Linguagem que impressiona


7 dicas vindas do cinema, da literatura, da publicidade e até da política que são capazes de dar molho ao seu texto.

Revista Língua - por Luiz Costa Pereira Junior 

Mudar o eixo em que as coisas são apresentadas está no cerne do tex­to bem escrito. O raciocínio co­mum funciona dentro de um quadro de referências aparente e familiar. O texto que impressiona diz algo além do que está na superfície, asso­cia o domínio inicial de um problema a outro quadro de referência. Há sempre o que é dito e o que é realizado, a diferença entre o que é enun­ciado e a enunciação (o que se co­municou, de fato).

E isso vale para a ficção e para o texto argumentativo. A história da cultura, da li­teratura, do cinema, da publicidade e até da política nos legaram muitas lições sobre co­mo impressionar um leitor. Nas páginas que seguem, sete dicas de variadas fontes podem ajudar o redator a romper com as expec­tativas e conquistar algo mais do que o esperado. A transposição inesperada de uma qualidade para uma realidade outra é feita ao se recombinar coisas já existentes em outros contextos, dando-lhes novas finalidades - ou ao se modificar o jogo das coisas no momento em que se relacionam.

• 1 Da política

- Tenha certeza de que foi entendido.

O prefeito de Manaus, Amazonino Me­des (PTB), passou um sufoco em fevereiro por ter esquecido aquela que a ciência política considera uma regra de ouro: ser entendido conforme se pretende. O prefeito visitava a comunidade Santa Marta, área de risco de desabamento na periferia, quando foi abordado pela desempregada Laudenice Paiva, que disse a ele que não se mudaria dali porque não tinha dinheiro. O prefeito impacientou-se e, ante a reiterada resistên­cia da mulher, adotou um tom de franqueza impensada, de quem alerta amigos chega­dos, capazes de entender entrelinhas.

- Filha, então morra, morra! - disse.

Amazonino diz que foi mal interpre­tado. Teria sido só um jeito de expressar­ se, infeliz decerto, por indicar desdém ofensivo. O "Então, morra!" subenten­deria a intenção de dizer" Mas, se você não sair daqui, fará opção consciente por pôr a vida em risco". A expressão não retratava, desculpou-se o prefeito, desejo ou praga. Filmado por uma TV, publicado no YouTube, o episódio virou rebuliço nacional. A conversa continuou, com insinuações preconceituosas à ori­gem de Laudenice. O prefeito passou o carnaval tentando explicar-se. Até hoje ainda pede desculpas pelo ocorrido.

Governar é fazer acreditar, disse Nicolau Maquiavel (1469-1527) em O Príncipe. Disse também que é fácil persuadir as pessoas de algo. Difícil é manter a persuasão. Bom texto é aquele cujo resultado programado foi de fato alcançado ao ser lido, e se o que dese­jamos dizer foi interpretado como queríamos. Ser desatento a essa máxima (que implica cuidado na revisão do que escrevemos, por exemplo) pode resultar numa saia justa. O prefeito de Manaus que o diga.

• 2 Da publicidade

- Como apresentar suas ideias 

O mais singelo cartaz publicitário ou comercial de TV nos ensina a levar sempre em conta o contexto em que nossa opinião será recebida. Diminuir a resistência do público à nossa opinião significa entender o interlocutor, não confrontá-Io de imediato.

Busque adequação ao nível de formalidade da comunicação cotidiana. É preciso vencer as resistências prévias do leitor, tentar modificar seu conjunto de opiniões e valores prévios, e só então abrir espaço para a nossa opinião. Não podemos defender a descriminalização das drogas, por exemplo, a policiais conservadores sem antes derrubar a esperada hostilidade deles a essa opinião. Daí descrever uma situação facilmente assimilada pelo leitor, antes de emitir pra valer a sua opinião.

Faça uma lista de argumentos, causas e consequências. Imagine para cada um deles o melhor lugar no texto. A escolha de tal lugar é do redator, mas a opinião central, mesmo já mencionada anteriormente, deve ser reproduzida (com outras palavras) para preceder a conclusão, pois terá mais chance de ser lembrada após a leitura.

• 3 Da retórica antiga

- Como descrever um relato pessoal

No início, era o verbo...de Homero. O 4° livro da IIíada chama atenção para o estrategista grego Nestor. Ele interessa pela organização de seu exército. Nestor pôs no front um pelotão com as forças mais valiosas da tropa. À frente, vinham condutores, com cavalos e carros, e, atrás deles, os bravos infan­tes. No centro, pôs os covardes, para que, mesmo sem querer, fossem levados a combater. Atrás desse sanduíche, ficava o esperto general.

Essa passagem da IIíada marcaria a tradição retórica, dizem neorretóricos como Armando Plebe e Pietro Emanuelle, em Manual de Retórica (Martins Fontes, 1992). A ordem nestoriana põe os fatos importantes no início, os argumentos se­cundários no meio. E encerra com estilo: para surpresa da plateia, o tribuno tira da manga a faca do crime e acusa o réu. Em Ars Poetica, Horácio descreve o discurso" ao modo de Homero". "O que é por natureza mais evidente deve vir antes", diz. Quando se começa a fala pelas partes fracas, e se continua com força crescente, o leitor pode ser desestimulado pela fraqueza inicial. Se começa dos pontos fortes e avança com for­ça decrescente, o leitor pode decepcionar-se no fim m. O melhor, diz ele, é ser atraente na 1ª parte e não decepcionante na conclusão.

O orador romano Marco Túlio Cícero prescreve em De Inventione uma peneira imaginária, com a qual todo tema pode ser filtrado. Para ele, era preciso responder a perguntas para o discurso ficar completo: Quem? (quis/persona), O quê? (quid/factum), Onde? (ubi/locus), Como? (quemad­modum/modus), Quando? (quando/tempus) e Por quê? (cur/causa). Devem ser respondidas até o fim da leitura. Não deixe o leitor descobrir no fim que você não lhe deu todos os dados de que ele precisava para tomar posição. Antecipe a dúvida dele e supra a lacuna.

• 4 Da literatura policial

- Construa a realidade de forma confiável

Quando cogitou fazer O Nome da Rosa, Umberto Eco imaginou como criar em forma de texto (Pós-escrito a O Nome da Rosa, Nova Fronteira, 1985).

Umpescador está à margem esquerda de um rio, anzol de prontidão. Se ele faz isso sempre, ser  pescador implica ter toda uma sequência meio que inevitável de atitudes e gestos, pensa Eco. Nós a descrevemos. O personagem se desenha.

Se ele tem um jeitão agressivo e a ficha suja na polícia, temos um começo de personalidade e nós acrescentamos isso ao texto, talvez um ritmo mais lento e fluvial nas passagens que descrevem a pesca, talvez aos sobressaltos na hora de falar de seu temperamento, sugere Eco.

De todo modo, o pescador  está lá. Espera o peixe fisgar a isca. É sua rotina diária, paciente. Não há uma história a contar aqui, mesmo com um tipo de algum modo interessante, paciente e irascível. O personagem, afinal, faz o que foi talhado para fazer, como todo o dia em que pesca. É preciso complicar as coisas.

Eco imagina um corpo levado pela correnteza quando o pescador está naquele rio. Algo perturbou sua rotina. Mesmo assim, ele poderia ficar lá parado, indiferente, cuidando da própria vida, que tem mais o que fazer (pescar ou não se comprometer, pois tem a ficha suja).

Também não teremos uma história se só isso acontecer. A aventura uando um fato pertubador da rotina de alguém encarar um desafio que, de outro modo, não o faria. O corpo no rio pode, por exemplo, ter alguma ligação com o pescador. Ser uma antiga namorada, talvez um amigo que fugira há décadas da cidade e não deveria estar na região. Talvez pior. Pode ser o cadáver do homem que ele odiava. O que ele faz? Foge? Sai calmamente como se nada tivesse acontecid? Mas e se ele foi visto e implicado no caso?

O ponto que queremos defender num texto é como o pescador de Umberto eco. Para que o ponto de vista dele seja convincente, é preciso construir o contexto em que ele se move. Qualquer argumento, para ser defendido, vai exigir outros argumentos de apoio, senão a realidade que ele representa será capenga. Não mate uma ideia porque não quis desenvolver o raciocínio que ela requer.

• 5 Do cinema

- "Encene" uma ideia.

O diretor polonês Andrzej Wajda (do clássico Danton, com Gerard Depardieu) lembra, em Um Cinema Chamado Desejo (Campus, 1989), que só faz sentido contar uma história porque ela encena algo que queremos comunicar. Para terem impacto, as ideias precisam encontrar forma.

Wajda sempre se incomodara com aqueles conjuntos habitacionais padro­nizados e apertados, fileiras de caixas de fósforos gigantes, amontoadas. A sensação de opressão, achava ele, não poderia ser só dita, deveria ser sentida. Era preciso encon­trar a devida expressão, mas o diretor não encaixava uma história que desse dimensão do que sentia ante esses aglomerados humanos sem personalidade.

Um dia encontrou sua história.

Um ator russo almoçava com a equipe de um filme de Wajda. Goles a mais, conta um caso que lhe ocorrera. Numa noitada, conhecera uma jovem. A noite avançara e, bêbados, os dois terminam no quarto da moça, no qual o rapaz garante ter tido a noite mais impressionante de sua vida, e acredita ter sido correspondido. A ex­periência foi tal que o desperta do efeito lânguido em que estava. Alta madrugada, ele não consegue dormir.

Parábolas

Pacientemente, o rapaz vê surgirem os raios do dia. Quer fumar. Não tem cigar­ros. A mulher, a quem nem perguntara o nome, dorme um sono tão tranquilo que ele acha melhor não acordá-Ia. Veste a roupa, desce a escada, sai à rua, entre um amontoado desses prédios caixas de fós­foro. Enquanto dobra esquinas à procura de mercearias, sente-se extasiado.

Após muito caminhar, compra um maço numa loja. Perdera a noção de tem­po e espaço, consumido que estava em seus pensamentos. É quando se dá conta de que não sabia mais qual era o prédio em que a mulher de sua vida morava.

Nunca mais o ator conseguiu achá-Ia. Pense no que este personagem deve ter passado. Acreditando-se que a mulher da história também vivenciara experiência tão intensa quanto a dele, imagine o que deve ter passado pela cabeça dela ao acordar sozinha. A história do ator russo encarna o vazio existencial de uma arquitetura opres­siva e niveladora. O relato na superfície se atém à descrição dos incidentes e atos dos personagens, um caso de desilusão. Mas na verdade o que está sendo posto em cena é a angústia da vida moderna.

Desde as parábolas de Cristo, a narra­tiva clássica nos ensina o valor de contar uma história na superfície, mas dizer também outra coisa além dela. É preciso saber o que se deseja dizer, que imagem queremos criar na mente do leitor ou que mensagem queremos deixar.

Diga o que tem a dizer e pare. Antes, porém, dê ao leitor algo que o faça pensar e encerre seu texto com uma mensagem consistente. Ofereça a ele algo que o surpreenda. Um desafio, uma sugestão de ação ou solução de problema. Conduza seu leitor a uma possibilidade de ação.

• 1 Da imprensa

- Dê um rosto paar o dado estatístico.

Quando queremos escrever, mesmo o mais simples relatório de trabalho corre o risco de desumanizar o relato. É complicador grande quando sabemos que sujeitos de carne e osso viram índi­ces em textos que querem fazer as pes­soas tomarem decisões. Dados tomam a dimensão do humano, consultorias substituem o relato vivo e o número, que serviria para contextualizar, é o que esgota a situaç

Diga o que tem a dizer e pare. Antes, porém, dê ao leitor algo que o faça pensar e encerre seu texto com uma mensagem consistente. Ofereça a ele algo que o surpreenda. Um desafio, uma sugestão de ação ou solução de problema. Conduza seu leitor a uma possibilidade de ação.

• 1 Da imprensa

- Dê um rosto paar o dado estatístico.

Quando queremos escrever, mesmo o mais simples relatório de trabalho corre o risco de desumanizar o relato. É complicador grande quando sabemos que sujeitos de carne e osso viram índi­ces em textos que querem fazer as pes­soas tomarem decisões. Dados tomam a dimensão do humano, consultorias substituem o relato vivo e o número, que serviria para contextualizar, é o que esgota a situação retratada.

"Desurnanizar " é, por óbvio, tratar de pessoas como quem fala de fenômenos climáticos ou estatísticos. Mas é também a fragmentação dos sentidos, a superficialidade, a falta de contextualização ou o distanciamento acrítico das situações, uma abordagem opaca sem margem a dúvidas, um jul­gamento preto no branco, a simular um ordenamento e uma previsibilida­de sobre as realidades vividas por nós, que quase sempre é desmentida por uma observação mais rigorosa.

Euclides

Outros jornalistas cobriram a guerra de Canudos (novembro de 1896/outubro de 1897), arraial às margens do rio Vasa-barris, no sertão baiano. Mas Euclides da Cunha buscou ângulos difíceis a quem permanecesse protegido pelo cordão das autoridades, à distância segura.

Para realizar o trabalho de campo de Os Sertões (1902), checou os inci­dentes perigosos, e não de ouvir dizer. Chegou em agosto de 1897, pouco antes do fim de Canudos. Maturou personagens, visitou casas, enturmou­-se com camponeses, soldados e jagun­ços, viu a paisagem árida com olhos atentos. Testemunhou 18 dias de luta, de 16 de setembro a 3 de outubro. Viu a degola de prisioneiros e o tráfico de mulheres e crianças, e, como os colegas, teve seus despachos censurados.

Só então se viu capaz de criar pa­ralelos entre os homens de Canudos e a natureza do sertão, o cenário dos grandes conflitos mundiais e a cruzada militar contra Antonio Conselheiro, o litoral urbano pré-industrial e o interior mestiço, inóspito e fanático, mas assim mesmo digno e valente. O resultado foi um texto vibrante, mas reflexivo, explo­rador e também predisposto, o encontro do historiador naturalista com a precisão literária, do espírito positivista com a natureza arrepiante - entre o olhar e a tragédia, captou Euclides, há o som e o sentido.

O que humaniza um relato é carac­terizar as pessoas sem estereótipos. Os envolvidos numa informação têm sua razão, as pessoas são multidimensio­nais e mesmo as mais metódicas nem sempre se mantêm numa só via a vida toda. A humanização recupera uma profundidade diante das coisas que pode revelar um compromisso com o mundo. Isso implica colocar as pessoas no centro do relato.

• 7 Da retórica contemporânea

- Busque conhecer tipos distintos de argumentos.

Fonte de referência - As opiniões de uma ou mais fontes balizadas (estudiosos, empresas, órgãos públicos, etc.) dão sustentação a um argumento.

"A Associação Europeia de Exportadores de Carne declarou que a carne bovina brasileira é uma das melhores do mundo. Razões não faltam para concordar."

Por analogia - Estabelece comparação entre duas situações - se alguma coisa é válida numa, então o é na outra, desde que lhe seja comparável.

"A pessoa paga de boa vontade a manutenção de seu carro. Por que não teria igual cuidado com o seu corpo?"

Causas e efeitos - Para dizer que algo é causa e ou­tro é efeito, é preciso que a primeira preceda a segunda.

"No Brasil, um homossexual é morto a cada três dias, o que torna o país um dos mais homofóbicos do mundo, com estatística anual de 198 mortes violentas."

Com exemplos - Enumerar fatos dá consistência a uma tese.

"As mulheres antigamente se casavam muito cedo. Julie­ta, em Romeu e Julieta, de Shakespeare, não tinha nem 14 anos. Na Idade Média, 13 anos era a idade para o casamento das judias. E, no Império Romano, muitas se casavam com 13 anos ou menos."

Uma argumentação precisa começar com uma ideia plausível. Se não estiver seguro dela, pesquise mais sobre o assunto ou descarte-a e passe para outra. Uma premissa ruim não sustentará um bom argumento.

"Só existem muitos pobres no Brasil porque foram poucos os que se interessaram em se comprometer com os estudos."

Ao generalizar a causa da desigualdade social no país, a premissa simplifica o problema ao excluir outras possibilidades.

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