Mitos do amor-próprio.


Mitos do amor-próprio.

Revista Mente & Cérebro por Roy F. Baumeiste, Jennifer D. Campbell, Joachim I. Krueger e Kathleen D. Vohs.

Autoestima elevada não é sinônimo de felicidade; pesquisas comprovam que o esforço para melhorar a forma de nos vermos tem poucos resultados.

A importância da autoestima para o bem-estar físico e psicológico transformou-se em senso comum. Quando depreciada, ela estaria na raiz de uma série de problemas e distúrbios, se valorizada, traria sucesso profissional, afetivo e social — pelo menos é o que sugerem muitos livros de autoajuda, programas de televisão, professores, terapeutas. Mas há quem tenha ido mais longe.

Em 1980, o então governador da Califórnia George Deukmejian lançou uma campanha para elevar a autoimagem e a responsabilidade pessoal e social dos cidadãos daquele estado. O argumento era que uma boa avaliação de si reduziria o crime, a gravidez na adolescência, o abuso de drogas, o fracasso escolar e até a poluição ambiental. Esperava-se também maior equilíbrio fiscal, já que as pessoas que se avaliam bem teriam maior renda e, logo, pagariam mais impostos. Os resultados da campanha apareceram num relatório de 1989, porém sem dados convincentes. De lá para cá centenas de estudos sobre avaliação foram publicados, mas infelizmente os pesquisadores envolvidos no projeto da Califórnia não se interessaram em conhecê-los. Com o apoio da Sociedade Americana de Psicologia, nós quatro fizemos uma ampla revisão do tema.

Atraentes e populares.

Aferir autoestima requer, antes de mais nada, uma maneira sensata de medi-la. A maioria dos pesquisadores apenas pergunta às pessoas o que pensam de si mesmas. Evidentemente, as respostas podem ser maquiadas pela tendência de aparentar bem-estar. Entretanto, até hoje ninguém inventou um método melhor para avaliar autoestima — o que é preocupante, mas não limitante.

Em geral, as pesquisas costumam explorar as correlações entre autoestima e outros atributos, como atratividade física, por exemplo. Pode parecer plausível que pessoas fisicamente atraentes tenham elevada autoestima, talvez porque sejam mais bem tratadas, mais populares e valorizadas. É possível, porém, que quem se autoavalie bem apenas se gabe de ser fisicamente interessante ou ainda que, embora seja considerada uma pessoa bela, isso não seja suficiente para que se convença. Portanto, tudo depende da forma como esses atributos são percebidos pelo indivíduo e mensurados.

Os pesquisadores, Edward Diener e Brian Wolsic, da Universidade de Illinois, e Frank Fujita, da Universidade de Indiana, em South Bend, avaliaram a autoestima de uma grande amostra da população, cujos indivíduos foram fotografados. Os retratos foram apresentados a um júri, que os analisou quanto à atratividade. As avaliações baseadas em fotografias de corpo inteiro não se correlacionaram com os níveis de autoestima. Foi observada uma relação fraca com as fotos de rosto, mas os pesquisadores suspeitaram que as pessoas com autoimagem mais alta se preocupariam mais com a aparência. A suspeita foi confirmada. Quando os jurados observaram as fotos do rosto dos participantes sem nenhum tipo de adorno, a modesta equiparação entre atratividade e autoestima caiu a zero. O mesmo estudo, entretanto, verificou uma forte correlação positiva entre esses dois aspectos apenas quando ambas eram declaradas pelo próprio participante.

A discrepância é significativa. O que inicialmente parecia ser uma forte relação entre boa aparência física e amor- próprio elevado resultou apenas na constatação de quão generosas as pessoas podem ser consigo mesmas. Fenômeno paralelo afeta aqueles com pouco apreço pessoal, que tendem a avaliar muito mal, e não somente a si próprios, mas a tudo e a todos. Essa tendência distorceu certas opiniões. Por exemplo, alguns psicólogos acharam que indivíduos com baixa autoestima eram especialmente preconceituosos. Em estudos anteriores, pessoas que haviam avaliado grupos aos quais não pertenciam aparentemente confirmavam essa hipótese, que logo foi questionada por pesquisadores mais cuidadosos, como Jennifer Crocker da Universidade de Michigan, em Ann Arbor. Afinal, seria impróprio rotular pessoas (que já se avaliam mal) como preconceituosas apenas porque classificam igualmente mal pessoas diferentes delas —até porque quem tem autoestima elevada pode ser mais preconceituoso ainda.

Dada a natureza quase sempre enganosa dos relatos pessoais, organizamos nossa revisão de forma a enfatizar, sempre que possível, a mensuração objetiva — exigência que diminuiu enormemente o número de estudos relevantes (demais de 15 mil para cerca de 200). Também fomos cuidadosos em evitar outra falácia: a suposição de que a correlação entre a autoestima e algum comportamento desejável signifique causalidade — esse é o cerne da questão. Se o aumento do amor-próprio trouxer consequências positivas, talvez realmente valha a pena o esforço para estimulá-lo. No entanto, se as correlações significam simplesmente que uma autoimagem positiva é resultado de sucesso ou de bom comportamento (o que é bem plausível), não se ganharia muito com essa empreitada.

Aprender melhor.

Começamos nossa revisão por estudos que relacionaram autoestima e desempenho acadêmico. Tínhamos muitos motivos para supor que o fortalecimento da imagem pessoal seria muito útil para estudantes. A lógica sugere que uma boa dose de amor- próprio estimula o empenho e a participação na escola. Alguns trabalhos mostraram correlações positivas, mas outros mais recentes levantaram sérias dúvidas.

Estudo de 1985 de Sheila M. Pottebaum, Timothy Z. Keith e Stewart W. Ehly, todos então da Universidade de Iowa, aponta que inferências sobre causalidade são possíveis. Eles testaram mais de 23 mil jovens que cursavam o que corresponde à primeira e à terceira séries do ensino médio. Ve erificaram que, na primeira série, a autoestima é apenas um vago indicador do desempenho dois anos depois. E o inverso: o resultado acadêmico na primeira série correlacionou-se fracamente com a autoimagem na terceira série. Esses dados estão de acordo com outras pesquisas e não indicam que o aumento do amor-próprio ofereça benefícios aos alunos.

Mesmo que a autoestima mais alta não fomente o progresso acadêmico, será que pode ter consequências na vida profissional? Aparentemente não. As pesquisas sobre essa relação apenas ecoam o que já foi observado no âmbito escolar: apesar de promover resultados sugestivos, a busca por correlações não demonstra que boa imagem de si leva ao sucesso profissional ou vice-versa.

A incapacidade de melhorar o desempenho escolar ou profissional poderia ser compensada se a autovalorização ajudasse as pessoas a se relacionar melhor. Uma ideia positiva de si mesmas as toma mais sociáveis, já que todo mundo prefere se associar a indivíduos confiantes. Quem tem boa avaliação de si próprio geralmente se declara popular, e classifica suas amizades como de qualidade superior às das pessoas com autoestima depreciada, que relatam mais interações negativas e menos contato social. Mas declarações não refletem a realidade, como mostraram julia Bishop e Heidi M. lnderbitzen-Nolan, da Universidade de Nebraska-Lincoln, em 1995. Elas pediram a mais de 500 alunos que indicassem os colegas de quem gostavam mais e menos. A classificação resultante não apresentou correlação alguma com os níveis de autoestima.

Outros pesquisadores concluíram que ocorre o mesmo em relação aos adultos. No fim da década de 80, Duane P. Buhrmester, hoje da Universidade do Texas, em Dallas, observou que universitários com autoimagem alta declararam-se mais hábeis para iniciar relacionamentos e mais seguros em relação a críticas, mais dispostos a dar apoio emocional e gerenciair conflitos interpessoais. Contudo, a forma como seus colegas de quarto os classificaram refletiu situação diferente. Para quatro das cinco habilidades interpessoais avaliadas, a correlação com a autoestima foi praticamente nula. Foi significativa, porém, a relação com a habilidade para iniciar contato social e amizades. Essa parece ser uma esfera na qual a confiança realmente importa: pessoas que se acham desejáveis e atraentes devem ter prazer em iniciar conversas com estranhos, enquanto aquelas com imagem depreciada seriam mais tímidas e temeriam mais a rejeição.

E natural pensar que tais diferenças poderiam interferir na vida amorosa. Sandra L. Murray e colegas da Universidade de Buffalo observaram, em 2002, que pessoas com pouco amor- próprio tendem a desconfiar de expressões de amor e de apoio do companheiro, como se estivessem sempre à espera da rejeição. No entanto, até agora ninguém encontrou evidências de que seus relacionamentos duram menos. Ao contrário, a autoimagem elevada pode ser ameaça maior: essas pessoas mostram-se mais dispostas a reagir rompendo relações e buscando outros parceiros, como demonstraram, em 1987, Caryl E. Rusbult, Gregory D. Morrow e Dennis J. Johnson, todos então da Universidade de Kentucky.

Resultados de pesquisas não confirmaram a ideia de que o menosprezo de si predispõe adolescentes à atividade sexual precoce menos inibidos e mais dispostos a ignorar riscos. Entretanto experiências sexuais desagradáveis e gravidez indesejada surgem com mais frequência entre os que se avaliam mal.

Abuso de drogas é outro assunto que preocupa pais e psicólogos. Muitos acreditam que o problema seria amenizado se os jovens tivessem mais cuidado e respeito consigo mesmos. Supunha-se que quem estivesse fragilizado faria mais uso de álcool e outras drogas para se consolar. Vários estudos não confirmaram a hipótese. Um deles, realizado em 2000 por Rob McGee e Sheila M. Williams, da Faculdade de Medicina da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, não encontrou correlação entre autoestima e abuso de drogas em jovens na faixa dos 9 aos 15 anos.

Algumas evidências, contudo, apontam para uma associação entre imagem pessoal alta e consumo frequente de álcool, embora outras mostrem o contrário. Encontramos ainda alguns estudos sugerindo que uma percepção depreciada de si contribui para o abuso de substâncias ilícitas. Em 1997, judy A. Andrews e Susan C. Duncan, do Instituto de Pesquisas Oregon, relataram níveis decrescentes de motivação acadêmica (o principal foco do estudo) relacionados com declínio da autoestima e uso de maconha, embora a correlação não fosse muito forte.

Pessoas com diferentes maneiras de se ver uma enquadram-se em categorias extremamente heterogêneas — o que interfere nas conclusões. A interpretação dos dados sobre abuso de drogas é um exemplo das dificuldades encontradas por pesquisadores para fazer afirmações categóricas. Vale o mesmo para o uso de tabaco.

Os mais brigões.

Durante décadas, os psicólogos acreditaram que a autoestima depreciada era uma causa importante da agressividade. Um de nós (Baumeister) desafiou essa ideia em 1996, ao revisar vários estudos e concluir que os agressores geralmente têm uma visão favorável e às vezes até exagerada de si mesmos.

Tomemos como exemplo as brigas entre crianças, uma forma corriqueira de agressão. Dan Olweus, da Universidade de Bergen, Noruega, foi um dos primeiros a contestar a ideia segundo a qual as crianças mais irritadas sofreriam de insegurança. Embora seu foco não fosse a autoestima, Olweus mostrou que os brigões eram menos ansiosos e mais seguros de si. Aparentemente, o mesmo se aplica a adultos violentos.

Após concluirmos que a visão valorizada de si mesmo não diminui a tendência à agressividade, não impede os adolescentes de apelar para álcool, drogas e sexo, e não melhora o desempenho acadêmico ou profissonal, o quadro mudou quando observamos sua relação com a felicidade. Pessoas com autoimagem elevada são significativamente mais felizes e têm menos tendência à depressão.

Um trabalho muito convincente foi publicado em 1995, depois que Edward F. Diener e sua filha Marissa, hoje psicóloga da Universidade de Utah, avaliaram mais de 13 mil universitários e descobriram que a autoestima alta era a principal causa da satisfação geral com a vida. Em 2004, Sonja Lyubomirsky, Chris Tkach e M.Robin DiMatteo, da Universidade da Califórnia de Riverside, constataram o mesmo em mais de 600 adultos entre 51 e 95 anos.

Contudo, são necessárias mais pesquisas para concluirmos com segurança que a imagem elevada traz felicidade. Em primeiro lugar, a relação de causalidade deve ser demonstrada. Por enquanto, a forte correlação entre autoestima e felicidade é apenas isso — uma correlação. Em segundo lugar, é preciso reconhecer que a felicidade (bem como a dep cativamente mais felizes e têm menos tendência à depressão.

Um trabalho muito convincente foi publicado em 1995, depois que Edward F. Diener e sua filha Marissa, hoje psicóloga da Universidade de Utah, avaliaram mais de 13 mil universitários e descobriram que a autoestima alta era a principal causa da satisfação geral com a vida. Em 2004, Sonja Lyubomirsky, Chris Tkach e M.Robin DiMatteo, da Universidade da Califórnia de Riverside, constataram o mesmo em mais de 600 adultos entre 51 e 95 anos.

Contudo, são necessárias mais pesquisas para concluirmos com segurança que a imagem elevada traz felicidade. Em primeiro lugar, a relação de causalidade deve ser demonstrada. Por enquanto, a forte correlação entre autoestima e felicidade é apenas isso — uma correlação. Em segundo lugar, é preciso reconhecer que a felicidade (bem como a depressão) foi estudada principalmente por meio de depoimentos pessoais, e a tendência ao pessimismo de algumas pessoas pode causar tanto uma má opinião sobre si mesmas quanto avaliações desfavoráveis de outros aspectos da vida, O ideal seria evitar o relato pessoal, mas não conhecemos um método melhor que possa substituí-lo. E óbvio que medições objetivas de felicidade e de depressão também são difíceis (se não impossíveis), o que não significa que os depoimentos devam ser coletados e aceitos de forma acrítica.

Então, qual é o caminho a seguir? Será que pais, professores e terapeutas devem perseverar na busca da melhoria da autoestima? Ao longo de nossa revisão da literatura, encontramos algumas indicações de que ela é atributo útil, que melhora a persistência diante do fracasso e facilita a convivência em grupo. Além disso, a autoimagem ruim é fator de risco para alguns distúrbios psíquicos, como a bulimia. Outros efeitos são difíceis de demonstrar objetivamente, embora estejamos inclinados a aceitar a evidência subjetiva de que um relacionamento saudável consigo mesmo faz com que as pessoas se sintam mais felizes.

Assim, uma dose de amor-próprio não faz mal a ninguém. Mas imagine também que a autovalorização demasiada poderia levar algumas pessoas a exigir tratamento preferencial ou a explorar seus colegas. Essas tendências trariam custos sociais consideráveis. A conclusão a que chegamos, depois de dois anos revisando a literatura, entretanto, é que não há evidências convincentes de que a chave para resolver muitos problemas da sociedade está na elevação da autoestima.

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