Luz sobre os antidepressivos


Ora assustam, ora atraem até demais. Médicos explicam como funcionam esses medicamentos controversos e quando eles se fazem necessários.

Revista do Idec

Um amigo ou parente revelou que após consulta com o médico começou a tomar antidepressivos. Sua reação foi de choque, receio ou até mesmo pena? Não se sinta mal por isso, pois o preconceito contra esses medicamentos vem de longa data. Mas antes de se deparar novamente com situação semelhante, é importante entender que os antidepressivos são remédios necessários e, no contexto de um tratamento médico responsável e consciente, podem trazer bene­fícios impagáveis ao paciente.

Antes de desvendar os antidepressivos, porém, é preciso conhecer a depressão, um quadro mais frequente do que se imagina, que ocupa o quarto lugar entre as doenças mais comuns no mundo, segundo a Or­ganização Mundial de Saúde (OMS). Calcula se que entre 10 e 15% das mulheres e de 5 a 9% dos homens apresentarão quadro de depressão ao menos uma vez na vida. E a pers­pectiva não é animadora: ainda de acordo com a OMS, num relatório publicado em 2010, a depressão ocupará o primeiro lugar
entre os males que prejudicarão a saúde da humanidade no ano de 2030.

Um conjunto de sintomas específicos define a presença da doença. Há características psíquicas, como tristeza e desânimo acentuados, e também físicas, como alterações no sono, no apetite e na libido. O médico responsável pelo diag­nóstico da depressão é, em geral, o psiquiatra, embora profissionais de outras especialidades também possam acompanhar pacientes aco­metidos por esse mal.

"Como a depressão é altamente presente na população em geral e se revela nas mais diferentes consultas médicas, é útil que espe­cialistas de várias áreas sejam capazes de tratá-Ia", explica o psiquiatra Adriano Resende de Lima, mestre e doutoran­do do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unífesp) e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. "Quando se trata de um quadro com­plicado, porém, é recomendável que o paciente seja encaminhado a um psiquiatra", completa.

Quanto às causas que levam à depressão, o dr. Adriano ressalta que não existem razões lineares e fáceis de mapear. "Urna análise mais correta do paciente levaria em consideração a convergência de múltiplas causas, como as relações interpessoais na infância, a genética e a presença de fatores estressores ao longo da vida", esclarece o médico.

• Diagnóstico e tratamento

No aspecto físico do paciente, a depressão está relacionada à alteração do padrão normal de neurotransmis­sores no cérebro, sendo os principais a serotonina, a doparnina e a nora­drenalina. Eles são responsáveis pelo controle dos níveis de ansiedade, en­tre outras funções, que por algum mo­tivo entram em desequilíbrio. Es­se motivo varia de pessoa para pessoa, e pode ser desde luto por alguém muito querido e grandes estresses, até dificuldades cotidianas de lidar com frustrações. Além disso, como res­saltou o dr. Adriano, fatores genéticos combinados a fatores ambientais tam­bém podem influenciar o desencadea­mento da depressão.

E onde os antidepressivos entram, nesse contexto? Eles procuram, justa­mente, equilibrar a presença desses neurotransmissores no cérebro. Há os que agem sobre um dos neurotransmissores (geralmente a serotonina), outros que agem sobre dois deles, e assim por diante, cada um com uma maneira de corrigir o problema, mas todos visando o reequlíbro neuroquímico. "A escolha do medicamento depende de vários fatores: se o paciente é jovem ou mais idoso, se apresenta intolerância a alguma subs­tância etc. O médico deve levar em consideração a natureza do quadro e, ao mesmo tempo, o perfil do paciente", indica o psiquiatra.

"O ideal, porém, é que o tratamen­to seja feito ao mesmo tempo com remédios e psicoterapia, pois apenas os medicamentos não mudarão a forma de ele pensar e viver a vida", enfatiza, ainda, o dr. Adriano. A pe­diatra Miriam Ribeiro Faria Silveira, presidente do Departamento de Saú­de Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo, lembra que no caso de depressão em crianças, a psicotera­pia é ainda mais imprescindível. "As crianças respondem muito bem à psi­coterapia, mas nesse caso a medica­ção deve ser administrada ainda com mais cuidado, pois existem efeitos co­laterais", ressalta a médica, que tam­bém é psicanalista.

No caso das crianças, por sinal, diagnóstico e tratamento exigem extremo cuidado, pois na infância a cabeça está mais aberta a influências, sejam elas externas ou medicamen­tosas. "Quanto menos remédios, que mexem com a cabeça das crianças, usarmos, melhor. Mas se for ne­cessário aplicá-los, isso deve ser feito com muita consciência e, de preferência, num tratamento em que pediatra e psiquiatra trabalhem em conjunto", orienta a pediatra.

Os efeitos colaterais dos antidepressivos nãp atingem apenas as crianças, claro. Os adultos tratados também devem ser informados de alguns sintomas indesejáveis, entre os quais se destacam queda da libido e ganho de peso. É por isso que o diálogo médico/paciente tem de ser o mais aberto possível. "A maneira de comunicar o diagnóstico é importante", aponta o ginecologista Rogério Boanssi de Machado, doutor pela Unifesp, professor e membro da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia de São Paulo.

Na ginecologia, a recomendação do uso de antidepressivos não é incomum, já que esse quadro aparece mais em mulheres, e o ginecologista é o médico mais visitado por elas, para exames de rotina. A síndrome ou tensão pré-menstrual pode ser tão acentuada em alguns casos que os antidepressivos passam a ser um apoio importante. Mulheres perto da menopausa também podem receber essa indicação. "Se a resposta ao tratamento com o ginecologista não for boa, encaminhamos o paciente para o psiquiatra, que lidará melhor  como os casos mais complicados", reforça o dr. Rogério.

• Sinal dos tempos

"Nos últimos anos, a palavra depressão ficou banalizada. Mas devemos ter em mente que depressão não é fraqueza, nem falta do que fazer", esclarece o psiquiatra Adriano Lima. A partir dessa noção, é importante lembrar que o paciente depressivo deve ser visto como alguém que não quer melhorar.

Porém, pensando na sociedade como um todo, nota-se que existem características cultivadas coletivamente que podem estar relacionadas ao aumento da prevalência da depressão e que podem  ser evitadas por cada um de nós. A principal delas é a intolerância às frustações inerentes ao cotidiano. Nas últimas décadas, com o aumento do consuminsmo e a acelereração dos meios de comunicação, nos tornamos imediatistas e voluntariosos. Diante de problemas reagimos às vezes muito mal, esquecendo-nos de que sempre haverá pedras no caminho, e para todo mundo. "Devemos partir do princípio de que o sofrimento e a tristeza fazem parte da vida", observa a dra. Miriam.

• Sintomas da depressão

- Tristeza profunda que dura a maior parte do tempo;
- Desânimo acentuado;
- Perda da capacidade de sentir prazer com atividades antes prazerosas;
- Baixo nível de energia para realizar atividades;
- Queda da capacidade de realizar tarefas que exigem concentração;
- Dificuldades cognitivas;
- Pessimismo exagerado, visão negativista da vida;
- Alterações do sono (falta ou excesso);
- Perda do apetite (em alguns casos, ganho de apetite);
- Perda da libido;
- Retraimento social, isolamento.

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