicamente os socos dos adversários. Provavelmennte, em virtude de seguidas concussões cerebrais, Ali foi diagnosticado com a síndrome de Parkinson aos 42 anos. O contraste entre a incrível agilidade do boxeador no passado e sua quase total imobilidade no presente ilustra a devastação motora decorrente da perda de função dopaminérgica.

Um dos tratamentos mais utilizados para aliviar os sintomas da doença de Parkinson é a ingestão de L-Dopa, um precursor da síntese de dopamina. O remédio costuma ser eficaz no início, mas com o tempo são necessárias doses cada vez maiores, eventualmente inviabilizando o tratamento. Doses reduzidas de L-Dopa permanecem eficazes quando os pacientes são submetidos à terapia de estimulação cerebral profunda, através do implante cirúrgico de um marcapasso elétrico em diferentes regiões do circuito neural afetado. Por se tratar de procedimento invasivo e crônico que depende da correta estimulação de diminutas regiões cerebrais, a terapia é onerosa, muito sensível ao deslocamento de eletrodos e pode ter vários efeitos colaterais indesejáveis.

Acaba de ser aceito para publicação na Revista Science um estudo que abre novas perspectivas para o tratamento da doença de Parkinson. Utilizando modelos farmacológicos e transgênicos dessa doença, o chileno Rômulo Fuentes e o brasileiro Miguel Nicolelis descobriram que a simples estimulação peridural da medula espinhal restaura completamente a locomoção em roedores com deficiência de dopamina.

O efeito está relacionado a uma interrupção das oscilações aberrantes no circuito motor e encontra paralelo no uso terapêutico da estimulação de nervos periféricos para tratar a epilepsia - Fanselow, Reid e Nicolelis (2000) J. Neurosci. 20, 8160. Em breve serão realizados testes clínicos em pacientes parkinsonianos para testar o potencial terapêutico da estimulação semi-invasiva da medula espinhal. Em caso de sucesso, é possível antever uma rápida revolução na qualidade de vida de tantas pessoas que, como Muhammad Ali, já não conseguem transformar pensamentos em atos.

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