Metamorfose do trabalho


Robôs, inteligência artificial e o envelhecimento da população estão mudando o que você entendia por futuro profissional. Saiba como trabalhar deve se tornar mais inseguro, mais social e mais humano.

Revista Galileu - por Tiago Cordeiro e Tiago Mali

Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha um ramo de atuação e um rumo pra vida. Escolha uma boa universidade, uma especialização, mas esteja preparado: você terá de rever suas escolhas. GALILEU vasculhou uma série de estudos sobre o futuro do trabalho e entrevistou especialistas renomados que indicam, todos, transformações rápidas. Mesmo quem já está no mercado terá de se acostumar com uma nova lógica, preveem. E ela envolve cada vez mais escolhas.

Projeções para 2020 ou 2030 de entidades como o Massachusets Institute of Technology (MIT) ou o Institute for the Future sugerem um trabalho mais humanizado, lidando com massas de dados, valorizando mais a sua rede de contatos e a sua empatia. Preveem, também, as "profissões que aparecerão no futuro", mas, sejamos claros, os próprios estudiosos admitem que não costumam acertar nesse ponto. Entenda a seguir como essas tendências mudarão o seu jeito de trabalhar e veja nos quadros como profissões tradicionais já estão sendo reinventadas.

• Faculdade basta?

Previsões sempre carregam incerteza, mas há algumas difíceis de errar. Quem duvida que em alguns anos a população mundial continuará envelhecendo, que a capacidade dos processadores aumentará e que teremos mais smartphones, mais dados à disposição de todos e mais robôs? Os impactos desses prováveis cenários, analisam os futurologistas, não devem ser pequenos.

Um consenso é que não bastará mais aplicar corretamente o conhecimento aprendido na faculdade. Ao estudar a criação de novas vagas de emprego nos Estados Unidos, a consultoria Mckinsey identificou que 85% delas exigiam que o candidato soubesse resolver problemas complexos, que requerem mais de uma área de conhecimento. O relatório O Futuro das Competências no Trabalho em 2020, do Institute for the Future, reforça a tendência. "Muitos dos problemas de hoje são complexos demais para serem resolvidos por uma disciplina específica. Requerem soluções transdisciplinares", diz o documento. Ser apto a uma abordagem transdisciplinar significa dominar profundamente um ramo do conhecimento, mas, ao mesmo tempo, conseguir "falar a língua" de outros. Se no século 20 foi exigido mais especialização, o futuro vai pedir mais interação com outras áreas. É por isso que bioinformática, biologia molecular e arquitetura digital são vistas como áreas em expansão.

É por isso também que vamos precisar de mais professores universitários. Será necessário criar esse contato com outras áreas do conhecimento constantemente, durante toda a carreira, não apenas na faculdade. "Já acompanhamos uma tendência de as pessoas estudarem mais e terem uma segunda carreira", diz Fernando Mantovani, diretor de operações na empresa de recrutamento Robert Half no Brasil. Essa tendência é também identificada por estudos da área. Um deles foi feito no ano passado pelo economista Bart Hobijn, do banco Federal Reserve de São Francisco, e mostra que mais da metade das vagas de emprego abertas nos Estados Unidos nos últimos anos foi preenchida por pessoas que trocaram de área. Outro levantamento, da Universidade do Arizona, mostrou que 54% dos trabalhadores americanos com mais de 40 anos estão buscando uma nova carreira. Essa tendência de mudança constante de trabalho levou a revista de negócios Fast Company a cunhar a expressão "Geração Fluxo". "Eles abraçam a instabilidade, toleram - e até curtem - recalibrar suas carreiras, modelos de negócio e premissas. Nem todos se juntarão à Geração Fluxo, mas, para ser bem-sucedido, indivíduos e empresas agora terão de se esforçar para se adequar a ela", define a publicação.

• Menos médicos, mais sensores.

Falta de doutores deve fazer enfermeiros e técnicos ganharem espaço no mercado de saúde, assim como diagnósticos digitais.

Se vamos falar de futuro. esqueça a polêmica do Mais Médicos. Não haverá médicos suficientes com ou sem programa - e isso em todo o mundo. Como os mais idosos requerem mais atenção médica. o envelhecimento da população levará a uma escassez de profissionais. Só nos EUA serão 45 mil faltando em 2020. prevê a Associação de Universidades de Medicina do país. A Organização Mundial de Saúde se preocupa tanto com isso, que chegou a passar resoluções para frear a migração de profissionais de países pobres para nações ricas, temendo deixá-Ios desassistidos.

Soluções que começam a aparecer para lidar com isso podem mudar significativamente o cotidiano das profissões ligadas à saúde. A rede LifeSpring, na Índia, coloca enfermeiros para fazer o atendimento básico e estimula os médicos a atuar apenas em casos mais complexos. O programa de telemedicina Medicall Home. na Colômbia. já atende 1 milhão de famílias, que fazem 90 mil ligações
mensais - o modelo é exportado para 30 países em desenvolvimento. A ideia é que formados em medicina tenham mais tempo para tarefas especializadas, como engenharia genética, criação de órgãos mecânicos e nanomedicina. Cuidar de pacientes e fazer diagnósticos simples ficaria a cargo de outros profissionais.

Este tipo de mudança encontra resistência na comunidade médica. O Congresso Nacional aprovou recentemente o Ato Médico, que proibia que uma série de servi&cce edil;os fossem feitos por "não-médicos", mas a presidente Dilma vetou as restrições, o que levou a categoria a protestar. "A hegemonia dos médicos sobre o tratamento das doenças já é coisa do passado", afirma o brasileiro Alexandre Kalache, que coordenou o programa de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde e hoje preside o Centro de Longevidade Internacional.

"Doenças crônicas podem, em grande parte, ser prevenidas, ou postergadas. Mas os médicos precisam conhecer o paciente como pessoa, e não como um fígado ou um coração isolados", diz Kalache. É dentro dessa abordagem que está em curso uma tendência de retomo do médico de família.
Nos Estados Unidos, uma empresa especializada neste tipo de serviço, a Carena, tem clientes do porte da Microsoft - os funcionários são atendidos por médicos ou enfermeiros, que usam um software de análise de dados para avaliar a gravidade do caso. Em 75% dos contatos, o problema é resolvido com uma entrevista por webcam. Já o médico americano Jay Parkinson levou a experiência do atendimento online a um novo estágio. Ele criou em 2012 a startup Sherpaa, que coloca 100 especialistas à disposição, de forma remota, para tirar dúvidas dos 500 pacientes cadastrados - e, em casos mais graves, encomendar o caso ao hospital.

Outra tendência é que visitas anuais sejam complementadas por atendimentos por e-mail ou celular - afinal, com tecnologias de diagnóstico em casa, vai ser possível medir os níveis de glicose e colesterol no sangue com a mesma facilidade com que hoje usamos um termômetro. "Os aparelhos de diagnóstico caseiros vão estar disponíveis a qualquer momento. O passo seguinte vai ser softwares capazes de prever o aparecimento de doenças crônicas", diz a Ph.D. em ciências da computação canadense Carolyn Mcgregor, do Instituto de Tecnologia de Ontario. Um programa que ela criou em parceria com a IBM já consegue cruzar fluxos de dados para identificar uma infecção um dia antes de os sintomas aparecerem.

• Gestor de Conhecimento.

O professor do futuro vai orientar seus alunos em projetos - muitas vezes fora da sala de aula.

Alunos de idades diferentes, sentados ao redor de mesas circulares, usando notebooks para fazer deveres que vão muito além de preencher lacunas ou responder decorebas. O lugar do professor na sala de aula do futuro deve ser monitorar, tirar dúvidas e avaliar projetos que alunos trabalham, com metas. Isso já é o que acontece em algumas escolas de vanguarda. Inclusive no Brasil.

No Colégio Estadual José Leite Lopes, que desde 2008 é a sede de um projeto-piloto, Núcleo Avançado em Educação (Nave), 420 estudantes de Ensino Médio conciliam o currículo tradicional com cursos técnicos em Programação de Jogos Digitais, Multimídia e Roteiro para Mídias Digitais. As lições de casa são armazenadas em um pen drive, que cada aluno recebe ao se matricular. Para concluir o curso, é preciso desenvolver um projeto em uma das três áreas escolhidas - ele precisa ser funcional e viável economicamente. O ensino por projetos, com turmas de idades diferentes, também é colocado em prática na Escola Municipal André Urani, na favela da Rocinha, Rio de Janeiro. Desde março, o Ginásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais (Gente) disponibiliza um netbook para cada um dos 180 alunos, que são organizados em turmas de seis pessoas para realizar tarefas que conciliam lições tradicionais com videogames - quem acerta passa de fase e recebe problemas mais complexos.

Em nenhum desses projetos, o professor é substituido por aparelhos, mas em todos ele tem de mudar sua postura. "O estudante não fica parado, diante de um professor que detém todo o conhecimento. Ele busca o conhecimento, e o professor atua como um gestor", afirma o especialista em tecnologia de educação Marc Prensky, fundador da Game2train, uma empresa que fornece ferramentas de ensino à distância com base em games. Faz sentido, se levarmos em conta que, entre os brasileiros com 10 a 15 anos, dois terços têm celular e metade desse grupo usa o aparelho para acessar a internet (podendo checar as informações do professor), segundo a pesquisa TIC do centro de estudos Cetic.br.

Quanto menor a criança, mais tempo ela passará com outras, a fim de aprender a conviver em grupo, diz Prensky. A tendência. para ele. é que, na medida em que envelheçam, os estudantes estudem mais de casa - desde a adolescência, as aulas expositivas poderão ser gravadas pelo professor em vídeo. "Mais do que nunca, vamos estudar ao longo de toda a vida, fazendo cursos diferentes, mais curtos. E muitos vão estar disponíveis à distância, o que funciona melhor para pessoas mais velhas, que têm maior capacidade de se organizar e se concentrar sozinhas". afirma Prensky. Nos Estados Unidos, a instituição de cursos universitários à distância Coursera já reúne 1,7 milhão de alunos e ganha adeptos com mais velocidade do que o Facebook. No Brasil, 993 mil pessoas estão matriculadas em cursos superiores no mesmo estilo. "Eles não têm o mesmo valor de um diploma tradicional, mas dentro de alguns anos vão passar a ter", afirma o professor João Vianney Valle dos Santos, pesquisador do tema na Universidade Federal de Santa Catarina.

Neste cenário, os professores poderão ter vínculos menos estáveis com instituições de ensino e atuar como freelancers para aulas dentro de empresas, ou em diferentes escolas, mesclando participações físicas e cursos à distância. "Numa era de tanta informação disponível, mas nem sempre confiável, o professor é mais importante do que nunca", diz Maria Helena Bonilla, pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

• Era de ouro

Não se trata apenas de estudar outras áreas e trocar de ramo, mas também de lidar com muita informação. A IBM calcula que, em 2012, o mundo criou diariamente novos 2,5 quintilhões de bytes de dados (o suficiente para preencher 1 bilhão de livros com 10 milhões de páginas cada). Todos estamos expostos a parte dessa sobrecarga cognitiva, das dezenas de e-mails inúteis que recebemos por dia aos milhões de resultados de qualquer busca pela internet. Filtrar o que interessa, neste ambiente, tornou-se mais complicado. É por isso que os profissionais, daqui pra frente, terão de incorporar um quê de cientistas de dados.

A tendência afeta diferentes áreas, do técnico de futebol do Corinthians, que recebe relatórios de estatísticas sobre o desempenho e o desgaste físico de seus jogadores após cada jog bull; Era de ouro

Não se trata apenas de estudar outras áreas e trocar de ramo, mas também de lidar com muita informação. A IBM calcula que, em 2012, o mundo criou diariamente novos 2,5 quintilhões de bytes de dados (o suficiente para preencher 1 bilhão de livros com 10 milhões de páginas cada). Todos estamos expostos a parte dessa sobrecarga cognitiva, das dezenas de e-mails inúteis que recebemos por dia aos milhões de resultados de qualquer busca pela internet. Filtrar o que interessa, neste ambiente, tornou-se mais complicado. É por isso que os profissionais, daqui pra frente, terão de incorporar um quê de cientistas de dados.

A tendência afeta diferentes áreas, do técnico de futebol do Corinthians, que recebe relatórios de estatísticas sobre o desempenho e o desgaste físico de seus jogadores após cada jogo, aos policiais de Santa Cruz, na Califórnia, que todos os dias ganham listas com as probabilidades de vários crimes ocorrerem em diferentes regiões da cidade. "A capacidade de interpretar dados corretamente e extrair desse volume gigantesco de informações estratégias e iniciativas criativas será fundamental para o sucesso", afirma Erik Brynjolfsson, professor da MIT Sloan School of Management.

Cientistas de dados propriamente ditos, é claro, também serão cada vez mais requisitados. São eles que vão criar algoritmos ajudando a interpretar as massas de informação, seja para extrair sentido de bilhões de bases do genoma de uma pessoa, seja para analisar transações de cartão de crédito e identificar movimentações suspeitas. "Estamos observando o nascimento de uma era de ouro para os especialistas em estatísticas", diz Brynjolfsson.

São também os cientistas de dados os responsáveis por outra grande transformação: levar a automação de tarefas a um nível sem precedentes. As máquinas já conseguem, por exemplo, escrever uma notícia automaticamente ao conectar aos dados da bolsa. É isso o que faz o algoritmo da empresa americana Narrative Sciences, criado na Universidade Northwestern, para o site da revista Forbes e de mais 30 outras companhias. Além de redigir notícias de economia e de esportes, o serviço também pode criar análises financeiras para grandes empresas. "O que chamamos hoje de auditoria na contabilidade será feito automaticamente por sistemas inteligentes analisando transações em tempo real", diz Rohit Talwar, CEO da companhia de pesquisas Fast Future, que assessora o governo britânico em futurologia.

O fato de as máquinas cuidarem, cada vez mais, dos processos de rotina que hoje nos tomam muito tempo, "criará uma demanda por mais relações interpessoais", diz o futurólogo britânico Ian Pearson, autor do livro You Tomorrow. "O trabalho ficará mais humanizado." O que sobrará para nós será exatamente o que as máquinas ainda não podem fazer, atividades que requerem empatia e sociabilidade. De acordo com o economista Richard Freeman, professor da Universidade de Harvard, isso já está em curso. "As vagas de trabalho estão migrando rapidamente. Há menos emprego para funcionários que executam tarefas repetitivas."

Isso também levanta um aspecto preocupante. A nova leva de produtividade das máquinas substitui agora não apenas empregos no chão de fábrica, mas também trabalhadores na área de serviço, para onde historicamente têm migrado os empregos a cada leva de mecanização. Essa mudança fundamental explica em parte por que, pela primeira vez na história, o aumento da produtividade dos Estados Unidos não é acompanhado pelo aumento na oferta de trabalho. "A automatização da produção sempre foi acompanhada de uma melhoria geral na renda e na criação de novas oportunidades de trabalho, geradas pelo aumento do consumo", diz Brynjolfsson. "Este ciclo está se rompendo porque a automação está acelerada demais para que a criação de vagas acompanhe." A conclusão do professor do MIT, controversa entre outros economistas, é que pela primeira vez as máquinas provocarão desemprego estrutural - ou seja, não serão criadas vagas suficientes para ocupar as pessoas demitidas.

• Você mais social.

Há outro grande vetor de mudança que deve levar à humanização do trabalho: mais conectividade entre as pessoas. Hoje, segundo a União Internacional de Telecomunicações, existem 96,2 linhas de celular para cada 100 habitantes do mundo e 41,3% da população tem acesso à internet, números que tem crescido em ritmo acelerado. "Isso deve fazer com que a sua empatia e a sua rede de contatos sejam cada vez mais olhados como um ativo de peso no seu currículo", escreve Marina Gorbis, diretora executiva do Institute for the Future. "Importa cada vez mais quantas pessoas você consegue atingir. Se você tuita, quantas pessoas vão receber isso."

O novo ecossistema de comunicação possibilita e estimula o trabalho colaborativo, que reúne profissionais com talentos diferentes de quaisquer pontos do planeta para solucionar problemas complexos (lembra da transdisciplinaridade?) Vários estudos recentes mostram que os grupos mais inovadores e inteligentes são normalmente constituídos de pessoas de diferentes idades, habilidades, formação e estilos de pensar e agir. Ou seja, quanto mais diferença, melhor. Numa dessas pesquisas, Scott E. Page, diretor do Centro para Estudos de Sistemas Complexos da Universidade de Michigan, escreve que o desempenho de grupos de trabalho para resolver problemas "é tão influenciado pelas diferenças coletivas dentro do grupo quanto pelo QI individual de cada um dos participantes".

Com mais diversidade e conectividade, saber lidar com uma rede social de especialistas e ter bom relacionamento interpessoal pode valer tanto quanto entender profundamente de um assunto. "Temos exemplos de engenheiros que discutem problemas através do Facebooknuma das empresas que assessoramos", diz Fernando Mantovani, da Robert Half. "Se um deles tem dificuldade numa obra, posta para um grupo de engenheiros de obras. Meia hora depois, um colega, de outro estado, apresenta uma solução".

Outro exemplo disso são plataformas como a Innocentive, que colocam problemas na internet para qualquer pessoa, de qualquer área, solucionar. Elas criam competições valendo dinheiro para resolver questões que funcionários de empresas como a GE, P&G e Pfizer não conseguiram. Criar latinhas de refrigerantes melhores ou uma campanha de comunicação mais eficiente são alguns dos trabalhos postados na web para qualquer um que tiver ideias. É uma espécie de freelancer.

• Vida frila

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