Memória Apagada


Pesquisadores explicam o que acontece com o cérebro de pessoas que sofrem de amnésia e analisam a Neurogênese - a produção de novos neurônios que ajudariam na formação cognitiva do indivíduo.

Revista Psique - Ciência & Vida por Roberta Medeiros

Depois de ser atacado por um ladrão, o protagonista do filme Amnésia (Memento, nome original) Leonard Shelby - interpretado por Guy Pearce - assiste à morte de sua mulher e, a partir daí, passa a sofrer de uma doença que o impede de gravar na memória fatos recentes, ele se esquece por completo o que aconteceu poucos instantes antes. Esse é o começo de uma jornada com o fim de descobrir o assassino para uma futura vingança. O roteiro de Christopher Nolan nos dá uma mostra do que é vivido por pessoas que sofrem de amnésia, que afeta a memória e o aprendizado, embora demais funções cognitivas e o nível de consciência não estejam alterados.

É normal esquecer coisas. Essa é uma propriedade normal da memória que impede a sobrecarga dos sistemas cerebrais responsáveis pela memorização. É graças ao esquecimento que podemos filtrar o que há de relevante e irrelevante. Mas há casos em que o esquecimento é patológico. O neurologista Ivan Izquierdo, da PUC-RS, um dos maiores pesquisadores da memória no país, diz que a resposta para esse mal está no cérebro: “A memória falha quando as sinapses estão em número diminuído ou estão inibidas ou alteradas”, explica. Sinapses são estruturas por meio das quais as células cerebrais se conectam, transmitindo informações na forma de sinais químicos e elétricos pelo sistema nervoso.

Cada vez que o córtex cerebral recebe os dados de uma nova experiência, as sinapses formam padrões de comunicação entre os neurônios de diferentes regiões. Algumas redes de células organizam tais informaçóes, comparando-as a outras lembranças já existentes no cérebro. Conforme a força e o padrão das sinapses, seleciona-se o que vai ser esquecido ou o que vai permanecer guardado por mais tempo. A maior parte dos detalhes é apagada da lembrança. Mas há aqueles registros que permanecerão por dias, até anos, às vezes de modo inconsciente.

• Perda de neurônios

Em seu livro Memória, editado pela Artmed, Izquierdo lembra que é comum na fase adulta ocorrer uma diminuição de neurônios em várias regiões do cérebro. “Raramente essa perda causa déficit de memória antes dos 85 anos, porém, muitas doenças são acompanhadas de uma aceleração da perda neuronal”, observa. Isso pode acontecer por falta de oxigenação do cérebro, infecção viral ou pode ser desencadeada por certas demências, como Alzheimer, síndrome de Down e doença de Pick. Há ainda demências causadas por traumatismo craniano, comum nos boxeadores (demência pugilística), uso excessivo de álcool, maconha e cocaína.

Em casos de depressão, a amnésia pode surgir sem qualquer lesão. As falhas de memória costumam ser exageradas pelos pacientes, que a percebem como maiores do que realmente são. Segundo o psiquiatra e psicanalista Maurício Lucchesi, embora amnésia atinja tanto as memórias boas quanto as ruins, o depressivo tem uma tendência a lembrar de acontecimentos negativos. “A memória é sempre seletiva e depende do humor e do estado psíquico da pessoa. Na depressão existe uma vivência muito forte dos aspectos negativos. O contrário ocorre nos quadros de mania ou hipomania (caracterizados pela elevação do humor, aceleração da psicomotricidade, aumento de energia e ideias de grandeza). Nesse caso, o conteúdo tende a ser positivo”, compara.

Acontecimentos traumáticos, como uma guerra, um desastre natural ou um acidente aéreo, que geram muito estresse, também podem causar amnésia. Isso acontece porque a pessoa não consegue elaborar a vivência, protegendo-se daquela experiência perturbadora. “A memória depende de um registro que é feito pela consciência. Numa situação traumática, a pessoa não tem capacidade de dar sentido, isto é, elaborar a vivência dentro de um sistema lógico para entender o mundo. Por ser um fluxo de excitação muito intenso, as memórias traumáticas não conseguem ser traduzidas”, explica Lucchesi.

• Tipos de amnésia

Após um traumatismo, por exemplo, a pessoa pode não lembrar de fatos recentes, mas ela consegue lembrar dos fatos anteriores ao trauma. Em casos extremos, a memória poderá durar apenas alguns segundos. “A pessoa não consegue fixar novas informações é como se tivesse parado no tempo, trata-se de um problema de aprendizado”, explica o médico, neurocientista e psicorerapeuta Cláudio Guimarães dos Santos. O contrário também pode acontecer: “A pessoa pode não se lembrar de coisas que aconteceram antes do trauma, mas tem a capacidade de se recordar e aprender após o trauma. A pessoa pode ter um abalo em sua identidade pessoal, ela passa a não saber quem ela é, retrocedendo alguns anos em sua vida”, diz. Há ainda a possibilidade da pessoa vivenciar um esquecimento global por um período que pode variar de 30 minutos a 24 horas. Nesse último caso, as causas ainda não foram esclarecidas, mas há estudos que indicam que esse tipo de amnésia pode ser desencadeado por enxaquecas ou ataque isquêmico transitório, que ocorre em função de um bloqueio de uma artéria, cortando o suprimento de sangue para o cérebro. Ap pesar de ser uma experiência assustadora, para o paciente há boas chances de recuperação. “Seja qual for a forma que se apresenta a amnésia, o fator preponderante é reconhecer que a pessoa ficou de outro modo depois do sintoma. Existem as classificações, mas a situação concreta nunca se apresenta de uma forma exata. O importante é ter em mente que reabilitar o Pelé não é o mesmo que reabilitar o Osmar Santos”, compara. Segundo Santos, a reabilitação requer tratamento individualizado, a partir do levantamento biográfico do paciente, levando em conta fatores educacionais, psicológicos e sociológicos. “Normalmente, é enfatizado o aspecto neurobiológico, mas é preciso levar em conta uma série de fatores. Eles são cruciais na gênese do sintoma e na reabilitação”, defende.

A recuperação inclui interação escrita e verbal. Em alguns casos é possível usar o computador como ferramenta. “Tive um paciente com traumatismo que não conseguia avançar na reabilitação. De repente, descobrimos que ele adorava música popular brasileira dos anos 70, embora a amnésia tivesse deixado uma lacuna nas experiências vividas nessa época. A partir daí começamos a usar a música como uma espécie de sonda para resgatar sua memória. É como se as suas vivências tivessem sido marcadas por músicas, tivemos uma evolução notável a partir daí”, conta.

Os estudos sobre a memória têm um lugar destacado nesse esforço científico. Afinal de contas, o aumento da expectativa de vida, dá lugar a uma população mais vulnerável ao mal de Alzheimer e a outros distúrbios associados à perda de memória. Mas como manter uma memória sempre afiada? Os estudiosos gostam de dizer que “a função faz órgão”. Isso significa que a melhor forma de manter a memória afiada é exercitando-a. “Parece que a atividade mental devidamente motivada tem fator importante na preservação da memória”, diz Santos. Quem primeiro estudou isso foi o australiano John Carew Eccles, na década de 1950. Ele examinou sinapses neuromusculares e comparou a forma e a quantidade de neurotransmissor, no caso a acetilcolina, liberado pelo impulso tanto em situações de uso como falta de uso. Ficou claro que o uso melhora a função das sinapses e a falta de uso as atrofia.

• Neurogênese

Um dos caminhos investigados pelos cientistas para compensar as perdas de neurônios provocadas pelas demências que incidem sobre a memória é induzir a produção de novos neurônios — o que os especialistas chamam de Neurogênese. Hoje já se sabe que algumas drogas são capazes de impulsionar o processo de produção de novos neurônios, como é o caso de antidepressivos, estabilizadores de humor, canabis, esteroides e até Viagra. “O problema é que falta especificidade dos estudos que avaliam os efeitos dessas drogas, isto é, não sabemos que outros efeitos esses fármacos são capazes de produzir no organismo, além da Neurogênese”, diz o geneticista Alysson Muotri, pesquisador da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Ele se dedica atualmente ao estudo de medidas naturais capazes de gerar novos neurônios a partir de células-tronco.

“Sabemos, por exemplo, que o estímulo elétrico produzido durante um ataque epilético é capaz de produzir um verdadeiro boom, com a produção de novos neurônios no hipocampo, que é a região responsável pela memória”, afirma. O problema é que os neurônios não conseguem se desenvolver como o esperado e eles mais prejudicam do que ajudam as redes neurais. Outras situações como o exercício físico e a gravidez também são capazes de promover o nascimento de novas células. “A endorfina e a insulina produzidas durante o exercício físico produzem novos neurônios”, acrescenta. Um estudo feito com camundongos mostrou que os animais mais velhos, com cerca de dois anos, que faziam exercícios na gaiola em rodinhas giratórias tinham habilidade mental equivalente a jovens sedentários. A pesquisa mostrou que a atividade física melhorou a memória e a capacidade de aprendizado.

E tem mais: o simples fato de explorar novos ambientes pode acelerar o nascimento de novos neurônios, mostrou outro estudo feito também com camundongos. Outro fator que influencia a gênese de células nervosas é a alimentação. Os pesquisadores descobriram que o chocolate, considerado vilão da dieta saudável até pouco tempo, é capaz de desencadear o nascimento de novas células nervosas, devido aos agentes oxidantes. O mesmo vale para as frutas vermelhas. “No caso do chocolate, o problema é que se o alimento for consumido em demasia, devido às gorduras saturadas, pode provocar problemas cardiacos , alerta Alysson. Por isso, o segredo de tudo está no equilíbrio.

Segundo o pesquisador, o próximo passo de sua pesquisa é descobrir quais os mecanismos que fazem com que se produzam diferentes tipos de neurônios. Há duas regiões onde se formam, uma delas é a região logo abaixo dos ventrículos (um bolsão de líquidos no meio do cérebro), que migram para o bulbo olfatório e ajudam no reconhecimento de aromas, O segundo é o hipocampo, uma área essencial para a formação de memórias, embora ninguém saiba dizer qual a função dos novos neurônios ali. “Se soubermos como se formam os diferentes tipos de neurônios, seremos capazes de descobrir quais seriam defeituosos e produzir uma droga para evitar que eles fiquem doentes”. "Ainda estamos engatinhando com células-tronco, sobretudo quanto à capacidade de gerar novos neurônios. Também ainda pouco sabemos sobre que tipo de correção poderemos fazer com a recuperação de novos neurônios. Mas sou esperançoso na capacidade do ser humano: de conseguir controlar essa tecnologia, mas ainda temos um longo caminho pela frente”, diz o geneticista Carlos Frederico Martins Menck, professor da USP.

Mas o que impede que as memórias sejam apagadas? Uma pesquisa feita por pesquisadores da PUC-RS, colocou mais uma peça no quebra- cabeça. Eles descobriram que uma proteína batizada de BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, sigla em inglês) tem um papel fundamental na persistência da memória. Quando liberada no hipocampo, ela determina se a memória de um aprendizado persistirá ou não por mais de dois dias. O estudo mostrou que a quantidade da proteína é diretamente proporcional ao tempo de duração do aprendizado. Isso quer dizer que sua manipulação pode representar um au recuperação de novos neurônios. Mas sou esperançoso na capacidade do ser humano: de conseguir controlar essa tecnologia, mas ainda temos um longo caminho pela frente”, diz o geneticista Carlos Frederico Martins Menck, professor da USP.

Mas o que impede que as memórias sejam apagadas? Uma pesquisa feita por pesquisadores da PUC-RS, colocou mais uma peça no quebra- cabeça. Eles descobriram que uma proteína batizada de BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, sigla em inglês) tem um papel fundamental na persistência da memória. Quando liberada no hipocampo, ela determina se a memória de um aprendizado persistirá ou não por mais de dois dias. O estudo mostrou que a quantidade da proteína é diretamente proporcional ao tempo de duração do aprendizado. Isso quer dizer que sua manipulação pode representar um aumento desse tempo de sete a dez vezes.

Parece que a proteína tem um efeito benéfico em modelos animais e pode estacionar a progressão do mal de Alzheimer, mostrou um estudo conduzido pelo neurologista Mark Tuszynski da Universidade da Califórnia. A BDNF foi administrada em macacos. Os animais que receberam a proteína apresentaram um desempenho muito superior em testes de aprendizagem e memória. Ao analisar o cérebro desses animais, os pesquisadores notaram que os neurônios estavam mais robustos, com sua atividade reparada. O hipocampo também não havia se degradado, o que geralmente ocorre em função da doença.

• Emoção e memória

Outro ponto que aguça a curiosidade dos cientistas é o impacto da emoção na memória. O que aconteceria a certa emoção se não pudermos mais recordar o acontecimento que a provocou? O sentimento seria extinto com a amnésia? Ou é possível que o sentimento possa persistir sem a memória? Intrigados com essas questões, um grupo de pesquisadores da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, investigaram a influência psicológica e neurobiológica da emoção na memória. O estudo, publicado na revista científica National Academy of Sciences, mostra que os pacientes com amnésia podem se esquecer de acontecimentos significativos, mas ainda assim os sentimentos relacionados a esses eventos perduram e podem influenciar seu humor.

Os pacientes tinham amnésia severa e uma redução do hipocampo, o que acarreta uma perda significativa de neurônios dessa região do cérebro ligada à memória. Esse mesmo tipo de amnésia pode ser um sinal precoce do mal de Alzheimer. O grupo de pacientes com amnésia foi comparado ao um grupo livre de sintomas. Cada emoção foi induzida a partir da exibição de uma série de clipes que estimulam uma sensação de felicidade ou de tristeza.

Os filmes tristes traziam temas como a morte e os felizes eram divertidos ou bem-humorados. Foram escolhidos filmes de pequena duração, dois minutos cada um. Cada paciente passou por sessões de 20 minutos de filmes tristes e felizes.

Os filmes desencadearam emoções que vão desde o ataque de risos até lágrimas de tristeza. Cerca de seis minutos depois da exibição, foram aplicados testes de memória. Os participantes ainda relataram o estado emocional, respondendo questionários com diferentes escalas, que iam da extrema emoção ou de nenhuma emoção. Como o esperado, nenhum paciente com amnésia se lembrou do ocorrido, mas as avaliações mostram que ainda assim o grupo conservou as emoções desencadeadas pelos clipes. “Há muitas décadas a universidade estuda pacientes com amnésia e diversos estudos publicados mostram que emoção e memória não podem ser dissociados”, disse um dos autores do estudo Justin Feinstein em entrevista à Psique Ciência & Vida.

Segundo o pesquisador, o achado tem implicações diretas para o mal de Alzheimer. “Esses resultados sugerem que mesmo se alguém esquece suas experiências do dia a dia a emoção pode sobreviver. Por isso, nós devemos tratar todos os pacientes com desordens de memória, incluindo os pacientes com Alzheimer, com respeito e dignidade. Isso inclui visitar frequentemente e tentar muitas experiências positivas durante a visita, mesmo que essas pessoas se esqueçam da visita”, observa. Para ele, o estudo desmistifica a noção popular de que apagar da memória uma lembrança pode neutralizar o sofrimento psíquico. “De fato, apagar a memória pode ter um efeito paradoxal e realmente prolongar, e não aliviar, a dor emocional”, diz.

• Primeiros estudos

Um caso de grande repercussão na área médica foi o caso de um paciente canadense que sofria graves ataques e que recebeu tratamento cirúrgico em 1953. Neurologistas da época recomendaram uma cirurgia radical que retirasse porções do lobo temporal atingindo o hipocampo. O resultado: a operação ajudou nas crises epilepticas, mas tambem produziu um profundo déficit de memória. Vários anos após a cirurgia, o paciente não se lembrava dos médicos que sempre o examinaram e de qualquer fato ocorrido antes da cirurgia, dizia sempre ter 27 anos, embora recordasse vivamente os fatos anteriores a intervenção. Sua inteligência era normal, era capaz de entender e responder o que lhe perguntavam, de raciocinar e realizar cálculos matemáticos e aprender novos movimentos. Pesquisadores então descobriram que a perda da memória não pode ser causada exclusivamente por danos no hipocampo. "Em muitos casos a região mais afetada é o lobo temporal. O hipocampo opera em conjunto com várias estruturas cerebrais (como amígdala, córtex entorrinal, córtex pré-frontal). Nenhuma região opera isoladamente”, diz o neurologista Ivan.

• Amnésia Infantil

Freud lembra que existe um tipo de esquecimento que afeta a maioria das pessoas — é a amnésia infantil — o esquecimento que encobre os primeiros anos da infância. Podemos lembrar um ou outro fato isolado, mas as lembranças são cheias de lacunas. O psicanalista entendia que essas impressões recalcadas da infância, embora intraduziveis e inacessíveis, originavam os sintomas da histeria. Não era apenas aquilo que o paciente recordava que ele considerava relevante, mas aquilo que foi esquecido. Em Lembranças Encobridoras, Freud mostra que temos a tendência de  deslocar e substituir uma lembrança em detrimento de outra. Uma memória periférica pode encobrir aquela que gerou sentimento negativo. É um processo substitutivo, uma forma involuntária de bloquear lembranças que geram desprazer, medo e angústia. "Com o desenvolvimento da crianç

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