Lição de casa para quê?


Um movimento contra a tarefa escolar ganha força nos Estados Unidos. Por que os pais brasileiros também deveriam se preocupar.

Revista Época - por Camila Guimarães

Quem nunca testemunhou a ba­talha entre pais e filhos na hora de fazer a lição de casa? O que deveria ser um momento doméstico de­dicado aos estudos e à aproximação dos pais com a realidade escolar dos filhos se transforma em horas de angústia e bri­gas. De um lado, as crianças argumentam que tanta repetição de exercícios não serve para nada. De outro, pais preocupados com o desempenho de seus filhos batem o pé e cobram disciplina. Agora, com um novo movimento nas escolas americanas, as crianças podem ter razão.

A onda antilição de casa que ganha for­ça na rede pública dos Estados Unidos é liderada pelos pais. Eles afirmam que seus filhos estão sobrecarregados com mais de duas horas de lição de casa por dia, de­pois de passar sete horas na escola e ain­da cumprir atividades extracurriculares, como esportes ou trabalho voluntário. Os pais afirmam ainda que tanta lição de casa não ajuda a aprender mais. Ao contrário. O excesso prejudicaria o desempenho, principalmente dos mais novos.

Pesquisas científicas sustentam a ban­deira do movimento. "Especialmente entre os alunos menores, não há relação entre fazer lição de casa e aprender me­lhor o conteúdo ensinado", diz Harris Cooper, professor da Universidade Duke, na Carolina do Norte, e o maior estudioso do assunto nos EUA. As evidências mais fortes de conexão entre lição de casa e aprendizado aparecem para os alunos mais velhos, do ensino médio. "Mas há um limite para o volume de tarefas, senão o efeito pode ser prejudicial", afirma.

Pressionadas, algumas escolas e até redes inteiras estão revendo suas diretrizes. É o caso das escolas do ensino infantil e funda­mental do distrito de Galloway, de Atlantic City, no Estado de Nova Jersey, Em julho, será votado se seus 3.500 alunos terão tem­po limitado de tarefa. E se estarão livres dela nos fins de semana, nos feriados e nas férias. As mesmas medidas foram adotadas em algumas escolas de Massachusetts, de Indiana e da Califórnia, que eliminaram a lição para os primeiros anos do ensino fundamental. Para quem acha que fazer tarefa é coisa de bom aluno, a The Brooklyn School of Inquiry, para alunos superdota­dos, decidiu tornar a lição opcional.

Existe limite para a lição de casa? Nos EUA, a Associação Nacional de Educação recomenda que o tempo de estudo em casa não passe de dez minutos por dia para o 1º ano, 20 minutos para o 2º e assim su­cessivamente. Segundo Cooper, se for além disso, o efeito poderá ser negativo. Para o ensino médio, o máximo são duas horas e meia. Ainda assim, os estudantes america­nos dedicam mais do que o dobro. Alunos entre o 1º e o 3º ano gastam mais de 178 minutos por dia estudando em casa.

Tanto rigor é consequência de uma cul­tura competitiva que se instalou nas es­colas públicas americanas, especialmente as que atendem famílias de classe média alta, sedentas por uma vaga em uma boa universidade. Para concorrer, os candidatos precisam ter, além de boas notas, um currí­culo farto de atividades extracurriculares­ desde o jardim da infância. "É complicado acompanhar esse ritmo se a criança não tem disciplina", diz a brasileira Juliana Carsalade Roberto, mãe de Julia, de 8 anos, que con­cluiu neste ano o 3º ano do ensino funda­mental em uma escola de Austin, no Texas.

Julia tem aula das 7h45 às 14h45, treina natação no time de um clube local quatro vezes por semana, faz catecismo uma vez por semana e tem 20 minutos de leitura obrigatória por noite. Além da lição de casa. "Não sobra tempo para ver TV ou brincar durante a semana", diz Juliana. "Por enquanto, ela dá conta do recado."

O problema é que nem todas as crian­ças são como Julia. Os pais contra a lição de casa relatam graves casos de doenças relacionadas ao estresse. Uma mãe em particular, a advogada Vicki Abeles, chamou a atenção do país inteiro. Sua filha mais nova, de 12 anos, começou a ter ataques de pâni­co no meio da noite. Foi diagnosticada com estresse agudo, e a mãe decidiu fazer algo a respeito. Filmou o documentário Race to nowhere (Corrida para lugar nenhum), que mostra o lado amargo da competição esco­lar. Há depoimentos de alunos que ficaram doentes, envolveram-se com drogas e apren­deram a colar nas provas. Um dos capítulos é dedicado ao "massacre" da lição de casa. Ele impulsionou o movimento antilição.

No Brasil, a discussão sobre excesso de lição de casa é raridade nas reuniões de pais. Não há uma determinação de qual é a lição ideal. "Mas persiste a ideia de que quanto mais forte a escola mais lição de casa ela passa", diz Esther Carvalho, diretora do Colégio Rio Branco, de São Paulo. Ainda que os maiores especialistas no assunto sugiram limites de tempo de acordo com a idade, há a ressalva de que é preciso levar em conta o que cada aluno realmente precisa fazer. As filhas de 10 e 8 anos da psicóloga Dayse Figueiredo es­tudam na mesma escola, em São Paulo, e têm a mesma atenção dos pais na hora da tarefa. Segundo a mãe, Laura, a mais velha, é organizada em sua rotina. Chega da es­cola, assiste a seu desenho preferido, janta e se senta para fazer a lição, que acaba sem dificuldades. Já Mariana, a mais nova, é o oposto da irmã. Deixa a lição para a última hora e se distrai com qualquer coisa.

Laura e Mariana são excelentes alunas, mas a relação delas com a lição é diferente. "Não dá para definir o que é ideal sem levar em conta as necessidades de aprendizagem de cada aluno", diz Tânia Resen­de, professora da Universidade Federal de Minas Gerais. O que falta para chegarmos à lição ideal é as escolas e os educadores se debruçarem com mais afinco sobre a questão. Antes de criar uma regra geral, eles precisam fazer sua lição de casa.

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