Memória Premiada


Respeitado inernacionalmente por seu trabalho no campo da neuroquímica, o cientista e professor Iván Izquierdo pesquisa uma das mais fasciantes funções do nosso cérebro.

Revista Ensino Superior - Por Mariana Viktor

Enquanto você lê esta frase, uma parte de seu cérebro reconhece o som e a grafia de cada palavra; outra interpreta o sentido do texto e manda você passar para a frase seguinte logo que a anterior é entendida. Ao mesmo tempo, as informações são guardadas em diferentes regiões cerebrais para serem resgatadas no futuro, quando você lembrar desta matéria (o que nós esperamos que aconteça). E isso tudo num piscar de olhos.

Nascido em Buenos Aires há 69 anos, naturalizado brasileiro, o professor Iván Izquierdo conhece como poucos os bastidores dessa fantástica central eletrobioquímica onde trabalham bilhões de células especializadas durante 24 horas por dia - o cérebro. Médico, doutor em farmacologia, Izquierdo é o cientista brasileiro mais citado em publicações internacionais e suas pesquisas sobre os mecanismos da memória são referência mundial para estudos sobre as funções cerebrais. Em sua sala no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele decifra as intrigantes relações entre memória e aprendizado.

O armazenamento e o resgate de informações no cérebro é um sistema complexo, porque existem vários tipos de memória, segundo Izquierdo. "A mais elementar é a memória de trabalho, que persiste por dois ou três minutos", ensina. "Essa memória guarda o inicio da frase anterior, possibilitando uma cadeia de nexo no pensamento e a comprensão do que acontece ao nosso redor. Outra é a memória de procedimento, que registrá aprendizados como andar de bicicleta, caminhar ou executar a parte automática da linguagem, que consiste nas palavras mais simples - coisas que a pessoa aprende e não esquece nem nos piores casos de Alzheimer. Existe também a memória declarativa ou explícita, que se refere a fatos, conceitos, datas ou nomes, e é aquela que a maioria das pessoas chama de memória. Ela utiliza várias redes neuroniais superpostas, cada uma responsável por uma diferente lembrança declarativa".

No caso do mal de Alzheimer, que é a principal doença da memória, formam-se "buracos" nessa estrutura - os neurônios são destruídos à medida que a doença avança. Porém, mesmo no caso de pacientes com Alzheimer em estágios muito avançados, subsistem "ilhas" de memória nas regiões afetadas pela doença - o indivíduo vai lembrar-se de como falar, pelo menos, embora não se recorde que tem um filho.

As pesquisas demonstram que não existem pessoas com uma melhor ou pior capacidade inata de memória, ao contrário do que se pensava antes. "A memória parece ser, pelo menos potencialmente, muito parecida entre pessoas que tenham boas condições de alimentação e saúde". O verdadeiro segredo para desenvolver a memória é o treino, garante o professor, e, por outro lado, a falta de uso pode atrofiá-la. O melhor treino seria a leitura. "Ao ler utilizamos a memória visual, reconhecendo as letras e suas combinações; a memória verbal, para saber o que determinaada combinação de letras significa; a memória imaginativa, evocando imagens associadas com palavras e expresssões; e a memória motora, que é a do movimento que as cordas vocais fazem, comandadas pelo cérebro, durante o ato da leitura, mesmo no caso de quem lê sem sequer mexer os lábios.

Esquecer certos fatos e períodos da vida pode ter a função de "proteger" o indivíduo de um excesso prejudicial de lembranças, de acordo com o professor. "Quem tivesse a lembrança de cada detalhe da existência seria um débil mental, porque gastaria 24 horas para lembrar-se perfeitamente de outras 24 horas, e mais 24 horas para lembrar-se dessas e assim indefinidamente - e não avançaria nunca. Logo, para poder lembrar, é preciso esquecer, como disse uma vez Jorge Luis Borges".

Embora o cérebro descarte as lembranças mais antigas ou as que julgue menos importantes, estudos mostram que ninguém chegou nem perto do limite para armazenar informações - seja porque não exercitamos essa capacidade o suficiente, seja porque as emoções interferem mais do que deveriam. "Sabemos que os sistemas de memória se saturam rapidamente e necessitam de um tempo para se recuperar, mas não existe um método científico capaz de medir quanto usamos de nossa massa cerebral - se 3% ou 98%". Outro ponto sobre o qual concorda a maioria dos pesquisadores é o de que a memória funciona normalmente no máximo da capacidade disponível em cada momento. Só que, assim como um carro desenvolve mais velocidade ao descer uma ladeira que ao subir uma rampa, a memória - embora trabalhando com toda a capacidade - terá seu desempenho condicionado por fatores como emoções, tensão e estado de ânimo, que vão atuar, por exemplo, na liberação de hormônios ou na atividade das vias nervosas.

  • Lições para a classeAs situações em sala de aula são um dos pontos preferidos numa conversa com Izquierdo. Lapsos e "brancos", por exemmplo, que ocorrem quando estamos com o pensamento direcionado a outra coisa. "Se um aluno é tímido e a professora o chama para responder uma questão diante dos colegas, ele vai enfrentar uma situação de estresse - haverá uma grande liberação de noradrenalina e serotonina pelo cérebro, além de uma descarga de adrenalina e corticóides na corrente sangüínea - e é provável que ocorra um "branco" na hora de falar".

    O primeiro e melhor estímulo que um professor pode dar a seus alunos é o do exemplo pessoal. "Os alunos percebem claramente quando o professor é ; desatencioso ou está com o pensamento voltado para outros assuntos no momento da aula. Por outro lado, o professor que prepara bem a aula e demonstra prazer em ensinar, estimula positivamente a turma, mesmo que sua matéria seja chata ou que ele próprio tenha alguma dificuldade de expressão, como a tendência de falar baixo ou uma gagueira, por exemplo".

    O que é mais eficiente para o aprendizado: decorar um conteúdo ou compreendê-lo? "Depende do caso", responde Izquierdo. "Não há por que compreender uma tabuada ou o abecedário - a solução aí é mesmo decorar. Já em relação a um texto, há quem termine por decorá-lo de tanto que o compreende, embora o oposto não seja verdadeiro: decorar um texto não é razão para entendê-lo - no Japão, por exemmplo, o tango é muito popular e cantores japoneses interpretam tangos com perfeito sotaque portenho, só que não têm a menor idéia do que significa a letra.

    Inteligência emocional, tema em moda no momento, é visto com reservas pelo pesquisador. "Eu não gosto da expressão inteligência emocional porque ela designa algo que não existe - existe a inteligência e existem as emoções, e pode-se fazer um bom ou mau uso de ambas. Meu computador, por exemplo, "sabe" muitíssimo mais do que eu, mas será que ele é mais inteligente por ser capaz de armazenar uma quantidade imensa de informações? Não, porque o computador não compreende absolutamente nada, enquanto eu comprendo várias coisas. Essa diferença deveria ser ensinada na escola, mas infelizmente não é. Como considerar ideal um professor que sabe muito se ele comprende pouco? É possível um educador desconhecer o efeito dos hormônios, neurotranssmissores e das emoções no comportamento e na capacidade de atenção de seus alunos? Já foram publicados inúmeros trabalhos acerca do tema e uma única aula bem ministrada seria suficiente para esclarecer mestres e alunos sobre os aspectos mais importantes desse assunto. Afinal, é do jogo dessa química interna, temperada pelas emoções, que depende o aprendizado e até a formação da personalidaade dos alunos.

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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