Mitos sobre o cérebro


O psicólogo Barry L. Beyerstein, morto em 2007, ajudou a derrubar falsas crenças - como a de que a maioria das pessoas usa apenas um décimo de sua capacidade mental .

Revista Scientific American - por Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz

Com pouco mais de 1 kg e consistência gelatinosa, o cérebro humano parece incrivelmente ineficaz quando observado ao vivo. Apesar disso é capaz de alcançar proezas intelectuais. Embora seja a base física de quase todos os aspectos do pensamento, da personalidade e da identidade - e nos últimos anos tenham sido feitas inúmeras descobertas sobre seu funcionamemo - existem ainda muitos conceitos errados sobre o órgão, não raro tomados como verdadeiros.

O professor de psicologia Barry L. Beyerstein. da Universidade Simon Fraser, no Canadá que morreu aos 60 anos, em junho de 2007 foi especialista em neuromitologia, o estudo dos mitos relacionados à estrutura e às funções cerebrais. Colaborador da Scientific American e da Scientific American Mind, Beyerstein cunhou o termo brainscams (algo como "enganos cerebrais") em um artigo de 1990 sobre as freqüentes tentativas de explorar a ignorância das pessoas. Entre os pontos mais comuns que Beyerstein questionou estão a idéia de que usamos apenas 10% do cérebro, de que os hemisférios direito e esquerdo têm funções distintas e muito específicas e que a estimulação das ondas alfa nos proporcionam maior grau de relaxamento.

  • O equívoco dos 10%

Essa concepção errônea está entre as mais enraizadas em toda a psicologia popular. Seu apelo sedutor é compreensível, pois amaríamos acreditar que nosso cérebro abriga um reservatório enorme de potencial não usado. O mito dos 10% contribuiu para a produção e a venda de milhões de livros de autoajuda e até de dispositivos, incluindo aparelhos disponíveis no mercado que supostamente nos permitiriam aproveitar nossas capacidades não realizadas.

Entretanto, a evidência científica contra essa idéia é esmagadora. Estudos com imageamento funcional do cérebro fracassaram diversas vezes nas tentativas de ativar qualquer região cerebral considerada inativa. Além disso, pesquisas feitas em indivíduos com lesões cerebrais revelam que um dano em qualquer área do cérebro produz algum déficit psicológico, ainda que temporário.

Como Beyerstein observou, o mito dos 10% deriva em parte da interpretação errada dos textos de William James (1842-1910), considerado um dos fundadores da psicologia nos Estados Unidos. Nos últimos anos do século XIX, James escreveu que a maioria das pessoas põe em prática apenas uma pequena parte de seu potencial intelectual, asserção que pode muito bem ter algum mérito. Mas diversos autores conhecidos - entre os quais Lowell Thomas, que escreveu o prefácio do best-seller de auto-ajuda Como fazer amigos e influenciar pessoas (How to win friends and influence people), de Dale Carnegie - tomaram certas liberdades com os escritos de James ao propor que usamos apenas cerca de um décimo das habilidades cerebrais. Estudos antigos sugerindo que uma parcela substancial do córtex cerebral é "silenciosa" contribuíram para ratificar essa idéia. Graças aos avanços das técnicas de medição da atividade cerebral sabemos agora que essas regiões estão longe de ser tão discretas assim - elas formam o que os neurocientistas chamam de "córtex de associação" e exercem uma função vital na conexão de percepções, pensamentos e emoções em diversas áreas cerebrais.

Um universo a ser desvendado

Sob muitos aspectos, o cérebro humano representa o ápice da evolução biológica, a estrutura mais sofisticada e misteriosa do universo, com trilhões de células que se desenvolvem, se diferenciam e se comunicam entre si. Cada neurônio mantém, em média, 10 mil contatos com outras células, perfazendo um total de 1016 conexões que formam a gigantesca rede por onde são transmitidos os impulsos elétricos. Alguns desses sinais percorrem metros até atingir o alvo, como os prolongamentos dos neurônios do córtex motor. Eles "viajam" até alcançar as regiões mais distantes da medula espinhal, onde contatam o neurônio motor secundário que, associado diretamente ao músculo, controla o movimento voluntário.

Características como linguagem, aprendizado e lógica são fruto da alta complexidade do cérebro humano. É nele que tomam corpo nossas capacidades de apreender, armazenar e elaborar informações que recebemos do ambiente. E nunca foi tão premente a necessidade de aprender mais sobre o funcionamento neural. O aumento da expectativa de vida elevou a incidência de doenças neurológicas e psiquiátricas. As síndromes que atingem o cérebro têm hoje grande impacto social. A doença de Alzheimer atinge milhões de pessoas no mundo e os casos de Parkinson são cada vez mais freqüentes. A epilepsia afeta cerca de 1 % da população de todas as idades e a esclerose multipla é um dos transtornos neurológicos mais disseminados entre jovens (um caso por 2 mil pessoas). Os dados aumentam quando se consideram os que sofreram algum transtorno psíquico grave ao longo da vida (estados profundos de depressão e stress, transtorno obsessivo-compulsivo ou alguns tipos de psicose).

Na maioria dos países, o elevado custo social dessas doenças tem estimulado a pesquisa científica, tanto pública quanto privada, a fazer um esforço sem precedentes para compreender a patogênese, os mecanismos biológicos e os fatores de risco, de modo a elaborar novas terapias farmacológicas, celulares ou genéticas. Ou seja: quando o assunto é o cérebro o humano, há cada vez menos espaço para a perpetuação de mitos. 

  • Os dois lados

Supostamente, pessoas que usam o lado esquerdo do cérebro são analíticas, lógicas e têm facilidade para comunicação orat enquanto as que utilizam o lado direito são mais criativas e têm talento para atividades artísticas. Um grande número de livros populares fixou-se nessa suposta dicotomia. No best-seller de 1972 The Psychology of consciousness, o psicólogo da Universidade Stanford, Robert Ornstein argumenta que a sociedade ocidental valoriza o pensamento racional enfatizando o desenvolvimennto do lado esquerdo do cérebro, e não confere suficiente importância ao pensamento intuitivo, mais específico do lado destro do órgão. Em Exercícios para desenhar com o lado direito do cérebro (Drawing on the right side of the brain) de 1979, livro ainda muito popular, principalmente nos Estados Unidos, a artista plástica e psicóloga Betty Edwards expõe os benefícios de exercitar práticas criativas e, assim, utilizar o lado direito do cérebro na expressão artística.

Apesar disso, como Beyerstein e o psicólogo Michael CorbaIlis, professor da Universidade de Auckland, obserrvaram, a dicotomia do lado esquerdo versus lado direito tem sido simplificada de forma grosseira. Para começar, essa distinção implica que pessoas com facilidade de comunicação oral não tenham talento artístico, embora as pesquisas mostrem justamente o contrário. Além do mais, estudos neurocientíficos sugerem que os dois hemisférios funcionam de forma coordenada.

Como muitos mitos sobre o cérebro, porém, esse também contém um fundo de verdade. Desde a década de 60, o neurocientista Roger Sperry, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, o psicólogo Michael S. Gazzaniga, pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, e seus colegas estudaram pacientes submetidos a cirurgia para separar o corpo caloso (um largo feixe de fibras neurais que ligam os dois hemisférios) na tentativa de interromper a epilepsia intratável. A pesquisa mostrou que os dois hemisférios são de fato muito diferentes. Na maioria das pessoas, o esquerdo especializa-se nos vários aspectos da linguagem, enquanto o direito cuida de boa parte das habilidades visuais e espaciais. Mesmo essas diferenças, no entanto, são apenas relativas: o lado direito, por exemplo, tende a ter um papel maior que o esquerdo na interpretação do tom vocal da linguagem falada. Além do mais, como praticamente todos temos um corpo caloso intacto , nossos hemisférios interagem de forma contínua.

Alguns pesquisadores têm encorajado as pessoas a se submeter ao biofeedback cerebral - em certos casos, usando aparelhos disponíveis no mercado - para aumentar a produção de ondas alfa (que ocorrem à freqüência de aproximadamente oito a 13 ciclos por segundo). Entretanto, pesquisas apontam que a produção dessas ondas é, em grande parte ou inteiramente, desvinculada de características de personalidade a longo prazo e estados de contentamento imediato. Ele não questiona a importância ou os benefícios da meditação ou do neurofeeedback, mas o papel das ondas neurais nesses processos.

Como Beyerstein observou, "o mito da consciência alfa" reflete uma confusão entre "correlação" e "causalidade". É verdade que as pessoas tendem a exibir uma proporção aumentada dessas ondas enquanto meditam ou relaxam profundamente. Mas isso não significa que uma produção aumentada dessa freqüência cause maior relaxamento. Além do mais, pesquisas mostram que níveis elevados dessas ondas são detectados em certas crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TOA/H) - que estão longe de ser calmas.

A verdade é que esses três mitos mal arranham a superfície do vasto campo da neuromitologia, mas dão uma idéia do valioso papel de Barry L. Beyerstein no combate aos conceitos errôneos do público a respeito da função cerebral. Felizmente, os fatos sobre a função do cérebro são em geral muito mais interessantes e surpreendentes que as ficções.

Para conhecer mais

Ciência psicológica - Mente, cérebro e pensamento. M. S. Gazzaniga e T. F. Haetherton. Artmed, 2005.
Neuroanatomia funcional. Ângelo B. M. Machado. Atheneu, 2005.
A mente certa: entendendo o funcionamento do cérebro. R. Orstein. Campus, 1998.
Fisiologia do sistema nervoso. Carlos Eyzaguirre e Salvatore Fidone. Guanabara Koogan, 1977.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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