Muito além do sofrimento físico


Psicanalista trata dor como uma emoção. Sem se preocupar com os caminhos e repercuções dos distúrbios dolorosos, ele busca sua origem psiquica.

Revista Scientific American - por Maria Maura Fadel

Quem não sente dor? Nem me refiro às angústias, às incertezas, aos sentimentos de inadequação, rejeição, solidão que, às vezes mais, às vezes menos, irremediavelmente nos assolam (e, se tomarmos como referência a psicanalista inglesa Melanie Klein, podemos dizer que esses dissabores afetam até mesmo os bebês). Mas não é prioritariamente sobre os incômodos psíquicos que me refiro. Também não é deles, pelo menos num primeiro momento, que trata J.-D Nasio, em A dor física, recém-lançado pela Zahar. Depois de bem-sucedidas incursões pelo universo dos tormentos dolorosos, com O livro da dor e do amor e A dor de amar, ambos publicados no Brasil pela mesma editora, ele apresenta agora uma teoria psicanalítica da dor corporal.

É conveniente, entretanto, que o leitor não se deixe levar pelo título do livro, supondo que seria possível traçar uma separação clara entre os tormentos que afligem a carne e os que assombram a alma e se ater a um desses campos (se bem que qualquer um que conheça algo da obra do autor dificilmente faria tal suposição).

"Em geral pensamos que a dor física é do domínio exclusivo da neurofisiologia (...). A dor da queimadura, por exemplo, só seria explicada por mecanismos neuroquímicos, e o psiquismo da pessoa queimada não seria atingido senão pelas repercussões morais da dor sofrida. Como se houvesse, de um lado, o fenômeno doloroso que se explica cientificamente pela transmissão da mensagem nociceptiva no seio do sistema nervoso, e do outro lado as inevitáveis conseqüências psicológicas e sociais que, por exemplo, uma dor crônica acarreta", escreve Nasio. O objetivo do psicanalista, no entanto, não é se deter nos caminhos e repercussões dos distúrbios dolorosos, e sim buscar sua origem psíquica. E seguindo esse intuito o autor se dá conta de que muitos médicos e cientistas compartilham com a psicanálise indagações a respeito do tema e reconhecem a importância e a influência de aspectos do psiquismo em qualquer quadro clínico.

Com efeito, cada vez mais profissionais consideram o fator psicogênico da dor. "Se desejamos saber por que nossos pacientes sofrem e por que nós mesmos sofremos, é preciso tomar a lente da metapsicologia e descer até o âmago do eu, para descobrir a psicogênese da dor. Queremos penetrar na trama das representações inconscientes, definir o melhor possível as flutuações das tensões psíquicas e compreender, assim, a incidência irredutível do psiquismo no nascimento da dor corporal. A prática da psicanálise nos ensina que uma dor intensa sempre nasce de um transtorno do eu, mesmo momentâneo; ela reaparecerá, transfigurada em acontecimentos penosos e inexplicados da vida cotidiana."

A impossibilidade de separar as questões estritamente corporais das puramente mentais não parece um ponto de polêmica, e sim um patamar do qual se parte para aprofundar reflexões. Está posto: o sofrimento ultrapassa limites físicos e psíquicos. É o caso, por exemplo, da sensação que tantos conhecem, de ser transpassado por uma lança ao ouvir palavras extremamente duras de alguém que ama. Por outro lado, quem nunca ouviu, talvez até mesmo de um médico, a afirmação de que determinada dor é de fundo emocional? É justamente esse fundo que o autor traz à tona ao longo de pouco mais de uma centena de páginas da edição de bolso.

E, parta tal, propõe o estudo do tema segundo três tempos de sua gênese: lesão, comoção e reação. Ele recorre ao clássico texto de Freud, Projeto de uma psicologia cientifica, de 1895, para tentar construir um modelo energético de sofrimento corporal. E lembra que a dor é uma emoção, uma experiência, ou o resultado dela. E mesmo "psicológica" é uma vivência real, sentida - e duramente sofrida. Um fato que não deve ser perdido de vista por profissionais (como médicos, psicólogos, psicanalistas; fonoaudiólogos) que fazem do sofrimento que o outro lhes apresenta; diariamente; matéria-prima de seu ofício. Afinal; "sabemos da importância para um clínico - médico ou psicanalista ; de escutar a dor corporal do paciente, mas também as perturbações por ela desencadeadas"; ressalta Nasio.

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