Memória Multipla


A descoberta da diversidade.

Formulada no Século 19, a noção de memória múltipla se impôs nas últimas quatro décadas; hoje especialistas buscam decifar os elos entre comportamento fisiologia e mecanismos que nos permitem tanto fixar infomações quanto esquecê-las.

Revista Scientific American - por Robert Jaffard

A memória é uma função "inteligente". Permite que seres humanos e animais se benefi­ciem da experiência passada para resolver problemas. Proporciona aos seres vivos diversas aptidões, desde o simples reflexo condicionado até a lembrança de episódios pessoais, e a utilização de regras para a antecipação de eventos. Essa diversidade baseia-se no tripé aquisição, armazenamento e emprego das informações. Durante muito tempo de­ bateu-se intensamente a possibilidade de a memória ser considerada uma função unitária ou ser decomposta em diferentes sistemas. Rejeitada de início pelos cientistas, a ideia de que podem existir várias formas ou tipos de memória hoje afinal se impôs. As atuais teorias sobre a natureza dessa fragmentação estão próximas das que foram defendidas por filósofos como Maine de Biran ou Henri Bergson do século 19.

O estudo científico da memória ganhou impulso no início do século 20. A abordagem experimental, fundamentada nos aspectos observáveis do comportamento, propiciou a criação da escola behaviorista (de Ivan Pavlov, Edward Thorndike, Burrhus Skinner), segundo o qual o aprendizado poderia ser explicado eio do estabelecimento de associações estímulo-resposta (E-R).

Na década de 50, porém, Edwlad Tolman sugeriu que, se é verdade  que o animal "aprende respostas", ele pode também "adquirir conhecimentos" e "representar" seu mundo. Haveria, asim, mais de um tipo de memória. À automática, resultante da associação entre estímulo e res­posta, seria preciso acrescentar a memória cogniüva, que possibilita respostas inteligentes a novos problemas. Essa ideia, denunciando o caráter limitado do behaviorismo, repercutiu pouco. Nos anos 1960, havia apenas a distinção entre memória de curta e de longa duração, e os neurobió­logos pesquisavam os mecanismos de "consolidação" que permitiam a passagem de uma memória a outra.

Foi principalmente nos últimos 20 anos que se acu­mularam dados experimentais favoráveis à existência de uma memória de longa duração polimórfica. Foi decisiva a descoberta de dissociações, no homem e nos animais, mostrando que lesões cerebrais localizadas alteram algu­mas aptidões mnemônicas, deixando outras intactas.

É importante compreender as consequências dessas observações, mas talvez limitar seu alcan­ce. Elas sugerem que a evolução levou à sobrepo­sição dos módulos ou sistemas cerebrais capazes de processar, registrare utilizar informações cada vez mais complexas e, portanto, de enfrentar situações mais difíceis. Para alguns pesquisado­res, esse fenômeno evolutivo foi necessário em razão de uma incompatibilidade funcional que explicaria por que foram selecionados sistemas múltiplos de memória. Assim, David Sherry e Daniel Schacter sustentaram, em 1987, que um sistema de memória adicional só se desenvolveu porque as aptidões do preexistente eram opostas às do sistema necessário para enfrentar novos problemas. Trata-se de uma versão "forte" do argumento em favor da pluralidade dos sistemas de memória, algo que já estava presente em Matéria e memória (1896), de Bergson.

A classificação atual dos tipos de memória não se baseia tanto nas incompatibilidades, mas nas diferenças entre as propriedades ou entre as regras operatórias de cada sis­tema. No caso dos seres humanos, a atual taxonomia indica correspondência entre cada sistema de memória e as estruturas cerebrais indispensáveis a seu funcionamento. Isso sugere que tais sistemas funcionariam de forma independente e em paralelo: Mas essa afirmação não é válida para os próprios sistemas nem para seu suporte neuroanatômico. Sabemos, por exemplo, que se o lobo temporal medial é necessário para o bom funcionamento da memória declarativa (relativa a fatos e eventos), ele pode ser igual­mente indispensável para o condicionamento clássico das respostas musculares (cujo "su­porte" também é o cerebelo) e para algumas manifestações da memória implícita, que, normalmente, só envolve o neocórtex. Esses diferentes sistemas interagem, cooperam e, em certos casos, até entram em conflito, dependendo das situações particulares en­frentadas. A correspondência estrita entre o sistema de memória e as estruturas cerebrais repousa também na ideia de que essas estru­turas elaboram as marcas mnemônicas (ou engramas) essenciais para a manifestação de cada forma de memória.

Convém enfatizar que a importância funcio­nal de uma estrutura cerebral não está ligada apenas ao fato de ela armazenar as informações correspondentes à sua especialização. Quando tentamos lembrar um evento preciso, por exem­plo, algo que exige de nossa memória opera­ções complexas de pesquisa, considera-se que o córtex pré-frontal é necessário para reativar, selecionar e verificar o engrama correspondente à lembrança. Esse processamento do conteúdo da memória é, na realidade, semelhante ao efe­tuado pela chamada memória de trabalho.

As primeiras respostas à questão de saber onde e como o cérebro conserva as informa­&cc cedil;ões que recebe foram fornecidas pelos resul­tados experimentais de Karl Lashley (1950) e pela hipótese plástica de Donald Hebb (1949). A ideia de um "centro" foi rejeitada em favor da concepção de que a memória é distribuida em redes interconectadas que, coletivamen­te, representam o conjunto das experiências vividas pelo sujeito. Hebb formulou também a hipótese de que essas redes codificam a informação modificando a eficácia de algumas de suas conexões - modificações cujas regras fisiológicas ele esclareceu.

O postulado da existência de um traço difuso (ou sem localização) da memória não é incompatível com a hipótese de que alguns de seus componentes estão situados em regiões específicas. Uma pessoa normal submetida a um pa­radigma de condi­cionamento aversivo clássico apresenta­rá, graças à memó­ria procedural, uma resposta emocional condicionada, mas terá também, graças à memória declarati­va, a capacidade de descrever a situação vivida. Entretanto, uma pessoa com le­são hipocampal será capaz de guardar apenas a memória da resposta condi­cionada, enquanto em um indivíduo privado de certos núcleos da amígdala essa memória não se formará. Dito de outra forma, a ideia de localização é justificada também pelo fato de a pessoa com lesão cerebral poder manifestar uma resposta condicionada adequada sem lembrança de como e quando adquiriu esse conhecimento, e lembrar-se disso sem ser capaz de manifestar comportamentalmente a resposta aprendida.

• Parecendo um mosaico

Coletamos ao longo da vida um imenso repertório de memórias em nossas mentes. Pessoas, lugares, eventos, histórias, habilidades va­riadas e muitos detalhes triviais. Como é possível seguir acumulando informações por tanto tempo, sem confundi-Ias ou esquecê-Ias no caminho? Como é possível evocar a textura fina dos fatos passados, muitas décadas depois de sua ocorrência? Que mecanismos per­mitem-nos modificar lembranças antigas de maneira seletiva, sem causar danos às lembranças associadas? De que matéria resistente e plástica são feitas as memórias?

Sabemos hoje que as memórias residem na vasta rede de célu­las excitáveis que compõem o sistema nervoso, os neurônios. Cada neurônio se interliga a milhares de outros por intermédio de micro­estruturas chamadas sinapses. São estes minúsculos pontos de aproximação intercelular que permitem a propagação em cascata da excitação neuronal. Embora a distância sináptica entre duas células seja muito pequena, raramente se verifica um contato fisico direto.

A maioria das sinapses apresenta uma separação celular da ordem de 20 nanômetros. Nesses casos, a transmissão da ativação de uma célula a outra é unidirecional e baseia-se na difusão de neu­rotransmissores, moléculas liberadas por um neurônio pré-sináptico capazes de ativar receptores químicos na célula pós-sináptica. Dependendo dos tipos de neurotransmissores e receptores envolvidos, tal processo pode determinar tanto a excitação quanto a inibição das células pós-sinápticas. Qual é a relação entre a transmissão sináptica e a formação de memórias? Quando uma sinapse é estimulada com alta frequ­ência, observa-se um aumento subsequente de sua eficácia de transmissão, isto é, a célula pós-sináptica passa a responder de forma aumentada a um estímulo pré-sináptico. Por outro lado, uma estimulação de baixa frequência resulta na redução prolongada da transmissão sináptica. Tais efeitos, co­nhecidos respectivamente como potenciação e depressão de longo prazo, conferem às sinapses uma memória fisiológica dos eventos recentes. A potenciação de longo prazo permite que sinapses muito utilizadas se tomem mais fortes ao longo do tempo. Da mesma forma, a depressão de longo prazo enfraquece sinapses pouco utilizadas.

Há alguns anos, demonstrou-se que a estimulação de sinapses isoladas causa um fortalecimento local, sem alteração das sinapses vizinhas (Mat­suzaki et al.,2004, Nature 429: 761-766). O truque por trás dessa façanha tecnológica foi a utilização de neurotransmissores sintéticos que se tomam ativos apenas quando iluminados por lasers de alta precisão. Este método revelou que a estimulação de sinapses isoladas causa uma expansão per­sistente e tópica do volume pós-sináptico. Essa expansão converte sinapses imaturas, pequenas, fracas e instáveis em sinapses maduras, grandes, fortes e estáveis. Assim, a estimulação de redes neuronais específicas causa mo­dificações morfológicas ao longo de toda a trajetória de ativação sináptica, resultando na estocagem duradoura dos padrões de excitação neuronal aos quais chamamos memórias. Considerando que o cérebro humano contém cerca de 100 bilhões de neurônios, que cada neurônio tem cerca de 10 mil sinapses, e que cada sinapse pode ser potenciada ou deprimida com várias magnitudes diferentes, não é dificil conceber que nossa estupenda capa­cidade de memorização reflete o pontilhado combinatorial da codificação sináptica. Que aspecto têm as memórias? Se fossem as telas de um pintor, este seria de Pierre Georges Seural.

• Comunicação entre neurônios

Essa localização corresponderia a propriedades diferentes das redes que, no interior de cada estrutura, armazenariam cada componente da experiência global. De forma mais pre­cisa, a arquitetura sináptica de certas redes só permitiria armazenar associações do tipo estímulo-resposta, enquanto redes como a do hipocampo e a do neocórtex teriam arquitetura diferente e várias conexões que permitiriam a armazenagem e a utilização de conhecimentos distintos (memória declarativa).

A ideia de que a formação da memória requer modificações duradouras nas comunica­ções entre células nervosas foi confirmada por uma descoberta em 1973. Utilizando estímulos elétricos, Tim Bliss e Terje Lomo mostraram, pela primeira vez, que algumas sinapses podem conservar, de forma duradoura, traços de sua atividade passada. Trata-se do estudo dos mecanismos subjacentes ao fenômeno da "potenciação de longa duração",que levou a neurobiologi al. De forma mais pre­cisa, a arquitetura sináptica de certas redes só permitiria armazenar associações do tipo estímulo-resposta, enquanto redes como a do hipocampo e a do neocórtex teriam arquitetura diferente e várias conexões que permitiriam a armazenagem e a utilização de conhecimentos distintos (memória declarativa).

A ideia de que a formação da memória requer modificações duradouras nas comunica­ções entre células nervosas foi confirmada por uma descoberta em 1973. Utilizando estímulos elétricos, Tim Bliss e Terje Lomo mostraram, pela primeira vez, que algumas sinapses podem conservar, de forma duradoura, traços de sua atividade passada. Trata-se do estudo dos mecanismos subjacentes ao fenômeno da "potenciação de longa duração",que levou a neurobiologia molecular da memória a al­cançar espetaculares resultados, obtidos com manipulação genética.

As modificações moleculares mencionadas ocorrem em série e só são concluídas após vária horas. Assim, a estabilização das redes que correspondem à aquisição de um conhecimento não pode ser imediata. No fim do século 19, Théodule Ribot já havia notado a fragilidade da memória recente (sua vulnerabilidade aos traumatismos cranianos, por exemplo), algo que contrastava com a estabilidade das memórias mais antigas. Desde então, vários estudos investigam os mecanismos neurobiológicos que subjazem ao processo de "consolidação".

Embora a recente abordagem molecular constitua um dos aspectos da questão, sabemos que o fenômeno envolve, em nível de integração maior, mecanismos ligados especialmente aos estados emocionais e ao sono. O sono é invoca­do também para explicar uma consolidação que, ao contrário da primeira, estende-se por perío­dos bem mais longos (nos humanos, por vários anos). Nesse caso, entretanto, não se trata da ideia da simples estabilização dos engramas, mas de uma verdadeira reorganização de seus suportes e, paralelamente, dos mecanismos que permitem o acesso a eles.

Analisada inicialmente como um fato cujas manifestações e fracassos só podiam ser ava­liados em termos psicológicos, a memória se tornou, aos poucos, tema da neurobiologia. Esse esforço de "naturalização" foi guiado por algumas questões fundamentais (formas de memória, natureza das representações, consolidação) que já haviam sido formuladas e "pensadas" havia mais de 100 anos. A pers­pectiva adotada hoje é a de uma "neurociência cognitiva da memória" que privilegia o elo entre diferentes níveis de análise (da psicologia cog­nitiva à biologia molecular). Além de proporcio­narem um melhor conhecimento, as pesquisas sobre a memória pretendem remediar as falhas dessa faculdade. Afinal, tendemos a esquecer os incrfveis serviços que ela nos presta em todos os momentos da vida. 

• Para não esquecer

PRESTE ATENÇÃO

"É incontestável que a memória é inten­sificada pela atenção", diz o professor Michael Anderson, da Universidade de St. Andrews, Reino Unido. Portanto, faça um esforço consciente para pensar sobre onde você deixa as chaves ao che­gar. Dizer em voz alta "estou colocando as chaves sobre a mesa" ajuda a fixar a informação.

SEJA ORGANIZADO

Memórias são como correspondências, diz Anderson. É preciso bem pouco esforço para abri-Ias e jogar todo o conteúdo sobre a mesa. Mas quando você precisar encontrar uma, não será tão fácil. Arquivá-Ias de formas rela­cionadas costuma facilitar. Portanto, quando precisar se lembrar de alguma coisa, tente ligá-Ia a uma memória forte existente.

EMOCION E-SE

Estímulo emocional intensifica as memórias, mesmo quando não são propriamente "ernotivas". Adam An­derson, da Universidade de Toronto, Canadá, mostrou às pessoas quadros neutros de casas e rostos e, depois, imagens com forte apelo emocional. Resultado: cenários neutros eram mais lembrados quando acompanhados por cenas emocionalmente estimulantes.

REVISE

Recuperar itens da memória aumenta a probabilidade de se recordar deles no futuro e impedir que sejam removidos e substituídos por novas memórias. Portanto, repita o nome da pessoa que você acabou de conhecer depois de 30 segundos e mais uma ou duas­ vezes em intervalos crescentes entre as repetições. "A razão de a maioria
das pessoas não ter boa memória para nomes é que elas são preguiçosas", diz Michael Anderson.

Para saber mais

Memória. Allan Baddeley, Mi­chael C. Anderson, M ichael W. Eysenck. Artmed, 2011.
Em busca da memória - A neurociência de Eric Kandel. Eric Kandel. DVD Mente e Cérebro. Duetto, 2010.
Reabilitação da memória. Barbara A. Wilson. Artmed, 2009.

Sobre o autor

É diretor do Laboratório de Neurociências Cognitivas da Universidade de Bordeaux, França. 

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