Mentes em Movimento


Cada vez mais pesquisas comprovam que a prática física não fortalece apenas o coração e os músculos, mas também a capacidade mental dos adultos, ajuda crianças a se desenvolver melhor, é aliada no combate à depressão e torna mais lento o declínio cognitivo atrelado à idade. E para desfrutar desses benefícios não é preciso se torturar, basta incluir passeios a pé ou de bicicleta na rotina (quase) diária.

Revista Scientific Amenrican - por Steve Ayan

Conceitos-chave

- Exercícios de resistência moderados têm efeito positivo não apenas sobre o corpo, mas também sobre o cérebro. A atividade física estimula, estabiliza e protege  condicionamento mental. Nos últimos anos, pesquisadores têm esclarecido os mecanismos desse efeito: várias substâncias que facilitam a circulação sanguínea e a reorganização neuronal revelaram-se benéficas para o cérebro. Elas são produzidas de forma intensificada durante atividades musculares.

- Outros estudos comprovam que o exercício periódico pode refrear o declínio intelectual na velhice e ainda combater o estresse, pois o treinamento regular reduz o nível do hormônio do estresse, cortisol, que a longo prazo prejudica as células cerebrais. A atividade física funciona aqui de forma "neuroprotetora". O exercício também eleva a concentração de triptofano, uma substância precursora do neurotransmissor serotonina que favorece a recaptação do neurotransmissor, diminuindo efeitos da depressão. Além disso, durante a atividade física, são liberadas substâncias endógenas que estimulam a sensação de bem-estar.

Em que você pensa quando fala­mos em esporte? Em disciplina, desempenho, condicionamento? Na academia onde você malha muito raramente? Ou no parque onde cami­nha de vez em quando apesar de, no fundo, preferir estar relaxado no sofá de casa? Não se deixe enganar pela ladai­nha do prêmio que não vem sem suor ou da juventude eterna! O exercício que realmente faz bem está muito distante desses conceitos. Infelizmente, muitas pessoas associam a ideia de esporte principalmente ao esforço. Impulsio­nados pejo peso na consciência, muitos tentam se animar a ser ativos - a fim de manter o corpo em forma, perder alguns quilos ou ser mais saudáveis. Com um resultado bastante modesto. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que 1,6 bilhão de pessoas no planeta têm excesso de peso. No Brasil estima-se que esse número chegue a 70 milhões, sendo 25% considerados obesos. O motivo principal, além da má alimentação, é a falta de exercício. Segundo estimativas, isso gera custos de pelo menos 70 bilhões de euros por ano aos órgãos de saúde.

Contudo, a solução parece simples. Não é novidade que a atividade física moderada e regular estimula e mantém a saúde do corpo. O que cada vez mais pesquisadores têm comprovado é que a prática não fortalece apenas o coração e os músculos, mas também a capacidade mental, ajuda crianças a se desenvolver melhor, é aliada no combate à depressão e torna mais lento o declínio intelectual atrelado à idade. Para tanto, não é necessário nenhum esforço absurdo ou tortura - pelo contrário: o limiar da "dose salutar" é surpreendentemente baixo. Incluir passeios a pé ou de bicicleta na rotina (quase) diária já cumpre o objetivo.

Essa descoberta de pesquisadores contraria um antigo conceito segundo o qual o corpo e a mente estariam em concorrência entre si. Durante muito tempo, dizia-se que seria melhor para as crianças ficarem sentadas lendo um livro ou aprenderem uma língua estrangeira ou um instrumento musical em vez de correr atrás de uma bola, por exemplo. E quem quisesse manter seu potencial intelectual deveria exercitar preferencialmente o cérebro. Engano! Na verdade, a ciência tem comprovado que atividades físicas e mentais estão intimamente associadas. E para tirar o melhor proveito dessa interseção é preciso levar em conta características de cada fase da vida.

• Salto de autoestima

De maneira geral, a sociedade ociden­tal não atribui grande valor ao exercício para o desenvolvimento infantil. Adul­tos costumam fazer as crianças desde pequenas ficar sentadas e quietas em vez de correr por aí, a se concentrar, no lugar de pular de um lado para outro. A televisão, o computador e os videogames também colaboram para
tirar dos pequenos a vontade natural de se movimentar.

Com isso, aparecem prejuízos primeiramente para o estado geral de saúde, com o surgimento de problemas posturais e obesidade, por exemplo. O corpo e o psiquismo, porém, não amadurecem independentemente - como uma função motora desenvolvi­da de forma insuficiente, por exemplo, pode frear o intelecto, pois, quanto
mais segura a criança está ao explorar seu ambiente, mais facilmente absorve novos estímulos. Dessa forma, subir nas coisas, saltar e correr marca o início de um ciclo que reforça a si mesmo.

Um estudo coordenado pelo pesqui­sador Charles HilIman, da Universidade de IIlinois, em Urbana-Champaign, e publicado em 2008 mostra que crianças que se movimentam mais, em geral, obtêm melhores notas na escola. O desempenho em cálculo ou leitura, por exemplo, aumenta proporcionalmente à atividade física. No entanto, pode­mos perguntar aqui, com razão, o que determina esse resultado: será que pais que apoiam mais seus filhos em questões escolares também os estimulam mais a praticar esportes? A correlação entre valores estatísticos, porém, não revela nada sobre motivos mais profundo os.

O pesquisador Phillip Tomporowski, da Universidade da Geórgia, também confirmou que o bom condicionamen­to físico de crianças é acompanhado de melhores resultados escolares. No entanto, ainda não é possível demons­trar experimentalmente a influência do esporte sobre o desempenho cognitivo. O que se sabe é que nem toda prática esportiva estimula a capacidade intelec­tual. O condicionamento aeróbico por meio de atividade muscular moderada costuma ser considerado frutífero, assim
como treinamentos de força parecem reforçar a capacidade de planejar e coor­denar ações - em resumo, aquilo que chamamos "capacidades executivas".

Outro grande grupo de estudos, no qual em geral são utilizados camundon­gos e ratos, defende que a atividade física prepara a mente para o aprendizado. Experimentos para testar o efeito de treinamentos físicos sobre o cérebro de roedores remontam aos anos 60. A neurobióloga Marian Diamond, da Universidade da Califómia em Berke­ley, hoje com 78 anos, foi considerada pioneira nessa área. Ela criou animais em "ambientes enriquecidos", gaiolas cheias de "brinquedos", onde as cobaias eram
constantemente estimuladas de forma lúdica. Entre os roedores, as rodas de exercícios são as preferidas: eles per­correm, sem dificuldade, cinco a seis quilômetros por dia.

Ao analisar o tecido cerebral des­ses ratos treinados em laboratório, Diamond concluiu que o córtex, responsável pelas funções cognitivas mais elaboradas, de maneira geral tinha melhor irrigação sanguínea e era maior, em comparação à mesma região cerebral de animais da mesma espécie criados em gaiolas comuns. Além disso, os animais "estimulados" dessa forma atingem melhores resultados em testes de aprendizagem e comportamento.

Esses experimentos oferecem grandes vantagens aos pesquisadores: um camundongo ou rato não vive mais de dois ou três anos, sendo assim, é possível estudar o decorrer de sua vida quase em "câmera rápida". Além disso, as alterações no tecido cerebral podem ser observadas até mesmo em nível molecular com os métodos laboratoriais bem mais refinados desde os usados nos tempos de Diamond. Pela observação, cientistas puderam concluir que há principalmente dois tipos de efeito do exercício sobre o sistema nervoso: estimula o cresci­mento vascular e o neuronal.

O primeiro refere-se a processos que permitem que as ramificações dos vasos sanguíneos se desenvolvam ainda mais - e não apenas nos músculos, mas também em tecidos neurais. Dos capila­res cerebrais provêm os neurônios com oxigênio e, consequentemente, a ener­gia. Essas estruturas são fundamentais para o segundo mecanismo: o constante trabalho de construção e reestruturação das próprias células. Um recém-nascido vem ao mundo com a mesma quanti­dade de neurônios de um adulto: entre 100 bilhões e 500 bilhões. No entanto, nos pequenos essas células não estão densamente interligadas. Assim, nos pri­meiros anos de vida, o plano é "moldar e semear": de acordo com a necessidade e os estímulos, estoques de células não utilizadas rotineiramente são descar­tados, assim como novas ligações são formadas e fortalecidas. Os neurônios desenvolvem longos prolongamentos, tomam contato uns com os outros por meio das sinapses e criam redes de co­municação que processam informações de forma cada vez mais rotineira.

Pesquisas com animais indicam que principalmente o hipocampo, que funciona como uma central de apren­dizagem e memória, é a área que mais tira proveito da melhor circulação san­guínea no cérebro e da produção desse "hardware" neuronal. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Xangai com ratos de 5 semanas de idade e publicado em 2008 indicou que exercícios como caminhada moderada influenciam principalmente o giro dentado, um importante segmento do hipocampo. Uma quantidade elevada de substâncias mensageiras, como o fator de crescimento vascular (VGF, na sigla vascular growth factor) e o fator neu­rotrófico derivado do encéfalo (BDNF, brain derived neurotrophic factor), levou ao processo denominado neurogênese, que nada mais é que o crescimento de novas células neurais. Porém, o exagero dessa atividade benéfica teve efeito limitante, com excesso de corrida, a função construtora no cérebro dos roedores recrudescia.

Surgem, no entanto, questões inevitáveis: informações obtidas com animais podem ser transferidas para seres humanos? Será que o exercício é bom para crianças apenas porque o cór­tex de "ratos esportistas" é mais grosso e tem melhor circulação sanguínea? Os processos cerebrais são, em princípio, os mesmos em roedores e humanos. Portanto, parece óbvio que mecanis­mos semelhantes desencadeiem resul­tados similares. No caso de pessoas, no entanto, acrescentam-se inúmeros aspectos emocionais e interpessoais.

Se no início da vida é crucial o desenvolvimento do repertório motor, da linguagem e do pensamento, com o passar do tempo surgem outras prio­ridades, como adquirir competências sociais, testar os próprios limites e construir a autoconfiança por meio de vivências bem-sucedidas. Isso também pode ser facilitado pelo exercício.

Vários estudos já comprovaram que a atividade física eleva a sensação de bem-estar. Em um trabalho recen­te, a pesquisadora Karen Petty, colega de Tomporowski, comparou, por meio de questionário, a autoestima e o estado de espírito de adolescentes com sobre peso antes e depois de um programa de treinamento de várias semanas. Resultado: ao final, os partici­pantes se mostravam mais animados, satisfeitos consigo mesmos e com uma autoimagem mais positiva.

Petty ressalta, porém, que não se trata apenas de criar condições favoráveis ao desenvolvimento neu­ronal por meio da atividade física. Na verdade, o exercício e as experiências associadas a ele influenciam posturas e hábitos que afetam o caminho a ser seguido na vida. Por isso, a diversão deveria estar em primeiro lugar: uma atividade escolhida por vontade pró­pria e divertida que gere experiências de sucesso. Isso estimula crianças efetivamente. A natureza já cuida para que isso ocorra, na medida em que provê os pequenos com uma in­tensa tendência natural ao exercício. Tudo depende "apenas" de que nós não as refreemos. O deslocamento das prioridades pessoais - estudo, trabalho, relacionamentos e família - quase sempre deixa a atividade física em segundo plano na idade adulta. Em outras palavras: as pessoas lign="justify">Petty ressalta, porém, que não se trata apenas de criar condições favoráveis ao desenvolvimento neu­ronal por meio da atividade física. Na verdade, o exercício e as experiências associadas a ele influenciam posturas e hábitos que afetam o caminho a ser seguido na vida. Por isso, a diversão deveria estar em primeiro lugar: uma atividade escolhida por vontade pró­pria e divertida que gere experiências de sucesso. Isso estimula crianças efetivamente. A natureza já cuida para que isso ocorra, na medida em que provê os pequenos com uma in­tensa tendência natural ao exercício. Tudo depende "apenas" de que nós não as refreemos. O deslocamento das prioridades pessoais - estudo, trabalho, relacionamentos e família - quase sempre deixa a atividade física em segundo plano na idade adulta. Em outras palavras: as pessoas têm menos tempo e muitas vezes se acomodam, preferem ir aos lugares de carro em vez de bicicleta, e usam o tempo livre para namorar, resolver questões de trabalho ou ficar com os filhos em vez de se exercitar. Frequentar academias, por exemplo, exige abertura de espaço na agenda - e boa dose de determinação. Muitas vezes, porém, simplesmente não há tempo para entrar em forma.

Se perguntarmos a adultos por que deveriam (pelo menos teoricamente) se exercitar, recebemos respostas que levam em conta "meios para atingir o fim desejado": ajuda a emagrecer, manter a saúde, ter uma "válvula de escape" após um duro dia de trabalho. De fato, estudos comprovam que a prática regular de atividade física ajuda a combater o estresse e a aliviar a sobrecarga emocional.

Por que isso acontece? Motivo número um: treinamento regular reduz o nível do hormônio do estresse, cortisol, que é liberado em razão da sobre­carga da hipófise. Essa reação faz com que o organismo seja imediatamente abastecido com energia adicional, mas a longo prazo isso prejudica as células cerebrais. A atividade física funciona aqui de forma "neuroprotetora" com os efeitos do cortisol.

Motivo número dois: o exercício eleva a concentração de triptofano no cérebro. Essa substância é um precur­sor do neurotransmissor serotonina que favorece o processamento das emoções. Em pessoas depressivas, o nível de serotonina e a neurogênese são bastante reduzidos. Médicos tentam compensar essa situação por meio da administração de inibidores da recaptação da serotonina (SSRI). Esses medicamentos fazem com que haja maior quantidade disponível do neurotransmissor nos contatos sináp­ticos das células neurais.

Motivo número três: durante a ati­vidade física, opioides endógenos (do próprio corpo) estimulam o centro de compensação no mesencéfalo. É prová­vel que seja a causa do runner"s high, fre­quentemente relatado por esportistas assíduos - um sentimento de bem-estar experimentado durante o treino. Esse componente emocional da atividade física é hoje utilizado com sucesso no tratamento de distúrbios psíquicos. Em um estudo de 2007, coordenado pelo psiquiatra james Blumenthal, da Universidade Duke em Durham, na Carolina do Norte, por exemplo, mais de 200 pacientes com diagnóstico de depressão foram separados em três gru­pos. Os integrantes do primeiro foram instruídos a realizar exercícios regulares para melhorar a resistência; o segundo foi tratado com sertralina, inibidor se­letivo da recaptação da serotonina, e o terceiro recebeu placebo. Quatro meses mais tarde, metade dos voluntários que faziam exercícios regulares apresentou melhoras tão efetivas quanto os que receberam tratamento medicamentoso. No grupo que recebeu placebo ocorreu um fato curioso: um terço dos pacientes teve sintomas clínicos atenuados num primeiro momento.

Como nenhum outro estudo con­firma esse efeito benéfico, os cientistas tentam encontrar explicação por meio de outras análises, incorporados os resultados de vários trabalhos. O mais novo estudo comparativo desse tipo foi publicado por especialistas em saúde coordenados por Gillian Mead, da Universidade de Edimburgo, em 2009. Após a avaliação de 25 estudos com mais de 900 participantes, os pesquisadores perceberam o alto po­tencial antidepressivo nos exercícios de resistência. No entanto, se forem utilizados padrões metódicos muito severos, o efeito desaparecerá. Assim, seria necessário que os participantes não soubessem se pertenciam ao grupo de controle ou ao de tratamento. Na­turalmente, esse tipo de teste cego é praticamente impossível em programas esportivos. Não se sabe também qual o papel desempenhado pelo apoio social mútuo, já que quando a pessoa corre, faz exercícios ou anda de bicicleta em grupo termina por desenvolver laços que podem influir em seu humor.

De maneira geral, a atividade física parece bastante adequada no caso de uma leve tendência à depressão ou de uma inquietação ansiosa. Mas quando há sintomas graves e causas profundas, como um trauma, somente o exercício não é suficiente. O estudo já citado de­senvolvido por Karen Petty com jovens com sobrepeso nos leva a supor a mes­ma coisa. A "porção extra de esporte" fortaleceu a autoestima de participantes brancos - mas o mesmo não ocorreu com os de origem afro-americana! Nes­ses últimos, o desânimo aparentemente não apenas tinha raízes na insatisfação com a própria aparência, mas estava ligado a questões mais amplas, como a discriminação e marginalização social.

• Epigenética e cura

No caso de quadros de ansiedade e depressão a prática esportiva favorece a recuperação do controle sobre a própria vida, ajuda a pessoa voltar a fazer algo por si mesma e a desfrutar de um lugar no grupo de treinamento. E, ao que tudo indica, a prática regular diminui o risco de recaídas. Dez meses após o término do programa esportivo do estudo de Blumenthal, menos parti­cipantes retomaram o tratamento, em comparação com o grupo que recebeu medicamentos. Isso ocorreu principal­mente quando os pacientes continua­ram se exercitando de maneira regular depois do fim do experimento.

No entanto, independentemente das condições psíquicas, os efeitos positivos do exercício podem ser comprovados. A palavra mágica é "epigenética". Ela designa o complexo processo no interior das células que de­termina qual informação genética será lida em que momento e transformada em novas proteínas e substâncias mensageiras. Essas modulações genéticas também ajudam a determinar se - e quantos - novos receptores, liga&cc

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