Meditação para combater a dor crônica


Quando aprendemos a viver intensamente o "aqui" e o "agora", passamos a experimentar o que está realmente presente em cada momento e, não raro, descobrimos que é mais fácil suportar cada sensação de forma individual; esse exercício já adotado em vários hospitais, ajuda a diminuir o sofrimento de muitos pacientes.

Revista Scientific American - por Márcia Epstein.

"Um elefante enlouquecido e indomado, à solta neste mundo, não inflige mal tão grande quanto os sofrimentos do mais profundo inferno causados pelo violento elefante da mente. Mas, se o elefante de nossa mente for amarrado de todos os lados pela corda da atenção plena, todos os medos cessarão e as virtudes em nossas mãos cairão", escreveu no século 8º o mestre budista indiano Shantideva (687-763), referindo-se ao poder da concentração para domar os próprios desconfortos. Essa capacidade humana, conhecida há milênios no Oriente, tem atraído nos últimos anos grande atenção de pesquisadores, apontando uma interessante tendência da atualidade. Cada vez mais a ciência tem interagido com fontes milenares de conhecimento, expandindo conceitos sobre saúde e doença, avaliando como escolhas pessoais e estilos de vida, padrões de pensamento e sentimento, relacionamentos e fatores ambientais interagem para influenciar a qualidade de vida das pessoas. A pesquisa nessa área procura articular visões mais abrangentes para a compreensão do que realmente quer dizer "mente", "corpo", "saúde" e "doença".

A meditação tem sido cada vez mais integrada à clínica contemporânea, principalmente na psicologia e na medicina. Inúmeros estudos mostram que a prática regular pode contribuir para a prevenção e o tratamento de diversas doenças e de condições clínicas, principalmente crônicas e não transmissíveis.

Em A mente meditativa (Ática, 1988), o psicólogo Daniel Goleman descreve as raízes da meditação em diversas tradições, orientais e ocidentais, como a cabala, o sufismo, o tantra e o budismo tibetano. Em sua pesquisa, ele constata que a mais forte concordância entre as escolas de meditação está na importância de reeducarmos a atenção. A meditação da atenção plena chega até nós por meio do budismo. O termo sânscrito smrti (ou sati, na língua páli) faz referência a "memorar", mas não há um termo ocidental que resgate totalmente o sentido original, que tem sido traduzido e incorporado nas práticas clínicas contemporâneas e mesmo nas traduções de obras budistas como atenção plena, consciência plena, estar atento ou mentação.

Em FuIl catastrophe living (Bantam Dei 1990, não publicado no Brasil), Jon Kabat-Zinn um dos pioneiros a introduzir a meditação no contexto da saúde e o idealizador do programa Manejo de Estresse por meio da Atenção Plena (conhecido pela sigla em inglês MBSR - Mindfulness-Based Stress Reduction), originalmente aplicado à dor crônica, chega à seguinte definição: atenção plena significa concentrar-se de forma particular, intencionalmente, no momento presente e sem julgamentos.

A Associação I nternacional para o Estudo da Dor (Iasp, na sigla em inglês), principal instituição voltada para o tema, propôs um conceito de dor utilizado por grande parte dos profissionai da saúde: trata-se de "uma experiênda. sensorial e emocional desagradável, associada a lesão tissular real ou potencial, ou ainda descrita em termos que evocam essa lesão". Especialista ressaltam que a dor é "sempre subjetiva".

Essa definição revela a ambiguidade da palavra. Além de ser uma sensação, ela é uma emoção que talvez não esteja associada a uma lesão tissular. Antes de tudo, é uma experiência descrita em termos que evocam essa lesão - excedendo amplamente a noção estritamente neurofisiológica.

 • ALÉM DO CORPO

Entre as categorias principais de dor, existe a aguda, que se segue a uma lesão e é parte do sistema de alarme do corpo, geralmente curado num prazo de seis semanas. Pode surgir também sem nenhuma lesão óbvia, como a dor de estômago resultante de uma comilança. A dor crônica, contínua por no mínimo três meses, às vezes pode permanecer por décadas. Ela costuma evoluir após uma lesão e persistir depois que a cura do tecido já ocorreu. O processe neurofisiológico nesse caso é diferente do mecanismos que provocam a dor aguda. Esta desaparece, de modo geral, quando o estímulo doloroso cessa. Seu papel é "informar o corpo" de que há algo errado e fazer com que a pessoa se proteja. Já a dor crônica permanece mesmo quando o estímulo desaparece, como uma memória persistente - e incômoda - do evento que causou o desconforto. Nessa categoria existe também a dor neuropática, que ocorre no sistema nervoso e não é causada por lesão de tecido.

É importante lembrar que o programa de atenção plena aplicada à dor se refere a manifestações crônicas, que resistem a tratamentos mé e;dicos e com as quais a pessoa deve conviver. Elas podem resultar de problemas mecânicos devido a uma doença, tal como a artrite; de tensão muscular causada pela má postura ou por desgaste próprio da idade; podem ainda ser deflagradas por um sistema nervoso extremamente sensível. A dor crônica afeta 40 milhões de pessoas só no Brasil e impõe estresses fisiológicos, psicológicos, familiares e econômicos, sendo uma importante causa de incapacitação.

Nos últimos anos, têm sido realizadas muitas pesquisas sobre dor com o uso de técnicas de imagens e escaneamento, como tomografia e ressonância magnética. A crescente consciência da complexidade do fenômeno revela que os tratamentos mais eficazes se baseiam no modelo biopsicossocial de saúde (mais abrangente que o biomédico). Essa maneira mais ampla de compreender o ser humano sugere que o modo como vivenciamos a dor é influenciado por muitos fatores: emoções, crenças, componentes sociais e culturais, bem como por nossas experiências.
Isso levou os médicos a desenvolver projetos voltados ao manejo da dor, com a participação de fisioterapeutas, anestesistas, terapeutas ocupacionais e psicólogos.

• EM OITO SEMANAS

O manejo da dor baseado na atenção plena é um desses programas. Pioneiro desse trabalho, o médico Jon Kabat-Zinn criou, com colegas, a Clínica de Redução de Estresse, no Centro Médico da Universidade de Massachusetts, no final da década de 70, onde ensinava como reduzir o estresse por meio da atenção plena. O principal objetivo era ajudar as pessoas que sofriam de dores crônicas. Desde o início do trabalho, milhares de pacientes já foram beneficiados.

O MBSR é um programa estruturado ao longo de oito semanas, nas quais os participantes se reúnem semanalmente por duas horas e meia para vivenciar técnicas de meditação. As pessoas devem também se comprometer com determinadas práticas diárias, com duração média de 45 minutos, em casa ou no trabalho. Todos são instruídos a procurar incorporar a meditação em sua vida diária, fazendo com que atividades rotineiras se tornem, de certa forma, uma prática meditativa.

As principais técnicas utilizadas são a atenção plena na respiração, o "escaneamento" corporal, a caminhada meditativa e práticas leves de ioga e pilates é adaptadas às condições ou limitações físicas dos pacientes com dor. Após a conclusão do programa de oito semanas, os participantes .do MBSR estão habilitados para continuar as práticas por conta própria. Na prática do escaneamento ou consciência corporal, por exemplo, a pessoa leva a atenção para diferentes partes do corpo, uma por vez, sentindo profundamente aquela região, simplesmente notando o que está ocorrendo, sem julgar, comentar ou querer modificar nada. Se perceber tensão ou dor naquela área, é indicado apenas se dar conta dessa sensação, sem ansiedade. Com a prática contínua, as pessoas tendem a desenvolver uma consciência cada vez mais sutil do próprio corpo e, em vez de lutarem contra a dor, estabelecem em relação a ela uma atitude "suave". Em 40 anos, esse programa se disseminou por 400 hospitais americanos. É aceito, por exemplo, no renomado Memorial Sloan-Kettering Cancer Center. Um programa nos mesmos moldes foi desenvolvido na Inglaterra, por Vidyamala Burch, autor de Viva bem com a dor e a doença - O método da atenção plena (Summus, 2011). No Brasil, o Hospital Israelita Albert Einstein faz esse trabalho com pacientes oncológicos.

Alguns questionamentos, porém, frequentemente aparecem. Afinal, quais são os benefícios médicos efetivos dessas práticas? Elas de fato reduzem a dor ou simplesmente nos ajudam a lidar melhor com ela? Resultados de estudos clínicos não deixam dúvidas ao demonstrar que a prática da meditação da atenção plena tem o duplo efeito de aumentar a capacidade de lidar com os efeitos da dor e também reduzi-Ia. Um trabalho desenvolvido por pesquisadores do General Hospital Psychiatry acompanhou 51 pacientes com dor crônica que não haviam apresentado melhora com os cuidados da medicina tradicional. As categorias dominantes de dor eram na parte inferior das costas, nos ombros e no pescoço, dores de cabeça, na face e no peitoral (não coronária). Em um programa de meditação de dez semanas, 65% dos pacientes tiveram redução dos níveis de dor em mais de 33%, e metade, em mais de 50% uma melhora notável.

• SEM JULGAR OU ROTULAR

Desde cedo incorporamos a aversão à dor como um valor social. Até mesmo pensar sobre o desconforto e o sofrimento nos causa repulsa. Não por acaso recorremos a medicamentos assim que percebemos a chegada da menor dor de cabeça. Para Kabat-Zinn, essa relação é um obstáculo na aprendizagem de viver bem com a dor crônica, pois exacerba a tensão física na área afetada, provocando desconforto adicional.

A dor física e o sofrimento emocional estão indissociavelmente interligados, como há muito tempo já sabe a área "psi", conforme ressaltam a psicanálise e a psicossomática. Qualquer dor é acompanhada de sofrimento e resistência, num entrelace fisiopsíquico que não deixa dúvidas sobre a unidade e a dinâmica existentes entre mente e corpo. Levando isso em conta, a prática da atenção plena em pacientes com dor crônica é particularmente eficaz porque ajuda a distinguir, por meio da experiência pessoal e subjetiva, sensações físicas da dor nos processos mentais e emocionais que aumentam o sofrimento. A dor passa a ser vista apenas como "outra sensação", e o medo de senti-Ia é reduzido de maneira significativa.

Considerando que a dor seja uma experiência, conforme a definição da lasp, no contexto terapêutico as técnicas de meditação têm o objetivo de promover mudanças que favoreçam a aceitação radical da experiência. Com atenção plena, entramos em nossa experiência atual e simplesmente permanecemos presentes enquanto ela acontece, incluindo qualquer dor que possa ocorrer. Observamos as diferentes sensações que rotulamos coletivamente como "dor", entramos em contato com a sensação "nua e crua" de cada momento, sem rotular, julgar ou responder com aversão - apenas registrando o que ocorre. Podemos, por exemplo, notar a presença de formigamento, vibração, palpitação, calor, frio, tensão etc. Quando paramos de solidificar o que sentimos no rótulo genérico de dor e entramos derando que a dor seja uma experiência, conforme a definição da lasp, no contexto terapêutico as técnicas de meditação têm o objetivo de promover mudanças que favoreçam a aceitação radical da experiência. Com atenção plena, entramos em nossa experiência atual e simplesmente permanecemos presentes enquanto ela acontece, incluindo qualquer dor que possa ocorrer. Observamos as diferentes sensações que rotulamos coletivamente como "dor", entramos em contato com a sensação "nua e crua" de cada momento, sem rotular, julgar ou responder com aversão - apenas registrando o que ocorre. Podemos, por exemplo, notar a presença de formigamento, vibração, palpitação, calor, frio, tensão etc. Quando paramos de solidificar o que sentimos no rótulo genérico de dor e entramos na experiência, vivenciando o que está realmente presente em cada momento, descobrimos que cada sensação individual é mais fácil de suportar. Às vezes notamos que não há dor nenhuma presente ou que as sensações que sentimos são neutras ou até mesmo agradáveis.

Sem atenção plena, nossas reações são habituais e automáticas. A dor física leva imediatamente a pensamentos como "isso nunca vai acabar", "o que estou sentindo só vai piorar", "eu não aguento mais" ou "o que eu fiz para merecer tudo isso?". Esses raciocínios, por sua vez, provocam ansiedade, desânimo ou raiva, porque nos identificamos com eles. A prática da atenção plena nos leva a observar nossas formas de pensar e a constatar que são apenas divagações e crenças - e não fatos e verdades absolutas.

Além disso, as práticas nos levam a ter maior consciência do corpo físico, das emoções, dos pensamentos e da interação entre todos. A atenção plena nos faz ver o cenário todo, do qual a dor é apenas uma parte. Começamos a ver que, apesar de a dor estar presente, ela não constitui a totalidade de nossa experiência. Começamos a nos relacionar com a dor dessa perspectiva de totalidade. Isso restitui o autodomínio, diminuindo a sensação de desamparo. Em vez disso, são despertados aspectos como curiosidade e capacidade de acolhimento, que ajudam a transformar radicalmente a forma como nos relacionamos com as experiências difíceis.

Memória que fere

Podemos nos esquecer do que comemos no almoço, mas certamente nos lembramos de quase tudo o que nos causou dor, pois o nosso sistema nervoso central armazena traços de memória da experiência desagradável para nos "avisar" do perigo caso ocorra situação semelhante. Essa é uma das razões que concorrem para que pessoas com um membro amputado continuem a sentir dor "fantasma", como se o pé ou braço extirpado, por exemplo, ainda continuasse ali. Mas e se fosse possível apagar essa memória? Uma equipe da Universidade McGill, no Canadá, mostra que o que sempre foi terreno da ficção científica pode, de fato, se tornar realidade algum dia. Pesquisadores da instituição descobriram que os níveis de uma proteína - a quinase PKMzeta, que atua fortalecendo as sinapses (conexões entre os neurônios) - aumentam no sistema nervoso central quando o organismo passa por uma estimulação dolorosa. A hipersensibilidade à dor é neutralizada quando a atividade dessa proteína é bloqueada.

"Muitos medicamentos que têm a dor como alvo agem no nível periférico, reduzindo a inflamação ou ativando os sistemas de analgesia no cérebro para reduzir a sensação de dor", explica Terence Coderre, coordenador do grupo de pesquisa. "Essa é a primeira vez que podemos pensar em medicamentos que terão como alvo um traço estabelecido de memória como caminho para a redução da hipersensibilidade à dor", comemora.

Artrite, cansaço e depressão.

Um terço dos adultos americanos com artrite (inflamação das articulações) com mais de 45 anos diz sofrer de depressão-ansiedade, sendo esta última quase duas vezes mais frequente. Apesar disso, mais de metade desses pacientes alegou jamais ter buscado ajuda psicológica para estes problemas. As informações, apresentadas em um artigo recente, publicado no periódico científico Arthritis Care Research, surpreenderam os cientistas, já que várias pesquisas anteriores estabeleciam ligações entre dor crônica e depressão. "Além disso, costumamos associar a artrite a consequências incapacitantes, sem levar em conta seus efeitos emocionais, que também podem ser muito profundos", afirma o reumatologista Sergio Bontempi Lanzotti, diretor do Instituto de Reumatologia e Doenças Osteoarticulares (Iredo), em São Paulo.

No novo estudo, os pesquisadores acompanharam mais de 1.700 adultos, com 45 anos ou mais, todos diagnosticados com artrite ou outras doenças reumáticas, como osteoartrose (processo degenerativo das articulações ósseas). Os participantes receberam questionários para determinar seu bem-estar emocional.

"A relação entre ansiedade, depressão e dor crônica é complexa, os sintomas aparecem tanto de forma
independente como sinergicamente, fazendo com que uma condição se torne fator de risco para outra", afirma Lanzotli. Ele ressalta que, muitas vezes, os profissionais da saúde supõem que a ansiedade simplesmente acompanha a depressão. Mas, afinal, o que a provoca? Segundo o diretor do Iredo, "quando as pessoas começam a conviver com a artrite passam a se dar conta das possíveis limitações que a doença impõe e isso costuma causar muito sofrimento físico e mental".

Além das limitações, muitos pacientes com artrite podem se mostrar hesitantes para fazer qualquer exercício físico ou simplesmente em sair de casa, o que geralmente contribui para reforçar sentimentos de ansiedade. Pessoas que convivem com problemas crônicos, como a artrite, compreensivelmente, tendem a ficar assustadas não só com a doença em si, mas também com a ideia de se tornarem incapazes de dar conta das mais variadas atividades. De fato, podem surgir dificuldades em diversas esferas da vida: casamento, empregos, relações sociais. Por isso, é tão importante que pacientes com artrite busquem acompanhamento psicológico. "Precisamos tratar esse quadro de forma ampla, olhando o paciente de forma abrangente", salienta Lanzotli.

Para saber mais

 Viver agora. Sarah Silverton.
Alaúde, 2012.

Viva bem com a dor e a doença - O método da atenção ple

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