Longevidade: os 10 mitos da vida longa


Um magnífico estudo de oito décadas derruba os lugares-comuns em torno dos tão esperados anos suplementares.

Revista Veja - por Juliana Mariz

JULlANA MARIZ

A partir de 1921, o psicólogo americano Lewis Terman, da Universidade Stanford, começou a acompanhar o cotidiano, as alegrias e as decepções, o comportamento e os hábitos de 1500 crianças. Mesmo depois de sua morre, e ao longo de oitenta anos, o estudo não cessou. É, portanto, um magnífico levantamento dos caminhos e descaminhos para urna vida longa.

Outros dois especialistas americanos, Howard Friedman e Leslie Martin, da Universidade da Califórnia, debruçaram-se sobre o valioso material, realizaram centenas de entrevistas e retomaram o fio de quase todas as meadas. Investigaram quais particularidades existiam na vida dos que morreram cedo e daqueles que passaram a barreira dos 90 anos. Foi excluída.do trabalho a constituição genética, por imprevisível e incontrolável. "A genética influencia a longevidade, mas não é o único fator crucial", diz Leslie. "Além disso, as pessoas nada podem fazer para mudar seus genes. Nós nos concentramos naquilo que podemos mudar." O resultado é o livro The Longevity Project, ­ recentemente lançado. Extrai-se dele uma coleção de mitos em torno do que faz as pessoas viverem mais.

1 - Pensamento positivo reduz o stress

A investigação do destino de cada um dos 1 500 participantes do estudo mostrou que os extremamente otimistas viveram menos do que os céticos e pessimistas. Qual é a explicação? Uma postura relaxada em relação ao cotidiano, ao presente e ao futuro é o atalho para uma certeza: a de que nada de ruim há de acontecer. Daí para uma série de estragos é meio caminho andado. "As pessoas com essa abordagem, aparentemente saudável, não tomam precauções vitais", afinna Leslie Martin. "Fumam mais, bebem mais, têm hobbies mais arriscados e estão, portanto, sujeitas a graves acidentes de percurso."

2 - Mantenha-se em forma, faça ginástica e viva mais

Quantas vezes recomendaram a você que exercício físico tem de ser feito, no mínimo, três vezes por semana? Ou, então, prescreveram trinta minutos diários de caminhada? Os psicólogos apreenderam que listas de recomendação - mais que isso, imposições - não surtem efeito. Seguir à risca os comandos de "pode e não pode" é ruim a médio prazo. O fundamental é fazer uma atividade que produza satisfação de modo a manter a prática. Eles também concluíram que manter-se ativo na "metade da jornada" (por volta dos 40 anos) é altamente positivo. E uma constatação: até a década de 60, quando os participantes do estudo original atingiram a meia-idade, pouco ou nada se falava de atividades físicas, não se viam pessoas correndo nas ruas das cidades.

3 - Permaneça casdo e ganhe alguns anos

E adágio que só vale para o frágil mundo masculino. No quesito matrimônio, Friedman e Leslie fizeram uma diferenciação entre gêneros. Os homens que estavam casados (mesmo em uma segunda união) viveram mais. Mas essa regra não se aplicou às mulheres. O estado civil não influenciou a expectativa de vida delas. "Divorciar-se é menos prejudicial para uma mulher", conclui Leslie. Aos homens cabe a amarga constatação: o casamento seguido do rompimento, e assim viver - narra a história de vida dos personagens do estudo -, é a antessala para problemas de saúde, alirnentados pela solidão.

4 - Tenha hobbies como jardinagem e culinária

Há hoje, no mundo ocidental, o culto a atividades charrnosas, socialmente respeitadas, como modo de distração. Proliferam cursos de jardinagem e de culinária, como se fossem a solução para todos os problemas do mundo - os pessoais e os coletivos. Pede-se bom­ senso. Evidentemente, são hobbies que mal não fazem, mas tampouco garantem saúde melhor. De acordo com o estudo, não há relação entre cuidar das flores, por exemplo, e conquistar bônus existenciais. Qualquer coisa que dê prazer, e se faça ­ com alguma regularidade e em grupo, é positiva. Tanto faz debruçar-se num fogão ou numa mesa de carteado.

5 - Não trabalhe tão duro, tente relaxar

Esqueça a aposentadoria, se possível. O trabalho é benéfico, sempre, com um porém, segundo Friedman e Leslie: não adianta apenas trabalhar muito, é preciso estar comprometido com o ofício. Aqueles que realmente se dedicaram - e tiveram sucesso na carreira - viveram mais do que os que pularam de emprego em emprego, por opção ou demissão. "Os responsáveis, os zelosos, vivem mais especialmente porque têm hábitos e comportamentos que não resultam em stress", diz Friedman. "Essas pessoas são mais capazes de sair vitoriosas em sua vida pessoal e profissional."

6 - Preocupação faz mal à saúde

Uma outra falácía; segundo Friedman e Leslie. Uma dose de preocupação faz bem porque nos deixa alertas, atentos e prudentes. Os preocupados cuidam melhor da saúde, têm hábitos saudáveis, relações felizes e dose extra de serotonina no cérebro. A serotonina é mil neurotransmissor responsável pelo bom funcionamento das células nervosas. Sua escassez está relacionada aos transtornos de humor, de ansiedade e aos problemas afetivos.

7 - Pessoas religiosas vivem mais

>Na "turma do Dr. Terman" havia católicos, luteranos e ateus. Pessoas pouco ou muito religiosas e com engajamemo variável ao longo dos anos. Para Leslie e Friedman, rezar faz a diferença, mas não por motivos sagrados, que asseguram um lugar no céu. O que vale mesmo é ir à igreja, fazer parte da comunidade, estar com amigos. Ser religioso ajudou muitos dos personagens a romper os 90 anos ­ simplesmente porque, gregários, nunca pararam de estimular as relações sociais. O sujeito que vê o culto na televisão, religiosamente, mas solitário, este não ganhará tempo extra na terra.

8 - Se seu filho é muito sério, faça-o ser mais expontâneo e alegre

Uma criança que cresce com excesso de otimismo acaba desatenta a riscos. "Não há por que fazer seu filho não ser feliz, claro", diz Leslie. "Mas, se ele estiver excessivamente alegre, tente fazê-lo tomar decisões cuidadosas. Se ele achar que não pode lhe acontecer nada de ruim, vai se expor a perigos. Saber minimizar riscos é uma habilidade importante." O bom humor, ressalve-se, é qualidade que, levada pelo resto da vida, até a maturidade, produz efeitos consideráveis - mas a excelência reside em saber rir de si mesmo. Já na velhice, indagaram à atriz Lucille Ball qual era o segredo de sua juventude. A resposta: "Viver honestamente, comer devagar e mentir a respeito da idade".

9 - Sentir-se amado é o caminho para o bem-estar

Quanto você é querido não influencia em nada sua expectativa de vida. Muitos estudos já afirmaram que sentir-se amado dá às pessoas a sensação de felicidade e que isso melhoraria a qualidade de vida. Eis outra balela, segundo os autores. É maravilhoso ter o suporte de alguém em um momento difícil, claro, mas isso não vai fazer você morrer mais tarde. A sugestão da dupla é outra: valorize seu cuidado com os outros muito mais que o deles com você. O nome do jogo é altruísmo.

10 - Os bons morrem cedo, os maus morrem tarde

Há mais de 300 anos, o jornalista e escritor inglês Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé, cunhou a frase acima, repetída ao longo dos séculos em canções, poemas e filosofia barata. Friedman e Leslie discordam. "Não há evidência alguma de que os bons morrem antes", diz Leslie. Ao contrário. salvo exceções. Os bons, capazes de discernir o que é errado, moldam melhor seu destino, levam a vida com a dignidade que os faz dormir bem - e viver mais. A dupla de pesquisadores propõe uma.outra máxima, o avesso do mito: "Os maus morrem mais cedo, e os bons vivem melhor".

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