Mentes em movimento


Atividade física não fortalece apenas o coração e outros músculos, também beneficia a capacidade mental de adultos e ajuda crianças a se desenvolverem melhor; além disso, é aliada no combate à depressão e torna mais lento o declínio cognitivo causado pela idade.

Revista Scientific American -  por Steve Ayan

Em que você pensa quando falamos sobre esporte? Em disciplina, desempe­nho, condicionamento? Na academia onde você malha muito raramente? Ou no parque onde caminha de vez em quando apesar de, no fundo, pre­ferir estar relaxado no sofá de casa? Não se deixe enganar pela ladainha do prêmio que não vem sem suor ou da juventude eterna! O exercício que realmente faz bem está muito distante desses conceitos. Infelizmente, muitas pessoas as­sociam a ideia de esporte principalmente ao esforço. Impulsionados pelo peso na consciência, muitos tentam se animar a ser ativos - a fim de manter o corpo em forma, perder alguns quilos ou ser mais saudáveis. Com um resultado bastante modesto. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que 1,6 bilhão de pessoas no planeta tem excesso de peso. No Brasil estima-se que esse número chegue a 70 milhões, sendo 25% considerados obesos. O motivo principal, além da má alimentação, é a falta de exercício. Segundo estimativas, isso gera custos de pelo menos 70 bilhões de euros por ano aos órgãos de saúde.

Contudo, a solução parece simples. Não é novidade que a atividade física moderada e regular estimula e mantém a saúde do corpo. O que cada vez mais pesquisadores têm comprovado é que a prática não fortalece apenas o coração e os múscu­los, mas também a capacidade mental, ajuda crian­ças á se desenvolver melhor, é aliada no combate à depressão e torna mais lento o declínio intelectual atrelado à idade. Para tanto, não é necessário ne­
nhum esforço absurdo ou tortura - pelo contrário: o limiar da "dose salutar" é surpreendentemente baixo. Incluir passeios a pé ou de bicicleta na rotina (quase) diária já cumpre o objetivo.

Essa descoberta de pesquisadores contraria um antigo conceito segundo o qual o corpo e a mente estariam em concorrência entre si. Durante muito tempo, dizia-se que seria melhor para as crianças ficarem sentadas lendo um livro ou aprenderem uma língua estrangeira ou um instrumento musical em vez de correr atrás de uma bola, por exemplo. E quem quisesse manter seu potencial intelectual deveria exercitar prefe­rencialmente o cérebro. Engano! Na verdade, a ciência tem comprovado que atividades físicas e mentais estão intimamente associadas. E para tirar o melhor proveito dessa interseção é preciso levar em conta características de cada fase da vida.

• Uma força para a autoestima

De maneira geral, a sociedade ocidental não atribui grande valor ao exercício para o desenvolvimento infantil. Adultos costumam fazer as crianças des­de pequenas ficar sentadas e quietas em vez de correr por aí, se concentrar no lugar de pular de um lado para outro. A televisão, o computador e os videogames também colaboram para tirar dos pequenos a vontade natural de se movimentar.

Com isso, aparecem prejuízos primeiramente para o estado geral de saúde, com o surgimento de problemas posturais e obesidade, por exemplo. O corpo e o psiquismo, porém, não amadurecem independentemente - como uma função motora desenvolvida de forma insuficiente, por exemplo, pode frear o intelecto, pois, quanto mais segura a criança está ao explorar seu ambiente, mais fa­cilmente absorve novos estímulos. Dessa forma, subir, saltar e correr marca o início de um ciclo que reforça a si mesmo.

Um estudo coordenado pelo pesquisador Charles Hillman, da Universidade de IlIinois em Urbana-Champaign, publicado em 2008 mostra que crianças que se movimentam mais, em geral, obtêm melhores notas na escola. O desempenho em cálculo ou leitura, por exemplo, aumenta proporcionalmente à atividade física. No entanto, podemos perguntar aqui, com razão, o que determina esse resultado: será que pais que apoiam mais seus filhos em questões escolares também os estimulam mais a praticar esportes? A correlação entre valores estatísticos, porém, não revela nada sobre motivos mais profundos.

O pesquisador Phillip Tomporowski, da Universidade da Geórgia, também confirmou que o bom condicionamento físico de crianças é acompanhado de melhores resultados escolares. No entanto, ainda não é possível demonstrar experimentalmente a influência do esporte sobre o desempenho cognitivo. O que se sabe é que nem toda prática esportiva estimula a capacidade intelectual. O condicionamento aeróbico por meio de atividade muscular moderada costuma ser considerado frutífero, assim como treinamentos de força parecem reforçar a capacidade de plane­jar e coordenar ações - em resumo, aquilo que chamamos "capacidades executivas".

Outro grande grupo de estudos, no qual em geral são utilizados camundongos e ratos, defen­de que a atividade física prepara a mente para o aprendizado. Experimentos para testar o efeito de treinamentos físicos sobre o cérebro de roedores remontam aos anos 60. A neurobióloga Marian Diamond, da Universidade da Califórnia em Berkeley, hoje com 79 anos, foi considerada pio­neira nessa área. Ela criou animais em "ambientes enriquecidos", gaiolas cheias de "brinquedos", onde as cobaias eram constantemente estimula­ das de forma lúdica. Entre os roedores, as rodas de exercícios são as preferi idas: eles percorrem, sem dificuldade, 5 a 6 km por dia.

Ao analisar o tecido cerebral desses ratos treinados em laboratório, Marian concluiu que o córtex, responsável pelas funções cognitivas mais elaboradas, de maneira geral tinha melhor irrigação sanguínea e era maior, em comparação à mesma região cerebral de animais da mesma espécie criados em gaiolas comuns. Além disso, os animais "estimulados" dessa forma atingiam melhores resultados em testes de aprendizagem e comportamento.

Esses experimentos oferecem grandes vanta­gens aos pesquisadores: um camundongo ou rato não vive mais de dois ou três anos; sendo assim, é possível estudar o decorrer de sua vida quase em "câmera rápida". Além disso, as alterações no tecido cerebral podem ser observadas até mesmo em nível molecularcom os métodos laboratoriais bem mais refinados desde os usados nos tempos de Marian. Pela observação, cientistas puderam concluir que há principalmente dois tipos de efeito do exercício sobre o sistema nervoso: estimula o crescimento vascular e o neuronal.

O primeiro refere-se a processos que permi­tem que as ramificações dos vasos sanguíneos se desenvolvam ainda mais-e não apenas nos mús­culos, mas também em tecidos neurais. Dos capi­lares cerebrais provêm os neurônios com oxigênio e, consequentemente, a energia. Essas estruturas são fundamentais para o segundo mecanismo: o constante trabalho de construção e reestruturação das próprias células. Um recém-nascido vem ao mundo com a mesma quantidade de neurônios de um adulto: entre 100 bilhões e 500 bilhões. No entanto, nos pequenos essas células não estão densamente interligadas. Assim, nos primeiros anos de vida, o plano é "moldar e semear": de acordo com a necessidade e os estímulos, esto­ques de células não utilizadas rotineiramente são descartados, assim como novas ligações são for­madas e fortalecidas. Os neurônios desenvolvem longos prolongamentos, tomam contato uns com os outros por meio das sinapses e criam redes de comunicação que processam informações de forma cada vez mais rotineira.

Pesquisas com animais indicam que princi­palmente o hipocampo, que funciona como uma central de aprendizagem e memória, é a área que mais tira proveito da melhor circulação sanguínea no cérebro e da produção desse "hardware" neu­ronal. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Xangai com ratos de 5 semanas de idade e publicado em 2008 indicou que exer­cícios como caminhada moderada influenciam principalmente o giro dentado, um importante segmento do hipocampo. Uma quantidade ele­vada de substâncias mensageiras, como o fator de crescimento vascular (VGF, na sigla vascuiar growthfactor) e o fator neurotrófico derivado do encéfalo (BDNF, brain derived neurotrophic factor), levou ao processo denominado neurogênese, que nada mais é que o crescimento de novas células neurais. Porém, o exagero dessa atividade benéfica teve efeito limitante: com excesso de corrida, a função construtora no cérebro dos roedores recrudescia.

Surgem, no entanto, questões inevitáveis: informações obtidas com animais podem ser transferidas para seres humanos? Será que o exer­cício é bom para crianças apenas porque o córtex de "ratos esportistas" é mais grosso e tem melhor circulação sanguínea? Os processos cerebrais são, em princípio, os mesmos em roedores e hu­manos. Portanto, parece óbvio que mecanismos semelhantes desencadeiem resultados similares. No caso de pessoas, no entanto, acrescentam-se inúmeros aspectos emocionais e interpessoais.

Se no início da vida é crucial o desenvolvi­mento do repertório motor, da linguagem e do pensamento, com o passar do tempo surgem outras prioridades, como adquirir competências sociais, testar os próprios limites e construir a autoconfiança por meio de vivências bem su­cedidas. Isso pode ser facilitado pelo exercício.

Vários estudos já comprovaram que a ativi­dade física eleva a sensação de bem-estar. Em um trabalho recente, a pesquisadora Karen Petty, colega de Tomporowski, comparou, por meio de questionário, a autoestima e o estado de espírito de adolescentes com sobrepeso antes e depois de um programa de treinamento de várias semanas. Resultado: ao final, os participantes se mostravam mais animados, satisfeitos consigo mesmos e com uma autoimagem mais positiva.

Karen ressalta, porém, que não se trata apenas de criar condições favoráveis ao desenvolvimento neuronal por meio da atividade física. Na ver­dade, o exercício e as experiências associadas a ele influenciam posturas e hábitos que afetam o caminho a ser seguido na vida. Por isso, a diversão deveria estar em primeiro lugar: uma atividade escolhida por vontade própria e divertida que gere experiências de sucesso. Isso estimula crianças efetivamente. A natureza já cuida para que isso ocorra, na medida em que provê os pequenos com uma intensa tendência natural ao exercício. Tudo depende apenas de que nós não as refreemos. O deslocamento das prioridades pessoais - estu­do, trabalho, relacionamentos e família - quase sempre deixa a atividade física em segundo plano na idade adulta. Em outras palavras: as pessoas têm menos tempo e muitas vezes se acomodam, preferem ir aos lugares de carro em vez de bici­cleta e usam o tempo livre para namorar, resolver questões de trabalho ou ficar com os filhos em vez de se exercitar. Frequentar academias, por exemplo, exige abertura de espaço na agenda - e boa dose de determinação. Muitas vezes, porém, simplesmente não há tempo para entrar em forma.

Se perguntamos a adultos por que deveriam (pelo menos teoricamente) se exercitar, rece­bemos respostas que levam em conta "meios para atingir o fim desejado": ajuda a emagrecer, manter a saúde, ter uma "válvula de escape" após um duro dia de trabalho. De fato, estudos comprovam que a prática regular de atividade física ajuda a combater o estresse e a aliviar a sobrecarga emocional.

Por que isso acontece? Motivo número um: treinamento regular reduz o nível do hormônio do estresse, cortisol, que é liberado em razão da sobrecarga da hipóflse. Essa reação faz com que o organismo seja imediatamente abastecido com energia adicional, mas a longo prazo isso prejudica as células cerebrais. A atividade física funciona aqui de forma "neuroprotetora" dos efeitos do cortisol.

Segundo: o exercício eleva a concentração de triptofano no cérebro. Essa subst se exercitar, rece­bemos respostas que levam em conta "meios para atingir o fim desejado": ajuda a emagrecer, manter a saúde, ter uma "válvula de escape" após um duro dia de trabalho. De fato, estudos comprovam que a prática regular de atividade física ajuda a combater o estresse e a aliviar a sobrecarga emocional.

Por que isso acontece? Motivo número um: treinamento regular reduz o nível do hormônio do estresse, cortisol, que é liberado em razão da sobrecarga da hipóflse. Essa reação faz com que o organismo seja imediatamente abastecido com energia adicional, mas a longo prazo isso prejudica as células cerebrais. A atividade física funciona aqui de forma "neuroprotetora" dos efeitos do cortisol.

Segundo: o exercício eleva a concentração de triptofano no cérebro. Essa substância é um precursor do neurotransmissor serotonina que favo­rece o processamento das emoções. Em pessoas depressivas, o nível de serotonina e a neurogênese são bastante reduzidos. Médicos tentam com­pensar essa situação por meio da administração de inibidores de recaptação de serotonina (SSRI). Esses medicamentos fazem com que haja maior quantidade disponível do neurotransmissor nos contatos sinápticos das células neurais.

Terceiro: durante a atividade física, opioides endógenos (do próprio corpo) estimulam o centro de compensação no mesencéfalo. É provável que seja a causa do runner"s high, fre­quentemente relatado por esportistas assíduos - um sentimento de bem-estar experimentado durante o treino. Esse componente emocional da atividade física é hoje utilizado com sucesso no tratamento de distúrbios psíquicos. Em um es­tudo de 2007, coordenado pelo psiquiatra James Blumenthal, da Universidade Duke em Durham, na Carolina do Norte, por exemplo, mais de 200 pacientes com diagnóstico de depressão foram separados em três grupos. Os integrantes do primeiro foram instruídos a realizar exercícios regulares para melhorar a resistência; o segundo foi tratado com sertralina, inibidor seletivo de recaptação de serotonina, e o terceiro recebeu placebo. Quatro meses mais tarde, metade dos voluntários que faziam exercícios regulares apresentou melhoras tão efetivas quanto os que receberam tratamento medicamentoso. No gru­po que recebeu placebo ocorreu um fato curioso: um terço dos pacientes teve sintomas clínicos atenuados num primeiro momento.

Como nenhum outro estudo confirma esse efeito benéfico, os cientistas tentam encontrar explicação por meio de outras análises, incor­porando os resultados de vários trabalhos. Um dos mais recentes estudos comparativos desse
tipo foi publicado por especialistas em saúde coordenados por Gillian Mead, da Universidade de Edimburgo. Após a avaliação de 2S estudos com mais de 900 participantes, os pesquisado­res perceberam o alto potencial antidepressivo dos exercícios de resistência. No entanto, se forem utilizados padrões metódicos muito severos, o efeito desaparecerá. Assim, seria necessário que os participantes não soubessem se pertencem ao grupo de controle ou ao de tratamento. Naturalmente, esse tipo de teste cego é praticamente impossível em programas esportivos. Não se sabe também qual o papel desempenhado pelo apoio social mútuo, já que quando a pessoa corre, faz exercícios ou anda de bicicleta em grupo termina por desenvolver laços que podem influir em seu humor.

De maneira geral, a atividade física parece bastante adequada no caso de uma leve tendência à depressão ou de uma inquietação ansiosa. Mas quando há sintomas graves e causas profundas, como um trauma, somente o exercício não é suficiente. O estudo já citado desenvolvido por Karen Petty com jovens com sobre peso nos leva a supor a mesma coisa. A porção extra de esporte fortaleceu a autoestima de participantes brancos mas o mesmo não ocorreu com os americanos de ascendência africana. Nestes últimos, o desânimo aparentemente não apenas tinha raízes na insatis­fação com a própria aparência, mas estava ligado a questões mais amplas, como a discriminação e marginalização social.

• Epigenética e cura

No caso de quadros de ansiedade e depressão a prática esportiva favorece a recuperação do con­trole sobre a própria vida, ajuda a pessoa a voltar a fazer algo por si mesma e a desfrutar de um lugar no grupo de treinamento. E, ao que tudo indica, a prática regular diminui o risco de recaídas. Dez meses após o término do programa esportivo do estudo de Blumenthal, menos participantes retomaram o tratamento, em comparação com o grupo que recebeu medicamentos. Isso ocorreu principalmente quando os pacientes continuaram se exercitando de maneira regular depois do fim do experimento.

No entanto, independentemente das condições psíquicas, os efeitos positivos do exercício podem ser comprovados. A palavra mágica é "epigenética". Ela designa o complexo processo no interior das células que determina qual infor­mação genética será lida em que momento e transformada em novas proteínas e substâncias mensageiras. Essas modulações genéticas tam­bém ajudam a determinar se-e quantos - novos receptores, ligações sinápticas e neurônios devem surgir, inclusive no cérebro saudável.

Hoje se sabe que a atividade física influencia a ativação e desativação de mais de 500 genes. Isso foi demonstrado pelos pesquisadores James Tim­mons e Carl Sundberg, do Instituto Karolinska, de Estocolmo, quando eles "receitaram" exercícios ergométricos a um grupo de homens jovens.

O neurobiólogo molecular Jeff Lichtman, da Universidade Harvard, comprovou em 1999 a rapidez com que alterações neuronais podem ocorrer. O pesquisador injetou uma tinta especial fluorescente no tecido intaeto de cobaias, e assim puderam ser marcadas moléculas receptoras na membrana de células neurais e musculares às quais se coneeta a acetilcolina, uma substância mensageira que transmite ordens de movimenta­ção para as junções sinápticas, os locais de ligação entre o nervo e o músculo. O cientista esperava que uma estimulação artificial das transmissões de sinais levasse a alterações após alguns dias ou semanas, mas a densidade dos receptores aumentou muito após poucas horas.

Em outro estudo, um grupo coordenado pela médica Ana Pereira, da Universidade Colúmbia, Nova York, selecionou voluntários saudáveis com idade entre 21 e 45 anos com pouco contato com esportes. Após a real

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