Mãe durona cria melhor os filhos?


Uma advogada sino-americana defende a disciplina férrea na criação dos filhos­ e provoca reações iradas de mães do mundo inteiro. Até que ponto ela tem razão.

Revista época - por Letícia Sorg e Camila Guimarães

Bons pais acreditam que: "1) as tarefas de escola sempre vêm em primeiro lugar; 2) 9 é uma nota ruim; 3) seus filhos precisam estar dois anos à frente de seus colegas de clas­se em matemática; 4) não se deve nunca elogiar seu filho em público; 5) se seu filho discordar de um professor, você deve ficar sempre do lado do professor; 6) seus filhos devem ser autorizados a fazer apenas ati­vidades em que algum dia possam ganhar uma medalha; e 7) essa medalha tem de ser de ouro".

Ao defender a criação dos filhos usando regras como as descritas acima, em seu livro Battle hymn of the tiger mother (Hino de ba­talha da mãe tigre), lançado na semana pas­sada, a americana de origem chinesa Amy Chua deflagrou um debate apelidado de "guerra mundial de mães" na internet.

Não é exagero falar em guerra: Amy - uma professora da Universidade Yale e autora de aclamados livros de Direito Internacional - chegou a receber men­sagens intimidadoras e até ameaças de morte depois que o Wall Street Journal publicou, no dia 8, um artigo sobre seu livro. Intitulado "Por que as mães chine­sas são superiores", o texto narra parte da experiência de Amy na criação ao "estilo chinês" das filhas, Sophia e Louisa, hoje com 18 e 14 anos.

"Muitas pessoas se perguntam como os pais chineses criam crianças tão bem­ sucedidas. Como esses pais fazem para produzir tantos gênios da matemática e prodígios da música. Posso dizer porque criei dois deles",: diz Amy no artigo. Alunas exemplares, com notas máximas de cabo a rabo no boletim, Sophia e Louisa ainda
tocam, respectivamente, piano e violino. O sucesso, segundo a mãe tigre, começa com a disciplina. As filhas de Amy não podem: ver TV ou brincar no computador, dormir
na casa de amigos, participar das peças de teatro da escola ou escolher que atividades extracurriculares querem fazer. E devem: ser a primeira aluna da classe em todas as matérias e praticar horas de piano ou vio­lino todos os dias, inclusive nas férias.

Se as regras rígidas de Amy já cau­sam, no mínimo, estranheza, o episódio em que ela chama a filha de "lixo" por desrespeitá-Ia gerou horror entre milha­res de pais, que deixaram mais de 5 mil comentários até a sexta-feira no site do Wall Street Journal. O sentimento de ultraje pode explicar por que Amy se tornou um dos assuntos mais comentados na inter­net - mas não o gigantesco interesse por seu livro, que bastou ser lançado para en­trar na lista dos mais vendidos da livraria virtual Amazon. É provável que muitos pais tenham comprado seus exemplares porque o "estilo chinês", de autoridade absoluta dos pais, provoca uma reflexão sobre qual é a melhor forma de criar nos­sos filhos. E isso vale de forma especial para os brasileiros.

"O que observamos hoje no Brasil é uma libertinagem na educação: os pais perderam a mão na hora de cobrar", afir­ma Quézia Bombonatto, presidente da As­sociação Brasileira de Psicopedagogia. Se­gundo ela, filhos de pais pouco exigentes podem não aprender a superar dificulda­des e lidar com frustrações - habilidades fundamentais na sociedade competitiva em que vivemos. "Um ponto positivo da mãe chinesa é que ela acredita no que faz e, nas últimas décadas, os pais perderam essa segurança."

A história a seguir é um exemplo da fir­meza da mãe tigre para ensinar sua filha mais nova, Louisa, a Lulu, a tocar uma mú­sica difícil no piano. Lulu tinha cerca de 7 anos, ainda estava tocando dois instrumen­tos, piano e violino, e estudava uma música que exigia ritmos diferentes em cada uma das mãos. Amy trabalhou com Lulu sem parar por uma semana, sem sucesso, até a garota declarar que havia desistido. As duas brigaram, e Lulu rasgou a partitura. Amy a colou e a pôs num plástico, para evitar que a filha a rasgasse de novo. Passou a usar ameaças diversas, inclusive doar seus brinquedos. Não adiantou. "Quando ela continuou tocando a música errado, eu lhe disse para parar de ser preguiçosa, covarde, auto indulgente e patética."

Nesse ponto, Ied Rubenfeld, o marido de Amy, de origem judaica, questionou se os insultos e as ameaças ajudariam Lulu a tocar. Talvez ela apenas ainda não tivesse coordenação suficiente para aquela músi­ca. Amy disse que acreditava na filha e não desistiria. "Estou disposta a dedicar tanto tempo quanto for necessário."

Depois de longas horas de exercícios e brigas, como por mágica Lulu de repente conseguiu tocar a peça. "Mamãe, olhe ­é fácil!" E não queria mais sair do pia­no. "Naquela noite, Lulu veio dormir na minha cama, e nos aconchegamos e nos abraçamos, apertando uma à outra", diz Amy. "Como pai, uma das piores coisas que você pode fazer para a autoestima de seu filho é deixá-Ia desistir."

É fácil condenar a rigidez excessiva de Amy. Mas quantos pais estão dispostos a dedicar horas para ajudar o filho a aprender algo? Será correto diminuir a cobrança por medo de ferir a autoesti­ma das crianças? Deixar o filho desistir depois das primeiras tentativas? Ao fa­lar de sua família, Amy tocou em alguns dos problemas mais comuns da educação ocidental de hoje: a falta de disciplina, a falta de comprometimento dos pais com as atividades dos filhos e o medo de que cobranças destruam a auto estima das crianças. Qual é o ponto de equilíbrio entre essas duas formas de criação?

Um estudo da Universidade Brigham Young publ licado no ano passado sugere que ser estrito demais é quase tão prejudi­cial quanto ser permissivo. Uma pesquisas com 5 mil adolescentes entre 12 e 19 anos mostrou que os jovens criados por pais indulgentes, com poucas regras e muito carinho, tinham três vezes mais chances de abusar das bebidas alcoólicas - tomar cinco ou mais drinques de uma vez. En­tre os adolescentes criados com muitas regras e pouco carinho, o risco era quase tão grande (pouco mais do dobro).

A dentista paulistana Ana Cristina Bre­tones, mãe de Beatriz, de 15 anos, e Ga­briel, de 14, sabe que é impossível garantir o sucesso dos filhos, mas tenta facilitar o caminho deles ao estabelecer como prio­ridades a escola e o inglês. "Não abro mão do bom desempenho e da dedicação nes­ses dois quesitos", diz. "Isso não significa
tirar 10 em tudo, mas deixar claro que fi­zeram o melhor que podiam e que estão melhorando sempre. A Beatriz já tirou 7 em uma prova. Não é uma nota alta, mas foi a melhor da turma - a prova tinha sido difícil e seus colegas tiraram 2 e 3. É o de­ sempenho que espero e cobro deles."

Os dois adolescentes não têm horário fixo de estudo, mas devem terminar todas as tarefas escolares no mesmo dia que as recebem. Sábado também é dia letivo para a família - tem revisão das matérias da escola e do inglês. Eles podem escolher as atividades extracurriculares, mas, depois de fazer a escolha, não podem mudar de ideia. Beatriz fez flauta e Gabriel violão por quatro anos. Computador e TV, só no tempo livre que restar. "Sei o que quero para meus filhos - acho que muitos pais não sabem e, por isso, cedem. Meus filhos também sabem que tudo o que faço não é para hoje. O plano é que eles consigam resolver seus problemas sozinhos."

Ana Cristina, assim como outras mães de vários lugares do mundo, pode até se reconhecer na sino-americana Amy Chua, mas há pelo menos duas diferenças fundamentais entre elas. A primeira é que Ana deixou que os filhos escolhessem o que gostariam de fazer fora da escola, Amy im­pôs às filhas o piano e o violino. "A criança deve ter liberdade para escolher o que fazer", afirma Zenita Guenther, psicóloga e fundadora do Centro para o Desenvol­vimento do Potencial e Talento de Lavras, em Minas Gerais. "O compromisso deve ser praticar a atividade por certo período, antes de mudar." Nesse ponto, os especia­listas concordam com Amy. Ela diz que nenhuma tarefa é divertida até que você seja bom nela. Por isso, faz sentido vencer a resistência inicial dos filhos.

A segunda diferença entre as duas mães é que Ana cobra seus filhos a partir do empenho deles nos estudos, e não das notas do boletim. A busca exagerada pela excelência pode ter efeitos negativos. Se­gundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o risco de suicídio é mais alto entre americanos de origem asiática. Acredita -se que um dos fatores envolvidos no problema é a pres­são excessiva dos pais sobre os filhos por desempenho. Embora não haja estatísti­cas sobre o problema no Brasil, a psico­pedagoga Quézia Bombonatto já atendeu uma menina de origem chinesa que, aos 12 anos, precisou tratar uma úlcera ner­vosa. Ela se dividia entre a escola, onde precisava tirar mais de 8 sempre, e as aulas de violino, dança, inglês e mandarim.

Histórias parecidas, de crianças levadas ao limite do que podem suportar, não são incomuns entre famílias orientais mais rígidas, embora possam acontecer em qualquer lugar do mundo e com ou­tras culturas. A vida do pianista chinês Lang Lang é um exemplo disso. Consi­derado um prodígio, Lang começou a es­tudar piano aos 2 anos. Aos 9, mudou-se com o pai, Lang Guoren, para Pequim. Os dois moravam em uma quitinete de 10 metros quadrados sem aquecimento e infestada por ratos: o sacrifício para que Lang tivesse professores melhores.

Ainda criança, Lang não tinha espaço para distração. Um dia, depois de chegar atrasado em casa, levou uma bronca do pai: "Você perdeu quase duas horas de prática, e nunca as terá de volta. É tarde demais para tudo! Está tudo arruinado!" O filho até tentou se explicar, mas foi cha­mado de preguiçoso, mentiroso e ouviu do pai: "Você não tem razão para viver". Chorando, Lang começou a dar socos tão fortes na parede que suas mãos começa­ram a sangrar. Só então o pai percebeu que havia passado dos limites. Pediu des­culpas, beijou as mãos do filho e disse: "Só quero que você estude piano". O efeito, é claro, foi o contrário: Lang parou de tocar por vários meses. Por pouco a música não perdeu seu talento.

"Para cada violinista de sucesso, que só chegou lá pelo autoritarismo do pai, quantos não desistiram ou passaram a odiar violino?", questiona o psicanalista Bernardo Tanis. Foi o que aconteceu com a irmã do advogado Silvio Rodrigues, de São Paulo. "Lembro-me do exemplo de minha irmã mais velha: ela foi a única que estudou em conservatório de música, para aprender piano. Hoje, não consegue nem chegar perto de um", diz. "Meu irmão e eu, que não tivemos o aprendizado como uma obrigação, gostamos de tocar!"

A consciência dos efeitos negativos do autoritarismo levou Silvio e sua mulher, Larissa, a optar por outro caminho na educação dos filhos, Beatriz e Victor, de 7 e 5 anos. "O pai tem de ter a postura de orientador, e não de alguém que se limite a dar ordens, criar regras e fazer o filho cumpri-Ias"; diz Silvio. "A única regra mais rígida é o sono, não por uma questão de disciplina, mas de saúde."

Apesar de ter vários instrumentos mu­sicais em casa, Silvio não obrigou seus filhos a praticar nenhum. O mais novo gostou de natação. A mais velha desistiu da natação, tentou o balé e agora está in­teressada em fazer ginástica olímpica. "Se ela desistir, vamos ver o que ela quer fazer. Não posso obrigá-Ia a entrar em um curso e seguir até o final", afirma Silvio.

Para Léa Fagundes, psicóloga e pro­fessora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, experimentar e interagir faz parte do aprendizado das crianças e ser muito rígido é prejudicial à criatividade e à expressão artística dos filhos. "As regras impostas são externas, não consideram as vontades e os sonhos dos filhos"; diz Léa.

"Ninguém aguenta tanta frustração - e acaba desrespeitando a regra por baixo dos panos em algum momento." Entre a rigidez da mãe chinesa e a liber­tinagem, está a arte de saber o momento de ceder ou negoc ;ão, tentou o balé e agora está in­teressada em fazer ginástica olímpica. "Se ela desistir, vamos ver o que ela quer fazer. Não posso obrigá-Ia a entrar em um curso e seguir até o final", afirma Silvio.

Para Léa Fagundes, psicóloga e pro­fessora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, experimentar e interagir faz parte do aprendizado das crianças e ser muito rígido é prejudicial à criatividade e à expressão artística dos filhos. "As regras impostas são externas, não consideram as vontades e os sonhos dos filhos"; diz Léa.

"Ninguém aguenta tanta frustração - e acaba desrespeitando a regra por baixo dos panos em algum momento." Entre a rigidez da mãe chinesa e a liber­tinagem, está a arte de saber o momento de ceder ou negociar as regras. "A hora de ceder é quando percebemos que eles estão conscientes e têm maturidade para responder por seus erros", diz Mariana Malzoni Dias, mãe de Felipe, de 9 anos. O garoto tem um game portátil que usa apenas no carro e gostava de levar todas as fitinhas consigo. A mãe pediu que ele car­regasse apenas uma ou duas. Ele insistiu, e ela cedeu - com a condição de que ele se responsabilizasse pelo que acontecesse. Meses depois, Felipe deu pela falta de duas de suas fitas favoritas. "Ele entendeu, nun­ca me pediu que as repusesse e agora anda com apenas uma fitinha", diz Mariana.

Mesmo a inflexível mãe chinesa cedeu. Quando tinha 13 anos, Louisa, a filha mais nova de Amy Chua, não aguen­tava mais praticar violino por horas a fio sob o olhar rigoroso da mãe. Queria trei­nar tênis, mas a mãe não deixava. Numa viagem de férias com a família à Rússia, durante uma briga, a adolescente espati­fou um copo no chão do hotel aos gritos: "Eu odeio você! Você é uma péssima mãe! Você não me ama!".

A personalidade forte de Louisa e a chegada da adolescência - e do desejo de autonomia - forçaram Amy a rever seus limites. "Eu não podia perder Lulu. Nada era mais importante do que ela. Então fiz a coisa mais ocidental que posso imaginar: dei a escolha a ela. Disse que podia parar de estudar violino se quisesse e fazer o que gostasse no lugar."

Assim como a mãe chinesa considera uma grande concessão dar liberdade de es­colha à filha, muitos pais ocidentais acham cruel impor disciplina. "Muitos hoje bei­ram a negligência e se sentem "maus" por cobrar", afirma o psiquiatra Içami Tiba, autor de vários livros sobre educação. "Cobrar é uma demonstração maior de afeto do que permitir tudo, porque exige mais esforço e mais sacrifício dos pais", diz a psicopedagoga Quézia Bombonatto. Não se trata apenas da oposição simplista entre criar filhos para ser felizes ou bem­ sucedidos. Trata-se do dilema de pensar em seu bem-estar de longo prazo, sem estragar sua felicidade no curto prazo. 

• Livro: A jornada da mãe tigre

Amy Chua sempre apontou as falhas da educação ocidental. Com suas filhas, descobriu os limites da criação oriental.

Filha de imigrantes chineses, Amy Chua, advogada e professora da Universidade Yale, cresceu seguindo regras muito rígidas e nunca viu isso como um proble­ma. Ao contrário: diz que seus pais são sua fonte de força até hoje. Por isso, não hesitou em replicar com suas filhas, Sophia e Louisa, hoje com 18 e 14 anos, a educação que recebera. Ela também tinha outra razão para adotar o "estilo chinês": via falhas na educação ocidental, como a falta de disciplina e de cobrança. Em seu livro, Battle hymn of the tiger mother (Hino de ba­talha da mãe tigre), lançado na semana passada nos Estados Unidos, Amy critica o que considera permissi­vidade dos pais ocidentais e conta histórias de discipli­na oriental que podem soar chocantes.

Quase todas as críticas e os episódios mais contro­versos estão concentrados no artigo publicado pelo The Wall Street Journal e explicam a imensa contro­vérsia que o texto gerou na internet. Mas o livro de Amy não é a apologia do "estilo chinês". Está mais para as memórias de uma mãe comum - com suas alegrias, vitórias, seus erros e mágoas.

"Tenho muitos arrependimentos. Gostaria de não ter sido tão dura. Gostaria de não ter perdido a paciência tantas vezes. Gostaria de ter prestado mais atenção mais cedo às personalidades de minhas filhas. Talvez ter dado a elas um pouco mais de escolha", diz.

• Disciplina e sucesso na escola

Ana Cristina com os filhos, Beatriz e Gabriel

"Antes de estipular uma regra, penso se ela é válida, quais os benefícios e as desvantagens. Tenho medo de errar, é claro, mas, depois que decidi, não volto atrás. Certa vez, meus filhos questionaram a regra de não fazer trabalho em grupo na casa de colegas. A regra é: ou se reúnem na escola ou cada um faz uma parte em casa e depois juntam tudo. Ir à casa de alguém é pretexto para não estudar. Eles argumentaram que todo mundo fazia e que, por causa da regra, ninguém mais queria fazer trabalho com eles. Mas mantive minha posição. Agora, por causa dos bons trabalhos que apresentam, os colegas que realmente estão interessados nos estudos pedem para trabalhar em grupo com eles."

• Quem decide são os filhos

Silvio Rodrigues e Larissa, com os filhos, Beatrlz e Victor

Tenho seis instrumentos musicais na minha casa e nunca obriguei meus filhos a tocar nada. Lembro do exemplo da minha irmã mais velha. Ela foi a única que estudou em conservatório de música, obrigada pelos pais. Hoje, não consegue nem chegar perto de um piano. O Victor tem todos esses instrumentos ao seu dispor, mas gosta da natação. Colocamos a Beatriz também, mas ela desistiu de nadar. Resolveu que queria fazer balé. Queria muito. Fez quatro aulas e desistiu. Agora quer fazer ginástica olímpica. Se desistir, vamos ver o que ela quer fazer. Não posso obrigá-Ia a entrar em um curso e seguir até o final. O Victor achou o que gosta e, em algum momento, ela também vai encontrar."

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus