Missão Possível


Transformar-se em alguém capaz de realizações notáveis é uma meta viável, mas que exige muito esforço. Frequentar ambientes criativos, bobardear a mente com novidades e pôr os neurônios para trabalhar fazem parte do processo. Não sabe por onde começar? Continue a leitura.

Revista Galileu - por Juliana Tiraboschi 

Mark Zuckerberg não teve uma infância muito diferente da de milhões de crianças norte-americanas. Nascido num subúrbio de Nova York em 14 de maio de 1984 e filho de um dentista e microempresário, passava boa parte dos seus dias entre videogames e navegações pela internet. Em vez de reprimi-lo ou pelo menos controlar o tempo que o garoto gastava na frente do computador, seu pai o incumbiu de criar um programa para gerenciar o negócio da família.

Antes de entrar na faculdade, Zuckerberg juntou-se ao amigo Adam D"Angelo para criar o tocador de mídia Synapse. Apesar de não ter feito um sucesso retumbante, o produto foi considerado genial pelas gigantes Microsoft e AOL, que ofereceram a Zuckerberg um posto em suas equipes de criação e desenvolvimento. A maioria de seus colegas daria um braço por essa oportunidade, mas ele não se deixou seduzir e foi cursar a Universidade Harvard. Ali, integrou uma comunidade de geeks chamada Alpha Epsilon Pi e, no seu quarto de estudante, criou uma rede de relacionamentos que seus companheiros de fraternidade juravam que jamais daria certo. Hoje o Facebook é o sexto site mais visitado da internet, e Zuckerberg, aos 24 anos, é considerado o mais jovem bilionário da História, segundo a revista "Forbes".

Um garoto dotado de um QI extraordinário? Um superdotado que recebeu um cérebro fora do comum? Pode até ser que sim, mas novos estudos mostram que, para atingir o nível de excelência que Zuckerberg transformou em realização, outros fatores são tão fundamentais quanto uma mente que brilha. No caso de Zuckerberg, o apoio paterno, o ambiente criativo de sua confraria na universidade e a disposição para pensar diferente de seus pares fizeram com que ele deixasse para trás seus colegas de ciência da computação de Harvard - faculdade que, aliás, nem concluiu, ocupado que está em administrar sua empresa, que vale pelo menos US$ 1,5 bilhão.

Para o psiquiatra norte-americano Gregory Berns, a disponibilidade de Zuckerberg para pensar diferente e contrariar o ceticismo dos seus colegas de Harvard foi a senha com a qual o criador do Facebook abriu a porta do sucesso no mundo dos negócios. Professor da Universidade de Emory (EUA), Berns é autor do recém-lançado "Iconoclast", livro ainda inédito no Brasil no qual procura decifrar por que apenas alguns de nós atingem tal grau de excelência. Segundo ele, a resposta está na atitude, consciente ou não, de entender a criação também como um ato de destruição. "Para inventar algo novo, é preciso derrubar modos convencionais de pensar", diz.

  • Gosto pelo novo

Para os "pensadores convencionais" dos EUA nos anos 1920, a única função dos desenhos animados era servir de suporte para as propagandas exibidas nos cinemas antes do filme. Isso perdurou até o dia em que um ilustrador da companhia Kansas City Slide viu na telona uma animação publicitária na qual trabalhou e teve a ideia de tentar transformar os desenhos em atrações principais. Colocou o projeto em prática e, já no final daquela década, o mundo se divertia nos cinemas com os desenhos de Mickey Mouse, obra do ex-ilustrador Walt Disney.

Ideias inusitadas não são necessariamente boas ideias. Há um longo caminho até torná-Ias notáveis. E o primeiro passo, segundo Berns, é bombardear o cérebro com coisas inéditas. "Os iconoclastas, ao menos os bem-sucedidos, possuem uma afinidade extraordinária por novas experiências." A novidade liberta a mente do passado e força o cérebro a fazer novos julgamentos. Porém, avisa o psiquiatra, há um obstáculo: na maioria das pessoas, uma situação inédita ativa o circuito da resposta ao medo, principalmente da incerteza e de passar ridículo em público. E esse medo pode ser paralisante.

Graças a um sujeito sem medo da incerteza e do ridículo, a bossa nova ganhou a batida de violão que a consagrou. João Gilberto teve coragem para sair de Juazeiro, no interior da Bahia, e tentar a carreira artística em Salvador e, depois, no Rio de Janeiro nos anos 1950. O começo foi promissor, pois logo ele assumiu o posto de vocalista principal no grupo carioca Garotos da Lua. Mas a indisciplina provocou a sua expulsão. Sem dinheiro, não ficou constrangido em morar de favor na casa de conhecidos. Pelo contrário. Ficava trancado no quarto com o violão. E, em alguns casos, só abria a porta para pegar comida deixada ali pelos anfitriões.

Além de, como João, vencer o estágio do medo das incertezas, o iconoclasta em busca da excelência também deve ser acima da média no quesito inteligência social. Isso porque é preciso convencer os outros a acreditarem em suas ideias. De que adianta criar um novo produto, por exemplo, se não conseguir persuadir ninguém a investir nele? "O iconoclasta navega através de uma dinâmica rede social e produz mudanças que começam com a percepção diferenciada e terminam com uma transformação efetiva nas outras pessoas", afirma o psiquiatra.

  • Golpe de vista

Por fim, para transpor a linha que separa a excelência do sucesso, na visão do autor, é necessário afinar a sensibilidade e aguçar a empatia. É preciso entender como o outro pensa e perceber seu entusiasmo ou rejei& ção. A dificuldade, aqui, é que essa inteligência social depende da percepção, e a própria percepção está ligada às relações sociais. Pensar diferente de todo o mundo e quebrar esse ciclo é, segundo o autor, a chave para se destacar na multidão.

E, quando Berns fala em percepção, ele se refere tanto à maneira de pensar e atribuir significado quanto à visão literal, enxergar "com os olhos" mesmo. Treinar um novo olhar pode até ser uma escolha acidental. Exemplo disso é o caso do escultor americano Dale Chihuly, consagrado por seu trabalho em vidro. Em 1976, o artista sofreu um acidente de automóvel, no qual perdeu a função de seu olho esquerdo, prejudicando sua visão periférica e a noção de profundidade. A partir do acidente, o trabalho de Chihuly tornou-se mais assimétrico e criativo, abandonando as formas tradicionais. Desde que os venezianos criaram a arte de soprar vidro, no século 13, a simetria é a característica mais valorizada nos objetos. Exibir publicamente trabalhos que não prezam por essa característica era impensável até Chihuly começar a fazer isso. Ele subverteu as regras e inovou porque, literalmente, mudou seu modo de ver as coisas.

Exemplo menos extremo do desenvolvimento de uma nova perspectiva na criação é o do engenheiro elétrico Nolan Bushnell, criador do "avô de todos os videogames", o Pong, uma versão digital ultrassimples do tênis de mesa. Antes da invenção que lhe rendeu fama, Bushnell havia bolado, no início dos anos 1970, o jogo "Computer Space", uma batalha entre uma espaçonave e um disco voador que foi instalada em bares dominados por máquinas de pinball. Fracasso colossal: ninguém sabia como jogar (naquela época, videogame era algo muito, muito estranho). O engenheiro não ativou a resposta ao medo. Fundou sua própria empresa, a Atari, e decidiu levar o Pong para as ruas. Pouca gente botou fé. Afinal, se alguém queria jogar pingue-pongue, por que não o fazia "de verdade", em vez de em uma tela? Bushnell pensava diferente e apostou na simplicidade viciante de sua criação. Resultado: duas semanas após ter sido instalada em um bar, a máquina de Pong deu pau. Não por um defeito no equipamento, mas porque estava lotada de moedas dos frequentadores, um sucesso absoluto.

Inteligência, perspicácia e persistência explicam parte do êxito. Mas uma olhada na biografia de Bushnell mostra que há outros fatores a serem considerados. Ele estudou engenharia elétrica na Universidade de Utah nos anos 1960. Ali, juntou-se a uma fraternidade de estudantes de ciência da computação. Por fim, trabalhou num parque temático, onde pôde desenvolver suas habilidades para criar jogos eletrônicos. Como no caso de Mark Zuckerberg, fatores externos ajudaram o engenheiro a conquistar o êxito. Não bastou pensar diferente.

E é por aí que envereda uma tese do jornalista, escritor e sociólogo britânico Malcolm Gladwell. Em seu novo livro, "Fora de Série - Outliers" (Editora Sextante), lançado em dezembro, ele se debruça sobre estudos e histórias de gente bem-sucedida para defender a tese de que a excelência depende tanto das circunstâncias quanto do talento, da inteligência e do esforço. Gladwell afirma que, para entender por que algumas pessoas se destacam, é preciso analisar família, cidade natal, cultura, classe social, o ano em que nasceu e por aí vai. Autor de obras como "Ponto de Desequilíbrio" (2000) e "Blink, a Decisão num Piscar de Olhos" (2005), traduzidos para 25 países e que já venderam mais de 4,5 milhões de cópias -, ele diz que nós entendemos mal a concepção de sucesso, ao tentar explicá-Io apenas pelo mérito individual. Sua tese é a de que inteligência não basta para que sinapses sejam convertidas em realizações grandiosas.

  • Horas de treino

Um dos exemplos mais emblemáticos expostos em "Fora de Série" é Bill Gates. Para Gladwell, o criador da Miicrosoft é obviamente brilhante, mas foi favorecido pela conjuntura desde cedo. Em sua escola, havia um clube de computação com máquinas sofisticadas. Além disso, o então programador teve a sorte de viver perto da Universidade de Washington, onde também teve contato com computadores muito mais complexos. Quando resolveu dar início à sua empresa de softwares, Gates já tinha praticado o ofício que o fez famoso sem parar por sete anos consecutivos.

Ou cerca de 10 mil horas. Segundo os cálculos que Gladwell tomou emprestados de pesquisas anteriores, essa é a quantidade de tempo que alguém deve suar para atingir a excelência em qualquer área. E essa é a intersecção entre as ideias do britânico e as dos estudiosos que defendem que o esforço individual é a principal ferramenta para chegar lá - quer esse lá seja o desempenho notável, uma montanha de dólares, ou a fama. Um estudo do psicólogo K. Anders Ericsson, da Universidade da Flórida (EUA), com alunos da Academia de Música de Berlim, nos anos 1990, corrobora a tese das 10 mil horas.

Em sua pesquisa, Ericsson dividiu os violinistas da escola em três grupos. No primeiro estavam as estrelas, com potencial para chegarem a grandes solistas. No segundo, os apenas bons. No terceiro, aqueles que provavelmente não se tornariam profissionais e tinham somente a intenção de se tornarem professores de música. Todos os estudantes começaram a tocar com cerca de 5 anos. Ao chegarem aos 20, os alunos do primeiro grupo já tinham atingido ou ultrapassado as 10 mil horas de estudos e confirmaram a condição de grandes solistas. Os do segundo grupo chegaram a 8 mil, e os do terceiro, a apenas 4 mil.

Exemplo nacional dessa tese é Machado de Assis. No dia 12 de janeiro de 1855, quando ele tinha 16 anos, a revista "Marmota Fluminense" publicou "Ela", o primeiro poema do autor. Entre esse começo e 1864 - ano em que estreou nas livrarias com "Crisálidas" -, ele foi aprendiz de tipógrafo, revisor e colaborador da publicação que o lançou, membro da confraria lítero-humorística Petalógica, colaborador das revistas "O Espelho" e "A Semana Ilustrada", além dos diários "Jornal das Famílias" e "Diário do Rio de Janeiro". Ou seja, uma década antes de começar a produzir seus clássicos, Machado já havia acumulado mais que as 10 mil horas de lida com as letras.

fy">Exemplo nacional dessa tese é Machado de Assis. No dia 12 de janeiro de 1855, quando ele tinha 16 anos, a revista "Marmota Fluminense" publicou "Ela", o primeiro poema do autor. Entre esse começo e 1864 - ano em que estreou nas livrarias com "Crisálidas" -, ele foi aprendiz de tipógrafo, revisor e colaborador da publicação que o lançou, membro da confraria lítero-humorística Petalógica, colaborador das revistas "O Espelho" e "A Semana Ilustrada", além dos diários "Jornal das Famílias" e "Diário do Rio de Janeiro". Ou seja, uma década antes de começar a produzir seus clássicos, Machado já havia acumulado mais que as 10 mil horas de lida com as letras.

  • Existe talento?

Se Gladwell contabiliza as horas de esforço, Geoff Colvin, editor sênior da revista "Fortune", trata de qualificá-Ias. Em seu livro "Talent Is Overrated" (O Talento É Superestimado, ainda sem tradução para o português), ele defende o que chama de "prática ponderada". Ela, e não um treino qualquer - mesmo daqueles mais extenuantes e frequentes -, é a responsável por tornar notáveis apenas alguns mortais.

O autor começa a defender a sua ideia desbancando a necessidade e até a existência do talento. "Quando tentamos coisas e elas não vêm com a naturalidade esperada, concluímos que não temos talento para a coisa. Mas as biografias de gente bem-sucedida mostram poucos sinais de habilidades precoces antes do início de um treino intensivo", escreveu ele.

Um exemplo, segundo o autor, é Jack Welch, lenda no mundo dos negócios. Com um Ph.D. em engenharia química no currículo, ele chegou a prestar concursos para seguir a carreira acadêmica em duas universidades. Não obteve sucesso. Aceitou então um convite para exercitar seus estudos de química na General Electric. Foi subindo na hierarquia e se afastando da ciência responsável por sua contratação. Revelou-se um executivo brilhante e acabou desenvolvendo uma maneira de administrar que o tornou um dos maiores gurus do mundo corporativo.

Na visão de Colvin, se o responsável pela ascensão do administrador fosse apenas talento, das duas uma: ou Welch teria optado por administração na faculdade, ou hoje ainda seria um guru, mas da química. Para dar mais força a sua tese, o autor se debruça sobre outras ideias, como o fato de, por definição, o talento ser inato. Assim, deveria haver um gene responsável pela predisposição de alguns indivíduos serem excelentes. "O problema é que os cientistas ainda não encontraram qual, entre os nossos mais de 20 mil genes, aquele capaz dessa proeza." Sem o auxílio genético, não há outra saída, segundo Colvin: o atalho mais eficiente para a excelência é a prática ponderada. Nesse caso, o adjetivo "ponderada" é fundamental para distanciar a sua ideia de máximas do tipo "o treino leva à perfeição". O autor divide sua tese em sete pontos.

  • Autoflagelação

1) A essência da prática ponderada é a constante ampliação da destreza de um indivíduo além de suas habilidades atuais. Para tanto, é preciso que o candidato à excelência consiga diagnosticar os pontos que precisam ser melhorados e trabalhar neles com determinação. O plano B é contar com um mentor que faça o diagnóstico e trace um plano de treinamento. Em casos raríssimos, esse mentorado bem-sucedido se desenvolve em casa. Pablo Picasso, Mozart e Pelé são exemplos de gênios que tiveram pais que conheciam o ofício que os consagrou e traçaram as práticas ponderadas dos filhos desde a infância.

2) O aspecto fundamental que diferencia o tipo de prática que o autor defende das demais é a quantidade de repetições. Como em qualquer atividade cuja meta seja a excelência, elas têm de ser extenuantes. A diferença é que, para chegar à condição daquilo que o autor define como "top performer", é preciso sempre procurar atividades que vão além das habilidades que já dominamos. O caso do golfista norte-americano Tiger Woods é exemplar. Ele passa horas treinando como golpear uma bola soterrada em um banco de areia, embora lide com essa situação não mais que um par de vezes durante toda uma temporada.

3) A importância da avaliação. Às vezes, nem um jogador experiente como Woods sabe quando chegou lá e está na hora de dar o passo seguinte. Raros são aqueles que, de forma isenta, julgam o próprio desempenho. A tendência natural é valorizar os acertos e subvalorizar possíveis deslizes ou equívocos. A cabeça dos "top performers" funciona de maneira inversa. E, mesmo entre eles, a avaliação de um treinador ou mentor pode ser vital em alguns momentos.

4) Como todo treino, a prática ponderada exige foco e concentração. A diferença é que ela demanda um esforço cerebral constante, exaustivo e distante de qualquer coisa que possa parecer mecânica. Claro que não há ser humano, mesmo o mais genial, que suporte uma carga dessa por períodos muito longos. Mas, segundo Colvin, a recompensa sempre chega. E dá como exemplo o caso de Nathan Milstein, um dos maiores violinistas do século passado. Ele tinha a sua rotina de prática planejada por seu professor, Leopold Auer. Ao perguntar ao mestre se treinava o bastante, o pupilo ouviu: "Pratique com os seus dedos, e isso vai tomar todo o seu dia. Agora, se você praticar com a sua mente, vai obter resultado melhor em uma hora, uma hora e meia".

5) É preciso muita determinação para se distinguir dos outros mortais. Indispensável para os interessados em se envolver num tipo de treinamento que significa tudo exceto prazer. A menos que o candidato a excelente julgue prazerosas atividades como ficar o tempo todo diagnosticando aquilo em que não é bom e, meticulosamente, desenvolver as árduas repetições que irão ajudá-Io a superar as deficiências.

6) O estabelecimento de metas facilita o ponto anterior. Elas devem ficar entre o facilmente realizável e o aparentemente intransponível. O autor lembra ainda que os "top perrformers" não estipulam seus objetivos tendo em mente o resultado final, mas sim concentrados no processo que pode levar até esse resultado. Esse é um ingrediente indispensável na receita que mantém c

    Leitura Dinâmica e Memorização

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