Mente sã, Corpo são, Carreira Idem


Pode apostar: manter corpo, mente e espírito em forma ajuda e muito na corrida pelo alto desempenho profissional.

Revista Você S/A - por Jim Loehr e Tony Schartz

Existem executivos que se revelam quando estão sob pressão. Outros simplesmente desaparecem. Faz tempo que os teóricos da administração tentam explicar por que isso acontece, e,  invariavelmente, chegam a respostas parciais, como cultura corporativa adequada, administração por objetivos etc. O problema de ver as coisas dessa maneira é que se considera as pessoas do pescoço para cima, vinculando o alto desempenho apenas à capacidade cognitiva. Mas, para ter uma performance plena e constante, é preciso associar corpo, mente e espírito. Chamamos a essa hierarquia de pirâmide de desempenho, em que cada um dos níveis influencia os demais. Essa visão surgiu na época em trabalhamos com atletas de primeira linha. Com o tempo, percebemos que, depois de algumas adaptações, as técnicas utilizadas por eles poderiam ser úteis também para aquelas demandas absurdas que todo profissional tem de enfrentar no ambiente de trabalho.

O treinador geralmente não se preocupa com as aptidões básicas do atleta, como dar um saque ou arremessar a bola. O mesmo se aplica aos negócios. O foco do treinamento não devem ser habilidades elementares como falar em público ou interpretar balanços. O objetivo deve ser desenvolver as aptidões secundárias ou de apoio, como resistência, força, flexibilidade, autocontrole e foco. Fazendo isso, tanto atletas quanto executiivos conseguem apresentar um desempenho de alto nível - uma situação que chamamos de Condição Ideal de Desempenho (CID). Para atingir a CID, é preciso administrar a energia, e essa gestão tem dois componentes fundamentais: o primeiro é o equilíbrio entre o estresse e a reposição energética, que chamamos de oscilação. No esporte, o verdadeiro inimigo do bom desempenho não é o estresse, mas a baixa reposição de energia. Quando se torna crônico, o estresse esgota as reservas energéticas, levando ao desgaste. As atitudes que promovem a oscilação são o segundo componente da gestão de energia.

• No trabalho o jogo é mais pesado

Os desafios que obrigam os executivos a manter um elevado padrão de desempenho dia após dia, ano após ano podem ser maiores do que os enfrentados pelos atletas. O esportista profissional médio, por exemplo, passa a maior parte do seu tempo praticando e só uma pequena parte dele competindo. O executivo típico, por sua vez, quase não se dedica ao treinamento e se vê em plena competição durante 10, 12, 14 horas por dia. Os atletas desfrutam de temporadas de descanso entre um campeonato e outro, enquanto a maior parte dos executivos mal consegue tirar algumas semanas de férias por ano. A carreira do atleta profissional médio dura 7 anos; a do executivo pode se estender por mais de 40. Mas, assim como seus colegas do esporte, os atletas corporativos também têm seus dias de azar. Embora nem sempre seja possível mudar as condições externas, podemos gerir nossa condição interior. O segredo é utilizar nossas aptidões para alcançar o sucesso em meio a circunstâncias difíceis, emergindo delas mais revigorados, saudáveis e ansiosos pelo próximo desafio.

• Aptidão é a base de tudo

A energia pode ser definida como a capacidade de executar determinado trabalho. O treinamento começa no plano físico, porque o corpo é nossa fonte principal de energia. Por isso, a capacidade física é a base da pirâmide de desempenho. Talvez o melhor paradigma para a produção de energia seja o fenômeno da supercompensação, que explica por que o levantamento de peso leva ao aumento da massa muscular. O exercício consiste em estressar um músculo até o ponto em que suas fibras começam literalmente a se romper. Depois de um período de repouso (em geral, 48 horas), o músculo não somente se recompõe como fica mais forte. Mas, se estressarmos o músculo sem respeitar esse descanso, ganharemos uma lesão. Por outro lado, se a musculatura não for solicitada, atrofiará.

O poder de certos rituais na recuperação de um atleta fica evidente se você observar um tenista em ação. Alguns praticam rituais precisos de reposição de energia nos 15 ou 20 segundos de intervalo entre um ponto e outro - geralmente, sem ter consciência disso. Eles se concentram na raquete, adotam uma postura confiante e visualizam como desejam marcar o próximo ponto. Isso produz um efeito fisiológico surpreendente. Já medimos a freqüência cardíaca de alguns tenistas e notamos que seu coração dispara durante o jogo e reduz seu ritmo de 15% a 20% entre um ponto e outro.

Os efeitos mentais e emocionais desses rituais de reposição energética são importantes também porque perrmitem aos jogadores evitar pensamentos negativos, aumentar sua concentração e se preparar para o ponto seguinte. Já os jogadores que não seguem nenhum ritual, ou os que o praticam de maneira inconsistente, tornam-se lineares - gastam muita energia sem nenhuma reposição. Seja qual for o seu talento ou grau de preparo, tornam-se vulneráveis à ansiedade e à falta de concentração, além de mais propensos ao fracasso. A mesma lição se aplica aos atletas corporativos. Em geral, eles se desgastam demais mental e emocionalmente, mas muito pouco fisicamente. As duas formas de linearidade fazem mal para o desempenho.

A falta de oscilação era o problema principal de Marilyn Clark, diretora-gerente da Salomon Smith Barney e uma de nossas clientes. Perto dos 40 anos, tinha um bom cargo na empresa, era mãe de três crianças e esposa de um alto executivo. Aparentemente, ela levava uma vida invejável, tanto que relutou em admitir sua f frustração. Acontece que o corre-corre diário estava lhe custando caro demais. Pela manhã, temporariamente energizada por um pãozinho e um café, ficava esperta. A tarde, porém, suas reservas começavam a se esgotar. A hora do almoço, que poderia ser usada para relaxar, Marilyn passava trabalhando. Além disso, tinha de dar atenção à família, ficando sem tempo para si mesma. Por isso, sua frustração aumentava a cada dia.

Nosso primeiro passo foi avaliar a capacidade física de Marilyn. Embora tivesse sido atleta quando era mais jovem, na época em que nos procurou se limitava a fazer alguns abdominais. A medida que aprendia mais sobre a relação entre a energia e a excelência do desempenho, Marylin compreendeu que sua primeira providência deveria ser entrar em forma novamente. Ela queria sentir -se melhor fisicamente e sabia que sua disposição melhoraria se reservasse um espaço na agenda para a prática de exercícios físicos. Como é muito difícil abandonar velhos hábitos, ajudamos Marilyn a criar riituais para substituí-Ios. Parte desse trabalho foi gerar um ambiente amigável, transformando o fato de treinar com alguns colegas do trabalho em estímulo para continuar. Marilyn começou a se exercitar três vezes por semana, às 11 horas da manhã. Nos fins de semana, pedia ao marido que cuidasse das crianças para que pudesse fazer exercícios. Isso a ajudou a criar demarcações claras para suas atividades profissionais e lhe devolveu a sensação de bem-estar que sentia quando era atleta. Agora, ela já não precisa recorrer ao chocolate para recuperar as forças na parte da tarde. Diz que trabalha menos e consegue fazer mais. Como não se sente tão sobrecarregada, acredita até ter se tornado uma chefe melhor.

É daro que o atleta corporativo não constrói um firrme fundamento físico unicamente com exercícios. Dormir e comer bem também são rituais inerentes à gestão eficaz de energia. Rudy Borneo, vice-presidente da Macy"s West, queixava-se de níveis inconstantes de energia, alterações de ânimo e dificuldade de concentração. A exemplo de muitos executivos, estava acima do peso e tinha hábitos alimentares pobres. Em geral, começava seu dia, habitualmente repleto de viagens, sem tomar o café da manhã - o equivalente a ir para a linha de largada das 500 milhas de Indianápolis com o tanque praticamente vazio. Na hora do almoço recorria a lanches doces para combater as inevitáveis pontadas de fome do período da tarde. Esses alimentos aumentavam o nível de glicose do sangue, dando-lhe uma súbita descarga de energia, que logo se dissipava. O jantar era farto, composto por diferentes pratos e feito tarde da noite. A digestão de toda aquela comida perturbava o sono de Borneo e o deixava lento e sem disposição na manhã seguinte. Essa história não lhe parece familiar? Dissemos a ele que, se comesse pouco, mas com frequência, conseguiria manter um nível constante de energia. Hoje, Borneo toma café da manhã diariamente. Aprendeu também que, segundo os princípios da cronobiologia, o corpo e a mente precisam de renovação a cada 90 ou 120 minutos. Tomando esse ciclo como base para sua alimentação, passou a fazer de cinco a seis refeições ao dia, além de beber água frequentemente. Além de induzir a perda de peso e de fazê-Io sentir-se melhor, os rituais nutricionais e de condicionamento físico tiveram um efeito espetacular sobre outros aspectos de sua vida. Aos 59 anos, ele diz ter mais energia do que nunca e que aprendeu a lidar com questões complicadas, além de ter melhorado seu relacianamento com os colegas.

• Emoções e equilíbrio

O segundo bloco necessário à construçãa da CID é a capacidade emocional - o clima interno que dá sustentação ao desempenho. Pouco depais de ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Sydney, a velocista Marion Jones disse: "Eu me divirto enquanto estou correndo. Fico superfeliz, não me sinto estressada". Assim como as emoções positivas impulsianam o alto desempenho, os sentimentos negativos, como frustração, impaciência, ira, medo, ressentimento e tristeza, minam as reservas energéticas. Com o passar do tempo, eles podem se tornar literalmente tóxicas, acelerando o ritmo dos batimentos cardíacos, aumentando a pressão sanguínea e a tensão muscular, obstruinda a visão e colacando o desempenho a perder. Os atletas ansiosos, por exemplo, são os que mais têm chances de fracassar nas competições, parque permitem que a raiva e a frustração sabotem sua concentraçâo.

No mundo d.os negócios, o impacto das emoções negativas sobre a performance é mais sutil, porém igualmente devastador. Alan, executivo de uma empresa americana de investimentos, viajava frequentemennte supervisionando as filiais da companhia espalhadas pela país. Seus colegas o consideravam um líder perfeccionista e crítico, cuja frustração e impaciência por vezes transbordavam em comentários ferinos. O grande desafio de Alan era aprender a lidar com suas emoções. Ele reagia instintivamente diante de situações em que se sentia ameaçado. Para administrar isso, teria de transformar em desafio o que via como ameaça. Passou a fazer exercícios físicos com regularidade, o que a tornou menos tenso. Ensinamos a ele também um rigoroso ritual de cinco etapas para refrear as emoções negativas. O primeiro passa era aguçar a perceppção, reagindo aos sinais de que seu corpo estaria à beira de um ataque de nervos - tensâo física, coração acelerado e aperto na peito. Toda vez que essas sensações viessem à tona, Alan deveria fechar  os olhos, respirar profundamente diversas vezes e relaxar as músculos da rosto. Depois, deveria esforçar-se para abrandar o tom de voz e falar mais lentamente. O próximo passo era tentar se colacar na lugar da pessoa que o deixara irritado e imaginar a que ela poderia estar sentinda. A quinta etapa consistia em tentar verbalizar sua reação com palavras positivas. No início, Alan achou tudo isso constrangedor, e, é claro, teve algumas recaídas no seu velho estilo de reagir. No entanto, passadas algumas semanas, o ritual de cinco etapas tornou-se autamático. O resultado? Seus colegas de trabalho andam dizendo que Alan agora é um sujeito mais sennsato, e ele mesmo reconhece que sua performance profissianal melhorou muito.

Os atletas têm inúmeros rituais que ajudam a restaurar a energia positiva. Nãa é nenhuma coincidência, por exemplo, que muitos deles ouçam música antes da competição. A música tem um efeito poderoso sobre as condições fisiológicas e emocionais, e p e. O próximo passo era tentar se colacar na lugar da pessoa que o deixara irritado e imaginar a que ela poderia estar sentinda. A quinta etapa consistia em tentar verbalizar sua reação com palavras positivas. No início, Alan achou tudo isso constrangedor, e, é claro, teve algumas recaídas no seu velho estilo de reagir. No entanto, passadas algumas semanas, o ritual de cinco etapas tornou-se autamático. O resultado? Seus colegas de trabalho andam dizendo que Alan agora é um sujeito mais sennsato, e ele mesmo reconhece que sua performance profissianal melhorou muito.

Os atletas têm inúmeros rituais que ajudam a restaurar a energia positiva. Nãa é nenhuma coincidência, por exemplo, que muitos deles ouçam música antes da competição. A música tem um efeito poderoso sobre as condições fisiológicas e emocionais, e pode detonar um deslocamento na atividade mental do hemisfério esquerdo do cérebro, ligado à racionalidade, para o hemisfério direito, relacionado à intuição. Issa espanta o pensamento obsessivo e as preocupações. A música pode ser um meio de calibração direta da energia: aumentando o pique quando é hora de entrar em ação e acalmando quando o momento pede isso. A linguagem do corpo também influencia as emoções. Em uma experiência bem conhecida, pediu-se a alguns atores que fizessem uma expressão de raiva. Depois, o grupo foi submetido a diversos testes psicológicos e exames para medir batimentos cardíacos, pressão sanguínea, temperatura, reação da pele a estímulos e níveis hormonais. Em seguida, os mesmos atores foram expostos a situações que os deixaram irritados de verdade e passaram de novo pelos mesmos testes. Nas duas vezes os resultados não tiveram praticamente nenhuma diferença. Uma encenação bem-feita produz exatamente o mesmo perfIl fisiológico delineado por emoções reais. Todos os grandes atletas compreendem isso instintivamente. Se demonstrarem confiança, vão acabar se sentindo confiantes, mesmo nas situacões mais estressantes. É por isso que instruímos nossos clientes para que ajam c"omo se", criando uma visão do lado de fora que desejam sentir do lado de dentro. Aristóteles dizia que você é aquilo que faz constantemente. A excelência não é um ato isolado, e sim um hábito.

É na intimidade dos relacionamentos que as emoções positivas e a recuperação de energia encontram um terreno fértil. Uma vida feliz em família ou uma noite agradável passada na companhia dos amigos proporcionam segurança e tranquilidade. E esses sentimentos estão intimamente associados à CID. Infelizmente, muitos dos atletas corporativos que treinamos acham que, para atender às expectativas do trabalho, não há outra alternativa senão restringir o tempo dedicado à família. Acontece que, ao dedicar mais tempo aos seus relacionamentos pessoais, estabelecendo limites definidos entre o trabalho e a vida fora dele, as pessoas se sentem mais satisfeitas, e isso influencia positivamente seu desempenho profissional.

• Mente em alerta

O terceiro nível da pirâmide de desempenho - a capacidade mental - costuma ser o foco das atenções da maioria dos treinamentos voltados para o aperfeiçoamento do desempenho. Nosso objetivo é expandir as aptidões cognitivas dos clientes e sobretudo suas habilidades de concentração, organização do tempo e pensamento crítico. Concentração significa colocar a energia a serviço de um objetivo específico. A meditação, comumente considerada um exercício espiritual, pode ser um meio eficaz de adestramento da atenção e de reposição de energia. Para que a técnica funcione adequadamente, é preciso que o indivíduo se sinta tranquilo e respire profundamente, contando cada expiração e recomeçando todo o processo sempre que chegue a dez. Pode-se também escolher uma palavra que será repetida a cada inspiração. Quando praticada com regularidade, a meditação acalma a mente, as emoções e o corpo. Diversos estudos mostram, por exemplo, que praticantes habituais precisam de muito menos horas de sono. A meditação e outras disciplinas não cognitivas podem também desacelerar a atividade das ondas cerebrais e estimular um deslocamento da atividade mental do hemisfério esquerdo do cérebro para o direito. Já não aconteceu de você achar a solução para um problema quando se dedicava a alguma coisa pouco intelectual, como caminhar ou cuidar do jardim?

Para desenvolver esse nível da pirâmide, a preocupação básica é gerir o tempo e a energia conscientemente. Ao alternar períodos de estresse com os de reposição de energia, o profissional aprende a ajustar o trabalho com a necessidade que o corpo tem de fazer pausas a cada 90 ou 120 minutos. Isso pode se tornar um verdadeiro desafio para os workaholics. Jeffrey Sklar, de 39 anos, diretor-gerente de vendas internacionais da Gruntal & Company, uma empresa de investimentos de Nova York, estava acostumado a superar a concorrência pela força bruta porque trabalhava mais do que todo mundo. O ritual proposto a Sklar foi o seguinte: uma vez pela manhã e outra à tarde, ele deveria ir para uma sala tranquila e passar 15 minutos praticando exercícios de respiração profunda. Na hora do almoço, foi aconselhado a sair do escritório e caminhar um pouco. Também começou a fazer ginástica. Em casa, ele e sua esposa, Sherry, uma executiva igualmente ocupada, fizeram um pacto de não conversar sobre negócios depois das 8 da noite e de não trabalhar nos fins de semana. Isso faz dois anos. Nesse período, os ganhos de Sklar aumentaram mais de 63%.

Para Jim Connor, presidente e CEO da Footjoy, a reavaliação do uso do tempo tornou-se uma forma de administrar a energia e de equilibrar a vida. Connor nos procurou dizendo que se sentia amarrado a uma rotina tirânica. "Esquematizei um comportamento que me ajuda a enfrentar todos os reveses, mas eu não sinto a vida, vivo de modo repetitivo", disse. Com o tempo, chegou à conclusão de que ninguém no escritório se importaria com o fato de ele chegar um pouco atrasado ou de ir para casa mais cedo. Achou também que era aceitável passar um ou dois dias trabalhando em uma unidade-satélite da empresa mais próxima de sua casa. Connor começou também a praticar golfe, instituiu passeios com a esposa e estabeleceu um período de reposição de energia durante a semana. Hoje, diz que se tornou muito mais produtivo.

Os rituais que estimulam o pensamento positivo também aumentam a possibilidade de atingir a CID. A visualização produz resultados de desempenho palpáveis. O jogador de golfe americano Tiger Woods, por exemplo, aprendeu com seu pai, Ea

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