Meu erro: entrei numa faculdade recém-criada


O médico David Uip diz que sua formação teórica foi prejudicada. Ele conta o que fez para suprir essa deficiência.

Revista Época - por Margarida Telles

" Os erros têm um papel im­portante em minha vida. Um deles ajudou a definir o profissional que me tornei. Cursei o primário num colégio de padres muito exigente, em São Paulo. Meu pai fez um acordo para eu entrar antes da idade, aos 5 anos. Eu era grandão, e ele temia que não me enquadrasse se entrasse mais velho. Disso vem meu primeiro grande erro. Terminei o colegial muito cedo. Decidi fazer a faculdade de medi­cina, sem ter ideia do que era importan­te avaliar num curso como esse.

Fui conhecer a Faculdade de Medi­cina do ABC e fiquei absolutamente encantado. Ela ficava num sítio ma­ravilhoso, achei que havia encontrado meu lugar. Prestei o vestibular e passei. Tinha apenas 17 anos. Perdi a motiva­ção para fazer as provas dos vestibulares tradicionais, para a Universidade de São Paulo ou a Unifesp.

Quando as aulas começaram, per­cebi que fora enganado. A faculdade bonitona era de filosofia e economia. A faculdade de medicina era um bar­racão, escondido estrategicamente atrás de um morro. Tínhamos as aulas teóricas em classes emprestadas pelas outras faculdades. Minha turma era a segunda em medicina da instituição. Eles não tinham nenhuma tradição na área naquela época. Foram seis anos de grandes dificuldades. Enfrentávamos problemas de todo tipo. Havia muita disputa política na direção. Demitiam nossos professores por motivos que a gente desconhecia. A faculdade estava sempre em greve, e minha formação ficou comprometida. Foi um grande erro. Encantei-me por uma faculdade sem pesquisar direito quanto ela era estruturada.

Quando identifiquei isso, passei a fazer atividades complementares para melhorar minha formação. Entrei no Projeto Rondon, que mobiliza estu­dantes universitários para trabalhar em comunidades vulneráveis. Isso foi marcante. No começo, fazia visitas es­porádicas ao projeto, no Vale do Jequiti­nhonha. Depois, virei subcoordenador da área de saúde. Ter contato com toda aquela pobreza foi um dos motivos que me fizeram escolher minha especialida­de: a infectologia.

Percebi que a grande oportunidade para tirar o atraso em minha formação teórica era fazer uma boa residência. Estudei muito para entrar no Hospital das Clínicas (HC). Eram apenas duas vagas para alunos de fora da USP. Uma delas foi minha. Meu primeiro plan­tão no HC foi numa Quarta-Feira de Cinzas, em uma Unidade de Terapia Intensiva. Fiquei a noite toda lá, com doentes graves, morrendo de medo de fazer besteira. Nunca tinha visto nada disso de perto na faculdade. Percebi que tinha muito a aprender. Virei um rato de hospital, não saía mais de lá.

São 36 anos desde que me formei. Olhando para o passado, percebo que a angústia que senti para tirar o atraso em minha formação me ajudou em muitas conquistas. Essa inquietação passou a fazer parte do médico que sou. Em infectologia, isso é essencial. Nunca deixei de estudar, de me atualizar.

Há dez anos, voltei para a faculdade de medicina do ABC, mas como professor titular. Ela ganhou novos cursos e passou a atuar nos hohospitais da região. Hoje posso dizer que a faculdade de instalações precárias que estudei não existe mais.

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