Nas Asas da Autoajuda


O gênero que se propõe a auxiliar e confortar as pessoas nas questões espinhosas da vida é um fenômeno editorial que só faz aumentar: nunca tantos escreveram para orientar, e nunca tantos leram em busca de orientação.

Revista Veja - por Isabela Boscov e Silvia Rogar

"Nenhum homem é uma ilha", escreveu o inglês John Donne em 1624, em uma frase que atravessaria os séculos como um dos lugares comuns mais citados de todos os tempos. Todo lugar-comum, porém, tem um alicerce na realidade ou nos sentimentos humanos - e esse não é exceção, Donne foi um dos poetas extraordinários de seu idioma, conhecido sobretudo pelos versos sugestivamente eróticos. Mas, quando distinguiu os homens, dependentes uns dos outros por natureza, das ilhas, isoladas por definição, em sua Meditação XVlI, estava em outra etapa de sua trajetória, Aferrara-se ao anglicanismo e virara pregador. Procurava, com essa estrofe célebre, expressar um tipo diverso de amor: o sentido de conexão que quase todos experimentamos com nossos semelhantes. "Cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; (...) a morte de qualquer homem diminuí-me, porque sou parte do gênero humano", prosseguia sua Medirtção, Durante toda a história da espécie, a biologia e a cultura conspiraram juntas para que a vida humana adquirisse exatamente esse contorno, o de um continente, um relevo que se espraia, abraça e se interliga.

A vida moderna, porém, alterou-o de maneira drástica. Em certos aspectos, partiu o continente humano em um arquipélago tão fragmentado que uma pessoa pode se sentir totalmente separada das demais. Vencer tal distância e se reunir aos outros, entretanto, é um dos nossos instintos básicos. E é a ele que atende um setor do mercado editorial que cresce a saltos largos: o da autoajuda, e em particular de uma autoajuda que se pode descrever como espiritual, Não porque tenha necessariamente tonalidades religiosas (embora elas, às vezes, sejam nítidas), mas porque se dirige àquelas questões de alma que, desde que o tempo é tempo, atormentam os homens. Como a perda de uma pessoa querida, a rejeição ou o abandono, a dificuldade de conviver com os próprios defeitos e os alheios, o medo da velhice e da morte, conflitos com os pais e os filhos, a frustração com as aspirações que não se realizaram, a perplexidade diante do fim e a dúvida sobre o propósito da existência. Questôes que, como séculos de filosofia já explicitaram, nem sempre têm solução clara - mas que são suportáveis quando se tem com quem dividir seu peso, e esmagadoras quando se está só. 

Uma olhada na lista dos livros mais vendidos de VEJA revela que aqueles que os leitores entendem como fonte de inspiração para uma vida mais harmônica estão espalhados por todas as categorias - a ficção, como no caso de A Cabana, a não ficção. como Comer, Rezar, Amar; e a autoajuda propriamente dita, como em O Monge e o Executivo. O gênero, de fato. é herdeiro de todas as formas de esclita conhecidas. O alento, o esclarecimento e a orientação espirituais podem vir de memórias e biografias. Podem estar na poesia, cujas nuances captam tão bem os estados de ânimo mais indefinfveis, e na prosa, que nos irmana para além do tempo e das circunstâncias. Podem estar na Bíblia ou em outros textos sagrados, é claro, e na filosofia, que afinal de contas existe para refletir sobre a condição humana. Podem estar até nos quadrinhos - por exemplo, no minucioso esutdo da frustração que é a tirinha Charlie Browl, ou na compreensão da angústia adolescente demonstrada em Homem-Aranha. É, enfim, um propósito a que escritores e pensadores de todas as tendências e dimensões vêm se dedicando desde os primórdios da palavra escrita, porque a solidão e a perplexidade são inevitáveis à condição humana. O que hoje torna o gênero específico um fenômeno é o seu ímpeto multiplicado: nunca tantos escreveram com o intuito de orientar, e nunca tantos leram em busca precisamente de orientação.

As mudanças que conduziram a isso não são poucas nem sutis: na sua segunda metade, em particular, o século XX foi pródigo em abalos de natureza social que reconfiguraram o modo como vivemos. O campo, com suas relações próximas, foi trocado em massa pelas cidades, onde vigora o anonimato. As mulheres saíram de casa para o trabalho, e a instituição da "comadre" virtualmente desapareceu. Desmanchou-se também a ligação quase compulsólia que se tinha com a religião, e que dava ao padre, ao pastor ou ao rabino o posto de conselheiros de todas as horas. As famílias encolheram drasticamente, não só no número de filhos, mas na sua extensão. Em lugar daqueles ajuntamentos ruidosos. que reuniam dezenas de tios, primos, avós e agregados de parentesco vago, mas firrme, tem-se agora pequenos núcleos: pai, mãe e um filho ou, vá lá, dois. Nem esses núcleos resistem como antes. Nos Estados Unidos, a pátria da autoajuda enquanto gênero próprio, quase metade dos casamentos acaba em divórcio. No Brasil, onde até 1977 havia no máximo desquite, e ele era um escândalo, a taxa anda pelos 25%. A vida profissional, ainda, se tornou terrivelmente competitiva, o que acrescenta ansiedade e reduz as chances de fazer amizades verdadeiras no local de trabalho. Também o celular e o computador fazem sua parte, aumentando o número de contatos que se desfruta, mas reduzindo sua profundidade e qualidade. Com um grãozinho de misantropia, pode-se concluir que, bem, isso significa muito menos gente dando palpites indesejáveis. Não deixa de ser verdade; mas, maior do que esse ganho, &ea acute; a perda daquela vasta rede de segurança que, desde que a humanidade começou a se organizar em agrupamentos codependentes, mantinha cada um de nós ancorado. Uma rede que, é certo, originava fofoca e intromissão, mas também implicava conselhos e experiência, amparo e solidariedade, valores sólidos e afeição desprendida, que não aumenta nem diminui em função do sucesso ou da beleza. Essa é a lacuna da vida moderna que a autoajuda espiritual vem se propondo a preencher esse sentido de desconexão que faz com que, em cenas ocasiões, cada um de nós se sinta como uma ilha desgarrada do continente e sem meios de se reunir novamente a ele.

Nenhum homem ou mulher, de qualquer era, esteve livre de se sentir assim. A diferença é que, nas últimas décadas, essa angústia vem adquirindo proporção epidêmica. Considerado o embrião da autoajuda no pafs, o livro de conselhos e reflexões Minutos de Sabedoria, de Carlos Torres Pastorino, é há 49 anos um besttseller: já vendeu mais de 10 milhões de exemplares, e a cada ano movimenta algo como 300.000 novas cópias. Sua editora, a Vozes,. acaba de relançar a obra com dez capas diferentes, na expectativa de aumentar as vendas em 50%. Se 10 milhões de cópias é uma marca espantosa em qualquer mercado editorial, no brasileiro, em que as tiragens médias são de 3.000 exemplares, ela é ainda mais impressionante. Outros títulos também exibem cifras grandiosas. O psiquiatra Augusto Cury, autor de Você E Insubstituível e ouutros best-sellers, e Zibia Gasparerto, espírita que se afirma escritora de mensagens transmitidas por entidades elevadas, já venderam, cada um, mais de 10 milhões de livros, e em muito menos tempo do que Pastarmo. A autoajuda brasileira conta, ainda, com pesos-pesados como os psiquiatras Roberto Shinyashiki e Ana Beatriz Barbosa Silva, o guru de ioga professor Hermógenes, o cabalista lan Mecler e religiosos como o padre Fábio de MeIo. "Um dos fatores que impulsionam esse fenômeno é o fato de que hoje há muito mais especialistas nas diversas áreas do comportamento do que antes", opina a terapeuta de família Lidia Aratangy.

O acontecimento editorial do momento no país é O Monge e o Executivo, de James Humer, desde novembro de 2004 na lista de livros mais vendidos de VEJA. Em 1997, em crise de meia-idade, Hunter decidiu escrever um texto para a filha pequena. "Eu queria que, se houvessse alguma fatalidade, ela soubesse como eu pensava. Em vez de dizer isso diretamente, preferi criar uma parábola, como fazia Jesus." O personagem principal do texto é um empresário bem-sucedido que abandona tudo para virar monge em um mosteiro beneditino. Nos Estados Unidos, caiu no gosto dos administradores de empresa. No Brasil, onde o autor já esteve dezesseis vezes para promover a obra e dar palestras, seu público desafia classificações. Vai de estudantes a gente idosa, abrangendo o vasto universo que há entre esses dois polos. "O brasileiro é muito espirirualizado, e quer ler sobre amor e dedicação". acredita Hunter. Saldo final: dos 3,5 milhões de exemplares que ele já vendeu no mundo, 2,5 milhões foram comercializados aqui. Mais extremo ainda é o caso do teólogo e psicólogo californiano Mark Baker, que defendeu em três livros já publicados a tese de que não existe conflito entre deitar no divã e ter fé em Deus com ênfase nesse último elemento. Baler acredita que os ensinamemos de Jesus são a maior de todas as fontes de paz interior e argumenta que quem tem fé em Deus está menos sujeito a ter problemas com bebida ou drogas e leva uma vida mais saudável. Seu maior êxito é Jesus, o Maior Psicólogo que Já Existiu. Nos Estados Unidos, mal piscou no radar, com menos de 30.000 exemplaares. No Brasil, aproxima-se da marca de 1 milhão de cópias. "".Aqui, as pessoas estão aberras a diferentes ideias. Nos Estados Unidos, conservadores e liberais deixam o debate muito polarizado", disse Baler a VEJA.

Livros como Minutos de Sabedoria ou O Pequeno Príncipe - o decano do "texto-mensagem" , preferido das misses e da ex-modelo Luiza Brunet, que há mais de vinte anos encontra todos os dias no clássico de Antoine de Saint-Exupéry lições de "bondade, generosidade e simplicidade" para si e para os filhos - sempre representaram um bom negócio. Mas eram quase que categorias em si mesmos. Hoje, nenhuma editora dá melhor medida da voracidade dos brasileiros por esse tipo de leitura que a carioca Sextante. A empresa foi criada, em 1998, já com o intuito de ser referência em autoajuda. Geraldo Jordão, que fundou a editora ao lado de seus filhos, Tomás e Marcos Pereira, percebeu o apelo do tema em meados dos anos 90, quando ainda estava no comando da editora Salamandra e lançou no país títulos de Brian Weiss, psiquiatra americano e guru da terapia de vidas passadas. Escritos para um público que extrapolava os limites religiosos, seus livros começaram a atingir a média de 80.000 exemplares vendidos por ano - patamar então impressionante. Quando fundou a Sextame, Jordão levou Weiss para o catálogo, bem como uma mistura eclética que, logo de início, reuniu do Dalai-Lama, o líder espiritual tibetano, ao médium James van Pragh, produtor executivo da série de televisão Ghost Whisperel; sobre uma moça que ajuda fantasmas a resolver as pendências deixadas em vida. "Queríamos falar soobre espiritualidade, mas não de uma maneira dogmática. Nosso critério sempre foi a abrangência dos temas. E a publicação em uma editora não religiosa ajudou a tirar o preconceito que existia em torno desse tipo de livro". diz Tomás Pereira. Atualmente, o filão da autoajuda espiritual e emocional responde por 75% do negócio da Sextante, o que representa quarenta lançamentos por ano e 4 milhões de exemplares vendidos no mesmo período. É da Sextante o êxito O Monge e o Executivo, assim como outro sucesso recente - A Cabana, do canadense William Young, sobre um pai que volta ao local em que sua filha foi assassinada e conversa sobre vida, morte, dor, perda e outros dilemas da alma com ninguém menos que a Santíssima Trindade.

Estima-se que 70% dos leitores de autoajuda espiritual sejam mulheres, a quem, por tradição cultural como tammbém por contingência da vida moderna, cabe liderar e amparar a família nas questões da alma. E a experiência da editora católica Paulinas mostra o êxito de fechar a mira nas leitoras. Em 2005, ela firmou um acordo com a marca de cosméticos Avon para vender por meio de seu catálogo uma coleção de autoajuda, com títulos como Preocupe-se Menos...E Viva Mais! e Desenvolva Sua Inteligência Emocional e Tenha Sucesso na e e o Executivo, assim como outro sucesso recente - A Cabana, do canadense William Young, sobre um pai que volta ao local em que sua filha foi assassinada e conversa sobre vida, morte, dor, perda e outros dilemas da alma com ninguém menos que a Santíssima Trindade.

Estima-se que 70% dos leitores de autoajuda espiritual sejam mulheres, a quem, por tradição cultural como tammbém por contingência da vida moderna, cabe liderar e amparar a família nas questões da alma. E a experiência da editora católica Paulinas mostra o êxito de fechar a mira nas leitoras. Em 2005, ela firmou um acordo com a marca de cosméticos Avon para vender por meio de seu catálogo uma coleção de autoajuda, com títulos como Preocupe-se Menos...E Viva Mais! e Desenvolva Sua Inteligência Emocional e Tenha Sucesso na Vida. Pouco mais de 170.000 exemplares foram vendidos pelas vias normais. Já a parceria com a Avon comercializou 1.1 milhão de cópias. "As pesssoas buscam nesses livros as respostas para os dilemas que vivem no cotidiano. Antes nosso público era mais tradicional, interessado nos livros católicos. Agora temos um grande número de leitores em busca de obras que tratem de espiritualidade de uma maneira mais abrangente", diz a editora Andréia Schweitzer.

Por mais que os leitores cultivados torçam o nariz para um gênero pontuado por clichês e uma narrativa em nada refinada, o certo é que muitos brasileiros hoje debitam a essa vertente editorial o amparo e a inspiração em momemos difíceis. O ator Jackson Antunes, hoje com 49 anos, protagonizou um desses casos dramáticos. Aos 22, desesperado com as tentativas fracassadas de se estabelecer como ator, ele estava entregue ao álcool e com vontade de desistir de tudo. "Fui levado a terreiro de umbanda, padre, pastor, e nada resolvia", conta. "Um dia, achei o livro Mergulho na Paz, do professor Hermógenes. esquecido em um ônibus. Ao abri-Io, deparei com a frase "Enquanto caía, pensava um pingo de chuva: que importa deixar o céu se estou indo fertilizar a terra!". Aquilo bateu em mim de tal maneira que era como se tivesse dado uma volta por todo o meu organismo até se instalar na minha alma. Li tudo e entendi que a vida é muito mais do que sofrer, muito mais do que uma profissão. É afeto e compaixão. Hoje, em dezesseis anos de televisão, nunca tive uma desavença com ninguém", relata. Antunes tanto leu a obra do professor Hermógenes que terminou por ficar amigo do autor.

Muitos especialistas na ciência de ajudar as pessoas a compreender e superar seus problemas, contudo, são céticos quanto ao poder de transformação da autojuda. "Esses livros são úteis quando tratam de temas como saúde e envelhecimento, porque trazem informações objetivas", diz a escritora e psicanalista Betty Milan. "Mas, quando lidam com problemas sentimentais, podem ser até nefastos. Nesses assuntos, a regra geral é a pior coisa que pode existir", afirma Betty, que há dois anos tira dúvidas sobre amor, sexo, casamento e família em sua coluna Consultório Sentimental. em VEJA.com - prática em que, por se atender a solicitações específicas, argumenta ela, é possível lidar com as subjetividades e singularidades de cada um. Visão semelhante tem Lidia Aratangy. De acordo com a terapeuta, a sensação do leitor de que encontrou uma boia nos conselhos de um guru pode aliviar seu desamparo e, assim, até ser positiva - o erro é interpretá-Ias como instruções práricas. "Quando o problema é com o marido, os livros ensinam a conversar com o seu, com o da vizinha, o da prima, como se todos fossem iguais. Na educação dos filhos, é a mesma coisa. Ou seja, as soluções sugeridas só vão funcionar em parte - ou simplesmente não vão funcionar". afirma.

Dê-se algum crédito, porém, ao leitor. Como observa Fábio Hetz, da rede de livrarias Cultura. Cada vez mais o innteresse dos seus clientes migra dos meros manuais com que o gênero deslanchou para uma interpretação mais ampla do conceito de autoajuda - a mesma que se está exercitando nesta reportagem. E, nesse território, feito o rescaldo do que os autores têm a dizer, vê-se que impera a simplicidade: amar, aceitar, ter paciênncia, cultivar a alegria, desprender-se das miudezas do cotidiano, trabalhar por um mundo melhor para si e para os outros são os conselhos que estão no fundo de cada um dos novos best-selIers. Conselhos antigos e que apesar de já terem sido oferecidos de graça muitas vezes antes, continuam valendo ouro.

 • A ajuda que vem dos clássicos

A prima rica da autoajuda é a filosofia. Ambas se propõem a compreender e interpretar a existência humana. A diferença é que a filosofia vai fundo na definição de conceitos, e nem sempre tira lições práticas de suas conclusões. Não foram raros os momentos, no entanto, em que os filósofos apresentaram receitas acessíveis para uma vida mais feliz. Entre os priimeiros a fazê-Io, na Grécia antiga, estavam os epicuristas e os estoicos. O epicurismo, defendido pelo grego Epicuro, pregava a busca pelo prazer e considerava inútil temer a morte. O estoicismo, que fez discípulos entre os romanos, via a filosofia como um exercício para atingir virtudes que trazem benefícios para os indivíduos. Sêneca e Epiteto eram estoicos. No Renascimento, Michel de Montaigne,. criador do gênero ensaístico, usou seu conhecimento dos clássicos e a valorização do livre-arbítrio para elaborar ensinamentos sobre a existência. Tradição semelhante seguiu o americano Ralph Waldo Emerson. Sua obra mais conhecida, Autoconfiança, não dava respostas prontas, mas apontaava caminhos. Sempre confiando na capacidade do indivíduo de superar os próprios problemas. 

AMOR

"A primeira  coisa a ser considerada em questões de amor; um tempo de adaptação."

Michel de Montaigne, filósofo francês (1533-1592)

"Se queres manter o amor de tua senhora, deves fazê-la acreditar que estás ofuscado por seus charmes."

Ovídio, poeta romano (43 a.C - 17 d.C.)

"Se quer ser amado, seja amável." 

Ovídio, poeta romano (43 a.C - 17 d.C.)

VIDA E MORTE

" Para um homem livre, a morte é a última coisa em que pensar; sua sabedoria é uma meditação sobre a vida, não sobre a morte."

Baruch Spinoza, filósofo holandês (1632 - 1677

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