Não há nada que não seja afetado hoje pela internet


Para diretor do Media Lab, todo negócio requer inovação e funcionários precisam de tempo livre para pensar além.

Jornal Folha de São Paulo - por Luciana Coelho 

Joichi Ito desistiu duas ve­zes da faculdade, diz não se adaptar ao esquema tradicio­nal de ensino e tem atração por coisas tão diversas quan­to aulas de mergulho e tecno­brega (sim, o do Brasil). Defende que as empresas, como faz o Google, deem tem­po livre aos funcionários pa­ra que eles aprendam a pen­sar além de seu dia-a-dia, mas acha que não virão das megacorporações as próxi­mas grandes sacadas. Empreendedor, investiu no Twitter quando ele não era "trending topic"; ajudou a por de pé o portal de blogs Global Voices muito antes da Primavera Árabe; e mostra mais entusiasmo com a Chi­na que com seu Japão natal ou com os EUA, que adotou.

 Desde abril, Ito, 45, zero di­ploma superior e energia in­finita, dirige o Media Lab. A instituição multidiscipli­nar, que surgiu há 26 anos no Massachusetts Institute of Te­chnology (MIT) na vanguar­da da revolução digital, está na linha de frente de coisas como inovação, tecnologia, educação, urbanismo e o que­ mais der na telha de seus 400 pesquisadores.

A Folha conseguiu fazer Ito parar por 40 minutos pa­ra uma conversa via Skype. Veja os principais trechos da entrevista.

Folha - O senhor é autodidata. Algo no ambiente acadêmico o desagradava?

Joichi Ito - Eu não gostava do modelo de aulas expositi­vas e preferia a interação da internet. Mas não acho que meu problema fosse a esco­la em si. Eu tinha um tipo de personalidade particu­lar, pensava, "por que estou aprendendo isso se nem sei o que serei quando crescer?". As crianças que se saem muito bem na educação for­mal têm habilidade de pla­nejar, são capazes de pensar "daqui a 20 anos estarei fa­zendo tal coisa". Mas a maio­"ria não pensa assim.

Hoje sou instrutor de mer­gulho e adoro, pois ensino às crianças conceitos de física, química e matemática e elas sabem que uma hora depois já vão usá-los na piscina. No Media Lab, tento pensar co­mo estimular o pensamento criativo e o aprendizado dos demais estudantes. 

Folha - Como reproduzir o ambien­te do Media Lab em escolas e empresas?

Joichi Ito - E cada vez mais difícil pla­nejar. Todo dia você lê no jornal algo que afeta seu ne­gócio e que você não previu. Temos de ensinar as pessoas a pensar de forma ágil.

O Media Lab é um extremo, mas é possível aplicar versões disso. O que o Google faz, dar 20% do tempo a funcionários para fazerem coisas fora de sua função, surgiu anos atrás na 3M. A ideia é dar às pesso­as parte do tempo para fazer algo sem ligação com suas ta­refas, que é uma maneira boa de fazê-Ias pensar além.

O pior cenário é o de em­presas como algumas no Ja­pão. Tenho um amigo que não tem tempo para nenhu­ma reunião fora das recor­rentes e planejadas, onde se encontra sempre com as mes­mas pessoas. Ninguém muda o rumo de nada assim.

Folha - Vale para todos?

Joichi Ito -Hoje todo negócio requer inovação. Antes não era as­sim, mas hoje não há nada que não esteja sendo afetado pela globalização e pela in­ternet. Mudar é preciso.

Folha - O que empresas e a academia podem fazer?

Joichi Ito -Tomarem-se plataformas mais abertas a esse processo, o que requer mudanças na arquitetura da comunicação e da alocação de recursos, mais do que investimentos específicos. Quando falamos em aber­tura, se associa isso ao uso de softwares "open source", ao uso de conteúdo aberto. Mas também inclui abrir canais de comunicação, em vez de recorrer ao departamento de relações públicas para tudo.

A indústria do video game faz isso bem: há fóruns em que jogadores e desenvolve­dores trabalham juntos cons­tantemente. Os jogadores acabam se tomando alguns dos melhores desenvolvedo­res e testadores.

Esse processo também tem relação com o marketing em mídias sociais, mas as pesso­as não confiam mais em pla­titudes de comunicados de imprensa. Você ganha a con­fiança do cliente quando ele fala .diretamente com quem
resolve um problema X.

Na universidade, é impor­tante trocar a imagem de con­têiner para a de plataforma. É isso o que tentamos fazer no Media Lab, além de envolver instituições e investidores di­versos nos projetos.

Folha - O financiamento do Media Lab é peculiar.

Joichi Ito - Sim, e estou tentando mudar mais. Aboli a palavra "patrocinador" para usar "membro" e estou tentan­do criar uma rede em vez de manter uma relação distante dos patrocinadores. Além disso, precisamos de mais colaboração com outras ins­tituições.

Se você examinar como os governos financiam inova­ção, verá a maior parte do di­nheiro em projetos enormes para solucionar um proble­ma específico, em vez de ver­bas pequenas pulverizadas. Isso força as organizações a trabalharem mais em cola­boração.

O Cern [laboratório de físi­ca europeu, em Genebra] tem 10 mil cientistas trabalhando e em muitas coisas diferentes e mostra que agrupar coisas em torno de grandes desafios é interessante.

Folha - Nicholas Negroponte, pai do Media Lab, diz que a revolução digital acabou. Qual o próximo front?

Joichi Ito - Vários. O que Nicholas disse indica que uma fase crucial da revolução digital, a de dar poder aos indivídu­os, acabou. Agora falamos de participação, redes, novas formas de confecção de pro­dutos, medicina, educação. Tudo isso foi tremendamente impactado pela revolução di­gital anterior e pela revolução das redes atual.

O Media Lab é definido mais por um processo e uma filosofia do que por um cam­po específico. O que estamos fazendo é criar novas manei­ras de inovar, de aprender. Entramos agora no mundo da pós-produção em massa, onde pesquisa e inovação ocorrem de baixo para cima, de modo descentralizado.

Folha - Como o sr. escolhe um pro­jeto? Qual a próxima grande sacada?

Joichi Ito - Comecei com a rede e tra­balhei com páginas de in­ternet, busca, publicidade e agora mídia, jornalismo, política.

Tenho um estudo chama­do "Democracia emergente?" e trabalhei em muitas comis­sões sobre impacto da mídia digital em democracias. O Global Voices [cujo con­selho Ito integra] se envolveu na Primavera Árabe. A próxi­ma fase da minha vida inclui educação, arte e criatividade em nível mais abrangente.

Folha - Os EUA ainda são o grande centro de inovação. Outros pa­íses podem ganhar destaque?

Joichi Ito - Brasil, China e Índia terão um impacto enorme em bre­ve. Empresas chinesas logo se unirão ao Media Lab. Eu lembro de encontros com pessoas antigas da Honda, do grupo que "roubou" ideias de Detroit e soube trabalhá-Ias para fazer da Honda líder em vez de seguidora. Vejo a mesma mentalida­de hoje na China, onde estão começando a investir em pes­quisa e desenvolvimento.

Folha - Já foi ao Brasil?

Joichi Ito - Vou em novembro para a ExpoManagement e estive várias vezes representando a Icann [o organismo que dis­tribui domínios na rede] e o Creative Commons [que de­senvolve formas alternativas de licenciamento]. Há uma tremenda energia no Brasil, na América Latina. Uma coisa ótima é que vo­cês não são pressionados por instituições antigas, como Hollywood. Podem experi­mentar modelos alternativos para distribuir entretenimen­to, arte. No espaço do conte­údo para cultura, especial­ mente, o Brasil é promissor. Vocês têm um grande merca­do para esporte, música ...

Não sei se ainda é popular, mas andei estudando coisas como o tecnobrega e a cena de música eletrônica, onde o lucro vem de eventos, não da venda de CDs. É algo interes­santíssimo que nunca seria experimentado em lugares como Japão, Europa ou EUA. A relação que o Media Lab po­de ter com empresas e insti­tuições brasileiras, chinesas e indianas está no meu foco.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus